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KAPITTEL 1 INTRODUKSJON OG FORSKNINGSSPØRSMÅL

3. TEORETISK RAMMEVERK

3.5 S TRUKTURELLE FORKLARINGER : M ULIGHETSSTRUKTURER OG KONTAKT

 Apesar de o texto estar escrito usando a linguagem padrão e o assunto tratado no texto ser de interesse do órgão, como preceitua o Manual, a forma em que o pedido foi feito foge do tradicional. Ao ler o texto, tem-se a impressão que se trata de uma anedota, pois a forma que o texto foi elaborado devia-se do formal.

Segundo Travaglia (1997) há dois tipos de variedades linguísticas. Primeiro – os “dialetos”: variação que ocorre em função das pessoas que utilizam a língua. De acordo com o autor, esta variação pode ocorrer em seis dimensões: territorial, social, de idade, de sexo, de geração e função profissional. Segundo – “registros”: variedades que ocorrem em função do uso que se faz da língua, conforme a situação em que o usuário e interlocutor estão envolvidos. Essas variações de registro, segundo Travaglia, podem ocorrer em três dimensões: grau de formalidade (formal/informal), modo (escrita ou falada) e sintonia (de acordo com tecnicidade, cortesia). Essa teoria explica, em parte, o ocorrido no “doc. 012” – ausência de formalidade.

Marin (1997) considera que a comunicação formal é aquela claramente definida, e até mesmo desenhada, seguindo as linhas do organograma organizacional, fornecendo uma visão nítida da origem das transmissões das informações planejadas para a organização.

Nessa mesma linha de pensamento, Kunsch (2003) considera que a formalidade da comunicação deriva da estrutura normativa da organização e, por meio de diversos veículos estabelecidos pela instituição como: os impressos, os visuais, os auditivos, os eletrônicos, os telemáticos, entre outros.

Por fim, Goldhaber (1991) corrobora com a ideia e salienta que, formalmente, as transmissões de mensagens podem ser representadas pelas tarefas designadas aos colaboradores. Ou seja, por meio da realização do trabalho, o funcionário se comunica formalmente com seus superiores, seus pares e seus subordinados.

Isso indica que ao adotar a formalidade como uma característica do documento oficial, os autores procuraram estabelecer uma relação respeitosa entre os envolvidos nos processos comunicativos seja de forma horizontal, ascendente ou descendente.

Ainda, na tentativa de esclarecer a falta de formalidade nas comunicações, Kunsch (2003) afirma que esta prática se dá nas relações sociais intra- organizacionais e provém da busca das pessoas por informações organizacionais para a realização de tarefas e para questões relacionadas à vida pessoal do funcionário. Corroborando com Kunsch (2003), Goldhaber (1991) informa que os integrantes das organizações se relacionam com outros colaboradores por motivos e assuntos paralelos ao trabalho, gerando relações de informalidade.

Essas teorias não são confirmadas na observação, em especial, do documento 012, visto que o autor trata de assunto de interesse administrativo, “Dedetização”, mas o texto é escrito em tom jocoso, irônico, o que provoca certa informalidade. Até então, esses autores identificavam como comunicação informal àquelas que tratavam de interesse da pessoa, mas diante do levantamento do corpus desta pesquisa verificamos que a informalidade ou a falta de formalismo se concretiza, também, com assuntos de interesse do órgão. Neste caso, o uso da ironia, justamente por dizer o contrário daquilo que se pensa, por ser tão usado na literatura para zombar, transmite a informação pretendida, mas falta formalismo, já que se trata de documento oficial.

No texto, em questão, observamos o trecho: “... passeando de maneira tranquila e impude, pelas coisas e pessoas... o que tem chamado a atenção até mesmo do próprio Ministro, que vem dividindo com elas, diuturna, democrática e insalubremente, o ambiente de trabalho.” (DOC. 012).

Com essa construção textual, o autor imprime à mensagem características informais – já que se trata de reiteração de pedido, ou seja, as providências, de caráter urgente, não foram tomadas e a infestação pelos insetos gerara desconforto às pessoas que trabalhavam ou visitavam o local – ao se portar sobre o assunto deixando transpassar impressões pessoais por meio da crítica implícita.

Por outro lado, na tentativa de acertar e manter a formalidade – característica da redação oficial – ocorre o que conhecemos como o fenômeno da “hipercorreção”. O dicionário de linguística Dubois (2002) define hipercorreção como a busca do uso correto que se eleva “acima da correção” em uma língua. Já Calvet (2002) afirma que se trata de uma restituição exagerada das formas linguísticas prestigiosas.

É possível observar em vários documentos, como a forma tautológica “A sua Senhoria o Senhor”. O Manual orienta que no endereçamento a uma autoridade tratada por “Vossa Excelência” a forma correta seja “A Sua Excelência o Senhor”. Essa última forma é uma tentativa de ressaltar a importância do destinatário, já que se trata de uma “Excelência”, porém quando o documento é enviado a uma “Senhoria” não ocorre a repetição “Senhoria o Senhor”. Por se tratar de uma repetição desnecessária conhecida como tautologia – um vício de linguagem segundo os gramáticos – acreditamos que o erro seja cometido na tentativa de imitar a forma prestigiosa e formal “A sua Excelência o Senhor”. Ademais, como percebemos, o desvio se repete em vários documentos: “doc. 001, doc. 002, doc. 003, doc. 004 ...” todos recolhidos da mesma repartição do mesmo órgão. Esse evento também pode ter como origem o fato de não se confeccionarem novos documentos, mas sim copiarem a estrutura dos modelos anteriores e modificarem algumas informações.

Tanto os desvios cometidos pela hiper-tentativa de se corrigir, quanto os causados pela suposta falta de atenção aos documentos, utilizando como base modelos anteriores, são vistos pelo Manual como erros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao escolher um olhar para observar cada um dos desvios não descarta outras possibilidades. Nesta pesquisa, dividimos os desvios em três grupos e analisamos cada grupo sob uma teoria, esse método foi escolhido para fins didáticos, entretanto várias outras teorias poderiam ser empregadas para observar os mesmos fenômenos e em cada uma delas teríamos resultados tão satisfatórios quanto. O mais importante é que encontramos respostas para as hipóteses levantadas no início da pesquisa.

Adotar uma forma, a padrão, e desconsiderar toda a complexidade que envolve o uso da língua, não atende aos preceitos do Manual que visam a confecção de textos que possibilitem o entendimento por todos os cidadãos. Ademais, a elaboração de tais textos pressupõe a capacidade do usuário em produzir esse tipo de correspondência. Isso responderia à segunda hipótese levantada nesta pesquisa, que o Manual não considera a dicotomia pessoa/cargo. Dessa forma, o Manual admite que o emissor é o serviço público, portanto uma entidade virtual cujas atribuições pressupõem a capacidade de usar as regras.

Essa posição acaba por responder também a primeira hipótese: no Manual não existe a possibilidade de aceitação de desvios, não há, em nenhum lugar, a menção a variações se não aquelas relacionadas a erros. Ou seja, não podemos considerar esses “desvios” do ponto de vista da sociolinguística ou da teoria dos sistemas.

O Manual assume que “há sempre um único comunicador: o serviço público”. O conceito de serviço público não é pacífico, mas aceitamos o assumido pelo autor Hely Lopes Meirelles que, adotando o sentido amplo de serviço público, assim o conceitua: serviço público é todo aquele prestado pela Administração ou por seus delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer necessidades essenciais ou secundárias da coletividade, ou simples conveniências do Estado. (Meirelles 1995, p.52)

Verificamos, assim, que a elaboração do Manual foi motivada para padronizar as comunicações das instituições formadas pelo sistema administrativo brasileiro.

Este Manual, não procurou levar em consideração que as atividades do “serviço público”, ou seja, as atividades administrativas, só podem ser exercidas por indivíduos concretos, reais. Resumido, a administração pública é exercida pela comunicação entre os cargos públicos que detêm a competência, porém os cargos públicos são instituições virtuais, não têm capacidade e nada podem fazer sem a presença de uma pessoa – que tem a capacidade, porém falta-lhe a competência – que ocupe o cargo e desempenhe suas funções. Assim, ocorre uma interdependência sistêmica entre os envolvidos – cargo/pessoa.

Para reforçar essa hipótese, recorremos, mais uma vez ao Manual onde encontramos que as comunicações oficiais devem sempre ser “estritamente impessoais” e já que a palavra “impessoal” vem de “pessoa” – a impessoalidade é a atividade exercida pela “não pessoa”, qual seja, o cargo. Essa atitude desconsidera as operações humanas realizadas no promover das atividades dos cargos.

Ao analisarmos o Manual da Presidência da República, conferimos que este foi criado para regulamentar a sociedade instituída pelos órgãos e cargos públicos já que as pessoas não são consideradas neste processo. Esse modelo tem como pressuposto um produtor ideal, o qual conhece e reconhece as diretrizes para elaboração e recepção das correspondências oficiais. Essa atitude implica “desvios” da norma, já que quem realmente pertence ao meio social daquele poder são as pessoas que se comunicam adotando, ou não, o Manual.

Os operadores da comunicação são indivíduos que ocupam os cargos públicos, e estes estão longe de serem ideais, visto que cada um possui um nível de conhecimento distinto do outro.

Diante desse quadro, os chamados “desvios” são constantes na comunicação organizacional. Esses “desvios”, observados de um olhar sistêmico, podem, na verdade, ser considerados como transformações produzidas nas organizações. Essa auto-regulação é explicada pelos conceitos da autopoiésis.

Como vimos, as normas, principalmente envolvendo o uso da língua, existem na sociedade ocidental há muito tempo. Sua criação visava à manutenção de uma ordem e à imposição das marcas culturais de um povo sobre o outro. Com o passar dos tempos, a criação de elementos normativos ficou mais evidente na nossa sociedade, uma vez que, possuindo uma diversidade cultural, elencou-se uma única como prestigiada. Essa posição obrigou, direta e indiretamente, os membros

daquele meio social a procurarem moldar suas atividades para que fossem reconhecidas como legítimas.

Durante o processo de comunicação, em que são estabelecidas as relações sociais, uma série de fatores, de ordem complexa, concorrem para a criação do sistema. Esses fatores não são controlados pelos usuários, uma vez que, depois de constituídos, possuem vida própria e se auto-regulam.

A formulação de manuais que têm como objetivo padronizar a comunicação entre funcionários de uma empresa pode ter como meta a uniformização das comunicações, porém esta norma é estabelecida a partir de pressupostos da existência de usuários ideais, o que é uma utopia. Decorrem, então, os chamados “desvios” que, na verdade, são variações criadas pelo próprio sistema que tem a necessidade de se estabelecer para desenvolver suas atividades.

Como os manuais são instrumentos estanques e a comunicação se utiliza da língua, que é um organismo vivo e está em constante processo de transformação, as variações são inevitáveis e as diretrizes da norma, em vez de facilitar, podem dificultar a interação – atividade essencial entre os seres humanos.

Diante das teorias adotadas para análise dos documentos contidos neste trabalho, pudemos observar que a adoção ou não de um manual que reja a confecção de documentos administrativos é algo que possibilita diversas formas de considerações.

Toda teoria tem seus pressupostos e por meio dessas podemos explicar o fenômeno de diversas formas de produção encontradas e analisadas nesta pesquisa. Essas análises não dão conta de toda a complexidade envolvida na comunicação administrativa, mas serviram para abrir o campo das discussões científicas que buscam explicar a relação entre indivíduos por meio de instrumentos comunicacionais.

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