Nesse pé estavam suas investigações quando irrompeu epidemia de febre amarela em Yucatán, em finais de 1919. Lebredo foi para Mérida, sua capital, e não encontrou Leptospira algum. Noguchi partiu em de- zembro, uma semana depois de seu auxiliar Israel J. Kliger. Fizeram cul- turas, inocularam cobaias e conseguiram recuperar o L. icteroides (Noguchi 1920). Em 12 de março de 1920 Kliger desembarcou em Paita, porto da região peruana de Piura, onde grassavam a febre amarela e a peste bubô- nica. Duas semanas depois escreveu a Flexner informando que o trabalho ia mal, nenhuma cobaia desenvolvera a doença, muitas morriam de causa desconhecida. Culpava-se por haver subestimado as más condições do lugar e a delicadeza do trabalho. Em 5 de maio, nas docas de Paita, de- sembarcavam Noguchi e sua volumosa bagagem, que incluía trezentos porquinhos-da-índia. «Mais uma vez», observa Plesset, «a experiência, persistência e habilidade de Noguchi nesse tipo de trabalho levava a re- sultados positivos onde outros haviam fracassado» (1980, 199).
Após o regresso a Nova York, em junho de 1920, ele despachou soro e vacina para o Peru. Em junho do ano anterior enviara ao Equador va- cinas suficientes para imunizar 1.250 pessoas (Plesset 1980, 190; 202).
No começo de 1919 o diretor do hospital de febre amarela de Guaya- quil esteve no Instituto Rockefeller, em Nova York, para ser treinado no uso daqueles imunobiológicos. O mais dedicado colaborador de Nogu- chi no Equador, o poeta e médico Wenceslao Pareja y Pareja25foi incor-
porado a outra comissão médica da Fundação Rockefeller, enviada à América Central em setembro de 1919 para verificar se era de fato aquela a doença reinante na região. Levava cerca de dois litros de soro imune de cavalo e cultura morta em quantidade suficiente para vacinar 500 pes- soas (Plesset 1980, 191). O médico equatoriano acompanhou os generais William Gorgas e Theodore C. Lyster a El Salvador, Honduras, Nicarágua
e em seguida à península de Yucatán, no México, encarregando-se de fazer conferências e de redigir propaganda em espanhol.
Observações feitas por Pareja sobre o uso do soro de Noguchi na América Central foram divulgadas no Brasil em A Folha Medica, em no- vembro de 1920. O autor do artigo era Antonio Luiz de Barros Barreto, do Instituto Oswaldo Cruz (Barreto 1920). Fora designado pelo superin- tendente das recém-criadas Comissões Sanitárias Federais no Norte do Brasil, dr. João Pedro de Albuquerque, para acompanhar Pareja e Lyster numa expedição ao Nordeste, onde grassava doença febril classificada localmente como «febre de mau caráter», «febre do sertão», etc.
Em finais de 1919, antes dessa viagem, Barreto inspecionara um mu- nicípio de Pernambuco. Adestrado num instituto de pesquisa que cons- truíra sua reputação em medicina tropical, conduziu o inquérito atento a transmissores e manifestações de outras doenças – nos rebanhos da re- gião, febre aftosa, carbúnculos verdadeiro e sintomático, e nos humanos, doença de Chagas, malária e esquistossomose, em grande evidência, então. Em sintonia com os trabalhos recém-publicados por Adolpho Lutz sobre a evolução do Schistosoma mansoni,26Barros Barreto coletou
todo caramujo suspeito de hospedar o parasita. As informações obtidas no interior de Pernambuco sugeriam febre amarela, mas Barros Barreto não afirmava categoricamente isso porque já não encontrara doentes nem conseguira autopsiar cadáver algum.
De 18 de março a 17 de abril de 1920 Barros Barreto, Lyster e Wen- ceslao Pareja percorreram os municípios de Ribeirão e Barreiros, em Per- nambuco; Salvador, na Bahia; Aracaju, Maroim, Riachuelo e Laranjeiras, em Sergipe; e Maceió, Vitória, Palmeira dos Índios e Olhos d’Água do Accioly, em Alagoas. Eram as mais contraditórias as informações sobre as febres locais fornecidas pelos clínicos dessas localidades e pelos médi- cos das comissões sanitárias recém-constituídas nas capitais do Nordeste brasileiro.
O inquérito foi mais bem-sucedido em Olhos d’Água do Accioly, onde conseguiram examinar mais de trinta doentes. No limiar do sertão alagoano o povoado tinha cerca de duzentas casas pequenas e mil habi- tantes. O nome se devia a numerosos olhos d’água que atraíam impalu- dados e outros doentes da região, considerando-se mais rápida a conva- lescença naquele clima seco e ameno.
Barros Barretos, Lyster e Pareja verificaram que 30% das habitações tinham Stegomyia. Vinte dias após a chegada àquela povoação (9.4.1920),
Barros Barreto redigia o relatório a Albuquerque, superintendente das Comissões Sanitárias Federais no Norte do Brasil, com descrição de 25 casos de febre amarela e o protocolo de uma necropsia realizada por Pa- reja (Barreto 1921).
A hipótese de paludismo defendida por muitos clínicos fora descar- tada pela pesquisa negativa do hematozoário em vários doentes, pela au- sência de anofelinos e pelo fato de os sais de quinino não modificarem a evolução do mal. A hipótese de icterícia hemorrágica fora também afas- tada em vista do curto período da doença, sua alta letalidade, bem como pelo resultado negativo da pesquisa de espiroquetas na urina e da ausên- cia de reação em cobaias então inoculadas.
A ocorrência de febre amarela era considerada absurda por muitos observadores pois ela não se «acantoaria» em município tão distante do litoral (Barreto 1921, 206). Redarguia Barros Barreto que o transporte por ferrovias realizava-se em tempo curto relativamente ao período de incu- bação da doença (três a seis dias, em média). O indivíduo picado por mosquito infectante em Maceió podia manifestar os primeiros sintomas em Olhos d’Água do Accioly. No relatório de Barros Barreto consta de- poimento de Pareja: «Na investigação que vi o senhor praticar em busca do germe da enfermidade, me consta que seguiu o mais meticulosamente possível os detalhes técnicos aconselhados pelo sábio dr. Hideyo Noguchi quando descobriu em minha presença o germe denominado por ele Lep- tospira icteroides» (Barreto 1921, 243).
Durante as duas semanas que permaneceram no povoado de Alagoas, seis casos entre os mais graves foram selecionados para as primeiras ex- periências feitas no Brasil com o soro de Noguchi. Foram testemunhadas por um estudante alagoano, Edison Pitombo Cavalcanti, que transfor- mou aquela experiência no tema de sua tese de doutoramento submetida à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1921.
O soro teria salvo apenas três doentes. No artigo publicado em A Folha Médica, Barreto concluía: «o total de casos tratados era pequeno e não autorizava afirmar «absoluta» a eficácia do processo terapêutico, que só parecia funcionar até o terceiro dia de doença» (Barreto 1920, 153).
Cavalcanti relata em detalhes os seis casos e outros tratados em Ala- goas, em 1920. Reproduz também dados publicados no Journal of the American Medical Association relativos ao período 1919-1920.27Assim, em
sua tese de doutoramento, aludia a 194 pessoas submetidas ao soro de
27Os dados publicados no volume 75 (n.24:1, 660) e no volume 77 (n.3, 182) do
Noguchi, sendo 119 no México, quatro no Peru, 47 na América Central e 24 em Alagoas, Brasil (Cavalcanti 1921, 32). As experiências pareciam apenas promissoras. O jovem alagoano iniciava a tese com o seguinte comentário: «o protozoário de Noguchi não está ainda definitivamente aceito pelos estudiosos [...]. Não vai nisso irreverência alguma ao sábio nipônico, conhecedor como ninguém da biologia dos espiroquetas e pos- suidor, como é sabido, da técnica mais sutil e aperfeiçoada, perfeição até hoje não atingida por nenhum dos protozoologistas universalmente con- sagrados» (Cavalcanti 1921, 11-12).
Na mente daquele doutorando e, possivelmente, na de muitos outros médicos brasileiros repercutiram favoravelmente as confirmações que Noguchi e Kliger acabavam de obter no México e no Peru. Em 1921 Perez Grovas e T. J. Le Blanc, do Instituto Rockefeller, obtiveram inde- pendentemente, em Vera Cruz, culturas puras do L. icteroides. As expe- riências de Julio César Gastiaburú, diretor do Instituto Municipal de Hi- giene de Lima, o teriam levado a declarar-se «francamente favorável às idéias de Noguchi» (Cavalcanti 1921, 13). Para Cavalcanti as incertezas deviam--se primeiramente aos trabalhos de Mario Lebredo. No Brasil, pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz – Magarino Torres, Gomes de Farias, Marques da Cunha e Olympio da Fonseca – com material prove- niente da Bahia não tinham conseguido confirmar o susposto agente da febre amarela. O médico alagoano referia-se também ao insucesso de Borges Vieira, do Instituto de Higiene de S. Paulo, «de regresso da Norte América, onde fora estudar com o próprio Noguchi a técnica usada nas pesquisas do Leptospira icteroides» (Cavalcanti 1921, 8).