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Rural/urban commuting

In document Night commuting (sider 49-52)

3. Development of Conflict and Commuting

3.6 Rural/urban commuting

Romano do século I d.C., Petrônio (Caius Petronius Arbiter) viveu sobre a égide do governo de Nero. Assim, Paul Harvey62 situa Petrônio como sendo um cônsul e governador da Bitínia, ocupando posteriormente a convite do próprio Nero o cargo de árbitro de elegância (elegantiae arbiter), fazendo parte do restrito círculo de amigos do Imperador.

Tácito, historiador latino descreve Petrônio como um homem refinado e apreciador do luxo. Na vida privada gostava de praticar o ócio, que o preparava para a prática da vida pública, retratando a perversão e a depravação. As informações que nos chegam sobre sua vida pública, mostram que Petrônio era um exímio administrador, característica atribuída a ele em decorrência da sua capacidade de atuar e a influência que tinha no meio Imperial. Sobre o relato de Tácito, ver Anais, XVI, 18:63

62

Cf. HARVEY, P. Dicionário Oxford de Literatura Clássica Grega e Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.

63 Tradução do latim é de Paulo Leminski, Cf: LEMINSKI, P. Satyricon. São Paulo: Brasiliense, 1987, p: 181 Apud. (GARRAFONI, R.S. Bandidos e Salteadores: concepções da elite romana sobre a transgressão social. Dissertação de Mestrado apresentado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/IFCH. Campinas: Unicamp, 1999) e FAVERSANI, F. A Pobreza no Satyricon de Petrônio. Dissertação apresentada ao curso de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, S.P., 1995, p. 17.

De C. Petrônio não há muito que dizer. Dormia o dia inteiro e dedicava à noite para seus trabalhos e prazeres. Muitos ficavam famosos por seus empenhos (indústria). Ele era famoso por sua preguiça (ignavia). Não era considerado um homem que corre atrás do proveito, mas dos prazeres sutis (erudito luxo). Tudo que dizia e fazia era descontraído e sem esforço, e sua simplicidade cativava como uma gentileza. Mas soube ser energético quando no serviço público, primeiro como pro cônsul na Ásia, depois como cônsul. A seguir, retirou-se para a vida privada e seus vícios favoritos e, como tal, foi aceito no círculo mais íntimo do Imperador Nero, onde reinou como um verdadeiro árbitro da elegância (elegantiae arbiter). Nero nada fazia sem antes consultar seu sofisticado cortesão. Isso suscitou a inveja de Tigelino, outro cortesão, que contra Petrônio arma uma intriga, envolvendo seu nome com conspiradores.

Nesse âmbito, por pertencer à elite romana, a leitura de seus escritos devem ser feitas de forma cuidadosa, pois retratam o olhar por vezes oficial da corte do Imperador. Sua obra, Satyricon, é escrita em prosa intercalada com versos que narram às aventuras de três personagens trapaceiros, sendo eles, Encólpio, Ascilto e Gíton.64 Assim, no Satyricon, Petrônio vai retratar a vida privada do Imperador, dos prazeres, da vida cotidiana, do vinho, dos banquetes, dos jogos, das orgias, do bacanal, dos banhos públicos, os abusos das termas, nas quais se discutiam política, ostentavam-se fortunas e maquinavam-se assassinatos. O sociólogo Fernando de Azevedo65 destaca que:

A Roma dos Césares, tão decaída de sua ancianidade gloriosa, não é senão esta cidade retratada por Petrônio, pintor de costumes, e de que, conhecendo-a, como ninguém, dotado de poder de dissecção moral, deu, em dois rasgos de mestre, o quadro verdadeiro, de cujos horrores não se assustavam o seu espírito penetrante e céptico há um tempo. A tela traz por baixo o título de Crotona, mas é de Roma a pintura fiel. Quando esse escritor singular, o „arbitro da elegância‟, no tempo de Nero, aguçou os bicos de pena ou afiou o estilo para esfarrapar o manto de púrpura, sob que se velavam as chagas de uma sociedade corrupta, o que tinha diante dos olhos era, de fato, a cidade arquejante sob a maré de prazeres, que, avolumando-se das cidades da Campânia, sempre inclinadas aos excessos da lascívia, rompera todos os diques das leis moralizantes e já entestava as sete colinas.

64 Nesta dissertação, optou-se pela tradução para o português de todos os nomes apresentados na obra literária.

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A cidade romana, no período do principado, já se mostrava influenciada pelos costumes estrangeiros, pois com o desenvolvimento do processo de conquista imperial a cidade de Roma tornou-se um centro de atração. A tradição, os costumes romanos praticados pelos ancestrais, bem como a religião romana, dividiam seu espaço com os diversos tipos de culturas e crenças. Sobre os personagens e o comportamento do homem romano podemos citar as dezesseis Sátiras de Décimo Júnior Juvenal, satirista e literato do século I d.C, que ao enfatizar sobre os motivos que o levaram a escrever suas Sátiras, destaca o descaso com àqueles que detinham o saber, do pouco que se pagava para obtê-lo e dos subterfúgios de uma Roma que se encontrava envolta da criminalidade, da oposição entre os contrastes do dia e da noite; de uma Roma multifacetada. Dessa forma, Juvenal se perguntava “esta cidade criminosa vendo, que férreo coração silêncio guarda!”. (JUVENAL, Sátira I, p. 38 e 39) 66

A Roma do poeta Décimo Júnio Juvenal era marcada por estes contrastes, durante o dia, nas ruas se presenciava uma agitação intensa, pessoas andando por todos os lados, se acotovelando, um barulho infernal se fazia presente. As tabernas, os barbeiros, os donos de botequim, todos disputavam fregueses, boa parte no grito. Nas esquinas era fácil avistar cambistas, curiosos encantados com apresentações artísticas, encantadores de serpentes, mendigos, suplicando por esmolas, enfim, uma população que se esquadrinhava em meio à agitação e o corre-corre do dia-a- dia. Durante a noite todo este barulho era substituído por outro, muitas algazarras causadas em sua grande parte por jovens romanos, que depredavam, e praticavam violência contra os bens e as pessoas, movimentos de carros de toda a espécie, boêmios, malandros e vagabundos que andarilhavam pelas ruas. Prostitutas e “garotos de programa” ficavam a espreita de novos clientes. E eram em meio a este cotidiano, que o literato buscava desvendar os segredos que a cidade romana guardava.67

66 Cf: JUVENAL, D. J. Sátiras. São Paulo: Edições Cultura, 1943.

67 Cf: CARCOPINO, J. Roma no Apogeu do Império. São Paulo: Cia. das Letras, 1990, p: 69-70; Cf. também: SALLES, C. Nos submundos da Antigüidade. São Paulo: Brasiliense, 1987, p: 190-200 e SILVA, N. O. O Clientelismo nas Sátiras de Décimo Júnio Juvenal. Iniciação Científica. Maringá: UEM, 2003.

A “cidade de tijolos” reconstruída por Caio Júlio César Otaviano e transformada na “cidade de mármore” revelava uma sociedade parasitária, entregue aos prazeres e a extrema volúpia.68 Os prostíbulos, os desregramentos da família Imperial, a devassidão do povo romano e a concupiscência das festas, representadas pela ostentação do luxo e das esplêndidas mesas, eram retratadas nas pinturas e nos mosaicos eróticos das paredes romanas. Com efeito, a obra de Petrônio traz muitos elementos do mundo sagrado e do profano, como os rituais míticos e as orgias.

A história tem muitos elementos de uma extravagância Hollywoodiana: Nero, orgias, salas de mármore, o poder do Palácio e do Fórum Romano, rituais, banquetes, dançarinas nuas, excessos sexuais, em suma, tudo levemente mencionado nos mistérios do Apocalipse de João e referido como a raiz de todo mal pelos televangelistas americanos.69

As discussões tecidas levam-nos a afirmar que, em meio à sociedade romana, os cidadãos estavam entregues aos prazeres da vida, todos tinham seu respectivo valor, ou seja, „assem habeas, assem valeas’ (valia cada um quanto tinha). Com isso, a sociedade estava dividida entre os ricos e aqueles que não

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O surgimento de Otaviano no cenário político é marcado por intensos conflitos pessoais direcionados a Marco Antonio, principalmente após o assassinato de Julio César. Quando Roma entrou em guerra com o Egito, Otaviano obteve uma vitória decisiva. Marco Antonio, que considerava Cleópatra como sua rainha, tinha como objetivo transformar o Império Romano em uma monarquia helenística, com capital no Egito. Esse objetivo não foi alcançado o que levou Marco Antonio e Cleópatra, por volta do ano 30 a.C. a cometer suicídio. Pela primeira vez, um único homem mantinha sua supremacia no mundo romano, era Otaviano. O senado proclamou-o Imperador, chegando ao fim o sistema republicano, dando lugar ao Império Romano. O senado passaria a chamar Otavaino de Augusto, que significa “o venerado”. O governo de Caio Julio César Otaviano (27 a.C. – 14 d.C) foi lembrado como uma Idade de Ouro. Cf: FEIJÓ, M.C. Roma Antiga. São Paulo: Editora Ática, 1996; GRIMAL, P. O Império Romano. Lisboa: Edições 70, 1999; ALFÖLDY, G. A História Social de Roma. Lisboa: Presença, 1989; DE MARTINO, F. Storia Economica di Roma Antica. Firenze: Nuova Italia, 1979; GARNSEY, P & SALLER, R. The Roman Empire: economy, society and culture. London: Duckworth, 1987.

69 Cf. “The story has many elements of a Hollywood extravaganza: Nero, orgies, marble halls of power on the palatine and in the Forum, riotous banquets, nude dancing, girls, sexual excesses, in short everthing hinted at in the mysteries of the Revelation of John and referred to as the root of all evil by American televangelists.” Cf: SCHEMELING, G. “The Satyrica of Petronius.” In: The novel in the Ancient World. New York: E. J Brill, 1996, p: 457. As traduções presentes nesse estudo são do próprio autor (tp – tradução própria)

tiravam os olhares da fortuna alheia.70 O sociólogo Fernando de Azevedo (1962, p. 24) completa dizendo que:

A devassidão que, desde a manhã, rompia, a céu aberto, no Coliseu, nos espetáculos do Circo Máximo, e no teatro de Marcelo, esgueirava-se, nos ardores da sesta, pelas salas de banhos das termas, para, ao cair da tarde, desenfrear-se, na crueza íntima das cenas lúbricas, a que se armava toda a magnificência asiática dos festins, em que os convivas, refartos dos prazeres da mesa, adormeciam, até noite velha, em coxins de plumas de cisne, nos braços de senhoras de alta estirpe, confundidas, nos extremos da crápula, com as mais belas escravas arrebanhadas de remotas províncias.

A historiografia moderna ressalta que somente uma pequena parte dessa obra latina chegou ao nosso conhecimento, o episódio mais destacado e estudado no Satyricon refere-se ao Banquete de Trimálquio, cujo manuscrito foi descoberto no século XVII. Nesse episódio, Petrônio descreve Trimálquio como sendo um “novo rico” vulgar, que aceita receber os “aventureiros” para um banquete. Ao falar sobre o acontecimento, descreve o ambiente, as iguarias oferecidas aos convidados, os incidentes grotescos que ocorrem durante o jantar, as conversas cômicas, e a embriaguez de Trimálquio. Petrônio relata ainda as histórias contadas por ele, sempre fazendo uso do recurso satírico. Assim, o autor do Satyricon acabou sendo condenado ao suicídio em 66 d.C por Tigelino,71 que acusou Petrônio de conspiração contra o Imperador.

Todavia, o Satyricon é uma obra polêmica, o que tem despertado o interesse de muitos estudiosos sobre o assunto, principalmente no que concerne a sua datação, título e autoria. A historiadora e Prof. Drª. Renata Senna Garrafoni em seu estudo intitulado “Bandido e Salteadores: Concepções da Elite Romana sobre a transgressão social”, a partir da análise do Satyricon e das Metamorfoses de Apuleio ressalta sobre a particularidade do estudo de ambas, destacando as suas características literárias e seus conflitos sociais. Vejamos o que Garrafoni (1999, p: 38) nos observa sobre Petrônio e o Satyricon:

70 Cf. JUVENAL., Sátira I, 112-115 71

Ofônio Tigelino foi um político romano de origem grega, que exerceu o cargo de prefeito do pretório (62 d.C) sendo um influente conselheiro do imperador Nero.

Há uma grande discussão entre os pesquisadores modernos para determinar com maior precisão quem seria seu autor, o período em que foi escrita e seu título original. [...] A biografia de Petrônio é bastante imprecisa e desde o período do Renascimento há uma grande dificuldade para se determinar quem foi este homem. A maioria dos pesquisadores concorda que o autor do Satyricon é o Petrônio descrito por Tácito em sua obra Anais (XVI: 18-19) e mencionado, mais brevemente, em algumas passagens de Plínio, o Velho e Plutarco. É bem verdade que, nos outros dois, mencionou- se Tito. Apesar desta diferença, ao que tudo indica, os três falavam da mesma pessoa e, segundo Walsh72, é bem provável que Tácito tenha se equivocado. Diante desta situação, considera-se que o nome completo do autor seria Tito Petrônio Níger, cônsul romano durante o ano de 62 d.C., e conhecido como arbiter elegantiae (árbitro da elegância), já que estabelecia padrões de elegância na corte de Nero.

Sobre as incertezas que pairam sobre a produção do Satyricon, cabe ressaltar o estudo do historiador Fábio Faversani73, que completa a citação acima afirmando que:

Se há alguma característica que podemos atribuir ao Satyricon com absoluta certeza é a de obra polêmica. É quase impossível encontrar um consenso significativo sobre ela. Sua datação, sua autoria, seu título, os locais em que se ambientam os episódios, a influência do autor e do ambiente literário, sua trajetória de preservação, seu valor literário, a fidedignidade do texto hoje estabelecido em relação ao original, o peso das possíveis interpolações, o tipo de linguagem empregada e, mais do que tudo, o estilo, seu potencial enquanto fonte historiográfica e as intenções do autor foram objeto de franca e aberta polêmica no passado. Mesmo agora, nenhum destes pontos obteve um consenso, ainda que esta ou aquela perspectiva de análise em relação a alguns tópicos tenha atingido hoje uma forte hegemonia.

Ao enfatizarmos estas questões, percebemos o quanto Petrônio era moderno para o seu tempo, apesar de muitos estudiosos tendo levantado dúvidas quanto à datação da sua obra. Seus relatos refletem os anos de 63-65 d.C, por expor características econômicas e apresentar personagens diversos, próprios do seu tempo, tais como, os gladiadores, os novos ricos, os tocadores de liras com suas

72

Cf: WALSH, P.G. The Roman Novel. Grã-Bretanha: Cambridge University Press, 1995, p: 244 Apud (GARRAFONI, R.S., op cit., p. 38)

73

Cf: FAVERSANI, F. A pobreza no Satyricon de Petrônio. Dissertação de Mestrado apresentado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: USP, 1995, p. 14.

paródias e sátiras, o que leva-nos a considerá-lo um contemporâneo de seus escritos.74 Fernando de Azevedo (1962, p. 34) cita que:

Nas páginas do Satyricon, para as quais a pena de Petrônio esparrinhou salpicos de lama da Roma dos Césares, encontram-se, não engranzados ou concatenados entre si, mas esparsos, pensamentos de um lúcido vigor e conceitos imprevistos pela sua delicadeza requintada, que fazem de Petrônio „um contemporâneo do futuro‟. Tem sua filosofia própria, que, espírito refratário à sistematização, não reduziu a corpo a doutrina. Não era um moralista. Ao contrário, céptico, não tinha temperamento para apostolizar convicções ou fulminar, à maneira de Catão, dogmas rígidos de ética e sabedoria. Era antes um semeador de idéias, que tanto sabia pintar ao vivo quadros de corrupção de seu tempo, como da sua pena deixava cair, com certo descupido elegante, as pérolas de fino quilate de sentenças rivais de Sêneca e Públio Siro.

O escritor latino revelava em seus versos as máximas das questões que permeavam o pensamento romano. A brevidade da vida levou-o a se aproximar da filosofia epicurista. Assim sendo, o poeta aconselhava a cada um procurar ocupar-se do que lhe fosse mais agradável fazer, pois não existia sequer algo que pudesse agradar a todos de forma homogênea. O tédio era o mal da filosofia estóica.75

74 Este período é datado pela historiografia como referente ao governo do Imperador Nero (54-68 d.C). Sucessor do imperador Cláudio, o governo de Nero revelou uma época marcada pela depravação e a crueldade. Durante a sua administração, Roma fora incendiada. Muitos historiadores contemporâneos atribuíram este episódio a sua própria loucura. Ainda em seu governo, realizou constantes perseguições aos cristãos, o que acarretou a crucificação de São Pedro no muro central do Circo de Nero e a decapitação de São Paulo na Via Ostiense. A luz desse quadro, Nero foi o último governador da dinastia Júlio-Claudiana, filho de Agripina (sobrinha e segunda esposa do Imperador Cláudio) com Domício Aenobardo. Sua conduta degenerada, os constantes assassinatos, entre eles, o da própria mãe, forçou o filósofo Sêneca, seu preceptor, a cometer o suicídio. Os atributos de Nero fizeram com seu governo degringolasse. A entrada de cultos orientais e o confisco de bens dos ricos e nobres levaram o Estado à beira da ruína, em grande medida pelo abuso da luxúria e dos caprichos pessoais. Cf: Cf. REQUEJO, J. M. “Introducción general & Introducción”. In: TÁCITO, C. Diálogo sobre los oradores. Madrid: Editorial Gredos, 1999. p: 8; SUETÔNIO. A vida dos doze Césares. São Paulo: Athena, 1950; VANDENBERG, P. Nero: Imperador e deus, artista e bufão. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1986.

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O estoicismo é uma escola filosófica fundada por Zanão (336-264 a. C), que defendia a austeridade física e moral, fundada na resistência do homem perante os sofrimentos e as adversidades da vida. O estoicismo opõe-se ao epicurismo, como vimos, pois para os estóicos, o único bem do homem não é o prazer, ou a felicidade, mas sim a virtude. O sábio estóico deve buscar o aniquilamento da paixão, até a apatia, pois esta é a causa do desejo, do vício e da dor. Cf: BRUN, J. O estoicismo. Lisboa: edições 70, 1986. Vêr também as teorias do filósofo Claude Adrien Helvétius, no qual postulava que o comportamento do homem era fundamentado no interesse, visto como um impulso para a obtenção do prazer e a eliminação da dor. Cf: MORA, J. F. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2001, p. 1314 e 1315.

Petrônio levou uma vida boêmia, alternando entre os prazeres e os encargos, as virtudes e os vícios, a indolência e o trabalho.

Toda essa característica mostra-se na construção dos personagens do

Satyricon em relação às aventuras vividas pelos epicuristas na obra de Petrônio, em

grande parte pela busca do prazer e do gozo proporcionados pela vida.

Neste paralelo, o filósofo da linguagem Mikhail Bakhatin considera o Satyricon como um “Romance de aventuras e de costumes”, 76 sendo convenientemente empregada essa terminologia por muitos estudiosos da obra. Visualizamos abaixo o que o próprio Bakhatin77 nos revela ao falar sobre o Satyricon em comparação com O “Asno de Ouro” de Apuleio:

Passemos ao segundo tipo de romance antigo que convencionamos chamar de „romance de aventuras e de costumes‟. Relacionam-se com esse tipo, em sentido restrito, apenas duas obras: Satyricon de Petrônio (que chegou até nós em fragmentos relativamente pequenos) e O Asno de Ouro de Apuleio (que chegou inteiro), apesar de que elementos essenciais desse tipo tenham sido representados por outros gêneros, principalmente as sátiras e também a diatribe helenística.

Mesmo tendo chegado ao nosso conhecimento apenas os fragmentos, como bem nos confere o poeta e escritor francês Raymond Queneau na apresentação do

Satyricon78, é possível ter uma visão geral da obra, por meio de uma coerência

76 Esse termo também foi empregado por outros autores, tais como: GRIMAL, P. “Une intention possible de Pétrone dans le Satyricon”.In: Bulletin de L‟Association Guillaume Budé. 3, oct., 1972, p: 297-310; VEYNE, P. “Le „je‟ dans le Satyricon”. In: Revue des Études Latines, 1964, v. 42, p: 301- 324; CALLEBAT, L. “Strutures narratives et modes de representation dans le Satyricon de Pétrone.” In: Revue des Études Latines, v. 52, 1974, p: 281-303. Nesse aspecto, estudos sobre o gênero de SILVA, G.J. da. Aspectos de cultura e gênero na Arte de Amar, de Ovídio, e no Satyricon, de Petrônio: representações e relações. Campinas: Unicamp, 2001, p: 97 e (GARRAFONI, R.S., op cit., p. 35).

77

BAKHATIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Ed. UNESP, Hucitec, 1988, p. 234.

78

Neste trabalho optou-se por utilizar como fonte a obra literária PETRÔNIO. Satyricon. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Sobre Raymond Queneau, vejamos: “Sem chegar a pensar (como Bürger e Bloch, além de mim mesmo, aliás) que só nos resta a trigésima quinta parte, os mais otimistas calculam que nos faltem pelo menos dois terços do Sayricon.” Cf: PETRÔNIO. Satyricon. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 09.

narrativa, a maior dificuldade que se apresenta no que tange aos próprios historiadores, é mapear o que seria “falsificação” e “interpolações”. A partir dessa visão, o historiador Faversani (1995, p. 30) ressalta os “códices” da obra, pois alguns tradutores trazem à tona uma parte extensa dos seus escritos. Entretanto, muitos outros textos de Petrônio nos são apresentados somente por meio de pequenos pedaços. A construção do enredo como conhecemos na atualidade, deve-se a contribuição dos eruditos, que buscaram ordenar a narrativa ao mais próximo do contexto original. Como podemos observar na citação que se segue:

Do mesmo modo, não há nenhum códice que traga o Satyricon sem lacunas ou interpolações e são relativamente raras as sobreposições possíveis de mesmas passagens existentes em códices diversos. Nota-se ainda que, além dos códices do próprio Satyricon, há também breves citações feitas

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