Futuro, antes de sua entrada na rave.
No calçadão da Praia do Futuro, em frente à barraca, alguns jovens vagueiam de lá para cá com latinhas de cerveja, de refrigerante ou ainda com garrafas de água nas mãos. Outros preferem ficar parados no passeio para “jogar” swing poi, um tipo bastante popular de malabares confeccionado com alguns metros de malha colorida, fitas de cetim e cordas que servem para prender suas extremidades. A
44 Nome dado aos balões de propaganda que ficam instalados, na maioria das vezes, na parte externa da festa. Tais balões são inflados com gás hellium para proporcionar que os mesmos fiquem suspensos no ar.
expressão “jogar” é utilizada entre os jovens que participam da festa para se referir ao manuseio de malabares de uma maneira geral, sendo aplicada tanto ao swing poi como a outros tipos de malabares. O emprego do termo “jogar” dota não só a prática do malabar de um caráter lúdico, mas também a própria festa: “existem entre a festa e o jogo, naturalmente, as mais estreitas relações. Ambos implicam uma eliminação da vida quotidiana. Em ambos predominam a alegria [...]”45 (HUIZINGA, 2001, p. 25). O
poi, como os jovens costumam se referir ao malabar, tanto serve para compor a paisagem da festa, como também se torna pretexto para se fazer novas amizades. Basta poucos minutos “jogando” poi para alguém se aproximar de você com o intuito de aprender e trocar técnicas relacionadas ao manuseio do malabar. Manejar com desenvoltura o poi oferece ao jovem a possibilidade dele ser notado na rave, dotando-o de certa distinção em relação aos demais participantes do evento.
Do lado de fora da rave já se vivencia a festa. O movimento e as coreografias praticadas pelos jovens através de seus corpos denunciam isto, desde as idas e vindas em marcha lenta pelo calçadão, até o arremesso de swing pois pelo ar, passando pelos discretos passes de dança arriscados no intervalo de uma conversa e outra entre os próprios jovens: tudo é festa.
Nos instantes que precedem a entrada dos jovens na rave, misturam-se DJs, produtores, freqüentadores veteranos e novatos das mais variadas faixas etárias, seguranças, vendedores ambulantes, flanelinhas, taxistas e cambistas46 dentre outros personagens que compõem o cenário da festa. A rave
inicia-se não apenas no instante em que os seus participantes cruzam a porta de entrada que dá acesso ao seu interior, mas começa antes. Ela se antecipa ao horário previsto, espalha-se pelas margens do local de sua realização e, principalmente pela cidade.
A ida dos jovens à festa é precedida por encontros e paradas em variados espaços existentes em Fortaleza, tais como ruas, praças, shoppings, bares, boates e terminais de ônibus. Na maioria das vezes, os jovens se reúnem em algum destes espaços antes de partir em direção ao evento, formando verdadeiros comboios nômades. Nestes locais, o movimento e a concentração das pessoas se preparando para a festa já provoca a curiosidade daqueles que os observam, que se aventuram na difícil tarefa de
45 Segundo Huizinga (2001), a realização do lúdico se dá no jogo, que tem sua essência no desfrute do divertimento (prazer, agrado, alegria). Para o autor, o jogo pode ser caracterizado como “[...] uma atividade livre, conscientemente tomada como ‘não séria’ e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total” (HUIZINGA, 2001, p. 16). Ao afirmar que entre a festa e o jogo existem as mais estreitas relações, o autor aponta outra possibilidade para a manifestação do lúdico que é o domínio da festa. E ao abordar as relações entre a festa e o jogo, Huizinga (2001) percebe proximidades de determinados elementos comuns, como eliminação da vida cotidiana e o predomínio da alegria. Assim, “em resumo, a festa e o jogo têm em comum suas características principais”, ambos implicam uma eliminação da vida cotidiana (HUIZINGA, 2001, p. 25).
46 A principal função dos cambistas nesse cenário é oferecer ingressos àqueles que, por algum motivo, não tiveram a oportunidade de comprá-los antecipadamente por terem sua venda esgotada ou em decorrência das longas filas que podem vir a se formar na bilheteria do evento para a aquisição dos mesmos. Os cambistas deslocam-se por todos os espaços que são construídos do lado de fora da rave, indo desde o estacionamento que é de responsabilidade dos flanelinhas até o local onde se distribuem os vendedores ambulantes de comida e bebida. A maioria dos jovens que aporta na rave, compra seus bilhetes antecipadamente. No entanto, existem aqueles que preferem comprá-los de “cambistas”, estes costumam chegar na festa durante a madrugada. Nesta rave, os cambistas negociavam os bilhetes a R$ 45,00 (quarenta e cinco reais).
interpretar o emaranhado de signos que habitam os corpos destes jovens. Eles carregam consigo linguagens e símbolos da festa, alguns não convencionais para um shopping ou terminal rodoviário, mas perfeitamente apropriados para o território da rave.
Os jovens chegam ao local do evento vestidos das mais variadas formas, requerendo um olhar atento de quem os percebe na paisagem da cidade. Algumas mulheres calçam sandálias ou botas de cano alto e sem salto, usam cartucheiras presas em uma das pernas, saias ou shorts curtos combinados com blusas confeccionadas com tecidos leves e coloridos. Tudo é pensado de modo a permitir um realce das formas do corpo, bem como proporcionar ainda uma sensação de conforto, justamente por conta do tempo que a jovem permanecerá na festa. Já os homens, em sua maioria, optam pelas bermudas, bonés, tênis e mochilas ou pochetes. O estilo masculino, à primeira vista, não parece ter uma característica marcante, ele se aproxima de um estilo conhecido como surf wear. Os óculos escuros acomodados na parte de cima da cabeça, os cordões e as pulseiras artesanais constituem adereços usados por jovens de ambos os grupos.