3.1 O BAMA - ADMINISTRASJONENS BEGRUNNELSE
3.1.3 D EN OFFENTLIGE DEBATTEN
Antes de iniciar a análise dos textos que trazem os programas políticos em questão, é preciso compreender o que significa discurso. Aqui definimos discurso sob a ótica de Foucault e Barthes. Os dois partilham - pelo menos inicialmente, já que sabemos que Barthes se torna rapidamente um dissidente - da visão estruturalista segundo a qual os discursos se deixam ler pela forma. Ou seja, a compreensão do significado é possível graças ao significante.
Para Foucault (2008, p.132), é preciso estabelecer regras que possam reger a formação dos discursos. Ele entende como discurso, um conjunto de enunciados que possuem limitações lingüísticas dentro de um sistema lógico para que faça sentido. Em outras palavras, para que faça sentido, um discurso deve obedecer a algumas regras de formação e, assim, demonstrar através da articulação entre os enunciados, a relação lógica entre elas.
Chamaremos de discurso um conjunto de enunciados, na medida em que se apóiem na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento ou utilização poderíamos assinalar (de explicar, se for o caso) na história; é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência. (Idem, Ibidem).
Segundo esse teórico, existem objetos que devem coexistir e formar um espaço discursivo comum. Os diferentes tipos de enunciação que permeiam os discursos devem ser considerados, bem como o aparecimento de conceitos e suas transformações em um campo discursivo.
O sistema de relações entre as estratégias presentes nos temas e teorias deve ser avaliado minuciosamente, para evidenciar os erros e os acertos das análises estabelecidas (Ibidem, p. 23-34). De acordo com Foucault, a formação discursiva evidencia-se quando:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações, diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e conseqüências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como ‘ciência’, ou ‘ideologia’, ou ‘teoria’, ou domínio de ‘objetividade’ (FOUCAULT, 2008, p. 43).
De acordo com Helena Nagamine Brandão (2007, p. 106), a enunciação pode ser compreendida como um “conjunto de signos obtidos a partir da interação de indivíduos, que estão organizados socialmente. A enunciação se dá num aqui e agora, jamais se repetindo. Ela se marca pela singularidade” (Idem, Ibidem).
O enunciado, segundo Foucault (apud BRANDÃO, 2007, p. 33), é compreendido através de quatro características. São elas:
1ª) A relação do enunciado com seu referencial, sendo este aquilo que o enunciado enuncia. “É a condição de possibilidade do aparecimento, diferenciação e desaparecimento dos objetos e relações que são designados pela frase” (Idem, Ibidem).
2ª) A relação do enunciado com seu sujeito. Concepção oposta a uma visão idealista do sujeito, vê a história como um processo contínuo, sem rupturas. De acordo com Foucault, descrever um enunciado é ir além do relato sobre o que o sujeito diz. É preciso constatar qual a posição de quem profere o discurso, “qual posição pode e deve ocupar todo indivíduo para ser seu sujeito” (Ibidem, p. 33 -34). Ele considera que para se ter a inteligibilidade de um discurso é preciso reconhecer as funções e o contexto de um enunciado (Idem, Ibidem).
3ª) A existência de um domínio associado ao enunciado. Ela integra o conjunto de enunciado, pois:
Não existe enunciado em geral, enunciado livre, neutro independente, mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, apoiando-se neles e se distinguindo deles: ele se integra sempre em um jogo enunciativo (Ibidem, p. 34).
4ª) A condição material do enunciado o faz emergir como objeto. Ocorre a distinção entre enunciado e enunciação. O enunciado aparece toda vez que é emitido um conjunto de signos, já a enunciação, sua marca é a singularidade, jamais se repete.
A formação discursiva é o “princípio da dispersão dos enunciados”, ou seja, um conjunto de enunciados que pertencem a um mesmo sistema e estão ligados entre si (FOUCAULT, 2008, p. 122). Por ser a base da análise discursiva, o enunciado deve ser observado de forma que se possa compreender sua condição de existência e quais suas funções específicas.
A análise enunciativa é uma análise histórica que deverá ter seu modo de existência interrogado. É preciso saber o que ela significa, sua expressão e por que se apresenta dessa maneira e não de outra (Ibidem, p. 124).
Para Brandão (2007, p. 37), a contribuição de Foucault ao estudo da linguagem pode ser compreendida através de tudo o que atribui aos discursos. Por exemplo:
1) Discurso como prática que advém da formação dos saberes e sua articulação com outras práticas não discursivas;
2) Conceito de formação discursiva, que possui suas próprias regras de formação;
3) Dos elementos da formação discursiva, a distinção entre enunciação (que deve singularizar o discurso) e o enunciado (unidade lingüística básica, proferido toda vez que não são emitidos os signos);
4) O discurso deve ser analisado sob o ponto de vista lingüístico e também como resultante da luta entre os elementos que o constitui;
5) Discurso como lugar onde saber e poder se articulam. “Quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente” (Idem, Ibidem). O discurso que veicula o saber é gerador de poder;
6) O discurso gerador de poder é controlado por procedimentos, que eliminam as ameaças que possam existir contra a supremacia desse poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder” (FOUCAULT, 2002, p. 10).
Sobre esse último item, na mesma linha de pensamento encontra-se Roland Barthes, para o qual o discurso torna-se uma forma de poder, por um lado, e de servidão, do outro, quando não oferece uma pluralidade de formas de expressão. (BARTHES, 1988, p. 12). Em Mitologias, ele se refere ao mito como o ápice dessa dominação da linguagem sobre a constituição da realidade humana. Narra sobre as condições especiais em que a linguagem se transforma em mito, objeto de estudo
deste trabalho. O mito desconsidera os limites históricos, as condições próprias de funcionamento e se aproxima da sociedade (Idem, 2006, p. 109).
No texto Saponáceos e Detergentes, em Mitologias, Barthes desvela os mitos inseridos na linguagem publicitária dos comerciais de sabões em pó. O papel desempenhado pelo produto na “libertação do objeto de sua imperfeição substancial”, mostra a sujeira como um personagem, um vilão que deve ser eliminado pelo herói dos humanos: o sabão (BARTHES, 2006, p. 40). A brancura estonteante da roupa ofusca o perigo da característica abrasiva do produto. “A matéria adquire assim estados valores” (Ibidem, p. 41).
A espuma é mostrada de forma ostensiva, significando luxo e proliferação abundante, que representa o quanto ele rende e por isso é econômico. A fetichização do produto – a transformação do objeto em um ser dotado de vida e valores próprios (para Barthes, próprios da burguesia) – é utilizada para chamar a atenção do consumidor, que passa a lhe atribuir um valor intangível que está além de sua utilidade ou funcionalidade. O produto adquire uma áurea própria, portanto, possui agora um valor diferenciado.
A mesma estratégia é utilizada na publicidade de O Novo Citroën, texto em que explicita a mudança da relação funcionalidade versus universo imaginário. A propaganda produzida para esse carro atribui um valor imaginário, que extrapola os limites de suas reais funções.
O mito inverte o sentido principal do produto, que é ser um veículo que sirva para locomoção, e investe todas as suas forças no design, transformando-o em algo mágico. As características do carro remetem agora à forma de uma casa ou à extensão do corpo de um indivíduo, como uma roupa. No plano da casa, a exaltação do vidro, dos bancos e do painel lembra um sujeito sentado em sua sala de estar, devidamente acomodado e olhando pelo painel, um espelho de si mesmo.
Cada vez mais, o carro tem a cara de seu dono. Quanto mais sofisticado, maior valor seu dono terá. Ele será como a vestimenta de um sujeito que circula protegido do mundo. Por isso, Barthes chama o automóvel em questão de Nautilus, o submarino da história de Júlio Verne que é guiado pelo capitão Nemo e o cerca do mais precioso luxo, protegendo-o de seus inimigos; ou como expõe Barthes (Ibidem, p. 83; 152) aprisiona-o perante a realidade.
A união dos conceitos de conforto e desempenho dados ao automóvel induz à relação estabelecida – como o carro sendo um lar – e obscurece o isolamento do indivíduo que o leva à alienação.
Em Fotogenia Eleitoral, outro texto de Mitologias, o mito se torna uma arma na conquista do poder. Através das imagens dos candidatos, é possível perceber o discurso impregnado de valores, que extraem a significação do objeto principal, a política.
A linguagem aparentemente oculta dessas imagens esconde a intenção do indivíduo e deixam passar despercebidas as relações lógicas que o induzem a outro tipo de raciocínio, dessa vez mítico. Barthes (Ibidem, p. 162) chama esta relação de “elipse da linguagem”.
Nas imagens dos políticos, assim como nos programas dos partidos, o mito insere a troca da disputa que deveria ter argumentos e debates, pela fotogenia, uma “maneira de ser” (Ibidem, p. 163).
O que é exposto, por intermédio da fotografia do candidato, não são seus projetos, mas suas motivações, todas as circunstâncias familiares, mentais e até mesmo eróticas, todo um estilo de vida que ele é, simultaneamente, o produto, o exemplo e a isca (Ibidem, p. 163).
As imagens, bem como as expressões propostas pelo marketing, são utilizadas nos discursos políticos quando, por exemplo, induzem o eleitor a pensar que os candidatos são semelhantes ao indivíduo comum, tornando-se heróis do povo. A partir daí, a isca está pronta para fisgar o peixe, ou seja, obter o voto almejado.
Através da fotogenia, um mito fetichista se imprime na imagem de um candidato. O mito e o fetiche misturam-se na medida em que os discursos transmitidos com eles convidam o eleitor a exaltar seus próprios valores. Como se estivesse na frente de um espelho, a população vê no candidato os seus desejos a serem realizados. Por isso, o mito faz com que o eleitor seja “convidado a votar em si mesmo”, devido à tamanha relação de empatia entre o produto (candidato) e o seu consumidor (o público).
Nos programas de governo de PT e PSDB, a mesma relação proposta pela fotogenia em Barthes pode ser observada. Em primeiro lugar, faz-se necessário descrever como estão dispostos os dois planos estudados. O programa do PT possui ao todo 38 temas, em cerca de 30 páginas. Já o programa do PSDB possui
32 temas em cerca de 220 páginas. A seguir, encontra-se a relação de cada um deles: