2. STRATEGISK ANALYSE
2.5 PESTEL - ANALYSE
O Amapá, assim como a Amazônia, é para a maioria do povo brasileiro um cenário desconhecido. Do lugar, sabe-se muito pouco, talvez o que reproduzem as lendas ou as manchetes televisivas, que o descrevem como espaço inóspito, povoado por animais exóticos e com rara presença humana. Esse desconhecimento é fruto, em parte, do isolamento
38 Um aspecto relevante a ser considerado no processo de fortalecimento dos movimentos sociais ambientalista
na Amazônia é que eles se consolidam num momento histórico em que cresce a convicção de que biodiversidade
poderia ser uma grande fonte de lucros. Assim, o desmatamento e a queimada de florestas para o estabelecimento de uma agricultura sem futuro forma denunciados como a pior maneira de desenvolvimento, e a preservação das florestas aparece como uma estratégia para garantir um uso futuro com tecnologias de ponta
FATHEUER, Thomas W. Desenvolvimento Sustentável na Amazônia? In: Cadernos de Proposta: o Futuro da Amazônia em Questão. Nº 77 Julho/Agosto de 1998, FASE.
geográfico que torna o Estado do Amapá acessível somente por via fluvial ou aérea. Deve-se, sobretudo, à hegemonia de uma cultura responsável pela difusão e consolidação no imaginário nacional, da idéia de que as grandes cidades são, por excelência, o lugar da sociabilidade moderna, decretando que todos os cenários que escapam a essa constituição são selvagens e destituídos de condições necessárias à vida humana.
Esse pedaço do Brasil - onde encontrei os elementos empíricos que fizeram germinar as reflexões que conduziram a investigação sobre as parteiras da floresta - revela-se substancialmente diferente dessa imagem estereotipada. O Amapá é um lugar de rara beleza cênica e com particularidades que o tornam singular no contexto amazônico. Localizado no extremo norte do Brasil, este Estado ocupa uma área de 140.276 km2, o que corresponde a aproximadamente a 3,6% da região norte. Nesta área vivem aproximadamente seiscentos mil habitantes, 75% concentrados nas duas maiores cidades, Macapá e Santana. Possui fronteira com o Estado do Pará, o Suriname e a Guiana Francesa. A riqueza de seus ecossistemas naturais é resultado da inserção em dois domínios geográficos diferenciados: o amazônico e o oceânico.
Em sua parte interna predomina um relevo ondulado, constituído por rochas cristalinas com densa cobertura florestal e na região costeira encontram-se planícies que percorrem sua parte leste do lado do Atlântico até o sul, no rio Amazonas. Macapá, a capital, é banhada pelo rio Amazonas – o rio mar - e cortada pela linha do equador, marco zero do planeta.
Segundo dados dos organismos oficiais, o Estado possui elevandos índices de preservação de seus ecossistemas. De fato, cerca de 80% de sua área permanece intocada. Em parte a preservação dos ecossistemas amapaenses deve-se à criação de áreas de proteção ambiental, a exemplo da: Reserva Florestal do Tumucumaque (1961); Parque Nacional Indígena do Tumucumaque (1968); Parque Nacional do Tumucumaque é redenominado para Parque Indígena do Tumucumaque (1978); Parque Nacional do Cabo Orange (1980); Reserva Biológica do Lago Piratuba (1980); Estação Ecológica Maracá-Jipioca (1981); Demarcação da Reserva Indígena dos Galibis (1982); Estação Ecológica do Jari (1982); Reserva Biológica da Fazendinha (1984); Estação Ecológica da Ilha do Parazinho (1985); Floresta Nacional do Amapá (1989); Reserva Extrativista do Rio Cajari (1990); Reserva Indígena dos Uaçã (1991); Demarcação da Reserva Indígena do Juminá (1992); Área de Proteção Ambiental do Curiaú (1992); Demarcação da Reserva Indígena Parque do Tumucumaque (1997); Criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru (1997); Revisão da criação da
Área de Proteção Ambiental do Curiaú (1998); Criação do Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque (2002).
A expressiva área preservada, principalmente aquela que compreende as terras de preservação ambiental de uso direto, representa maiores possibilidades para a implementação de programas e projetos de uso racional dos recursos da biodiversidade local. Aliada às riquezas naturais e aos aspectos geoambientais - marcas da riqueza do Estado, o Amapá possui expressiva diversidade sócio-cultural.
A formação social e cultural do Amapá tem predominância das presenças negras, que corresponde a cerca de 68% da população do Estado, e dos povos indígenas de seis etnias diferentes. A significativa contribuição da população negra para a formação social e cultural do Estado pode ser encontrada nas mais diferentes áreas. Um expressivo exemplo disso pode ser encontrado na Capital, Macapá, onde está localizado o bairro do Laguinho, conhecido como o bairro negro da cidade. No laguinho foi construído o Centro de Cultura Negra, administrado pela União dos Negros do Amapá – UMA. O Centro foi construído no “coração” do Laguinho, na área onde se situava a Praça Azevedo Costa.
Neste bairro encontra-se, também, a Universidade do Samba Boêmios do Laguinho – uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade – que reune poetas e boêmios. Essa área da cidade é conhecida com o reduto da cultura negra, território do Marabaixo e do encontro dos tambores. Esse encontro é realizado todo ano, no mês de novembro pela União dos Negros do Amapá – UNA, durante a Semana da Consciência Negra quando é comemorada a imortalidade de Zumbi dos Palmares. O encontro dos tambores reúne grupos de marabaixo, batuque e zimba – ritmos musicais locais cujas origens são atribuídas às populações negras, com forte influencia da música caribenha e das guianas.
Nas proximidades de Macapá, está localizado o Quilombo do Curiaú – comunidade remanescente de quilombo, que teve suas origens reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares, organismo do governo brasileiro responsável pela política de proteção das chamadas “terras de preto”. Esta pequena comunidade remanescente é o centro das manifestações culturais de origem negra do Estado. Ali são realizadas inúmeras festas religiosas durante o ano, que reúnem moradores de Macapá e de outras comunidades negras que se reconhecem com remanescentes, dentre elas destacam-se: Cunani, Macacoari, Maruanun, Carvão, Abacate da Pedreira, Ilha do Mel, Lagoa Redonda, Lagoa dos Índios e Mazagão Velho.
Compondo o mosaico da formação étnica/racial do Estado, estão as nações indígenas Karipuna, Waiãpi, Galibis, Tiriós, Aparai-Wauãna e Paliku. Estas etnias indígenas
estão distribuídas em três municípios – Oiapoque, Amapari e Laranjal do Jarí – correspondendo a aproximadamente a 5.200 pessoas. As populações indígenas do Amapá têm seus territórios – que correspondem a 11% da área total do Estado - demarcados e homologados39.
A riqueza da sócio-diversidade da formação social amapaense torna-se alvo de debates, reflexões e ações do poder público nos anos de 1990. As mudanças políticas vivenciadas no Estado, a partir deste período, possibilitará o debate sobre essa questão, estimulando estratégias de recomposição da contribuição de cada segmento étnico/racial para a formação da sociedade local. Esse processo faz parte da tentativa de construção da identidade do Estado, cujas origens são fortemente marcadas por ciclos migratórios.
De fato, a diversidade da formação social e populacional do Estado torna-se mais complexa, com o aumento do fluxo migratório ocorrido após a criação da Zona de Livre Comércio de Macapá e Santana, no inicio de 1990. A partir deste período, o Estado experimenta as maiores taxas de crescimento populacional do país, atingindo nível de 5,4% ao ano. Nesta onda migratória, aportam no Amapá pessoas vindas, principalmente, dos Estados do Pará, do Maranhão e do Ceará. No Amapá convivem, hoje, povos de diferentes origens e formação cultural num processo permeado por contradições, disputas e sínteses na construção da identidade local. Esse processo reclama reflexões e análise que devem constituir-se objetos de outros estudos.