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Em 1917, depois de completar o curso médico na Faculdade de Me- dicina do Rio de Janeiro, Francisco Borges Vieira foi convidado a ser pre- parador da cadeira de higiene e medicina preventiva da faculdade pau- lista, inaugurada somente em 1913. Para reger a cadeira o governo do estado havia contratado Samuel Taylor Darling, experiente sanitarista li- gado à Fundação Rockefeller.28Geraldo Horacio de Paula Souza foi no-

meado assistente de Darling. Logo em seguida, Borges Vieira e Paula

28O governo do estado contratou outros especialistas estrangeiros para o primeiro

provimento das cadeiras: da Itália vieram Donati, Bovero e Carini; da França, Lambert- -Meyer e Brumpt (Santos 1975).

Souza embarcaram para os Estados Unidos para fazer estudos de espe- cialização na Johns Hopkins University, em Baltimore. Com recursos da Fundação Rockefeller, fora inaugurada lá, naquele mesmo ano, a School of Hygiene and Public Health, que Borges Vieira cursaria de março de 1918 ao final de 1920. Antes de regressar fez estágio no laboratório de Noguchi, no The Rockefeller Institute for Medical Research. No Instituto de Higiene, então anexo à cadeira de higiene na Faculdade de Medicina de São Paulo, Borges Vieira reassumiu suas obrigações como preparador. Recebeu então de Noguchi 200cc de vacina e 500cc. de soro anti-icteroi- des.29

Em abril de 1921 a imprensa baiana noticiou a ocorrência de febre amarela na zona servida pela Estrada de Ferro de Nazareth. Duzentos quilômetros separavam esta cidade litorânea, ao sul de Salvador, da esta- ção terminal, Jaguaquara, uma das «portas do sertão», com cerca de três mil habitantes e «grande percentagem de elementos de cor» (Borges Vieira 1922, 62). A colônia estrangeira em toda a zona era formada por uma centena de italianos que se dedicavam ao comércio. O uso de «porrões», grandes recipientes de barro para armazenamento de água potável e o costume de cercar as plantas com água depositada em cacos de telhas, para protegê-las de formigas, favoreciam a multiplicação dos mosquitos responsáveis pela transmissão da febre amarela e da malária, também muito comum na região. Tanto que, ao irromperem os primeiros casos, em novembro de 1920, foi oficialmente declarado tratar-se de «febre pa- lúdico-biliosa». Outras doenças prevalentes na região eram verminoses (em especial ancilostomíase), tuberculose, leishmaniose e sífilis.

Como persistisse a epidemia Carlos Chagas, diretor do recém-criado Departamento Nacional de Saúde Pública, convidou o médico paulista para ir à Bahia tentar isolar o micro-organismo incriminado por Noguchi. Borges Vieira desembarcou em Jaguaquara em 3 de maio de 1921. Suas indagações mostraram que desde 1898 vinham ocorrendo naquela zona e em quase todo o interior da Bahia surtos diagnosticados como febre remitente biliosa, palúdico-biliosa, febre álgida etc., não obstante os sin- tomas principais fossem vômito preto e anúria. Quando chegou Borges Vieira, o Serviço Federal de Profilaxia Rural no Estado da Bahia, chefiado por Sebastião Barroso, ainda fazia trabalhos de profilaxia, e os casos ra- reavam. Era difícil coligir dados seguros porque a doença apresentava em geral caráter benigno, o povo só comunicava os casos graves, muita gente

29CMSP/Rb: «Memorial» e Curriculum vitae de Borges Vieira; CMSP/Co: Noguchi

era enterrada sem atestado de óbito, decorrendo a doença em geral sem assistência.

«Creio, no entanto, que será possível isolar o leptospira a partir desses casos tênues», escreveu Wilson G. Smillie, sucessor de Darling na cátedra e na direção do Instituto de Higiene, em 17 de maio. Nesta carta a Borges Vieira lê-se ainda: «Espero que tenha também oportunidade de testar os efeitos da vacina. Acredito porém que seria melhor conservar esse mate- rial em reserva por algum tempo até que venha a encontrar uma área em que a doença esteja mais disseminada».30

Durante os três meses que permaneceu na região Borges Vieira só con- seguiu examinar dez doentes. Com o auxílio de outros médicos pôde re- constituir a história de mais 25. Chegaria à conclusão de que, de dezem- bro de 1920 a julho de 1921, o índice de mortalidade fora de cerca de 15% (70 mortes) para o total de quatrocentos casos.

Clinicamente parece não haver dúvida tratar-se da febre amarela. A hipótese da malária, sustentada a princípio por alguns clínicos locais [...] não é viável. Não somente os exames de sangue para hematozoários foram sempre negativos, como os doentes se restabeleciam sem tomar a menor dose de quinino. A grande maioria dos casos, os casos benignos, foram mesmo tratados em casa, sem assistência médica, apenas com um purgativo de óleo de rícino. (Borges Vieira 1922, 64-65)

Para afastar a hipótese de paludismo, generalizado na região, tivera o cuidado também de verificar o baço dos doentes; a ausência desse sinal clínico foi usado para descartar a doença de Weil, pois o baço também era comprometido nessa doença ictérica, ao passo que na febre amarela permanecia normal. Borges Vieira não tinha à mão culturas de L. ictero- hemorrhagiae «a fim de proceder com elas ao fenômeno de Pfeiffer, do mesmo modo que experimentei com o Leptospira icteroides» (Borges Vieira 1922, 65).

Nessas experiências, contou com a ajuda de um clínico local, o dr. André Lyrio: além de conseguir-lhe cobaias e coelhos, tinha pacientes, parentes e conhecidos na região, o que lhe permitia manter Borges Vieira informado do aparecimento de casos suspeitos, facilitando o acesso a eles, quando necessário. Consciente da dificuldade para necropsiar ca- dáveres, Lyrio apressa-se, por exemplo, a avisá-lo da morte por febre ama- rela do guarda da uma estação ferroviária: nele seria «fácil fazermos a au- tópsia».31

30CMSP/Co: Smillie a Borges Vieira, 9.6.1921 e 17.5.1921. 31CMSP/Co: Lyrio a Borges Vieira, 7.6.21, 26.5.1921 e 30.5.21.

Borges Vieira divide o relato de suas pesquisas em três partes: tentati- vas de isolar o Leptospira icteroides; fenômenos de Pfeiffer e experiências com vacina e soro. Examinou ao todo 10 doentes e colheu material de sete (os outros já convalesciam): três estavam no quarto dia, outros três, no quinto, o sétimo caso forneceu sangue no segundo e quarto dias e teve desenlace fatal, mas o médico paulista não pôde autopsiá-lo porque a família não permitiu. Nem uma só vez conseguiu surpreender o micro- -organismo descrito por Noguchi.

Após alguns dias de cultivo à temperatura ambiente o sangue era ino- culado em mais duas ou três cobaias. Nenhuma se apresentou ictérica ou mostrou à autopsia aqueles sinais típicos de infecção pelo Leptospira icteroides que se habituara a ver no Instituto de Higiene de São Paulo ao usar as culturas virulentas que trouxera do laboratório de Noguchi.

Concomitantemente, Borges Vieira inoculava meios de cultura e pro- curava isolar aí o micro-organismo, mas sem sucesso. Igualmente infru- tíferas foram as experiências com o soro de indivíduos convalescentes ou que recentemente tinham tido a infecção. As sete reações de Pfeiffer feitas deram resultado negativo.

Borges Vieira trouxera doses de vacina e soro anti-icteroides, e quando já se achava na Bahia, chegou nova remessa dos Estados Unidos – vacina para 2.500 pessoas e soro para cem.32Como deparou com número limi-

tado de casos, quase todos benignos, reservou o material para ocasião mais propícia. Ainda assim, não recusou a vacina àqueles que se ofere- ciam, sobretudo médicos ou empregados no serviço de profilaxia. Prati- cou 17 vacinações. O soro só foi usado uma vez, numa menina de dez anos, já em anúria, no 16.º dia de doença. A injeção foi feita a pedido do tio, um médico que não esperava benefício da medicação devido à gra- vidade do estado da paciente, que faleceu três dias depois.

As conclusões de Borges Vieira foram assim desfavoráveis a Noguchi, mas vinham calçadas em ressalvas que deixavam entrever a expectativa de que o célebre bacteriologista pudesse ainda ter razão. Os resultados negativos podiam ser atribuídos à inexistência da febre amarela na região, mas isso parecia improvável. Seu agente causal não era o Leptospira de Noguchi, «o que não deixa de ser plausível, não pelo fato de não haver eu sucedido no seu isolamento [...], mas pelo motivo do Leptospiora icte- roides se conservar indiferente quando posto em contato com o soro de indivíduos que haviam recentemente sofrido um ataque do mal» (Borges Vieira 1922, 72).

Borges Vieira, no entanto, apresentava uma terceira hipótese: come- tera algum erro técnico ou não conseguira isolar o micro-organismo de- vido a condições desfavoráveis.

Em sua tese de doutoramento Cavalcanti atribuiria também os insu- cessos das pesquisas efetuadas pelos brasileiros, até então, às «dificuldades da técnica especial exigida no estudo dos espiroquetas, pois como é sa- bido a inobservância de um pequeno detalhe [...] ocasiona muitas vezes o fracasso de uma experimentação iniciada sob os melhores auspícios» (1921, 13). Borges Vieira especulava se não seriam as cobaias nacionais, pois no Peru Noguchi observara que aquelas trazidas dos Estados Unidos mais facilmente se deixavam infectar que as nativas, mais resistentes. Pro- punha assim que se importassem cobaias quando se tentasse mais uma vez o isolamento do Leptospira icteroides no Brasil. «Se se me oferecer opor- tunidade de, mais uma vez, tentar trabalho semelhante, com prazer e cu- riosidade o farei. Procurarei todavia ir mais cedo ao campo de pesquisas, a fim de encontrar material abundante, tendo o cuidado de empregar para as inoculações animais importados e proceder ao Pfeiffer com cul- turas virulentas, a fim de observar bem o poder protetivo do soro dos imunes sobre o Leptospira» (Borges Vieira 1922, 72).

Na conferência que proferiu na Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 9 de agosto de 1921, Borges Vieira chegou a defender a sua inoculação experimental in anima nobile. Seus ouvintes puderam ver ao ultramicroscópio o Leptospira icteroides de Noguchi vivo.

A Rockefeller volta-se para a febre amarela