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Um dos objectivos do presente estudo é dar conta da evolução narrativa ao longo da vida, mais especificamente da meninice até à vida adulta, no que diz respeito às três dimensões da

matriz narrativa propostas por Gonçalves (2000): Estrutura, Processo e Conteúdo. Interessa-nos

compreender como se processa, no ser humano, o desenvolvimento do acto de narrar ou, por outras palavras, como se constrói a narratividade durante a infância, como se consolida na adolescência e na vida adulta. Por esse motivo, faremos uma pequena exposição de caminhos que têm sido percorridos nesta linha de investigação, através de diferentes modelos de avaliação das narrativas.

O estudo do desenvolvimento narrativo tem-se dedicado essencialmente às crianças,

sobretudo no que diz respeito à análise da estrutura narrativa (Sun, cit. in Rocha, 2005) e às

perturbações da estrutura narrativa (Kemper et al., 1990) e contamos já com alguns estudos em torno do desenvolvimento narrativo na adolescência. A vida adulta parece ser, ainda, a faixa etária onde se encontram menos estudos sobre o desenvolvimento narrativo (Kemper e tal., 1990).

Numa análise sobre o contributo de diversos estudiosos da construção narrativa na infância, Boltman (cit. in Freitas, 2005) afirma que as crianças, na tentativa de explicar e compreender a vida, surgem como contadoras de histórias, fazendo-o de forma cada vez mais sofisticada ao longo do tempo. As histórias surgem, assim, como condição para a criança compreender, comunicar, partilhar e construir a sua forma de ver o Mundo (Siegel, cit. in

Freitas, ibidem). Pelos 2 anos de idade, a criança parece já começar a sequenciar

temporalmente acontecimentos passados (Liles, cit. in Freitas, ibidem; McKeough & Generou, 2003) e ser capaz de construir com um adulto uma história (McKeough & Generou, 2003). Este momento parece marcar o início de uma comunicação entre a criança e o adulto onde a narrativa assume lugar de destaque. Pelo terceiro ano de vida, as crianças demonstram consciência do papel que as relações referenciais, temporais e causais têm na obtenção da coerência da narrativa (Russel & Van der Broek, cit. in Freitas, 2005), parecendo emergir uma função narrativa que permite à criança a criação de histórias acerca dos acontecimentos com os quais se vai confrontando, embora consistam ainda em simples descrições sequenciais de pessoas e acontecimentos, dando sentido aos acontecimentos e experiências internas das personagens (Reilly et al., 1998). Pelos 4 anos de idade parece iniciar-se um maior domínio gramático (McKeough & Generoux, 2003), o inicio da utilização de componentes da estrutura da narrativa, pela utilização de mais dados acerca do contexto do que das personagens (Peterson & McCabe, cit. in Freitas, 2005), e por dados mais completos quanto à expressão dos afectos

(Reilly et al., ibidem).Segundo Reilly e colaboradores (1998), pelos 5 e os 6 anos as crianças

começam a elaborar frases que fornecem mais informação orientadorae as histórias organizam--

-se em torno de uma progressão de acontecimentos. Aos 6 anos a criança constrói narrativas estruturadas e completas (Liles, cit. in Freitas, ibidem), dominando finalmente o esquema do

conto entre os 6 e os 7 anos (Larrea, 1994).McKeough & Generoux (2003) referem que até aos

básico, sendo aproximadamente aos 10 anos que as crianças estão capazes de construir histórias mais complexas do que o episódio narrativo básico.

Rocha (2005) revendo algumas das investigações na área do desenvolvimento narrativo na adolescência, refere que, depois dos 10 anos, este tema tem sido menos explorado existindo, no entanto já alguns estudos. Numa revisão da literatura, Kemper e colaboradores (1990) referem estudos que revelam alterações marcantes na estrutura narrativa durante a primeira década de vida, sendo pelos 10 anos de idade que as crianças se encontra capazes de produzir narrativas mais elaboradas, com frases complexas e de utilizar uma variedade de planos linguísticos de forma a estabelecerem e a manterem a narrativa coesa. Autores que estudam as mudanças que se produzem nos esquemas dos contos em diferentes idades, defendem a existência de uma evolução narrativa, sendo sobretudo a partir dos 11 (Marchesi, cit. in Freitas, 2005) e dos 12 anos de idade que essa forma de organizar as histórias assume uma maior expressão (Stein &

Glenn, cit. in Freitas, ibidem). Como refere Rosenthal (cit. in Rocha, 2005) enquanto que

crianças com 7 anos de idade não foram capazes de ligar várias memórias da sua história de vida, adolescentes com 12 e 13 anos conseguiram relacionar acontecimentos biográficos tais

como o nascimento e transições de vida importantes. Estudos sobre o desenvolvimento da

coerência em narrativas de vida com adolescentes com 12, 15 e 18 anos de idade (Habermans & Paha, cit. in Rocha, 2005), apontam para um aumento da coerência, com um maior número

de ligações causais nas narrativas ao longo da adolescência. Outros autores (MacKeough;

Yussen & Ozcan, cit. in Rocha, ibidem) referem que pelos 12 anos de idade, ocorre uma mudança no foco e estrutura da história: da focalização em intenções e estados mentais imediatos (típico aos 10 anos de idade) passa a haver uma interpretação destes estados em termos permanentes e transitórios. Aos 12 anos, verifica-se uma maior referência a traços ou experiências sociais anteriores, indicando que o pensamento narrativo apresenta uma maior dimensão estrutural: são capazes de integrar duas ou mais experiências que ocorrem em tempos diferentes ou em diferentes situações e dai extrair uma unidade mais elevada de

construção de significado; aos 14 anos de idade entram em acção traços e estados

permanentes adicionais,sendo os adolescentes capazes de construir narrativas com tendências

contrárias no mesmo personagem criando a existência de um conflito interno para além dos conflitos externos da história. Aos 18 anos, os jovens parecem ser finalmente capazes de criar uma dialéctica de lutas internas e externas dos protagonistas e lidar com o conflito de uma forma coerente e coordenada.

McKeough e Genereux (2003) defendem que ao longo da adolescência se verificam

alterações narrativas quer ao nível do desenvolvimento da complexidade Estrutural quer ao nível

do desenvolvimento do Conteúdo do pensamento narrativo. Num estudo que realizaram com

crianças entre os 10, 12, 14 e 17 anos de idade, indicam duas tendências narrativas desenvolvimentais: por um lado, o aumento na capacidade estrutural narrativa no sentido de maior competência para construir narrativas que envolvem múltiplas dimensões e sub-histórias, por outro, um salto na compreensão sócio-psicológica narrativa, passando da compreensão intencional para uma maior compreensão interpretativa. Os adolescentes de 17 anos, por sua vez, parecem apresentar uma maior facilidade do que adolescentes de 14 anos, em adoptar uma meta-posição da experiência humana de forma consciente e deliberada. De uma forma geral, e no que respeita à complexidade estrutural, os resultados indicam que entre os 10 e os 17 anos acontecem mudanças óbvias tanto no enredo estrutural como na capacidade para construir hierarquicamente histórias dentro de histórias.

Resumindo um pouco algumas das ideias apresentadas, podemos referir o estudo realizado por Mackeough (cit. in Rocha, 2005) no qual analisou histórias construídas por crianças e adolescentes dos 4 aos 18 anos, e distinguiu três grandes estádios de

desenvolvimento da compreensão narrativa: até aos 4 anos de idade as narrativas das crianças

manifestam um conhecimento da experiência humana em termos de acontecimentos físicos ligados numa sequência simples de acção; entre os 6 e os 10 anos de idade, as crianças começam a expressar uma compreensão da acção humana que inclui sentimentos, pensamentos e objectivos imediatos; a partir dos 12 anos as crianças demonstram uma compreensão de natureza mais interpretativa das acções e intenções dos personagens.

Em suma, de uma forma geral, os dados são indicadores de que as crianças são contadoras de histórias que se vão tornando, ao longo do seu desenvolvimento, cada vez mais sofisticados, construindo narrativas de cada vez maior complexidade. Embora as competências narrativas nas crianças se encontrem em desenvolvimento, aumentando sempre em número de episódios até meados da adolescência, parece que, ao longo da vida adulta o contar de histórias poderá ou não continuar em desenvolvimento, havendo culturas no seio das quais a probabilidade de complexificação será maior entre aqueles onde o conto ocupa um lugar

generalizada de que a partir dos 18 anos de idade, o sujeitos parecem reunir as condições necessárias para uma organização narrativa complexa, sem que se prevejam grandes alterações na sua construção. Como já mencionámos, os estudos nesta área parecem centrar-se mais sobre a relação entre a organização narrativa e diversas dimensões do bem-estar, tema já abordado no ponto anterior.

2.2 Desenvolvimento da Estrutura, Processo e Conteúdo narrativos na infância

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