Álvaro Ribeiro não poupou esforços na sua tarefa de idealizador do futuro Instituto. O modelo orientador de sua edificação foi o da cidade alemã de Frankfurt. A sua construção foi dirigida pelo engenheiro Antonio Mourthé . Tratava-se de um prédio de arquitetura eclética, localizado em uma baixada no bairro do Quartel, dentro de uma área superior a três alqueires geométricos, na “Praça Bello Horizonte”, chamada atualmente (2007) de “Praça Floriano Peixoto”. As instalações, quando completas, poderiam abrigar 600 doentes. As secções onde os pacientes ficariam foram batizadas com nomes de psiquiatras famosos: a primeira e a terceira eram masculinas, ficavam à direita, e se chamavam “PINEL” e “KRAEPELIN”,
72 Infelizmente, o destino desta biblioteca não pôde ser definido. Especulações sobre saques,
transferências entre instituições e outras histórias não tiveram apoio em evidências. O que se pode certamente afirmar é que elas não estão no Acervo do Instituto Raul Soares nem na biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
respectivamente. As femininas, segunda e quarta, localizadas à esquerda, foram denominadas de “GRIESINGER” e “MOREL”.
Nos últimos meses de 1921, enquanto o Instituto de neuropsiquiatria estava sendo construído, a política nacional estava muito agitada com a sucessão presidencial da República. Segundo Mourão (1970) “[...] o centro de todas as demarches políticas era Belo Horizonte, pelo fato do Presidente de Minas ser candidato das forças eleitorais majoritárias da Nação à sucessão do Sr. Epitácio Pessoa.” (MOURÃO 1970, p.297).
No dia 1º de Março de 1922, as eleições levaram Arthur Bernardes para a Presidência da República, e em 07 de Março, “[...] Raul Soares foi eleito Presidente de Minas Gerais vencendo com esmagadora diferença seu rival Francisco Sales.” (MOURÃO, 1970, p.299). Arthur Bernardes só tomaria posse em 15 de Novembro de 1922.
A situação da Assistência aos Alienados continuava a se constituir uma preocupação do governo. No mês de Julho de 1922 foi publicada no jornal Minas
Geraes uma Mensagem Presidencial anunciando um plano para legitimar a Lei nº
778/1922. Nessa reportagem, fica evidente o esforço para que a solução encontrada estivesse em sintonia com os avanços da psiquiatria. Para tanto, seria necessário aparelhar o novo estabelecimento com recursos técnicos aliados ao saber científico da Faculdade de Medicina. A expectativa de que as funções do novo Instituto ultrapassassem carências assistenciais para alcançar um espaço de ensino e formação pode ser demonstrada no detalhamento anunciado por Arthur Bernardes:
Em Bello Horizonte, crear-se-a o Instituto de Neuro-psychiatria, cuja
principal função consistirá em preparar alienistas, acrescida da vantagem de proporcionar recursos à nossa Faculdade de Medicina para o ensino desta especialização clínica. É este um dos aspectos do
problema que merece ser ponderado, pois um dos mais sérios entraves à organização de um serviço efficiente de assistência a alienados reside na
carência de profissionais que se dediquem à Neuro-Psychiatria, e o
governo, fomentando o ensino desse ramo de sciencias médicas com o aproveitar de aptidões que não escasseiam em nosso meio, praticará inquestionavelmente medida de previsão administrativa. Já se acha ultimada a construção dos edifícios destinados ao Instituto, recebendo
installações feitas com todo rigor technico, consoante às aquisições mais recentes realizadas pela sciencia. A sua inauguração far-se-à
dentro em breve.” (INSTITUTO..., 1922b, p. 7, grifos nossos)
Ressaltamos aqui as razões de existência do Instituto de Neuropsiquiatria, estabelecimento construído para finalidades assistenciais, mas principalmente
destinado a formar alienistas e contribuir com a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Na citação de Bernardes, fica claro também o aspecto de cientificismo do saber psiquiátrico, que até então era relacionado apenas com as diretrizes para as internações, como acontecia no Hospital de Barbacena. Era necessário equipar o Instituto com as mais recentes aquisições da ciência.
A inauguração do Instituto de Neuropsiquiatria aconteceu no mesmo dia da posse do Presidente de Minas Gerais, Raul Soares, em 07 de Setembro de 1922. Não era um feriado comum, pois se estava comemorando também o Centenário da Independência. Uma grande programação foi realizada naquela data, e a inauguração do Instituto se deu às 10:00 horas:
No saguão da entrada do enorme edifício construído especialmente para o fim que se destina foi inaugurada uma placa de bronze, com os nomes dos Srs. Dr. Arhur da Silva Bernardes e Dr. Affonso Penna Junior, e as datas 1822-1922, ouvindo-se então uma estrondosa salva de palmas. Em seguida, em companhia do Sr. Dr. Samuel Libânio, o exmo. Sr. Dr. Arthur da Silva Bernardes e as demais pessoas presentes passaram a percorrer todas as dependências do grande edifício, recebendo magnífica impressão.
(INSTITUTO..., 1922a, p. 11)
Infelizmente, o idealizador do projeto, professor Álvaro Ribeiro (1879-1922) havia falecido quatro meses antes desta inauguração, devido à “[...] uma longa e dolorosa moléstia” (ALVARO..., 1922, p.3)73. O Professor Samuel Libânio enalteceu muito o trabalho de Álvaro Ribeiro em seu discurso. Arthur Bernardes e Raul Soares nos seus discursos frisaram o caráter científico daquela obra, o que fazia daquele estabelecimento um “Instituto” para além de um “Hospital”. As suas finalidades ultrapassavam a assistência aos alienados para alcançar uma posição de entidade formadora de alienistas, ofício que não era interesse de um grande número de médicos formados naquela época. Além disso, as esperanças de que o Instituto não repetisse os dissabores de Barbacena fazia com que os políticos mineiros confiassem ao saber alienista, um respeito no sentido de que o futuro assistencial psiquiátrico mineiro pudesse ser melhorado.
Embora festiva, a inauguração do Instituto de Neuropsiquiatria foi apenas simbólica, com expressiva propaganda política dos esforços de Arthur Bernardes enquanto esteve à frente da Presidência de Minas. Na verdade, o Instituto ainda
73 A data da morte de Álvaro Ribeiro não se encontra correta em nenhuma das referências
bibliográficas consultadas nessa pesquisa. Um contato com fontes primárias como jornais aponta a data exata: 30/05/1922.
não estava totalmente aparelhado para o funcionamento, pois devido à morte de Álvaro Ribeiro, muito havia ainda por fazer. Em uma visita atual (2007) ao setor de prontuários antigos do Instituto, só encontramos registros de atendimentos a partir de 1924. Logo após a inauguração,o Dr. Alexandre Drummond, um ilustre médico clínico sem formação psiquiátrica, foi empossado como o primeiro diretor do Instituto de Neuropsiquiatria. Drummond havia sido médico pessoal de Álvaro Ribeiro, tendo lhe assistido durante toda a doença do professor de Neuropsiquiatria. A ele coubera terminar a edificação do Instituto, auxiliado a partir de então dos jovens médicos alienistas Galba Moss Velloso (1889-1952) e Sylvio Ferreira da Cunha (1893-1973).
Figura 21: O Instituto de Neuropsiquiatria no dia de sua inauguração (1922)74
Velloso e Cunha haviam estudado medicina no Rio de Janeiro, tendo freqüentado o serviço de Clínica Neurológica em sua faculdade. Mesmo fechado, o Instituto era alvo de muita curiosidade por parte da imprensa local e de autoridades que visitavam a capital mineira.
Antes de passar a Presidência do Brasil para Arthur Bernardes, o Presidente Epitácio Pessoa (1865-1942) visitou Belo Horizonte e o Instituto de Neuropsiquiatria, sendo recebido pessoalmente pelo engenheiro da obra, Dr. Antonio Mourthé, por
Raul Soares e pelo próprio Arthur Bernardes, segundo informações pesquisadas no jornal Minas Geraes (1922).
Apesar das promessas de que o Instituto abriria efetivamente suas portas em 1923, isso não aconteceu. Enquanto isso, a situação dos alienados mineiros só piorava, segundo os jornais. O Hospital de Barbacena estava além de seus limites:
Está completa e com excesso a lotação da Assistência a Alienados de Barbacena, sendo que só em janeiro do próximo anno começarão a funccionar o Instituto Neuro psychiatrico desta capital, e os Asylos-Colonias daquella, e só então descongestionando-se um pouco os alojamentos alli existentes. Tem sido preciso guardar na cadeia algumas mulheres que sem auctorização são levadas à Assistência de Barbacena, para serem internadas, como se vê desta passagem de recente officio de seu diretor: “Para os devidos effeitos, levo ao conhecimento de v. exc. que é materialmente impossível o asylamento de mulheres na respectiva secção. A lotação está excedida em demasia. Não há commodo. Os próprios refeitórios e corredores já estão transformados em dormitórios, com grave prejuízo da hygiene. Devido a essa impossibilidade material, duas loucas – Maria Soares da Silva e Theodora Maria de Jesus, vindas de São João Nepumuceno, tiveram de ser recolhidas á cadeia local, aguardando vaga.
(FACTOS..., 1922, p. 3).
Figura 22: Inauguração do Instituto de Neuropsiquiatria. Com a mão no peito, o Presidente Arthur Bernardes75
Durante o ano de 1923, as obras continuaram. Com Raul Soares na Presidência de Minas Gerais, o Instituto conseguiu se aparelhar a contento. O
Presidente mineiro era muito empenhado no cargo e muito querido pela população. Segundo Mourão (1970), tanto trabalho fez com que logo no início de 1924 a saúde de Raul Soares ficasse precária . Em Julho de 1924, uma rebelião em São Paulo fez com que Minas Gerais se movimentasse no sentido de auxiliar a conter o movimento revolucionário paulista. A atuação de Raul Soares foi enérgica e imediata, mas tanto esforço fez com que os problemas cardíacos do Presidente piorassem, fatos que culminaram no falecimento dele em 04 de Agosto de 1924. O Vice-Presidente Olegário Maciel (1855-1933) assumiu o governo de Minas Gerais. Duas semanas depois, Maciel assinaria o Decreto nº 6654, que “[...] dá ao Instituto Neuro- psychiatrico de Bello Horizonte a denominação de Instituto Raul Soares” (INSTITUTO..., 1924, p.1).