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Neste capítulo, os relatos das entrevistadas revelaram trajetórias de vida que se entrelaçam em vários pontos e destoam em pontos singulares, nas seguintes dimensões:

a) familiar - as entrevistadas, ao falarem da origem de suas famílias, destacaram uma forte ligação com os bairros, seja onde nasceram e foram criadas, seja onde fixaram residência e construíram suas histórias. Elas fizeram questão de ressaltar os bairros onde nasceram, cresceram e se envolveram no processo de lutas para a melhoria da qualidade de vida da comunidade, seja diretamente a partir de algum familiar ou inspirando-se indiretamente em algum deles.

A vivência familiar revelou a educação de gênero a partir da qual as mulheres negras entrevistadas aprenderam a cuidar da casa, das irmãs e dos irmãos. Suazilândia destaca-se pela educação feminina que recebeu para se constituir dentro dos moldes da época, ou seja, tornou-se professora. Enquanto Eritréia, na sua afirmação de mulher negra diante de seu esposo, revelou um comportamento diferenciado em suas relações de gênero. No caso da mãe de Namíbia, a entrevistada revelou sua resistência frente ao machismo de seu esposo nas tomadas de decisões. Sobre a resistência no âmbito privado pode-se dizer que é um assunto ainda não discutido fora do contexto da violência doméstica. Algumas entrevistadas, como Eritréia, Namíbia e Zâmbia aprenderam também por meio da família os caminhos da militância. A solidariedade feminina é uma característica da educação dessas mulheres que merece ser ressaltada. Eritréia, Namíbia, Zâmbia e Ruanda, desde a infância, ajudavam suas famílias, mesmo estando nas mesmas condições de seus irmãos. Estes não foram destacados ou ao menos lembrados por contribuições à manutenção das famílias, salvo o irmão de Zâmbia;

b) escolar - as entrevistadas expressaram um olhar amadurecido, crítico e contemporâneo sobre suas lembranças da escola, em tempos passados. Mencionaram a vivência do racismo e/ou preconceito, ora por parte de suas professoras - Suazilândia e Ruanda - ora por parte de seus colegas - Luanda, Eritréia, Namíbia, Suazilândia e Zâmbia. Essas vivências podem ser esclarecedoras, de um lado, do porquê de todas desenvolverem algum tipo de atividade de combate ao racismo no âmbito escolar após tornarem-se militantes das causas raciais, como veremos nos últimos capítulos. E, por outro, também o porquê de Luanda, Suazilândia e Ruanda, entre outros fatores, ainda atuarem no campo da educação.

Chama a atenção o tempo de conclusão do ensino médio e do Ensino Superior das entrevistadas. No que concerne ao primeiro, as condições socioeconômicas foram empecilhos à conclusão dos estudos no tempo regular para Namíbia, Zâmbia e Ruanda. Elas conseguiram concluir o Ensino Fundamental e o Médio quando já eram jovens e adultas. No que tange ao acesso ao Ensino Superior verificou-se que as entrevistadas conseguiram se formar com muito custo, com exceção de Suazilândia. Das quatro, apenas uma conseguiu se formar na universidade pública - Luanda -, enquanto duas - Eritréia e Suazilândia - formaram-se por faculdades privadas e filantrópicas de Belo Horizonte. Já Namíbia, não tendo condições para arcar com seus estudos nesta cidade e não dispondo de tempo para cumprir a carga horária estabelecida pelas universidades tradicionais viu-se obrigada a estudar em São Paulo, num curso semi-presencial. Esses trajetos revelam a ausência de políticas públicas e de inclusão, na época, em relação às universidades pública e privada da cidade de Belo Horizonte. Vale também ressaltar a importância das famílias20 de Luanda e Zâmbia, iniciando seu processo de alfabetização, mesmo sem ter todo o domínio da escrita e da leitura e de como Eritréia, Suazilândia, Luanda e Namíbia conseguiram galgar sucesso profissional devido à formação superior aliada à militância;

c) militância - as entrevistadas, na contemporaneidade, atuam em diversos espaços na linha de combate ao racismo e/ou com discurso de gênero. Mas somente Ruanda continua a militar numa organização propriamente dita de Mulheres Negras apesar de todas, num dado momento, terem participado ativamente no Movimento de Mulheres Negras. Todas foram militantes do Movimento Negro e, especificamente do MNU, apenas Ruanda e Namíbia. Luanda e Eritréia participam de uma Fundação da População Negra; Luanda e Suazilândia participaram da Casa Dandara. Zâmbia, Namíbia e Eritréia participaram da Secretaria de

20 As famílias de Luanda e Zâmbia mostraram também que, outrora, o acompanhamento do processo de ensino- aprendizagem, mesmo apenas no início da alfabetização, servia de estímulo prévio à aprendizagem escolar. Isto nos mostra que a tentativa de se alfabetizar no meio familiar, naquela época, era comum, até por causa dos papéis de gênero que demarcavam os homens como provedores e as mulheres como responsáveis pela educação da prole. O que nos leva a refletir que os contextos exigem formas de atuação das famílias na educação das filhas e dos filhos adequadas às condições sócio-históricas. Na contemporaneidade tanto as mulheres quanto os homens, na maior parte dos casos, não têm acompanhado ou assumido a educação das filhas e dos filhos, por causa da dedicação quase exclusiva ao trabalho ou por falta do tempo prioritário em conviver mais como família. Algo preocupante quando consideramos o investimento das políticas educacionais para a implementação de escolas integradas, independente de quais sejam as condições sócio-econômicas das famílias, que não idealizam e nem visam a garantia de momentos de convivência familiar. As propostas de escola integrada de que temos tomado conhecimento, como no caso de Belo Horizonte, não apresentam a marca da de co-responsabilidade entre família e escola pela educação das crianças, adolescentes e jovens. Ao contrário delegam toda responsabilidade para a escola e estimulam o distanciamento das mães e dos pais com a educação das filhas e dos filhos. Pensamos que esse dado da pesquisa, acerca da responsabilidade familiar, requer mais investigações em torno das propostas de escolas integradas, quando estas não revelam momentos de convivência familiar, no acompanhamento do processo de ensino-aprendizagem por parte dos pais e mães, em algum momento do

Combate ao Racismo, no âmbito da atuação partidária. E somente duas entrevistadas, Namíbia e Zâmbia, militaram no campo do Movimento Feminista devido a influência partidária e por atuarem em cargos de confiança de órgãos públicos. Apenas Ruanda atua no Movimento Cultural Juvenil;

d) trabalho - Eritréia, Zâmbia e Ruanda, desde tenra idade, já sabiam o que era trabalhar para contribuir com o sustento familiar. Assim, como Lélia Gonzáles e boa parte das mulheres negras, elas iniciaram-se na profissão de doméstica e ascenderam, por meio dos estudos, ao magistério ou ao funcionalismo público. A educação continua sendo o espaço profissional de Suazilândia e Ruanda, mesmo esta última não sendo formada no magistério. Eritréia e Luanda, embora sejam formadas também no magistério, atuam mais na formação de militantes e oferecem oficinas em espaços públicos e privados.

Entretanto, o acesso ao magistério não foi algo de imediato para Luanda, Namíbia e Eritréia. Primeiro trabalharam em diversos estabelecimentos comerciais. Zâmbia foi a única que trabalhou em fábricas de costura e não teve o magistério como profissão. Ela e Ruanda são as duas entrevistadas com formação de Ensino Médio Científico. Vale também ressaltar a ascensão profissional por parte das mães de Suazilândia, Eritréia e Ruanda que, por meio do estudo, mesmo fazendo cursos de curta duração, deixaram de ser domésticas ou lavadeiras para serem cozinheiras com carteira assinada. Por fim, a militância foi o meio de ascensão de Namíbia e Zâmbia para o funcionalismo público. Elas estavam, na época das entrevistas, há mais de cinco anos trabalhando em cargos de confiança por conta da militância partidária e do Movimento Negro.

É justamente a militância o principal ponto em comum entre todas as entrevistadas. Esta trajetória possibilitou que se conhecessem, se encontrassem e atuassem juntas em algumas organizações ou desenvolvessem trabalhos coletivos em diversos espaços. O intercâmbio entre elas, inclusive, facilitou sobremaneira o trabalho de campo da pesquisa. O combate ao racismo é a principal linha de atuação da maioria. O sexismo acompanha a discussão do racismo de três entrevistadas em suas ações cotidianas.

Os perfis dinâmicos dessas mulheres negras, configurados por meio de seus relacionamentos familiares, escolares e profissionais, revelou a singularidade da trajetória de vida, escolar e política das entrevistadas. Foi possível perceber que suas ações dão continuidades às ações das mulheres negras do passado. Eritréia, Luanda e Suazilândia, por exemplo, participaram de organizações que têm o nome de antepassadas como Nzinga e Dandara, respectivamente. Ao focalizar a militância de cada entrevistada nos Movimentos Sociais e nas ações coletivas, as relações tensas e os processos de formação humana se

destacaram. Além disso, os processos marcados por trocas, aprendizados, ensinamentos e alguns conflitos poderão ser averiguados com mais profundidade no próximo capítulo. Neste, as considerações acerca das mulheres negras entrevistadas e sua apresentação revelam como ocorreram as tessituras de suas ações nos variados Movimentos Sociais e no grupo partidário, ao longo das suas trajetórias de vida.