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O curto-circuito entre a hipótese de Schaudinn, as pesquisas sobre a doença de Weil e a febre amarela foi «fechado» por Hideyo Noguchi em 1918, no Equador. Para entendermos como chegou lá, precisamos dar alguns passos atrás.

Ao mesmo tempo em que amadureciam as investigações sobre aquela doença ictérica que grassava entre os mineiros e agricultores japoneses e os soldados europeus cristalizava-se nos Estados Unidos a decisão de er- radicar da face da Terra a febre amarela. O modo de transmissão parecia totalmente esclarecido. Uma estratégia relativamente simples e eficaz po- deria ser replicada em qualquer lugar do mundo. O programa da Funda- ção Rockefeller para a febre amarela foi sacramentado justo quando eclo- dia a Primeira Guerra Mundial.

As autoridades britânicas e asiáticas estavam preocupadas com a pos- sibilidade da doença invadir o Extremo Oriente pelo canal do Panamá, inaugurado em 15 de agosto de 1914. A Ásia tropical mantivera-se livre dela, mas parecia reunir todas as condições para uma epidemia se fosse conectada ao Caribe (Cueto 1996, 188). Depois de uma viagem ao Orien - te, Wickliffe Rose, diretor-geral da Comissão Sanitária Internacional, reu- niu-se com o general William C. Gorgas, já consagrado como o «conquis- tador» da febre amarela em Havana e no Panamá. Rose consultou também Henry Rose Carter e Joseph H. White, médicos do Serviço de Saúde Pú- blica dos Estados Unidos, antes de apresentar, em agosto de 1914, o plano intitulado «Yellow Fever: Feasibility of its Eradication» (Cueto 1994, xix).

A teoria dos centros ou focos-chave, base desse plano, nortearia os trabalhos da Rockefeller em diversos países até 1932, quando esse para- digma, já em crise, entrou em colapso.16Supunha-se que era viável erra- 16As principais referências a esse respeito são Cueto (1992; 1994; 1995; 1996), Wil-

liams (1994), Löwy (1997a; 1997b; 1999; 2001), Benchimol (2001) e Benchimol e Sá (2005). Médicos que foram atores importantes da campanha legaram-nos clássicos: Carter (1931), Strode (1951) e Franco (1969).

dicar a febre amarela eliminando-se os locais em que procriava o Stego- myia fasciata (Aedes aegypti), considerado o único vetor, e somente em al- guns centros endêmicos — as sementeiras das epidemias que se propaga- vam a outras aglomerações do litoral e do interior. Aqueles poucos focos requeriam constante suprimento de não imunes para manter a infecção dos mosquitos, pelo nascimento de crianças e pela chegada de negocian- tes e turistas. «Existem atualmente apenas cinco ou seis focos endêmicos, e só eles necessitam de atenção», afirmou Rose.17Não seria necessário

eliminar o Stegomyia fasciata, que só se reproduzia nas proximidades das habitações humanas; bastaria reduzir o índice de infestação a um patamar igual ou inferior a cinco, isto é, larvas do mosquito em, no máximo, 5% das casas visitadas. A febre amarela extinguir-se-ia, então, espontanea- mente, tanto na aglomeração urbana expurgada como nas áreas menos povoadas do interior.

Em 1916 uma comissão chefiada por Gorgas iniciou a identificação dos focos-chave: na primeira viagem,18em junho, visitou Equador, Peru,

Colômbia e Venezuela. Na segunda, iniciada em outubro, estudou a si- tuação das Antilhas e da costa oriental do Brasil. O plano elaborado pela comissão Gorgas consistia em eliminar a febre amarela em Guayaquil, o porto mais importante do Equador, considerado a principal sementeira da infecção na América do Sul; manter sob observação a costa oriental do Brasil e o litoral sul do mar do Caribe; estender a investigação ao Mé- xico e à África ocidental; e desenvolver trabalhos de controle em qual- quer outro centro-chave que viesse a ser identificado.19

Em 23 de janeiro de 1917, a Junta Sanitária Internacional nomeou Gorgas diretor da Campanha de Erradicação da Febre Amarela, que teria começado imediatamente, não fosse o ingresso dos Estados Unidos na guerra, em 6 de abril.20 Em 1918, pouco tempo antes do armistício

(11.11.1918), a Rockefeller enviou a Guayaquil outra comissão com a in- cumbência de investigar aspectos ainda obscuros da febre amarela, so-

17Rose, W. R. «Unpublished Memorandum», n. 748, Oct. 27, 1914. Citado em Sawyer

1937, 35-36.

18Além de Gorgas e Carter, faziam parte da comissão Juan Guiteras Gener, os majores

Theodore Charles Lyster e Eugene R. Whitmore (patologista) e William D. Wrightson (engenheiro sanitário).

19The Rockefeller Foundation, Annual Report (1916, 70), Sawyer (1937, 37) e Cueto

(1992, 2).

20A Comissão Sanitária Internacional, criada em 1913, deu lugar à Junta Sanitária

Internacional ou International Health Board (IHB) em 1916, e esta, em 1927, transfor- mou-se em Divisão Sanitária Internacional, sabendo-se que os três organismos estavam ligados à Fundação Rockefeller.

bretudo a etiologia e o diagnóstico, «extremamente difícil». Chefiava a comissão o patologista Arthur Isaac Kendall, da Escola de Medicina da Norhwestern University, em Chicago, de onde provinham também Charles A. Elliot, presidente da American Social Hygiene Association, e Herman Edmond Redenbaugh. O quarto membro era Mario García-Le- bredo Arango, médico do Hospital Las Animas e diretor do Laboratório de Pesquisa em Saúde em Havana.

Tanto Gorgas como Flexner endossavam a hipótese de que a febre amarela era causada por um espiroqueta (Eckstein 1931, 269; Plesset 1980, 178-179). Não surpreende, portanto, que Noguchi tenha sido chamado a fazer parte da expedição. Em Guayaquil eram abundantes os casos de febre amarela, e já no dia seguinte ao de sua chegada (15 de julho de 1918), Noguchi transferia sangue de pacientes para as cobaias que trouxera de Nova York. Uma semana depois mostrava a Kendall o espiroqueta encon- trado no sangue da doente Asunción Arias.22Em 17 de agosto, Noguchi

comunicou a Flexner que soro imune a três diferentes cepas do Leptospira icterohaemorragiae protegiam os animais inoculados contra o espiroqueta isolado em Guayaquil, indiscutivelmente um Leptospira também. Ainda assim, nos animais de experiência produzia doença com as características da febre amarela humana. Em setembro, com culturas puras daquele Lep- tospira, Noguchi preparava um soro imune específico.23

A princípio não havia apenas incerteza quanto à identidade dos espi- roquetas de Inada e de Noguchi: cogitava-se na possibilidade de que ic- terícia infecciosa e febre amarela fossem modalidades de uma só patolo- gia. Charles A. Elliot escreveu: «A febre amarela verificada em Guayaquil não parece diferir em nenhum aspecto essencial da icterícia infecciosa descrita no Japão e em Flandres; as diferenças parecem ser mais de grau do que de gênero». Admitia, em consequência, a rota transdérmica como meio de transmissão alternativo ao mosquito.24

Ao regressar aos Estados Unidos, em 27 de outubro de 1918, Noguchi julgava ter diferenciado imunologicamente os Leptospira da febre amarela

21«Não têm havido sintomas definidos, grupo de sintomas nem testes de laboratório

que possam ser aceitos como conclusivos. Até mesmo as evidências obtidas por comissões competentes não têm sido capazes em todos os casos de dissipar uma dúvida honesta». The Rockefeller Foundation, Annual Report (1918, 83).

22A referência ao nome da doente consta em Rodolfo Pérez Pimentel, «Hideyo No-

guchi».

23Carta de Noguchi a Flexner de 2.9.1918. Referido em Plesset (1980, 183). 24Charles A. Elliot, Report on the Clinical Manifestations of Yellow Fever as Seen at

Guayaquil, Ecuador. The Rockefeller Foundation Archives. Citado em Plesset (1980, 181- -182).

e da icterícia infecciosa. O primeiro era de fato filtrável, mas apresentava formas visíveis no microscópio de campo escuro. As experiências de transmissão a animais, sobretudo ao porquinho-da-índia, mostravam que eram diferentes também as propriedades patogênicas dos dois micro-or- ganismos. Consta que Noguchi chegou a testar uma vacina em cerca de 700 soldados equatorianos.

Quando afinal começou, em 25 de novembro, a campanha da Roc- kefeller naquele país, sob a direção de Michael Edward Connor, todos os aspectos biomédicos da febre amarela pareciam «cientificamente equa- cionados» (Cueto 1992, 2-3). O resultado da campanha foi considerado «espetacular» (Sawyer 1937, 40-41).

A escolha das áreas que seriam alvo das campanhas subsequentes só, em parte, se baseou no mapeamento feito em 1916-1917. A irrupção de surtos suspeitos nas costas centro e sul-americanas do Pacífico e do Atlân- tico levou ao prolongamento dos inquéritos, associando agora os critérios clínico e epidemiológico à identificação do suposto agente patogênico da doença.

A reação das populações às campanhas variou de região a região, con- forme a correlação conjuntural entre as forças políticas, a conjuntura eco- nômica, a maior ou menor solidez de tradições médicas locais e também a habilidade dos dirigentes da Junta Sanitária Internacional de estabelecer parcerias e negociar alianças. A prioridade foi sempre o combate às larvas do mosquito transmissor, mas em várias localidades foram feitas conces- sões a métodos que os norte-americanos consideravam ineficazes, em es- pecial as fumigações nos prédios para matar mosquitos adultos. E uma nova diretriz foi associada à viga mestra das campanhas: a proteção de contingentes humanos através do soro e da vacina desenvolvidos por Noguchi (Sawyer 1937, 42).

Joseph H. White atuou na Guatemala de junho a dezembro de 1918 (Sawyer 1937, 41-42). No ano seguinte a febre amarela foi identificada em Honduras, San Salvador, México, Peru e Brasil. Surtos ressurgiram em 1920 na América Central – ainda San Salvador, Guatemala, Honduras e agora também Nicarágua. O coronel Theodore C. Lyster assumiu a su- pervisão dos trabalhos nesses países, e também no México. Os acordos de cooperação com os serviços sanitários ou comissões dos governos lo- cais começaram a ser implementados em janeiro de 1921.

No México a Fundação Rockefeller interveio numa conjuntura de grande instabilidade econômica e política, quando o país emergia de guerra civil prolongada e sangrenta que teve início em 1910, quando for- ças populares lideradas por Emiliano Zapata, Pancho Villa, Venustiano

Carranza, entre outros, pegaram em armas contra o governo de Porfirio Diaz. A campanha contra a febre amarela visou principalmente às duas províncias consideradas antigos focos endêmicos no continente – Yucatán e Vera Cruz — onde as relações entre nativos e norte-americanos tiveram a princípio sentidos antagônicos (Solorzano 1994; Birn 1996; Carrillo 2008). No Peru, a campanha estudada por Marcos Cueto apresentou con- figuração quase oposta à mexicana, com características muito autoritárias na intervenção «de cima para baixo» (Cueto 1992). No início de 1922 es- tava controlada a situação em todas as cidades ao norte do departamento de Lima, retirando-se do Peru a Junta Sanitária Internacional. Na avaliação de seus dirigentes a costa oriental da América do Sul, dos Andes até o mar achava-se praticamente livre da febre amarela (Sawyer 1937, 43).