Os jovens que praticam a pirofagia no campo da festa são, na maioria das vezes, contratados pelos próprios organizadores do evento. Suas apresentações se dão exatamente durante a performance de algum dos DJs principais da festa. O pagamento recebido pelas apresentações dos jovens, às vezes, não ultrapassa a casa dos R$ 30,00 (trinta reais). Em alguns casos, a relação entre os performers e organizadores é conflituosa. Há vezes em que os organizadores combinam um preço com os malabaristas, e ao final da festa se negam a cumprir aquilo que foi acordado, recusando-se a pagar na íntegra o valor acertado pelas apresentações, mas apenas parte dele. Outra forma de pagamento é o fornecimento gratuito do ingresso para a festa mais algum crédito para o consumo de bebidas ou alimentos durante a rave. Além do performers contratados, há também aqueles que praticam malabares
espontaneamente, sem receber nenhum pagamento. Isto porque manusear algum tipo de malabar compreende parte de um amplo conjunto de práticas onde a música e os demais elementos simbólicos e performáticos se relacionam, formando um peculiar universo cultural onde o público experimenta e vive sensações que o transforma em parte integrante da festa.
Foto 16: Jovens praticando Diabolô. Foto 17: Jovem praticando Swing Poi.
Em Fortaleza existe um grupo bastante famoso de malabaristas que atuam principalmente em festas rave. O referido grupo é um dos mais antigos na cidade e, dentre suas atividades, pode-se destacar a promoção de encontros locais, oficinas gratuitas sobre malabarismo e fabricação artesanal de vários tipos de malabares que são vendidos durante os eventos de música eletrônica. Segundo o fundador do grupo, seu primeiro contato com os malabares se deu durante uma viagem para um congresso de estudantes universitários no interior do estado.
Nessa viagem eu conheci uma hippie e ela me ensinou a jogar poi. Quando eu cheguei aqui, queria ter o malabar, mas não existia ainda, daí foi quando eu tive a idéia de fazer meu próprio poi. [...] No que eu voltei, eu criei o meu trabalho e dentro desse trabalho, o pessoal falava: “cara, tu devia trabalhar nessas festas. Tu devia trabalhar lá porque é um negócio massa, a galera curte, a galera vai gostar e tu num vai ficar só de fora olhando, tu vai fazer parte”. Porque o legal naquela época era que todo mundo queria contribuir, num era um lance comercial, era contribuir, tu entrar na festa e fazer parte. [...] Então, ai eu comecei a trabalhar nesse meio de malabares e tudo o mais, de montar o grupo e tal, e tal, e tal... Então, eu comecei, já tava andando o negócio, num fui o
pioneiro não, já existia outros grupos de malabares que faziam o mesmo trabalho que eu dentro das raves. Quando eu comecei a fazer o trabalho, eu entrei com a carruagem andando, sabe? Já tava rolando e eu entrei apoiado dos amigos... (Marcelo, jovem entrevistado em 20 de agosto de 2008).
A partir do relato de Marcelo, percebe-se o modo como a prática do malabar no interior da rave permite ao participante uma experiência para além de mero expectador da dinâmica do evento, ela possibilita ao jovem uma interação maior com a festa, transformando-o em parte integrante dela. A prática do malabar é algo bastante difundido na festa, por meio dela, o participante da rave conquista uma espécie de “direito à festa”!56 Através dos malabares, alguns jovens afirmam que é possível “sentir a
música” de um modo diferenciado, único. Além dos populares swing pois, posso citar ainda outros malabares que são bastante populares na festa, conhecidos entre os jovens como diabolô, bolinhas, bastão, flag e bola de contato. Contudo, terminadas as apresentações de pirofagia na pista de dança, a atenção dos jovens se volta para o DJ que se apresenta no palco principal. A dinâmica permanece assim até o início da manhã.
3.3 Corpo, som e movimento: transcendências e sensibilidades
Nenhum momento da rave se compara aquele experimentado durante o amanhecer. A paisagem da festa se transforma. A luz negra dá lugar aos raios do sol. O brilho das coisas desaparece, mas o movimento permanece, sobretudo, de corpos-jovens que se misturam conduzidos pelas batidas do psytrance. O ritmo da rave muda, tudo se torna mais acelerado, desde a música até a dança. Em algumas festas, foi possível ouvir jovens na pista de dança gritando: “acelera DJ!”. A cada início de manhã experimentado numa rave, consigo entender melhor o que os participantes da festa querem dizer com a expressão: “é de manhã que a rave bomba!”. É justamente no romper da aurora que ela atinge o seu ápice, tornando-se tão intensa quanto densa. Segundo uma das jovens entrevistas, isso ocorre porque
[...] existe todo um misticismo em cima disso, do nascer do sol. [...] Você pode ver que quem tá deitado levanta. E a maioria das pessoas quando vê que o sol começa a nascer, elas levantam logo. Parece que as energias da rave renascem, então eu acho que é também uma mística por detrás disso, tanto na gente inconscientemente como também na galera que se liga disso [...] Parece, assim, que o povo acorda. Festa mesmo é de
56 Durante a pesquisa de campo, deparei-me com variados discursos que ensaiavam diferentes explicações para alguns dos símbolos e práticas adotadas na festa. Como exemplo disso, posso mencionar os sentidos que os jovens davam à presença de
performers no espaço da rave que manuseiam malabares. Alguns falavam da proximidade existente entre festa e lúdico, já outros preferiam afirmar que isso se dava porque, semelhante à cultura circense, as festas possuem um caráter itinerante, desde as suas origens até hoje são atravessadas pelo desejo de viajar pelo mundo.
manhã. Às vezes à noite tá uma porcaria, ai quando é de manhã a galera se empolga. (Débora, jovem entrevistada em 10 de fevereiro de 2009).
Eu acho que é uma das únicas oportunidades que você tem de ver um nascer do sol perfeito. É tanto que o melhor DJ toca quando o sol tá amanhecendo. É a hora que a galera se empolga, é a hora que a galera chega mais, chega pra ver o nascer do sol. (Eduardo, jovem entrevistado em 07 de outubro de 2008).
Para os participantes, o amanhecer é percebido como uma espécie de “momento mágico” da festa. Os raios do sol revigoram as “energias” da rave, fazendo com que ela “renasça”, nas palavras de Débora. Sua dinâmica conquista novos contornos: “É a hora que a galera se empolga, é a hora que a galera chega mais”, segundo Eduardo. A pista de dança fica insuportavelmente lotada. A maioria das pessoas que estão no evento se encaminha para lá. É praticamente impossível passear pelo dance floor sem esbarrar em alguém. A impressão que se tem é que seu público chega a ultrapassar em, pelo menos, três vezes a quantidade inicial.
A dança praticada na pista é individualizada, quase não há interação entre os jovens. Os movimentos dos corpos dos participantes não seguem uma coreografia, mas sim várias. Como diz Ilana, “é uma dança que é livre, não tem regras, não tem passo pra frente, passo pra trás, você faz de acordo com a música, com a batida [...]”, cada um cria sua própria dança, mexendo-se como julga melhor. A idéia é de uma completa ausência de planejamento ou controle sobre os movimentos do corpo. No “idioma nativo”, a experiência da dança oferece aos jovens uma sensação de “liberdade”, que passa a ser o único imperativo para orientar os movimentos do corpo.
Na dança, explora-se toda a fluidez e a agressividade que o corpo é capaz. Durante uma festa realizada em Aquiraz, um dos “informantes” desta pesquisa me levou até o espaço no qual ele estava dançando apenas para me mostrar a marca de seu pé cravada no gramado do local. Bastante empolgado com o fato, pediu-me emprestado a máquina fotográfica para registrar o buraco deixado por ele, durante a dança, no solo. Vale assinalar que o DJ que se apresentava naquele momento era ninguém menos que o inglês Chris Liberator, um dos precursores da cena inglesa, iniciada na década de 1980. Os jovens, de forma semelhante à descrição realizada por Elias Canetti (1983, p. 34) acerca da dança dos maoris, “movimentam-se como se a quantidade de energia aumentasse cada vez mais. Sua excitação vai aumentando até entrar num estado de loucura”. Durante os momentos mais intensos da festa, boa parte dos participantes que se encontram no dance floor pulam no mesmo ritmo, dando a impressão da formação de um só grupo de centenas de pessoas.