Assim como o que acontece nos termos propostos por Teixeira (2006, 171- 174), é possível constatar (nos subitens 4.2 e 4.3) as mesmas técnicas do marketing utilizadas nos programas de PT e PSDB. As palavras negativas são utilizadas para apontar o que há de errado ou deferir ataques contra os oponentes políticos. Já as positivas são utilizadas nas proposições, como forma de promessas ou para relembrar obras realizadas pelos próprios, em pleitos anteriores.
A escolha minuciosa das palavras, divididas entre as que representam um tom negativo e as de tom positivo, justificam a preocupação dos partidos em controlar a emoção do público, tornando o discurso um espetáculo de retórica e, por vezes, um sofisma.
Pode-se dizer que o marketing político incorpora em sua linguagem, a identificação incessante das regras práticas sobre a eficácia do discurso, dando prosseguimento aos ensinamentos da retórica. A concepção de discurso dos sofistas é muito próxima da dos profissionais de marketing político. A retórica é a primeira referência técnica do marketing político. Da retórica, ficou o ensinamento de que o manejo da linguagem pode ser um móbil para a ação. (RIBEIRO, 2002, p. 31).
A imagem de herói dada a um candidato surge a partir da seleção ou edição de palavras – no relato de Barthes (2006, p.162), de imagens – que denotam a mistificação da comunicação política, uma vez que conduz a atenção do público para os fatos que são mais convenientes.
Nota-se tanto nas palavras selecionadas (nos subitens 4.2 e 4.3), quanto nos trechos das comunicações assinaladas anteriormente, que o discurso se baseia em dois grandes pressupostos: 1º) o de que tudo está ruim e deve melhorar, por isso, o candidato se oferece como a solução do problema (TEIXEIRA, 2006, p. 154); 2º) o de que a conquista do público se deve a um discurso ufanista ou otimista, que desperta emoções como patriotismo, valores familiares, amor, raiva ao outro candidato), sonhos (de um Brasil melhor) e risos (ironia e situações jocosas). São basicamente os mesmos sentimentos descritos por Barthes (2006, p.164), “pátria, exército, honra e combate”.
Por conseguinte, quando se introduz uma crítica, imediatamente são oferecidas alternativas pelo candidato desafiante. Se for o caso de reeleição, o discurso é o do continuísmo, afinal, é apresentada a justificativa de que o período de quatro anos de mandato não é suficiente para se desenvolver um projeto.
Inicialmente, vejamos a crítica do PT ao governo anterior, o PSDB:
O Governo Lula recebeu uma dupla herança negativa. Conjunturalmente, em 2002, o país sofria os efeitos das políticas implementadas pela coligação PSDB-PFL, que frearam o crescimento, concentraram renda e riqueza, debilitaram o Estado, generalizaram a corrupção, afetaram o equilíbrio regional, fragilizaram a segurança energética, comprometeram a soberania nacional e deixaram o país à beira de uma nova crise macroeconômica. Estruturalmente, o país vivia as conseqüências de décadas de um crescimento concentrador de renda e de poder, constantemente mergulhado em crises inflacionárias ou de endividamento, incapaz de criar bases sólidas para financiar um desenvolvimento duradouro, que combinasse crescimento, democracia e bem-estar social. (PROGRAMA LULA PRESIDENTE – PLANO DE GOVERNO, 2007/2010, p. 5)
Agora, o discurso da “solução”:
Caberá ao segundo mandato (do PT) avançar aceleradamente no rumo desse novo ciclo de desenvolvimento. Um desenvolvimento de longa duração, com redução das desigualdades sociais e regionais, respeito ao meio ambiente e à nossa diversidade cultural, emprego e bem-estar social, controle da inflação, ênfase na educação, democracia e garantia dos Direitos Humanos, presença soberana no mundo e forte integração continental. (Idem, Ibidem)
A seguir, um trecho do plano de governo do PSDB, desafiante na eleição de 2006:
Nos últimos quase quatro anos, não só aumentou a distância que nos separa dos países altamente desenvolvidos, como estamos crescendo menos do que quase todas as nações em desenvolvimento. E o que é pior, muito menos do que poderíamos e precisaríamos para empregos e oportunidades aos nossos filhos. Vários países, que na década de 1950 eram mais pobres do que somos hoje, deram o salto do subdesenvolvimento para o desenvolvimento no prazo de uma geração. China e Índia estão caminhando a passos largos na mesma direção. Por que estaríamos condenados a ser retardatários nessa corrida? (PROGRAMA PSDB - GERALDO ALCKMIN PRESIDENTE, p. 1).
A seguir, o contra-argumento:
Respondo que o Brasil, com seus excepcionais recursos humanos, com seus riquíssimos recursos naturais – destacando-se, por exemplo, como uma das maiores reservas de biodiversidade, de água doce e uma das principais províncias de mineração do planeta -, com a base industrial e a capacidade científica e tecnológica que construiu no século passado e a estabilidade política e econômica que conquistou recentemente, está pronto para ser vitorioso na corrida do desenvolvimento (Idem, Ibidem).
Nota-se nos trechos aqui apresentados, bem como nas palavras ou nos termos extraídos dos programas, a grande carga semântica que cada um deles carrega. Mesmo dependendo de um contexto no qual estejam inseridos, é possível constatar que ao relacionarmos as palavras ou os termos de cunho negativo ao universo de um discurso político, existe a força que cada um deles possui ao causar um impacto súbito. As palavras ou os termos de cunho negativo são desferidos ao adversário, para em seguida serem oferecidas as soluções. É, pois, uma tentativa de gradação: ruim, regular, bom e ótimo – como foi destacado por Teixeira (2006, p. 157) -, ao oferecer um discurso otimista, na seqüência de um fato ruim.
Nas propostas, em pelo menos 80% delas, são utilizados o infinitivo como forma de remeter a palavras afirmativas para induzir ao convencimento. Além disso, estabelecem contigüidade entre as propostas, ou seja, proximidade lógica e estabelece um padrão mental de palavras positivas (Ibidem, p. 160).
As introduções dos dois programas de governo, de imediato trazem consigo alguns trechos que conduzem a opinião do indivíduo que o lê ao universo emotivo das impressões. Assim como os tradicionais meios de comunicação (TV, jornais,
rádios e revistas), os programas substituem os fatos – por exemplo, a trajetória dos candidatos - por percepções individuais que se tornam o centro das atenções do público. As informações sobre os fatos e as notícias são deixadas de lado, porém os sentimentos, as impressões e as opiniões de quem escrevem (sobre pessoas, lugares, objetos e acontecimentos) estão sempre latentes ao substituir o cerne ou o objetivo principal desses veículos, a informação.
Novamente, o mesmo que ocorre nas propagandas exibidas nos meios de comunicação acontece nos programas políticos. A posição de quem fala é levada também ao universo mercadológico, o universo do marketing. Os ataques entre os partidos presentes nos trechos aqui destacados visam desconstruir qualquer imagem positiva, que o eleitor possa ter sobre o outro candidato. Além disso, as metas são sustentadas por dados técnicos, elaborados para dar a impressão de que se trata de certezas científicas. Isso mantém a respeitabilidade do partido de forma elevada e procura construir argumentos, com base em informações sem referências, cujo objetivo é senão criar uma imagem positiva para si.
Vejamos alguns exemplos no Programa do PSDB, referentes ao PT:
A alta taxa de juros mantém a dívida elevada, a qual acaba por drenar recursos da sociedade. O Estado brasileiro gasta hoje cerca de 8,0% do PIB somente com pagamento de juros. Note-se, portanto, que em 2005 o Estado se apropriou de cerca de 43% de toda a produção no País. A despeito da alta arrecadação, o investimento público correspondeu a apenas 2,3% do PIB nas três esferas do governo. O investimento federal em infra-estrutura correspondeu a apenas 0,4% do produto interno. O baixo investimento público é sentido diariamente por todos os brasileiros na infra- estrutura deficitária; na falta de melhorias e expansões em estradas, portos, ferrovias hidrovias, serviço de saúde, segurança, educação (PROGRAMA PSDB - GERALDO ALCKMIN PRESIDENTE, p. 15).
Agora é inserido um dado técnico – sem a devida referência, o que denota a presença de um mito –, seguido de uma sugestão ou de uma solução para o problema:
Diversos estudos de economistas brasileiros atestam para a baixa produtividade da economia brasileira. As distorções institucionais existentes no País reduzem significativamente o produto potencial. Sociedades que se desenvolvem são aquelas que apresentam instituições que estimulam e premiam aqueles que produzem, que inovam. (PROGRAMA PSDB - GERALDO ALCKMIN PRESIDENTE, p. 18).
Assinalem-se, ainda, exemplos de estratégias discursivas destinadas a tornar suas imagens mais positivas e revolucionárias, agora presentes no Programa do PT:
De um lado, o bloco conservador que governou o Brasil na década de noventa e nos primeiros anos deste século. De outro, as forças progressistas comprometidas com um projeto nacional de desenvolvimento popular, democrático e soberano que passaram a governar o Brasil desde janeiro de 2003, com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República (PROGRAMA LULA PRESIDENTE – PLANO DE GOVERNO, 2007/2010, p. 7).
O maniqueísmo, tendência de reduzir um argumento em duas forças opostas, como o bem e o mal, é verificado na crítica acima. É, pois, uma clara tentativa de simplificação e direcionamento a um inimigo comum, como propõe Jean Domenach (1963, p. 57), quando disserta sobre as leis da propaganda política.
Na seqüência, dois trechos com exemplos de como induzir ao patriotismo, que vêm com uma sugestão implícita, que visa esconder as intenções do desafiante:
Exemplo 1:
[...] Ser vitorioso, neste caso, significa nos incorporarmos ao grupo das nações que têm um projeto claro de futuro e avançam decididamente em sua direção. Acima de tudo, significa cada brasileira e cada brasileiro poder sentir na sua vida, na da sua família e na da sua comunidade que está progredindo junto com o país. (PROGRAMA PSDB - GERALDO ALCKMIN PRESIDENTE, p. 10).
Exemplo 2:
Por fim, o programa econômico assegura a retomada do crescimento que beneficiará a todos. O destino do Brasil é crescer. Basta escolher o caminho correto (Ibidem, p. 20).
O tom conclusivo no trecho logo acima encerra uma possibilidade de diálogo, ao fechar em torno de si uma premissa tida como apenas um objetivo do interlocutor. A seguir, imediatamente outra sentença é inserida, mas agora em tom ufanista: “O destino do Brasil é crescer”. Ela mexe com o desejo do eleitor de ver um país mais justo, igualitário, e tende a transmitir-lhe a idéia de que ele também deverá crescer, provavelmente em termos econômicos, sociais e culturais.
Após inserir o tom emotivo que causará comoção e orgulho no brasileiro, tem- se o fechamento da comunicação, que o mito obscurece: para ter o tal crescimento, “Basta escolher o caminho certo”, ou seja, vote no PSDB.
É importante destacar como as metas dos programas se diluem, em meio à luta política entre os dois partidos. A informação também é tratada em segundo plano no início dos dois programas, bem como nos capítulos que iniciam cada discussão, no caso do plano do PSDB.
Outra tônica dos trechos acima é a construção de “verdades” a partir de dados apresentados no texto, ou seja; com base em pesquisas estatísticas são identificados problemas muitas vezes seculares na história do Brasil, porém atribuídos à falta de compromisso no período de mandato do adversário. Dentro dos estudos sobre comunicação social, Christopher Lash destaca:
Os meios de comunicação de massa tornaram irrelevantes as categorias da verdade e da falsidade, substituindo-as pelas noções de credibilidade, ou plausibilidade, e confiabilidade. Para que algo seja aceito como real, basta que apareça como crível ou plausível, ou oferecido por alguém como confiável. (LASH, 1990, p. 8).
O fato de os dois principais partidos terem histórias vencedoras ao longo dos últimos pleitos presidenciais torna seus discursos relevantes para seus públicos, em razão de possuírem vasta gama de eleitores que os aceitam como principais atores do processo sucessório. Ainda sobre a influência de uma retórica persuasiva, Lash destaca o fenômeno que chamou de “personalidades autorizadas” (Idem, Ibidem), quando estas substituem fatos e acontecimentos presentes na sociedade, por suas preferências ou opiniões. Nesse momento, segundo ele “existe a falsa noção de que a propaganda é informativa e o Estado se utiliza de tal ferramenta, para provocar no indivíduo a impressão de que o cidadão está informado” (Idem, Ibidem). Além disso, serve para transmitir a sensação de que as decisões governamentais foram as mais assertivas possíveis.
Acontece invariavelmente, desse modo, a perda da noção entre espaço da vida pública e privada e isso interfere nas relações políticas existentes ou, como destaca Marilena Chauí (2006b, p. 9), “os códigos da vida pública passam a ser determinados e definidos pelos códigos da vida privada, abolindo-se a diferença entre espaço público e privado”.
Ainda sobre a intenção presente no momento introdutório dos programas aqui estudados e também no que será visto, faz-se necessário recorrer aos conceitos trabalhados por Roland Barthes em Mitologias. Ao apontar os mitos do discurso político e midiático, ele renova as críticas marxistas no que se refere ao uso da
comunicação, com objetivo de produzir uma ideologia dominante advinda do meio político e social.
O mito se apresenta em sua forma mais rudimentar, com o discurso vazio e retórico, pois as necessidades da população são vistas como prioridades pelos meios de comunicação, pelos setores da sociedade civil e até pelos produtores de mitos. O mito trabalha, nesse caso, de forma a ludibriar a opinião pública com propostas óbvias, que poderiam estar presentes em qualquer disputa eleitoral, seja no poder executivo federal, estadual, ou municipal. Nota-se durante a leitura das proposições, a falta de compromisso do ponto de vista comunicacional sobre a dúvida que poderia ser gerada na cabeça do leitor; essa lacuna seria preenchida, portanto, com o mito.
Assemelha-se ao mito barthesiano o conceito de “simulacro”. Nesse sentido, Marilena Chauí (2006b, p.82) lembra que “simulacro” é derivado da palavra latina simulacrum, que significa semelhante. Por sua vez, ela tem suas raízes em outros termos como similis e simul (fazer junto, competir, rivalizar) e similitudo (semelhança, analogia, comparação). De similis vem o verbo simulare, que significa “representar exatamente, copiar, tomar aparência de”, este último significado leva o verbo a significar também fingir, simular. Em suma, simulacrum tanto pode significar uma representação ou cópia exata, com um fingimento, uma simulação” (Idem, Ibidem).
Uma vez estabelecida uma premissa como real, aceitável e mesmo reconhecida pelas experiências dos interlocutores, o mito apóia-se nela para preparar o caminho para o seu desenvolvimento. A noção de real ou de verdade descrita aqui, remete à noção de experiência vivida pelo sujeito. Uma vez que ele absorve um fato vivido como uma diretriz para seu pensamento e suas ações, tem- se a confecção de uma realidade e, posteriormente, uma verdade.
Um dos autores que trabalha esse conceito de “realidade”, alinhado ao pensamento de Chauí, é Baudrillard em Simulacros e Simulação. De acordo com o autor, com a reprodução do real (nesse caso uma simulação) cria-se um problema de ordem perceptiva. Essa aproximação entre o real e o fictício subjuga a consciência do indivíduo a respeito da diferença entre os dois. É dessa relação que nasce o simulacro, uma falsa noção da realidade, que se confunde com a própria realidade (BAUDRILLARD, 1991, p. 30).
O problema para Baudrillard aparece quando um simulacro – que por sua vez é também uma simulação – toma o lugar do real, tornando-se uma verdade. A partir
daí, a noção entre o que é real e fictício fica abalado pela hiper-realidade. Para o teórico, a hiper-realidade manifesta uma condição para estabelecer uma nova realidade, independente do que está por trás dela ou de uma conseqüência, uma atitude pensada ou não. Por isso, ela própria torna-se uma produtora de realidades que, no entanto, estão imbuídas de simulacros.
Quando se busca reproduzir o real, tende-se a “ressuscitar o real que lhe escapa” (Ibidem, p. 34). O real é, pois, recriado de forma multiplicada e tende a formar o mito, ou o simulacro. No discurso político, a ausência de uma forma concreta de realização dos planos de governo seria tal manifestação.
A estratégia política de cada candidato aqui estudado se esconde por detrás de uma plataforma que está próxima da hiper-realidade. Nela são incorporadas situações reais, nesse caso as questões de conhecimento público e notório por parte da população. Ao lado dessa plataforma, são alavancadas simulações que a distorcem e reconstroem a realidade, a partir de um discurso meramente artificial, ou seja, multiplicam a razoabilidade de cada questão (hiper-realidade). Dessa forma, os discursos agora servem para iludir ou ludibriar o julgamento do eleitor.
O resultado desse discurso torna-se uma hiper-realidade, quando ele exagera nas condições em que o real se encontra. Seu efeito é multiplicar a intensidade dos problemas que, no entanto, não possuem soluções adequadas uma vez que as resoluções propostas se baseiam em artificialidades ou no pouco conhecimento de causa por parte dos partidos.
Apesar da experiência que cada um deles possui, em razão do tempo de permanência no poder, a estratégia de apoiar-se no vazio surge como uma alternativa de dominação da opinião pública e, conseqüentemente, do poder que dela emana.
A hiper-realidade e a simulação, essas, são dissuasivas de todo o princípio e de todo o fim, viram contra o poder esta dissuasão que durante muito tempo ele tão bem utilizou. É que finalmente é o capital que se alimentou, no decurso da sua história, da desestruturação de todo o referencial, de todo o fim humano, que rompeu todas as distinções ideais do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, para estabelecer uma lei radical de equivalências e de trocas, a lei de bronze do seu poder. [...] Hoje, quando uma ameaça lhe vem da simulação (a de se volatilizar no jogo dos signos) o poder brinca ao real, brinca à crise, brinca a refabricar questões artificiais, sociais, econômicas, políticas. É para ele uma questão de vida ou de morte. Mas é tarde demais (BAUDRILLARD, 1991, p. 33).
Tanto Barthes como Baudrillard debruçam-se sobre as formas de dominação que se amparam nas armadilhas de um discurso. “O fato de um poder simular que não existe já é uma estratégia de dominação” (Ibidem, p. 38).
A importância de observar o que leva os partidos a desenvolverem programas aparentemente inócuos, é ter em mente a estratégia retórica que se esconde atrás de resoluções superficiais. A retórica esconde, ainda, a intenção que está por trás de uma política elaborada de maneira “estratégica”, como os estudiosos do marketing preferem chamar. Nela, o eleitor é tratado como público-alvo acertado pelas flechas da retórica, que por intermédio de seus interlocutores (os partidos), busca apenas o voto popular; nesse caso, feito de quatro em quatro anos.
Sobre os termos apresentados (nos subitens 4.2 e 4.3) é possível observar a presença de verbos de ação (tanto no infinitivo quanto no gerúndio) no início de cada proposta. Esses verbos transmitem a idéia de mobilidade, sugerindo a força das propostas ou seu poder de mobilização e mudança do quadro social. Outra constante é que os verbos trazem para si a atenção do leitor, devido ao fato de possuírem em seu âmbito a complexidade de seu termo, no que se refere ao significado.
Finalizar a criação da Super Receita que unificará todo corpo de fiscalização, simplificando procedimentos, resultando em economia de tempo e precisão nas informações para o contribuinte, tornando mais eficiente o combate à evasão fiscal e reduzindo custos operacionais (PROGRAMA LULA PRESIDENTE, p. 25).
No trecho acima é possível verificar, ainda, a utilização de um verbo no infinitivo para introduzir uma idéia de ação. Além disso, o termo trás consigo a carga de sua significação, a de que o processo já foi “iniciado” e que basta agora “finalizar”.
O uso do futuro do presente (unificará) indica assertividade, uma vez que sua conseqüência futura é dada como certa, ou seja, não há dúvidas de que dará certo; eis mais um mito. Por outro lado, a força fonética dos substantivos terminados em “ão” (precisão, evasão) remete à abundância e prosperidade, ou seja, as ações serão coletivas e para todos.
A repetição do gerúndio (resultando, tornando) reforça as idéias de ação transitória (ao sair de uma situação e migrar para outra) e de conseqüência imediata. Além disso, conclui-se que a idéia ou a premissa anterior resultará, inevitavelmente, na próxima sentença.
Devido à força dos adjetivos, cujos significados podem ser facilmente percebidos com relação aos juízos de valores por eles imprimidos, são utilizados novamente substantivos terminados em “ão” (precisão, evasão) e “entos” (procedimentos), que indicam ações imediatas e conseqüência oportuna. Ou seja, a mente do leitor é conduzida de imediato para outra idéia, sem dar tempo para raciocinar, uma vez que a premissa é dada como algo previsível ou óbvia. Eis o que Barthes chama de naturalização do discurso, quando o receptor não raciocina sobre