Sobre o processo de industrialização de Maranguape, Mendes (2006) destaca que esse teve papel expressivo na transformação sócio espacial do município configurando, nas palavras da autora
atualmente, uma realidade mais próxima do padrão encontrado nas regiões metropolitanas brasileiras em geral, e nordestinas em particular, onde a indústria tem tido peso significativo na organização espacial metropolitana. Com a indústria,
Maranguape passa a incorporar novas dinâmicas em seu território, provocadas pela criação de empregos, desencadeamento de novos fluxos (pessoas e mercadorias) com alterações no espaço urbano e surgimento de novas espacialidades (MENDES, 2006, p. 36).
Isso pode ser observado na análise do crescimento populacional do Município, onde até meados da década de 1970 a população concentrava-se nas áreas rurais, quadro que vai se modificar a partir da década de 80 com a inserção de Maranguape na era industrial, que atraiu grande contingente populacional para as áreas urbanas do município, como pode ser observado no gráfico 2. Para Mendes (op. cit., p.62),
A história de Maranguape e, portanto, as formas de organização do seu espaço ao longo de dois séculos, estão intimamente relacionadas à produção agrícola comercial. Nas últimas décadas do século XX, significativas mudanças vão ocorrer na divisão territorial do trabalho com as atividades agropecuárias perdendo importância e paralelamente a isso a afirmação das cidades cearenses como pólos terciários, não obstante o destaque para a atividade industrial, principalmente nos municípios metropolitanos, a exemplo do de Maranguape.
Gráfico 2 - Percentual da população rural e urbana do Município de Maranguape entre os anos 1970 e 2010
Fonte: IBGE, (2014); Atlas Brasil, (2013). 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 1960 1970 1980 1991 2000 2010 Rural Urbana
Conforme se observa no gráfico 3, entre os anos de 2000 e 2012, a agricultura perde representatividade na economia local cedendo espaço para a indústria e os serviços que cresceram nas últimas décadas do século XX e passaram a representar mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB) do município. No caso da indústria e dos serviços na cidade de Maranguape, esses mantiveram o papel de centralidade do distrito-sede em relação aos demais, e em relação a outros municípios, por concentrar os fluxos de pessoas e mercadorias.
O setor primário da economia é representado pela agricultura de subsistência e de alguns outros gêneros e silvicultura (Anexos 1, 2 e 3), mas com maior destaque para a pecuária, em especial pela avicultura, atividade que, segundo Elias (1999) destacado por Mendes (2006), encontrou espaço na RMF, sendo que este concentrava já na época, aproximadamente 57% do efetivo do estado. A tabela 7 apresenta a produção pecuária para os anos de 2000 a 2013.
Gráfico 3 - Produto Interno Bruto (PIB) Maranguapense entre os anos de 2000 e 2012
Fonte: IBGE (2010); IPECE (2010).
Observa-se, pela tabela, que a avicultura e a bovinocultura, são de longe, as atividades de maior representatividade no município. Apesar, de que nos últimos anos (2009- 2013) a bovinocultura tenha enfrentado uma leve queda de produtividade. Além destas atividades, outras como a caprinocultura e a ovinocultura tem ganhado destaque crescente, alcançando a marca (em 2013) de 1.310 e 5147 cabeças, ao passo que a suinocultura, tem enfrentado uma queda significativa de produtividade.
0 10 20 30 40 50 60 70 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Agricultura Industria Serviços
Tabela 7 - Produtividade da pecuária entre os anos 2004 e 2012
Bovinos Suínos Ovinos Galinhas Galos, Frangos,
frangas e pintos Caprinos Mel
2004 17.978 6.324 3.621 16.741 455.495 830 13.744 2005 18.335 6.508 4.021 92.659 471.832 865 14.078 2006 18.761 6.806 4.198 16.850 465.101 891 15.048 2007 20.103 7.110 4.221 17.414 602.043 912 15.551 2008 21.032 7.309 4.388 18.316 614.321 948 16.638 2009 17.656 4.037 4.422 18.792 625.932 1.018 14.142 2010 18.186 4.171 4.570 19.262 644.710 1.055 13.434 2011 18.000 4.013 4.600 19.931 664.051 1.100 13.500 2012 16.500 4.195 4.720 21.325 689.256 1.210 13.000 2013 18.999 3.965 5.147 20.458 651.052 1.310 14.056 Fonte: IBGE, 2014.
O setor de comercio e serviços, representado pelo comércio varejista e alguns serviços básicos (como saúde, educação e bancário), encontram-se, quase em sua totalidade, localizados no distrito-sede. Funcionando como polarizador do fluxo de pessoas ao longo do ano, que em busca desses serviços dirigem-se ao distrito-sede, saindo dos demais distritos (e muitas vezes de municípios vizinhos) em busca de atendimento na cidade de Maranguape.
Para Mendes (2006), mesmo que alguns distritos se destaquem, no cenário municipal, é notória a diferença entre estes e a sede municipal do município de Maranguape. Tal supremacia é reforçada pela maior concentração de atividades ligadas aos setores do comércio e de serviços, seguindo a lógica existente nos demais municípios cearenses, quer sejam pequenos ou médios, onde o centro administrativo concentra a maior quantidade de investimentos e de concentração de serviços públicos e privados, fazendo assim, com que a sede se configure como o centro mais consolidado em termos de estrutura urbana.
Conforme se observa na tabela 8 este setor é o que é, atualmente, o responsável por absorver maior contingente de mão-de-obra, seguida pela indústria e pela agropecuária (com 21353, 13.569 e 6.737, respectivamente) divididas entre as diversas atividades, porém sendo o setor público aquele responsável pela maior quantidade de empregos formais no município.
No setor industrial maranguapense, destacam-se alguns gêneros como: calçados, confecções, têxteis, alimentícios, material de embalagens, pré-moldados, palmilhas e tintas
para calçados e eletrodomésticos. Mendes (2006) destaca que o processo de industrialização em Maranguape seguiu, grosso modo, o ritmo de industrialização do estado do Ceará. Assim, a autora destaca três períodos distintos de industrialização, a saber: 1) do fim do século XIX até os anos 1950; 2) dos anos 1960 até meados dos anos 1980 e; 3) dos anos 1980, intensificando-se mais precisamente nos anos 1990, até os dias atuais.
Tabela 8 - Número de empregos formais, por setor Agropecuária agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e
aquicultura
6.737 pessoas
Indústria - 13.569 pessoas
Serviços eletricidade e gás 37 pessoas
atividades de gestão de resíduos e descontaminação 361 pessoas
construção 2.912 pessoas
comércio 5.453 pessoas
transporte, armazenagem e correio 1.471 pessoas
alojamento e alimentação 781 pessoas
informação e comunicação 149 pessoas
atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados
124 pessoas
imobiliárias 10 pessoas
atividades profissionais, científicas e técnicas 307 pessoas atividades administrativas e serviços complementares 772 pessoas administração pública, defesa e seguridade social 1.748 pessoas
educação 1845 pessoas
saúde humana e serviços sociais 756 pessoas
artes, cultura, esporte e recreação 215 pessoas
outras atividades de serviços 671 pessoas
serviços domésticos 2181 pessoas
atividades mal especificadas 1.560 pessoas
Total - Serviços 21353 pessoas
Total 41.659 pessoas
O primeiro período esteve intimamente ligado à produção agropecuária do município culminando com a criação das cooperativas agrícolas mistas, das quais apenas a iniciativa ligada ao setor leiteiro obteve êxito, funcionando até os dias de hoje (a cooperativa agrícola mista de Maranguape, produtora dos produtos Maranguape) e a produção da aguardente (das quais o maior exemplo era a Aguardente Ypióca3). Algumas características desse período, destacadas por Mendes (op. cit. p.102-103) são:
• A indústria é de certa forma um prolongamento da agricultura; • As iniciativas são predominantemente locais;
• Os capitais são provenientes das atividades agrícolas e comerciais e administrados, quase sempre, por teias familiares de proprietários.
O segundo período é marcado pela expansão da atividade industrial na RMF com a criação do I distrito industrial de Maracanaú, através de incentivos da SUDENE. E por fim, o terceiro período marcado pela inserção de Maranguape no contexto da reestruturação produtiva a partir do “Governo das Mudanças”. Para Mendes (op. cit., p. 105)
Este momento tem como marco principal a implantação da indústria calçadista Dakota, mas também a instalação de uma multinacional, a fábrica Mallory e outras filiais de empresas importantes no cenário nacional, como a Hope, do gênero confecções (roupa íntima feminina). A implantação dessas indústrias em pouco espaço de tempo, repercute não só na economia e na vida do município gerando novos fluxos de pessoas e mercadorias, mas constituindo-se em importante vetor de metropolização.
A inserção de Maranguape na era da industrialização dinamizou, não só econômica e socialmente, o município, como transformou profundamente as relações de apropriação do potencial natural do sítio e das relações entre sociedade e natureza no âmbito municipal.
No capítulo subsequente serão apresentadas as características ambientais da área de estudo, que servirão de base para a delimitação dos sistemas (apresentados no capítulo 5), e para o zoneamento geoambiental do município de Maranguape (apresentado no capítulo 6).