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S ENSITIVITETSANALYSE

5. VERDIVURDERING AV TRØNDELAG ISOLERING

5.6 S ENSITIVITETSANALYSE

No primeiro tomo do livro Mulher e Modernidade na Amazônia, a professora Maria Ângela D’Incao faz uma significativa provocação a suas leitoras. Ela pergunta:

teria a mulher, na Amazônia moderna, situações de vida tão discrepantes daquela do restante do país que merecesse uma análise particular? Pautada no modo como a Amazônia se insere na economia nacional e global, a maneira como a modernidade se manifesta, na região e onde presenciamos uma vida social tecida pro diferentes grupos, em distintos tempos referenciais e diferentes expectativas (1997:354).

Partilho da ousadia da autora ao assegurar que, de fato, as condições de vida das mulheres amazônicas discrepam em relação àquelas das mulheres de outros lugares do país. Nesta Amazônia plural e heterogênea, vivem mulheres com experiências diversas e inserções sociais e econômicas bastante diferenciadas. Na verdade, a inserção das mulheres na dinâmica econômica e sócio-cultural das comunidades da região não é um processo linear. Esse processo é permeado por contradições, tensões e especificidades inerentes a cada contexto histórico determinado.

Assim, a tarefa de desvelar os fios que tecem a sutil relação entre os saberes/fazeres das mulheres e as formas de organização sócio-comunitárias peculiares às comunidades tradicionais da Amazônia coloca a exigência da demarcação de uma questão fundamental. Senão vejamos: da mesma forma que não é possível falar numa Amazônia unitária e homogênea, não é possível conceber que as mulheres amazônidas, seus saberes e suas práticas, também, se constituam de forma homogênea. Na verdade, as mulheres da

Amazônia são plurais, diversas, assim como, seus saberes e fazeres, marcados pelos contextos particulares onde vivem. Considerar essa diversidade permite reconhecer que as mulheres extrativistas de Mamirauá partilham experiências diferenciadas das quebradeiras de coco babaçu, no Maranhão e/ou das trabalhadoras rurais do Meio Tocantins.

No interior de cada contexto, em particular, as dimensões sociais de gênero articulam outras dimensões estruturantes da vida cotidiana dessas populações, tais como: o trabalho no extrativismo, na pesca, na agricultura - no caso de Mazagão, espaços da produção e de satisfação das necessidades materiais; as práticas culturais e religiosas; o convívio comunitário. Todas estas esferas de construção e exercício da sociabilidade são entrecruzadas pelas relações de gênero. De fato, uma análise conseqüente não pode prescindir de olhar sob as complexas relações sociais entre os gêneros, particularmente do lugar e dos papéis sociais atribuído às mulheres.

As relações de gênero são imanentes a este estudo, caracterizado por adentrar o universo feminino, buscando desvendar os significados dos saberes e fazeres circunscritos ao corpo da mulher, à gravidez e ao nascimento. Remonta a saberes/fazeres relativos à sexualidade feminina e a sua vida reprodutiva. Assim, tomo a categoria gênero, como referência analítica, em dimensões teóricas e políticas, buscando compreender como as relações entre homens e mulheres aparecem expressas nas experiências de vida e trabalho das mulheres amazônicas, particularmente as parteiras tradicionais.

Analisando inúmeros estudos/pesquisas que tratam das condições das mulheres nas sociedades amazônicas, em particular no cotidiano das populações tradicionais, identifico, em muitos deles, relatos importantes sobre o lugar ocupado pelas mulheres no interior das relações sócio-comunitárias.

Em seus estudos sobre a participação das mulheres na produção agrícola familiar na Amazônia, Santos (1997) destaca que, na esfera produtiva, o trabalho feminino é marcado pela subvalorização e pela invisibilidade, postura que articulam um conjunto de fatores que negam sua efetiva contribuição para a economia familiar. Aliam-se a essa perspectiva, discursos e práticas que, via de regra, consideram o trabalho das mulheres no espaço doméstico como não trabalho, identificando-o como mera atividade de manutenção da esfera da reprodução do grupo familiar. Mesmo quando participam das atividades produtivas como a pesca, o extrativismo e o trabalho no roça, as mulheres desempenham atividades consideradas subsidiárias, de menor peso no jogo comercial e econômico, sendo geralmente consideradas ajudantes, desempenhando um papel de complemento do trabalho masculino. O trabalho das

mulheres, nestes grupos, está direcionado para as tarefas de subsistência e para o cuidado

com o grupo doméstico (D’INCAO & COTTA JÚNIOR, 2001).

Seguindo as pistas analíticas indicadas por Santos (1997), identifico que as mulheres, nas pequenas comunidades rurais do Maranhão, rompem esse círculo de subvalorização e invisibilidade quando adentram em atividades consideradas eminentemente femininas. Segundo a autora,

Elas [as mulheres] se projetam quando desempenham outros papéis, como parteiras e benzedeiras, repensáveis pela saúde, vida e morte. Na maioria dos casos, as rezadeiras, que muita das vezes se confundem com as parteiras, são também as guardiãs dos documentos e História do grupo (SANTOS,

1997:115-116).

De fato, existe uma rígida divisão sexual do trabalho, no interior das pequenas comunidades rurais. Não se trata de defender posições ideológicas que advogam a ausência das mulheres em certas atividades produtivas, pois muitos estudos mostram com eloqüência a contribuição das mulheres à produção agrícola na região, mas de reconhecer que, no interior destas atividades, foram delimitadas barreiras que definem até onde vai o trabalho das mulheres. Tais barreiras têm contribuído para manter a ação das mulheres restrita às esferas de menor expressão econômica.

Em relação à construção de uma identidade é preciso situar a atividade das parteiras como trabalho essencialmente feminino, demandando análise de como se expressam às relações de gênero79, no interior de suas práticas. Desse modo, é necessário questionar, também, quais os papéis historicamente reservados às mulheres no âmbito da vida comunitária. Para melhor explicitar esse ângulo de análise considero necessário inserir a atividade das parteiras no marco das relações sociais de gênero, historicamente construídas no contexto das populações tradicionais amazonidas. Certamente, um aspecto revelador da conformação dessa prática social está vinculado ao próprio significado assumido pelo trabalho feminino nas sociedades e grupos tradicionais.

Assim, compreendo que as mulheres só conseguem obter destaque quando atuam em áreas identificadas com o feminino e consideradas extensão do trabalho doméstico. No caso da parteira e da rezadeira, cuja atuação está delimitada ao campo do cuidado,

79 Utilizo o termo relações de gênero para designar uma compreensão das relações entre masculino e feminino

para além dos aspectos biológicos. Compreendo que as relações de gênero são construções históricas e sociais que determinam os papeis e os lugares de mulheres e homens na sociedade. No bojo da sociedade capitalista, o patriarcalismo e a divisão sexual do trabalho determinaram uma inserção subalterna das mulheres no conjunto da vida social (Saffioti, 1994).

majoritariamente, direcionado às mulheres e às crianças, o espaço conquistado no contexto comunitário é, muitas vezes, marcado por contradições, pois as interdições e proibições para que participem plenamente de outras instâncias, confronta-se com sua condição de guardiã da vida e da saúde comunitárias.

Em verdade, às mulheres cabe cuidar da reprodução material; seus fazeres estão, portanto, circunscritos ao interior da casa. Mesmo quando inseridas em tarefas ligadas à esfera produtiva, as mulheres não participam da totalidade do processo, estando inseridas em atividade subsidiárias e de menor relevância, no âmbito da agricultura familiar. Seguindo a mesma via de análise de Motta-Maués (1994) observo que o lugar de sujeição destinado às mulheres é fundado em uma ambigüidade que ora a apresenta como fonte de vida (capaz de gerar e dá a luz) ora como fonte de morte (portadora de força destruidora e de poder).

Nesta pesquisa confronto-me com uma contradição essencial: as mulheres, no contexto das comunidades tradicionais, ocupam um lugar social subalterno. Esse lugar de subalternidade é referendado por crenças e rituais que opõem os papéis sociais e sexuais de homens e mulheres e naturalizam a condição de inferioridade das mulheres e o protagonismo do masculino. Essa reflexão centra-se em constatações empíricas e analíticas. Ao mesmo tempo, compreendo que as mulheres amazônidas, particularmente as parteiras, vêm construindo espaços de resistência, campos de lutas, fissuras que se contrapõem a essa lógica.

Os esforços de ruptura com os elementos de sujeição, construídos no seio da ordem societária estão relacionados com a organização dos saberes e fazeres das mulheres no contexto da vida comunitária. No caso das parteiras tradicionais ouso dizer que em determinados contextos essas mulheres atuam como guardiãs da memória coletiva, portadoras de um legado de valores que funda concepções de mundo e orientam a relação com a natureza, particularmente com a biodiversidade amazônica.

3.3. Mulheres-Parteiras no Redesenho de Perfis sob a Inspiração da Flora Amazônica: