O conceito de currículo que adoptamos, ao qual já aludimos no ponto 1, remete para uma construção continuada e consequentemente inacabada, logo para um projecto. Contudo, a ambiguidade e polissemia deste conceito dificultam, ou impossibilitam mesmo, o encontro de uma definição aceite unanimemente por todos os autores.
Partindo desta premissa, o caminho do esclarecimento do conceito vai ser difícil, perante o prisma em que se coloquem as diversas sensibilidades. Na tentativa de cobrir o maior espectro possível da clarificação do conceito, far-se-á um percurso por diversos autores que aprofundaram a temática, para se vislumbrar alguns sentidos da palavra projecto, tão banalizada nos discursos actuais.
Indubitavelmente, a
“noção de Projecto faz parte, certamente, desse pequeno número de noções felizes que, num determinado período de tempo, parecem constituir o objecto de expectativas e investimentos aparentemente convergentes de actores sociais portadores, no entanto, de interesses muito diversos” (Barbier, 1996: 19).
Barbier é dos autores que mais se debruçou sobre os instrumentos de análise e de interpretação do funcionamento das práticas reais de elaboração de projectos de acção e das démarches do projecto. As suas definições ilustram a dificuldade que se tem ao
pretender encontrar uma única acepção para a palavra projecto: “ideia de uma possível transformação do real” (Barbier, 1996: 37);
(…) “O projecto não é uma simples representação do futuro, do amanhã, do possível, de uma «ideia», é o futuro a «fazer», um amanhã a concretizar, um possível em transformar em real, uma ideia a transformar em acto.” (Barbier, 1996: 52);
(…) “instrumento mental de produção de novas práticas.” (Barbier, 1996: 96);
(…) “imagem antecipadora e finalizante de um processo que permite assegurar a passagem de um estado, a outro estado” (Barbier, 1996: 141).
Encontramos, ainda, uma definição abrangente, ao enunciar projecto
“(…) como um enunciado relativo a uma representação antecipadora e finalizante da estrutura ordenada de operações susceptíveis de conduzirem ao estado final da realidade objecto do processo de transformação que constitui uma acção singular. É a imagem antecipadora de um processo de transformação do real. É uma representação de operações” (Barbier 1996: 71).
Ao processo de transformação do real baseado na decisão dos actores sociais implicados que concebem e usam o projecto como instrumento mental de produção de novas práticas, chama démarche de projecto (Barbier, 1996: 71):
“A própria “démarche” de elaboração de projectos de acção, ou planificação, pode ser definida como um conjunto de operações explícitas e socializadoras que, por sua vez, permitem especificamente chegar a uma tal representação e, portanto, a um tal enunciado. Fazendo um jogo de palavras, podemos dizer que a operação, ou um trabalho, de representações. É um acto explícito e socialmente organizado, conduzindo à produção de um projecto de acção.”
Quando se pretende cruzar esta noção com as perspectivas de outros autores os problemas exponenciam-se. Assim, para Costa (1994: 10):
“O termo projecto (do latim projectus, lançamento para diante) é um conceito que assumindo uma importância significativa em várias áreas do saber – designadamente: na Filosofia existencialista (a existência humana como projecto), na epistemologia contemporânea (o objecto da ciência como objecto-projecto), no domínio tecnológico e artístico (projecto de engenharia, projecto de arquitectura), na investigação científica (projecto de investigação), no discurso político (projecto de sociedade, projecto partidário)
e ainda em várias situações da linguagem corrente (...)”
O conceito de projecto, ao disseminar-se por uma panóplia de contextos heterogéneos vulgarizou-se em muitas situações, sendo utilizado de igual forma, nem sempre com o rigor desejável. Como se verifica, projecto tem uma dimensão plural. Pode-se entender o projecto como um plano, proposta, ideia, possibilidade, acção, utopia, sendo sempre um conceito ambíguo.
Por razões que se prendem com o esclarecimento do conceito inserido no campo educacional, importa que se analise mais detalhadamente, o conceito de projecto, visto por esse prisma.
O termo projecto tem vindo, paulatinamente, a conquistar um espaço de alguma projecção no contexto educativo português, quer se fale no domínio da pedagogia do projecto, quer na planificação da educação em termos gerais.
Para Boutinet (1996 : 23)
“O projecto é pois entendido como um conjunto de intenções que pretendem dar sentido e antecipar a acção futura. Surge com impetuosidade no vocabulário quotidiano da generalidade dos cidadãos e começa a figurar como expressão obrigatória no discurso educativo.”
Como Boutinet afirma, a ampla utilização em todos os campos e vertentes da palavra “projecto” não escapou à sua adopção no campo educativo, onde tem particular expressão associada a outras palavras, como sejam, “pedagogia de projecto”, “projecto pedagógico”, “trabalho de projecto”, “projecto educativo”, “projecto curricular” entre outras.
”Quando se examina a noção de projecto, torna-se evidente que ela cobre conteúdos extremamente variáveis, pois é utilizada para designar tanto uma concepção geral de educação (um projecto educativo) como um dispositivo específico de formação (um projecto de formação propriamente dito) ou ainda uma determinada démarche de aprendizagem (a pedagogia do projecto)” (Barbier, 1996: 20).
O projecto expressa uma intenção que se almeja exequível, resultando de uma tensão existente entre a resolução do problema e a necessidade da previsão e uma estruturação antecipada para a concretização de uma acção.
O projecto tem sido referido por vários autores enquanto imagem antecipadora do caminho a seguir para conduzir a um estado de realidade. No entanto, projecto não é apenas intenção, é também acção, acção essa que deve trazer um valor acrescentado ao presente, a concretizar no futuro. Incorporando estas duas dimensões (projecto enquanto intenção e plano antecipador da acção e projecto enquanto acção) Rogiers (1997: 176- 178), fala-nos do “projecto agido” que engloba o projecto projectado, o projecto processo e o projecto produto.
“Sendo um projecto uma ideia para uma transformação do real e a sua concretização, ele deve conduzir a essa transformação” (Leite: 1997: 182-183). Consequentemente, um projecto, para não acabar em “estéticas relações de boas intenções” (Escudero, 1988: 87), deve expor visivelmente os perfis de mudança desejados.
Broch e Cros (1991: 16-17) mencionam que o projecto está no centro de dois pólos, sendo um da ordem das intenções, do sonho, da utopia e num espírito onde os meios da sua execução ainda não estão equacionados; e o outro pólo que encaminha para a operacionalização da programação dos meios para colocar o projecto em acção. As intenções, ou por outras palavras, o sentido que se pretende dar à acção e à programação, ou seja, a organização congruente dessa mesma acção, estabelece uma relação estreita entre a utopia e a tecnocracia. Os autores apresentam um esquema onde estabelecem essa relação.
Figura n.º 5 - Relação entre a utopia e a tecnocracia
Broch e Cros (1991, citados por Leite, 2000: 17) “dizem que a ligação entre a Utopia Projecto
Organização
Tecnocracia Sentido
“inspiração” (o sentido, a intenção) e a “acção” (a organização) não é fácil mas “é preciso ser-se capaz de inspiração e de acção” pois a recusa das acções (de organização) conduz, muitas vezes, apenas à utopia e a centração exclusiva na organização ameaça a própria acção pela perda do sentido, tal como acontece nos programas puramente tecnocráticos. Esta é também a ideia que nos deve orientar quando pensamos qualquer projecto educativo e quando o acompanhamos.”
Face a esta utilização multifacetada de projecto, Vasconcelos (1999: 36) afirma: “«projecto» tem, no campo educativo, uma referência fundamental na pedagogia de projecto. Considerada como uma pedagogia de divergência, a pedagogia de projecto reflecte uma nova visão do aluno enquanto construtor do seu próprio saber, saber-fazer e saber-ser, associando-se a esta corrente pedagógica uma visão de escola autónoma, participada e pluricultural.”
Desta forma, a pedagogia de projecto encerra em si um agregado de valores e de referências importantes no actual sistema educativo. “O alargamento da influência da pedagogia de projecto do campo didáctico para o contexto organizacional é uma das razões que levou ao aparecimento do conceito de «Projecto Educativo de Escola»” (Vasconcelos, 1999: 37).
Recentemente (a partir da publicação do Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de Janeiro) outros projectos pedagógicos foram postos em termos de Lei, com a finalidade de estabelecer as estratégias de desenvolvimento e concretização do currículo nacional. Para a sua adequação ao contexto de cada agrupamento, segundo os princípios orientadores do seu projecto educativo e do currículo nacional, terá de ser concebido um projecto curricular de escola/agrupamento e, ao nível do contexto da turma, um projecto curricular de turma.
Concluindo, procurar encontrar uma uniformidade de pontos de vista acerca da noção de projecto é, em si mesmo, um projecto condenado ao insucesso.