7. Etter kapitulasjonen
7.5 Samhandling med lokalbefolkningen
O avô paterno de Lysimaco, Antonio Ferreira da Costa, nascido na cidade do Porto, em Portugal, fora comandante da marinha mercante portuguesa. Embora essa fosse uma carreira civil, a formação dos oficiais da Marinha Mercante Portuguesa só foi separada e retirada da Escola Naval em 1903.
É provável que Antonio Ferreira da Costa tenha se formado na Academia Real da Marinha e Comércio do Porto, uma vez que, desde a sua criação em 1803 e posterior conversão em Academia Politécnica do Porto (1837), era nessa instituição que se formavam os oficiais da Marinha de Guerra, da Marinha Mercante e os Engenheiros do Exército12. A Academia chegou a ser considerada a “mais importante e atualizada da época”, devido à ênfase que nela se conferia à Matemática e a suas aplicações práticas, com vistas ao desenvolvimento da náutica e das atividades comerciais. Com três anos de duração, seu curso era composto de aulas de “Aritmética, Geometria e Trigonometria Plana; Cálculo Diferencial e Integral, noções de Estática, Dinâmica, Hidrostática e Óptica; Trigonometria Esférica e Arte de Navegar, teórica e prática” (Cf. Henriques, 2005).
Após a terceira viagem ao Brasil, a serviço da Marinha Mercante Portuguesa, Antonio Ferreira da Costa abandonou a Marinha para aqui se estabelecer. Casou-se com Inácia Ferreira, com quem teve 8 filhos, e se fixou em Guaraqueçaba, litoral do Paraná, onde lecionou na escola primária local, “nomeado pelo Governo Provisório de São Paulo, em 1851” (A República, 15/10/1927, apud Costa, 1995). Ao se transferir para Curitiba, fundou sua própria escola, enquanto dava aulas particulares para os filhos de “distintas famílias curitibanas”. Foi professor de Português, Literatura Nacional e Religião no Liceu Paranaense, de 1871 até falecer, em 1879. Consta, ainda que, teria sido nomeado para a cadeira de Química e Física da Escola Normal de Curitiba (Cf. Vianna, apud Costa 1995).
A bagagem cultural trazida pelo avô, particularmente, a inclinação para a matemática, marcou as escolhas familiares. O pai de Lysimaco Ferreira da Costa, Antonio Ferreira da Costa Filho (1845-1902), também fora professor primário em Guaraqueçaba, cidade onde nasceu. Ao se transferir com a família para Curitiba,
12 Portugal criou as primeiras organizações com este fim em 1761, localizadas em Lisboa e
assumiu o cargo de escriturário da Fazenda Nacional, sem abandonar totalmente o magistério, lecionando particularmente nas horas livres. Além do avô, do pai e do tio de Lysimaco Ferreira da Costa, consta que seus irmãos teriam sido, igualmente, “excelentes alunos e professores de Matemática” (Cf. Costa, 1995).
Nascido em 1883, em Curitiba, Lysimaco Ferreira da Costa iniciou seus estudos na “Escola da Primeira Cadeira”, dirigida por seu tio, Manoel Ferreira da Costa13.
A liberdade de ensino, presente na legislação paranaense, incentivava a abertura de escolas por particulares14. De acordo com o “Regulamento da Instrução Pública” do Estado do Paraná, de 1891, no capítulo referente às escolas particulares:
Art.38º. É livre o exercício do magistério em qualquer dos graus de ensino, assim como a escolha de methodos, programmas e compêndios, nas escolas particulares. (Capítulo VII, p.141).
As obrigações das escolas particulares perante o Estado resumiam-se em comunicar a instalação e o fechamento do estabelecimento; disponibilizá-lo às visitas das autoridades; remeter ao diretor geral da instrução pública, a cada trimestre, os mapas de matrículas, freqüências e grau de aproveitamento dos alunos.
A instrução primária pública, de acordo com o mesmo regulamento, estava organizada em dois graus de ensino: o primeiro grau ou elementar e o segundo grau ou complementar15. No grau elementar, o currículo era compreendido por: Instrução Moral e Cívica; Leitura e escrita; Noções gerais e práticas de Gramática Portuguesa; Elementos de Aritmética (incluindo o sistema métrico); Desenho. O currículo do grau complementar, além das matérias do 1º Grau, compreendia: Aritmética aplicada; Cálculo Algébrico e de Geometria; Regras de Contabilidade usual e Escrituração Mercantil; Ciências Físicas e Naturais; Desenho Geométrico e de ornamento; Geografia Industrial e Comercial (Cf. Oliveira, 1994, p. 187-188).
Aos dez anos de idade, Lysimaco Ferreira da Costa prestou exames finais na “Escola dos Bons Meninos”, dirigida por José Cleto da Silva, tendo obtido aprovação
13 Lysimaco Ferreira da Costa nasceu em 1883 e faleceu, em Curitiba, em 1941, aos 58 anos de
idade.
14 Segundo Oliveira (1994, p. 42), desde a instalação da Província, houve incentivo aos
particulares para fundarem escolas.
15 A lei paulista de 1846, que serviu de base para a legislação paranaense depois da emancipação
política (1853), dividia o ensino primário em dois graus – elementar e superior. A denominação cadeira de primeiras letras referia-se à escola elementar ou de 1ª ordem (Vechia, 1998).
com o grau de “distinção”16. Pouco tempo depois, Lysimaco começou a trabalhar para auxiliar o pai na manutenção da casa. Foi admitido, em 1895, como encarregado da escrituração na Farmácia Requião, função que exerceu até ingressar no serviço militar (Cf. Costa, 1995). Em 1896, ingressou no Gymnasio Paranaense.17
O Gymnasio Paranaense, antigo Instituto Paranaense, foi criado em 1892, para se adequar à legislação federal. Foi esta uma tentativa de superação dos estudos fragmentários pelo estudo seriado. De acordo com o Relatório apresentado pelo Dr. Victor Ferreira do Amaral e Silva, em 1º de Novembro de 1893, tendo sido modificado o programa geral do Gymnasio Nacional pelo Decreto Federal nº 1, de 28 de Dezembro de 1892, o Governo do Estado do Paraná teria feito, por sugestão sua, idêntica modificação no Gymnasio Paranaense, lavrando o decreto nº 6, de 17 de Fevereiro de 1893 (Cf. Rel. 1893).
No ano de 1893, em função da nova organização, funcionaria apenas o primeiro ano do curso do recém criado Gymnasio Paranaense. Segundo Victor Ferreira do Amaral e Silva,
tendo-se transformado radicalmente o antigo Instituto Paranaense no actual Gymnasio, cujo programma é bem diverso, só poderia este anno funccionar regularmente o 1º anno do curso do Gymnasio único para o qual podia ser aberta a matrícula.
No entretanto, em obediência ao artigo 97 do já citado Regulamento, admittiu-se á inscripção alumnos que querião (sic) freqüentar aulas de preparatórios avulsos. A matrícula geral deu o seguinte resultado:
1 Anno do gymnasio – 33 alumnos
Aulas avulsas – 107 alumnos. (Rel 1893, p. 15).
Naquele ano, informa o mesmo relatório, as aulas de desenho e música não puderam funcionar por falta de salas com condições apropriadas. No ano seguinte, o
16 Documento em exposição no Memorial.
17 Pela Lei nº 33 de 13 de março de 1846, da Província de São Paulo, foi criado o “Liceo de
Coritiba”, recebendo as seguintes denominações posteriores: em 1876, pela Lei n.º 456, de 12 de abril, de Instituto Paranaense; em 1892, pelo Decreto n. 3 de 18 de outubro, passou a chamar- se Gymnasio Paranaense – denominação mantida até 1942 (Straube, 1990).
Gymnasio ainda não pôde funcionar regularmente, desta vez, em conseqüência da Revolução Federalista18:
O Gymnasio Paranaense ainda este anno não pôde funccionar regularmente, porque a época de sua matrícula incidio (sic) no período anormal e foi feita pelo delegado do governo revolucionário (Rel. 1894).
O Relatório apresentado pelo Dr. Victor Ferreira do Amaral e Silva, Superintendente Geral do Ensino, em 29 de setembro de 1894, após reassumir o cargo, do qual estivera afastado em função da Revolução, informava que professores e alunos abandonaram as escolas por “falta de garantias”, e que muitas das cadeiras vagas não eram preenchidas por falta de “pessoal idôneo”.
Lysimaco Ferreira da Costa freqüentou o Gymnasio Paranaense em um período em que a instituição passava por transformações, tanto em função do Decreto Estadual n. 3, de 18 de outubro de 1892, quanto pelas dificuldades geradas pela Revolução, na condição de aluno avulso, a mais comum à época19. Sabe-se que algumas matérias que faziam parte do programa de estudos do Ginásio Paranaense, em consonância com o programa do Ginásio Nacional, não foram cursadas por Lysimaco Ferreira da Costa, por exemplo, Desenho e Inglês (Cf. carta do pai a Lysimaco em 02/08/1901).20
Procedente de família pobre, mas intelectualizada, as dificuldades financeiras não o impediram de deixar Curitiba, em 1901, para prosseguir seus estudos; destino incomum entre os curitibanos cujos pais não pertenciam às elites econômicas ou políticas. Segundo Oliveira (1986, p. 174), os filhos de famílias abastadas iam estudar
18 Com a renúncia de Deodoro à presidência da república, em 1892, o vice, Floriano Peixoto,
deveria convocar novas eleições. O General negou-se a isso e fechou o Congresso. A marinha do Brasil rebelou-se e exigiu a queda de Floriano. No Rio Grande do Sul, os federalistas passam a exigir a saída de Flores da Cunha do governo do Estado, único governador não substituído por Floriano, e se rebelam. Os federalistas avançaram sobre Santa Catarina, juntando-se aos combatentes da revolta armada, que já se iniciara nos navios estacionados no Rio de Janeiro. Juntos invadem o Paraná, tomando Curitiba. Depois, sem uma estrutura apropriada para a guerra, recuaram, concentrando-se no Rio Grande do Sul. Milhares de pessoas morreram nos dois anos e meio de guerra. Apesar da enérgica intervenção do presidente Floriano Peixoto, apoiado pelo Exército e pelo Partido Republicano Paulista, o conflito só se resolveu em 1895, com a rendição dos revoltosos, pela mediação do novo presidente eleito, Prudente de Morais.
19 Somente o grau de bacharel em letras concedido pelo Ginásio Nacional habilitava para a
matrícula em qualquer dos cursos superiores, independentemente de novos exames junto às faculdades. Este fato desestimulava a freqüência nos Ginásios provinciais, contribuindo para a baixa procura pelo ensino regular no país.
nos grandes centros, ficando em Curitiba somente os filhos de famílias pobres e, destes últimos, apenas uma pequena parcela tinha acesso à educação.
Aos jovens eram oferecidas reduzidas alternativas de carreira: a destinação para o clero mantinha sua alta cotação entre as famílias católicas, mas essa opção não parece ter sido cogitada para Lysimaco. Não constam também que lhe tenham sido estimuladas as academias de Direito ou de Medicina sediadas em outros Estados. A carreira militar, que acabou prevalecendo, foi sugestão do pai, que desejava que seu filho se tornasse um general (Costa, 1995, p. 17). Não consta ter havido qualquer resistência, por parte de Lysimaco, ao desejo paterno (Cf. Costa, 1995, p. 18).
O primeiro passo rumo à carreira militar foi dado por Lysimaco ao ingressar, em 1900, no “Sexto Regimento de Artilharia de Campanha”, sediado em Curitiba, ficando encarregado do “ensino de recrutas e empregado na Secretaria” (Costa, 1995, p. 21). No mesmo ano, obteve autorização e licença para matricular-se na Escola Preparatória e de Tática do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, para onde seguiu no dia 3 de março de 1901.
O trânsito por aquele circuito cultural singular, estranho à maioria da população, colocou à disposição de Lysimaco Ferreira da Costa os instrumentos para se projetar como intelectual e homem público, assim como lhe forneceu as condições sociais para fomentar uma rede de relações duradouras, na qual estavam os colegas que partilharam a sua trajetória.