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Domestic threats

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5. Protection Purposes

5.3 Domestic threats

“Mais vale aceitar o mito dos deuses do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos ao passo que o destino é uma necessidade inexorável”.

(EPICURO – “Carta sobre a Felicidade”)

O ponto de partida para se conceber o Hedonismo em Epicuro é o movimento de formação do pensamento de Karl Marx. Com base em Epicuro, sua tese de doutorado intitulada “A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro”, expõe a teoria Marxista sobre o “materialismo epicuriano” tendo como cerne as relações do mundo cinematográfico, da produção do objeto fílmico com o processo de produção e direção de Federico Fellini visto dentro da conjuntura do materialismo histórico.

Assim, a tese sobre “Epicuro” dará origem a teoria do Materialismo de Marx. Com isso, escritos de Demócrito e Epicuro encontram-se ligados a filosofia helenística. Cabe ressaltar que, este contato com o universo da cultura grega vai estar presente por toda a via de Karl Marx.152

Com isto, tanto Epicuro como Demócrito afirmavam que toda realidade da física era formada a partir da agregação de partículas mínimas, invisíveis e indivisíveis, os átomos, que eram combinadas de formas específicas. Entretanto, opondo-se ao filósofo Abdera (filósofo, historiador e cientista atomista grego, 460-

152 Sobre o período helenístico que influenciou os escritos marxistas, ressaltamos que “em finais do século IV a.C., as cidades gregas ao perderem sua independência para os reis de Pérgamo (Antiga cidade grega da Mísia, próxima ao mar Egeu, que ficou muito conhecida no período helenístico por tornar-se a sede da dinastia Atálida. Foi nesta região que surgiu o pergaminho) Os Filósofos passaram a valorizar o conhecimento sensível e a desenvolver a concepção materialista da realidade. Assim, a filosofia centra suas discussões em volta do indivíduo e da obtenção da felicidade e do bem estar. Os deuses são reduzidos a dimensão humana e as religiões adquirem uma natureza sincrética. Destaque para as correntes filosóficas do estoicismo, epicurismo e ceticismo (atitude filosófica na qual as pessoas escolhem examinar de forma crítica se o conhecimento e a percepção que possuem são realmente verdadeiros). Para se aprofundar nestas questões e contrapor a leitura da teoria de Karl Marx sobre Epicuro, recomenda-se a leitura do filósofo Olavo de Carvalho Cf: CARVALHO, O de. O Jardim das Aflições. São Paulo: Realizações, 2000.

370 a.C), Epicuro não admitia que as agregações dos átomos fossem realizadas sob uma determinação qualquer, externa ao próprio átomo, mas que no momento inicial, os átomos apresentavam um movimento vertical no vazio levando-os a caírem. Se os átomos mantivessem este movimento inicial, os átomos seguiriam infinitamente em quedas paralelas sem jamais se agregarem em si, isto é, sem jamais constituírem qualquer elemento da matéria perceptível aos sentidos.

No entanto, Epicuro afirmava que, os átomos possuíam uma potencialidade imanente, variante a alguma atividade mecânica que poderia alterar o movimento infinito de queda. Ao realizar este movimento chocavam-se e agregavam a outros átomos, formando assim, um “mundo sensível”. O próprio Karl Marx em sua tese nos confere que:

Todo o corpo concreto é em geral um complexo, e em Epicuro será mais precisamente um complexo de átomos.153

Mas enquanto Demócrito reduz o mundo sensível à aparência subjetiva, Epicuro faz dele um fenômeno objectivo. Epicuro fá-lo conscientemente, pois afirma partilhar os mesmos princípios, mas não fazer das qualidades sensíveis simples objectos da opinião.154

A importância da tese de Karl Marx não está no materialismo do atomismo epicuriano, mas na forma como esta teoria do atomismo se presta para análise das formas da consciência. Em suma, na capacidade dos átomos em desviar-se da trajetória mecânica e com isso criar “universos distintos”. Para Denis Collin, professor do Lycée Aristide Briand d‟Evreaux:

[...] o lugar do átomo na filosofia epicuriana é completamente diferente do que se verifica em Demócrito, o átomo é uma espécie de coisa em si, um noumène que designaria o ser como tal, já em Epicuro, o átomo é um princípio de representação. [...] Assim, Epicuro objetivou no átomo a contradição entre a existência, enquanto Demócrito não faz senão “conservar o aspecto material e propor hipóteses com fins empíricos”.

153 Cf: MARX, K. Diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro. Lisboa: Editorial Presença, 1972, p. 25.

[...] Marx, sem haver ainda rompido formalmente com o helenismo, faz do materialismo epicuriano um momento decisivo da história da filosofia, tomada como a história da consciência.155

Ao realizarmos a leitura da teoria marxista tendo como concepção a teoria do pensamento epicuriano, salientamos que o cineasta Federico Fellini não segue a trajetória comum imposta pelo mercado audiovisual, da produção de um filme sobre os moldes do sistema hollywoodiano, Fellini restringe seu público ao propor um filme diegético, com particularidades de seu próprio “mundo cinematográfico”. Ao desviar- se da trajetória “comum” da produção fílmica, permite que ele próprio possa constituir uma narrativa, utilizando uma linguagem técnica específica própria do seu universo fílmico.

Entretanto, todo discurso cinematográfico traz certa carga de ideologias, próprias de quem o produziu. Mesmo Fellini não tendo realizado um filme propriamente voltado para o grande público consumidor, o mesmo acha-se inserido no modo de produção capitalista, pois depende deste modelo para “sustentar-se” como “personagem felliniano” do cenário audiovisual. Estabelece aqui a dialética marxista, entre o cineasta e sua obra enquanto “arte” e “objeto” vendável. A representação do Fellini hedonista é característica de sua obra, o filme “Satyricon” é

uma festa para os olhos, principalmente pela fotografia de Guiseppe Rotunno, da direção de arte e figurinos de Danilo Donati e da trilha sonora de Nino Rota.

Neste sentido, na leitura de Epicuro e do poeta e filósofo latino Lucrécio, a filosofia Epicurista adverte que os homens devem amar a vida e aproveitar as oportunidades de prazer que ela oferece, deixando de envenená-la com ódios, paixões e os dissabores, sobretudo, não se amargurando inutilmente com o medo da morte. “Devemos lançar longe de nós esse medo do Aqueronte, que profundamente perturba a vida humana em seu próprio âmago, e, cobrindo tudo com o negror da morte, não nos deixa nenhum prazer tranqüilo e puro”.156

155

Cf: COLLIN, D. “Epicuro e a formação do pensamento de Karl Marx”. In: POLITEIA: História e Sociedade. Vitória da Conquista, v. 6, n. 1, p. 21 e 23.

156

“Et metus ille foras praeceps Acherontis agendus. Funditus humanam qui vitam turbat ab imo, Omnia suffundens mortis nigrore; neque ullam. Esse voluptatem liquidam puramque reliquit.” Cf: De

A teoria atomista de Epicuro difere muito da teoria moderna. O homem é livre porque existe a “declinação atômica”. Assim, ao ter posse dessa liberdade, o homem pode decidir o seu destino, pode libertar-se de suas ambições, das preocupações do dia-a-dia, para isto, o indivíduo não deve visar cargos políticos, nem invejar aqueles que os detêm, nem preocupar-se com as riquezas. O filósofo Agostinho da Silva completa dizendo que157:

No fundo, o epicurismo é uma ascese, que pretende deixar o espírito o mais livre, o mais despojado, o mais puro possível para a apreensão dos prazeres que são os únicos que vale a pena buscar: o prazer da leitura, da contemplação da ordem do mundo ou da conversa entre amigos esclarecidos, o sentimento da fraternidade que une os homens livres; quando a morte vier, recebê-la-emos serenamente, primeiro porque tivemos cada hora presente como um tesouro precioso, sem nunca chorarmos o passado ou sonharmos o futuro, depois porque sabemos que a morte é o grande sono sem sonhos de quem já falava Sócrates.

O filme Satyricon de Federico Fellini apresenta-se na forma de teatro, permeado por rituais, que por vezes a narrativa do filme mescla-se com diálogos teatrais. Um dos aspectos mais marcantes do filme diz respeito a sua descrição e não propriamente a sua narrativa, fato verificado por meio da decoração e do desprezo pela luz natural. A fotografia sugere ao público um ambiente exótico, da busca pelo prazer e de uma filosofia epicurista. Sobre a filosofia Epicura, vejamos:

A própria alma, diz-se, tem os prazeres. Pois bem, que os tenha. Que seja a sede de delícias e prazeres! Que se encha de tudo o que em geral encanta os sentidos! Já que é capaz de rever o seu passado e se lembra dos prazeres de outra com transporte, que se debruce sobre aqueles que hão de vir, regule sobre isso as suas esperanças e, enquanto o seu corpo se abandona à boa vida, incida os seus pensamentos nos prazeres futuros! Tudo isso me parece tanto mais miserável, quanto é uma loucura tomar os males por bens. Sem a saúde de espírito ninguém é feliz, e não é são aquele que procura como sendo o melhor aquilo que lhe causa prejuízo. Por isso é feliz o homem que tem um julgamento recto; é feliz aquele que se contenta com o presente, seja ele qual for, e que ama aquilo que tem; é feliz Rerum Natura, III, VS. 37 a 40 In: EPICURO E LUCRÉCIO. O Epicurismo e “Da Natureza”. São Paulo: Editora Tecnoprint S.A, s/d.

157

Cf: SILVA, A da. “Prefácio”. In: EPICURO E LUCRÉCIO. O Epicurismo e “Da Natureza”. São Paulo: Editora Tecnoprint S.A, s/d.

aquele que confia à razão a organização dos seus assuntos. Aqueles que fazem do prazer o soberano bem, sabem muito bem o lugar vergonhoso em que o colocaram. Dizem também que o prazer não pode ser separado da virtude e afirmam que ninguém pode viver honestamente sem viver agradavelmente, nem viver agradavelmente sem viver honestamente. Não vejo como estes elementos podem caber no mesmo saco. Qual é, pois, pergunto-vos, a razão pela qual o prazer não poderia ser separado da virtude? Aparentemente o princípio de todo o bem está na virtude.158

No conjunto da tese de Marx, o filósofo apóia-se em Demócrito no aspecto da racionalidade e em Epicuro no âmbito da subjetividade159. A idéia de liberdade para Marx vai estar associada à teoria filosófica de Epicuro, que por sua vez vão delinear o pensamento felliniano para uma “psicologia do cinema” (emoção e sensação) 160.

Federico Fellini envolve o espectador na trama, trabalha mais com o subjetivo, com a emoção. Com isso, o público é conduzido pelo filme, na própria maneira de filmar. É a partir deste enfoque que passaremos a discutir os rituais cotidianos no Satyricon, sua natureza e práticas. Nesta perspectiva, o próprio conceito de ritual no Satyricon será construído por meio da leitura da obra fílmica e literária.

158 Cf: EPICURO; SÉNECA. Carta sobre a Felicidade e Da vida Feliz. Lisboa: Sophia, 1994, p. 47 e 48.

159 “Os homens agem em condições determinadas, condições que eles não escolhem, mas nas quais eles agem livremente. É esta liberdade essencial que Marx estima em Epicuro e é por causa dela que seu atomismo é um atomismo não determinista, ou, mais exatamente, é por causa dela que é possível delimitar um domínio do determinismo e um domínio da liberdade. Se o primeiro ponto não nos afasta das posições tradicionalmente defendidas por numerosos marxistas; o segundo passa despercebida pela maior parte deles, obcecados pela idéia de um marxismo científico no qual os indivíduos desempenham tão-somente o papel determinado pelas infraestruturas. A nonchalance epicuriana não tem lugar nesse sistema fechado da “ciência marxista”. Cf: COLLIN, D., op cit., p. 25. 160

Lado Direito do Cérebro: é o lado da emoção. No corpo este lado se manifesta na sua oposição – lado esquerdo. Assim, na tela, tudo que vemos do lado esquerdo do enquadramento é captado pelo nosso inconsciente, pela emoção.

Lado Esquerdo do Cérebro: é o lado da razão. No corpo este lado se manifesta na sua oposição: lado direito. Assim, na tela, tudo que vemos do lado direito do enquadramento é captado pelo nosso consciente, pela razão. Sobre esta questão o roteirista, dramaturgo, ator e escritor Jean-Claude Carrière cita que: “Aqueles que estudaram o cérebro [...] dizem que o centro da linguagem está situado no lado esquerdo, onde se encontram a razão, a lógica, a memória e a associação inteligente de idéias e percepções. A faculdade da visão, por sua vez, situa-se no lado direito, junto com a imaginação, a intuição e a música. A atividade normal do cérebro pressupõe que os dois hemisférios funcionem em harmonia através de incontáveis, minúsculas e velozes conexões. Se isso é verdade, então nenhum cérebro trabalha com maior amplitude e com mais intensidade do que aquele de um grande cineasta, solicitando constantemente a fundir o verbal e o visual.” Cf: CARRIÈRE, J.C. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 25.

EUMOLPO: É o amor ao dinheiro que causou essa transformação. Nos tempos antigos, quando se sabia apreciar a virtude por si mesma, as artes liberais e a ciência floresciam, e uma nobre emulação levava aos homens a darem o melhor de si na busca de descobertas que beneficiariam os séculos vindouros. Foi assim que Demócrito extraiu o suco de todas as ervas e folhas, e consumiu a vida em experimentos visando revelar as propriedades das plantas e minerais. [...] E nós, entretanto, mergulhados no vinho e na perdição, não temos sequer a determinação de estudar as artes que nos foram legadas, e como detratores da Antigüidade trilharmos um currículo de decadência. Onde foi parar a dialética? E a astronomia? Onde a estrada do saber? Quem hoje em dia vai a um templo e faz uma oferenda a um deus para conquistar a eloqüência ou por um golpe na fonte da filosofia? Nem mesmo mente sã em corpo são é o que pedem, mas, assim que adentrarem o templo promete oferendas em troca do prazer de sepultar um parente rico, desenterrar um tesouro ou amealhar sem esforço trezentos mil sestércios. O próprio Senado, antigo guardião das virtudes, faz votos de mil libras de ouro a Júpiter no Capitólio, ornando o deus com seus ouros e assim sansionando a ganância dos mortais. Não admira, portanto, que a arte da pintura tenha morrido, já que deuses e homens encontram agora mais beleza em barras de ouro do que nas obras-primas de Apeles e Fídias.

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