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Certeau (1994) falará que as diferentes formas de operar práticas sociais demandam uma série de modos que permitem re-inventar o cotidiano social (lugar das trajetórias indeterminadas) formando a contrapartida dos sistemas instituídos. Para isto devemos ter consciência de duas lógicas de ação: estratégias e táticas 207. Em relação a estas Certeau coloca,

Chamo de “estratégia” o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um “lugar” [...] como “algo próprio” e ser a base de onde se podem gerir as relações com “uma exterioridade” de alvos ou ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo entorno à cidade, os objetivos e objetos da pesquisa, etc.) [...] Gesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um próprio num mundo enfeitiçado pelos poderes invisíveis do Outro. Gesto da modernidade científica, política ou militar208

. Chamo de “tática” a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio [próprio: por exemplo, uma prática panóptica; um campo próprio: instituições, laboratórios de pesquisa, um exército; próprio como a vitória do lugar sobre o tempo]. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é

207 Sobre o tema ver CERTEAU (2003, CAP. III: 91-106) e CERTEAU (1980). In: BLANCO, P. et al.

(2001, p. 391-425).

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imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. [...] ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever (sic) saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não-lugar lhe permite sem dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos azares do tempo, para captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante [...] É astúcia. Em suma, a tática é a

arte do fraco. “Quanto mais fracas as forças

submetidas à direção estratégica, tanto mais esta estará sujeita à astúcia” 209.

Dentro destes modos de operar certamente os artistas se valem de táticas, enquanto que o sistema institucional da arte se vale de estratégias. Um exemplo: na 28º. Bienal de São Paulo, 2008, foi deixado vazio o segundo andar do edifício onde acontece o evento. Artistas-pichadores “inconformes” com tal decisão decidiram invadir (tática) o espaço e “praticá-lo” por meio de pichações. A instituição, simplesmente, “decidiu” a realização de performances (estratégia) para evitar “confusões”.

Atualmente a reorientação da arte, adquire um sentido que se afasta das grandes utopias transformadoras através de um empreendimento individual. De acordo com Escobar,

[A arte] já não pretende redimir a história nem constituir-se, portanto, em discurso questionador, em instrumento de denúncia social ou protesto político [a modo do ativismo dos anos 60]. Supõe, talvez, outras formas de contestação e de crítica que não alcançarão nem a revolução, nem a conciliação do sujeito com o objeto, nem a eclosão total a ideia, mas que ajudarão, mais uma vez, a mobilizar os significados sociais, a remover as incógnitas, a nomear de sesgo [erro] o outro lado. A arte atual parece mais interessada em renovar interrogantes que em provar transformações radicais ou oferecer fundamentos, explicações incondicionais e soluções definitivas. Hoje, os mecanismos da representação procuram [...] revelar em forma oblíqua e momentânea a intensidade, inútil quiçá, de uma mirada que faça estremecer a percepção do real sem esperar mudá-lo demasiado210

.

Como podemos nos movimentar neste espaço sócio-cultural? A quais táticas podemos, em princípio, recorrer? Como nos inserimos nas novas práticas? A própria dinâmica destas práticas colaborativas permitem que, já de início, as consideremos

209 Idem, Ibidem (p. 100-101).

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como sendo dispositivos e aqui nos remeteremos ao conceito que Foucault desenvolveu nos seus escritos, e que Deleuze211 definiu como “dispositivo”:

Uma espécie de novelo ou meada, um conjunto multilinear, cujas linhas seguem direções diferentes formando processos sempre em desequilíbrio. Está composto por linhas de diferente natureza, que tanto se aproximam umas às outras quanto se afastam umas das outras. Cada linha está quebrada e submetida a derivações, sujeita a mudanças de direção. São linhas de visibilidade, de enunciação, de forças, de subjetivação, mas também por sua vez de rupturas, de fissuras, de fraturas, de crack, que se atravessam e se misturam enquanto umas suscitam outras por meio de variações ou até mutações de disposição. ‘Em todo dispositivo devemos desembaraçar e distinguir as linhas do passado recente e às do atual, a parte da história e a parte do acontecer, a parte do analítico e a parte do diagnóstico’

Devemos de início considerar o dispositivo, no conceito foucaultiano, como sendo uma rede que estabelece certo tipo de relação entre os elementos do mesmo, discursivos ou não; como um jogo de mudanças e posições, de modificações de funções que podem também ser diferentes. Um jogo de forças, como estratégia de relações suportando tipos de saber, e suportadas por eles. Isto faz que compreendamos que contêm a idéia de algo organizado de determinada maneira. Até porque o termo “dispositivo” deriva do termo grego oikonomia que significa a organização da casa, do habitat212.

Uma breve história neste momento não nos incomoda. Este termo foi usado na tradição teológica cristã ocidental para explicar a questão da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) frente ao protesto do lado conservador da Igreja partidário da unidade que pensavam, com espanto, que se corria o risco de introduzir o politeísmo e o paganismo na fé cristã. Sendo assim, a explicação foi mais o menos a seguinte: Deus enquanto ser e substância é único, mas enquanto sua oikonomia, enquanto o modo como organiza sua casa, sua vida, e o mundo por ele criado, ele é triplo. Deus confia a seu Filho a “economia”, a administração e o governo da história dos homens (o termo oikonomia em forma particular significa a encarnação do Filho, a economia

211 DELEUZE (1990).

212 AGAMBEN, G. Qué es um dispositivo? Disponível em:

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da redenção e a salvação; o Espírito Santo213

). Deste modo, a oikonomia se converteu no dispositivo através do qual foi introduzido o dogma tripartite na fé cristã. Mas a tradução, do termo grego oikonomia foi realizada pelos padres latinos utilizando a palavra “dispositio” derivado de dis-poner , dis-positio, dis-ponere (dispor).

Hegel, segundo Agamben214, utilizará o conceito traduzindo-o para “positividade” e Heiddeger para “dis-positio”. Jean Hyppolite estuda Hegel e utiliza o termo positividade; Foucault, aluno de Hyppolite, utiliza a palavra dispositivo para estudar a relação entre os seres viventes e a história, embora no início de seus estudos tenha utilizado o termo positividade como seu mestre.

Agamben conhece esta genealogia do dispositivo e generaliza um pouco mais que Foucault,

Nomearei literalmente dispositivo qualquer coisa que tenha de certo modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente [..] as prisões, os hospícios, o panóptico, as escolas, a confecção, as fábricas, as disciplinas, as regras jurídicas [...] também a lapiseira, a escrita, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os celulares e –por que não?- a linguagem mesma, que é quem sabe o mais antigo dos dispositivos215

.

Nos “inserindo” nessa genealogia, estamos também, utilizando o termo dispositivo e seu conceito básico de organização, para compreender pelo tratado até aqui, que projetos/processos em Arte Pública Atual se constituem em dispositivos eficazes para desenvolver “plataformas de desejos”, apropriados para abrir canais de comunicação, ação e resultados diretos e imediatos num real possível.

Canais de comunicação, segundo Laddaga216, facilitam a construção de “objetos fronteiriços” resultantes das ligações que surgem entre os projetos/processos e seu entorno. Objetos que, por sua vez, são objetos de exposições: em espetáculos postos à vista geral das pessoas e em sites, ao mesmo

213 Lacan, em analogia, dirá: O Espírito Santo é a entrada do significante no mundo. LACAN (1995, p.

45).

214 AGAMBEN (op. cit, loc cit). 215

Idem, ibidem.(tradução nossa).

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tempo, em cujo redor se manifestam diferentes níveis de comunicação. Poderíamos também colocar os que chamaremos de “objetos aglutinantes”, objetos como o Orocongo (instrumento musical regional) que se constitui como um dispositivo dentro do projeto/processo Orocongo-Saber por circular nos meandros das atividades, como gatilho de associações de fazeres, ao mesmo tempo em que se viabiliza o desejo chefe do processo: “Tocar o orocongo no Machu Pichu”. Um desejo possível entre tantos outros que vão surgindo e que faz com que consideremos Orocongo-Saber (SC-Brasil) uma “plataforma” de desejos. No projeto A Baleeira, o objeto baleeira se constitui também como dispositivo gatilho, como objeto aglutinante.

Por que falar de plataformas? Uma das definições de plataforma nos dicionários diz que ela é “uma parte plana das estações ferroviárias para embarque e desembarque dos passageiros”, que é o mesmo que dizer: um dispositivo que nos facilita realizar alguma coisa, que nos coloca no movimento, nos envolve na ação e nos incentiva a realizar ações. Lembramos que, no sentido foucaultiano, dispositivo corresponde a uma série de práticas e mecanismos com o objetivo de fazer frente a uma urgência e de conseguir um efeito.

Por analogia pensamos os projetos/processos, também, como dispositivos- plataformas que nos fazem pensar em possibilidades outras tendo como raiz o desejo. Agamben diz que, na raiz de cada dispositivo está um desejo de felicidade. E a captura e subjetivação desse desejo, numa atmosfera separada, constituem a potência específica do dispositivo217.

Os dispositivos precisam “cumprir” com algumas condições para se constituírem como tais, e para especificá-las nos remeteremos à análise que Deleuze218 fez através da teoria de Foucault. Estes dispositivos devem ter duas

dimensões: de “visibilidade” e de “enunciação”. Dentro da primeira função encontramos as linhas curvas de visibilidade (curvas como meandros) cuja função é fazer ver, fazer visível. Sendo assim, cada dispositivo tem seu próprio regime de luz. Lacan via Merlau Ponty, diz que o olhar está diretamente ligado à função da luz. E nesta dimensão de visibilidade que iniciamos, pelo dispositivo, o exercício da experiência. As enunciações, por sua vez, remetem para linhas curvas de enunciação, nas quais se distribuem as diferenças de seus elementos. Sua função é a de fazer falar através de um regime de enunciação concreto; estas linhas

217 AGAMBEN (ibidem).

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determinam deste modo, o espaço do que pode ser dito no campo de um dispositivo dado.

Em relação às linhas de força, estas se situam a partir das outras duas, de um ponto singular a outro, tentam retificar as anteriores, traçam tangentes, envolvem os trajetos de uma linha para outra, operam idas e vindas entre o ver e o dizer, penetram nas coisas e nas palavras. Estas linhas de força acrescentam a terceira dimensão que permite ocupar um determinado lugar num espaço específico, adotando uma forma concreta, invadindo a interioridade desse espaço, ou seja, o atravessam regulando, deste modo, o tipo de relações que podem se produzir.

Finalmente, nos deparamos com linhas de subjetivação a nível individual que descrevem as condições em que se converte em sujeito/objeto de conhecimento. Definem processos e funcionam como linhas de fuga: se evade às linhas anteriores, foge. O “si-mesmo” não é nem um saber nem um poder. É um processo de individuação que diz respeito a grupos ou pessoas, e escapa às forças estabelecidas como a dos saberes instituídos.

Não é verdade que todo dispositivo disponha de um processo semelhante, o próprio Deleuze coloca219. Sendo assim devemos nos perguntar, como já o fizemos

outras vezes neste texto: que modo de fazeres realizamos? Que subjetividades produzimos com eles? Como nos comprometemos no aqui-agora? A leitura de escritos de participantes em projetos/processos em Arte Pública que relatam suas experiências nos mesmos, como um bom celeiro, é uma forma apropriada para, através dela, encontrar respostas, puxar fios da meada, emaranhar e desemaranhar linhas e iniciar caminhos novos, com novas formas de exercitar o olhar/experiência.

A forma de desenvolvimento das atividades, de modo geral nestes projetos/processos se realiza a semelhança das programações em fonte aberta, a exemplo do sistema Linux, onde a produção entre colegas está baseada em retornar um conjunto não limitado de recursos disponíveis para um conjunto limitado de agentes, que podem dedicar-se a um conjunto não limitado de projetos. Desenfatiza- se deste modo, a figura da profissão. As pessoas que ingressam no circuito não o fazem tanto como especialistas que dedicam todo o tempo ao projeto. Isto é facilitado por uma diversidade de níveis aceitáveis de participação que determinam um sistema complexo de relações sociais, valores, expectativas e procedimentos.

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Os projetos/processos Vinho-Saber, A Baleeira e Orocongo-Saber, são representantes diretos deste sistema. Aglutinando pessoas de diferente locais (da cidade, das vilas de pescadores, das favelas, de escolas; da universidade); como de diferentes áreas “profissionais” (pescadores, estudantes, vídeos-animadores, artesãos, engenheiros, professores, professoras, músicos, técnicos, designers, artistas e não-artistas, entre outros) participam em grupos que se articulam segundo as atividades a desenvolver para dinamizar as proposições locais que logo se estabilizam como pequenas ou breves ecologias culturais, justamente por trabalhar num sistema multilinear de práticas.

As ecologias culturais, por apresentarem uma abordagem ecológica no que diz respeito ao próprio processo que concebe as transformações sócio-culturais pelo “evolucionismo multilinear” (Steward) e não linear, nem tampouco sistêmico, reforçam a concepção “ecológica” da cultura como um referencial dinâmico, muito sensível a mudanças extra culturais, que as caracterizam como sistemas “abertos” 220

que se manifestam diretamente pelo modo de trabalhar, de fazer.

Este modo de trabalhar que vamos chamar-lo aqui também, em “fonte aberta” (open source), viabiliza a reflexão constante entre os participantes e, de acordo com Laddaga, é aqui onde se ensaia a gestão do comum, que não depende de modelos de coletivização disciplinarios. Mas, depende de como as linhas constitutivas dos dispositivos vão se deslizando dentro um espaço-tempo possível e permitindo que desejos e subjetividades concebam novos sentidos ecológicos à realidade.

Por que ecológicos? Não faz mal lembrar que a palavra ecologia deriva da palavra grega oikos que significa morada, casa, habitação. Logo a palavra ecologia é oikos (habitação) + logos (conhecimento) = o estudo das habitações, do habitat. Se deduz disto que, sendo a ecologia cultural o estudo da rede de relações que existem entre as comunidades ou sociedades humanas e os seus ambientes humanos,221

os projetos/processos aqui referendados como Arte Pública Atual se constituem também, como ecologias culturais ou dispositivos-habitat.

A diferença de sentidos dada à realidade torna-se uma questão ético-política, como atitude política, que possibilita olhar o mundo de uma ou outra forma. Podemos compreender as diferenças de sentidos como teorizações parciais, dentro de uma compreensão maior do pensamento do homem e de suas atitudes quando estas não

220 Sobre Ecologia Cultural ler: VIERTLER (1998). 221 VIERTLER (1998, p. 22).

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só se articulam a partir de si, mas em relação com, numa comunhão de destinos humanos favorecida pela experiência solidária que se pratica no anonimato dos lugares não instituídos.

“Não há mais análise social que possa fazer economia de indivíduos, nem análise dos indivíduos que possa ignorar os espaços por onde eles andam” 222. Isto leva a concordar com Brenson223 a respeito de que as provações e dramas vividos por artistas que trabalham na Esfera Pública não são externos, mas participam de uma interioridade inerente às provações e dramas de nossas vidas individuais e coletivas. Mais ainda, que o êxito ou fracasso desse tipo de projetos é um problema humano, não só da arte e onde os fracassos podem ser instrutivos, tanto quanto os êxitos, se os consideramos como indicadores de quem somos e dos mundos em que vivemos.

Esta atitude ético-política permite pensar a individualidade por meio de diferentes determinantes e não mais autônoma; ocorrência que Lacan compreendia e revelava através de sua teoria do Sujeito, como coloca Valladares de Oliveira224,

Há em Lacan uma reflexão filosófica, uma teoria do Sujeito, uma teoria da liberdade que mostra que não somos submetidos a comportamentos. Mesmo sendo determinados pelo inconsciente, temos acesso a algo da ordem inconsciente por meio da linguagem, somos livres de escolha e não reduzidos a tratamentos mecânicos [...] o homem é produzido por sua história, por seu meio ambiente, por seu psiquismo, não existe apenas um determinante. (

Os processos de mudanças se dão como um trocar de pele, como temos dito outras vezes. Cada pele cultural é definida por vários motivos que, identificados, nos permitem analisar certos posicionamentos. Hoje parece que estamos trocando a pele onde os motivos são questões de vida. A realidade viva é relacional, composta de sistemas interligados e a mudança é seu ingrediente intrínseco; a incerteza resulta deste modo, inerente a seu funcionamento.

Temos que nos conscientizar ficando atentos, como Argus, aos momentos no qual o sistema instituído, não desinteressadamente, se apropria das subjetividades

222 AUGÉ (2007, p.110). 223 BRENSON (1998).

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manifestas e as utiliza em benefício próprio, já que estas se produzem por “reconhecimento”. É quando devemos levantar ancora e navegar, provavelmente nos dias de hoje, não tanto contra a corrente, como Lacan colocava, mas “nela”, que não é outra coisa, senão, a constante articulação de nosso Simbólico, o Imaginário e o Real na realidade imediata.

Nosso olhar/experiência momentaneamente cego, como Tirésias, desperta.

Olho o mundo, mas o mundo também me olha. Jacques Lacan

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma ecosofia de um tipo novo, ao mesmo tempo prática e especulativa, ético-política e estética, deve a meu ver substituir as antigas formas de engajamento religioso, político, associativo...

Félix Guattari E a Arte? É possível saber se “É”, se “Se Faz”, se “Está”, se “Nós Faz”? É Fio? É o fio de Trama, ou é fio de Urdume? É todo e tudo isso? Sabemos, quase naturalmente, que no jogo da articulação dos significantes manipulamos e desenvolvemos percepção, afeto, novos conceitos/significantes vindos do Outro como, também, muitas vivências/significantes que apreendemos em nosso cotidiano nesse jogo de interação.

Zonas de intermediação e lugar possível da criação que abrem o caminho para pensar a subjetividade como “possibilidade de”. Impulsionada pelo desejo essa criação se apresenta organizando um vazio, uma falta (mola propulsora) deixada por um significante. Como mostrar um vazio? se perguntará Didi-Huberman.

Existindo nessa criação uma conscientização criativa, a nível interpretativo, isto fez com que Lacan considerasse que a arte é da ordem do “não interpretável” porque já é uma interpretação a nível do articulável225. Existe arte,

conseqüentemente, quando há conscientização. O grau dessa conscientização- intencionalidade é que pode ser diferente (por vezes tão mínimo ou oculto que pensamos na possibilidade de total ausência da mesma) o que faz que várias polêmicas se instaurem sobre possíveis especificações.

Os novos olhares na Arte Pública Atual se fundamentam nas mudanças de paradigmas que se desenvolveram desde o Pós-modernismo. A busca ”arqueológica”, como diria Foucault, que fizemos neste texto pelos meandros das manifestações comportamentais, as motivações e mudanças do fazer dos sujeitos, teve como finalidade nos consentir certas reflexões sobre algumas causas e conseqüências das práxis, saberes e meios de “dispor” da realidade.

Um novo protagonismo é dado hoje à cultura como conseqüência das novas economias do capitalismo pós-fordistas baseadas em formas de trabalho i(material), colaborativo e afetivo. A partir de então, além de nos depararmos com novas

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modelizações do fazer, nos deparamos com que a própria subjetividade está imersa no processo capitalista. Aqui ela é colocada em ação, ela “faz” e “se faz” por meio de interações em “fonte aberta” (open source) coletivo-colaborativas. Ações e interações que agem local e globalmente quando permitem que estas ações se articulem por meio das redes virtuais ou seus resultados se disponibilizem através delas pela comunicação via sites, blogs, imagens e textos virtuais que, ao disseminá-las, despertam desejos e ações novas. Existe, por conseguinte a