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R ASJONELL TILPASSING TIL ENDREDE BETINGELSER

4.2 A NALYSE : H VA KAN FORKLARE DISSE FORSKJELLENE ?

4.2.1 R ASJONELL TILPASSING TIL ENDREDE BETINGELSER

Assegurar que haverá energia suficiente para o crescimento sustentado do País, com qualidade adequada e incluindo a parcela de menor faixa de renda no consumo de energia. (PROGRAMA DE GOVERNO, GERALDO ALCKMIN PRESIDENTE, p. 132)

Assim como no programa do PT, o infinitivo (Assegurar) é utilizado para introduzir uma meta e para indicar mobilidade (ação), uma vez que remete à idéia de organização e elo entre as proposições. A repetição do infinitivo no início das outras metas causa a sensação de que está sendo desenvolvido um trabalho árduo e contínuo, ao serem insistentemente repetidas.

Na seqüência, novamente encontramos o futuro do presente (haverá), que ratifica uma idéia e promete uma ação futura de cunho positivo. Semelhante ao que ocorre no discurso petista, os substantivos levemente nasalizados (como “crescimento”) e o gerúndio (“incluindo”) indicam continuidade e conclusão imediata. Em outras palavras, o trecho ora analisado poderia ser reescrito desta maneira: “Assegurar que haverá energia com qualidade, suficiente para o crescimento sustentado do país, faz com que sejam incluídas as parcelas de menor faixa de renda no consumo de energia, ou seja, as pequenas empresas e os mais pobres”.

Com a retórica política, é possível combinar significações para cada termo, de modo a deixar o discurso mais elegante. Através de uma fala mais eloqüente e pomposa, é possível transmitir ambigüidade - nesse caso proposital, nos termos utilizados –, que passariam despercebidos pela maior parte da população, devido ao seu baixo grau de escolaridade, isso no caso do Brasil. Eis a presença do mito.

A intenção não parece ser, pois, o esclarecimento das propostas ou dos projetos de governo, com o objetivo de que a população os compreendesse. O que se busca é abranger todos os temas, mesmo que sejam com soluções vazias, ou seja, sem plena transparência sobre “o quê” e “como” serão realizadas.

Com frases curtas, pretende-se transmitir a idéia de objetividade e transparência no que será empreendido. No entanto, ao se observar minuciosamente cada uma das metas, torna-se fácil perceber a imprecisão dos programas. Colocadas dessa maneira, elas seriam o próprio mito, que pode ser constatado na indefinição de cada uma delas, ao trazerem consigo um grande ponto de interrogação que deixa o eleitor sem saber o que acontecerá na prática.

Em razão de suas imprecisões, as estratégias abrem espaço para que no futuro os partidos e candidatos não sejam cobrados de uma maneira mais pontual e objetiva. O efeito do mito é, assim, assegurar que o processo eleitoral seja um grande show ou espetáculo, em que o mais importante não seria o conteúdo, mas a forma como ele é transmitido (BARTHES, 2006, p. 205).

Ao dizer algo óbvio como “melhorar a gestão”, coisa que se espera de qualquer partido que chegue ao poder, é preciso verificar o que se pretende com tal afirmação. Nesse caso, ela foi introduzida para despertar o desejo de justiça e, além disso, fazer uma crítica aos casos de corrupção verificados no governo petista, em 2005 e 2006. Ou seja, introduz uma idéia tida como um valor praticado pela sociedade ou, pelo menos, modelo para esta. A partir daí é introduzido o mito.

A operação mitológica nos programas de PT e PSDB, nas eleições presidenciais de 2006, não está só nos ataques ao adversário. Está também em afirmações que causam comoção, patriotismo e, mediante termos com conotações positivas, induzem ao bem-estar, ao prazer.

A seguir, alguns exemplos de termos que reafirmam o mito no discurso do PSDB:

Uso do infinitivo: verbos assertivos cuidadosamente escolhidos para

despertarem sentimentos de empatia entre o público e o candidato. Exemplos: investir (p. 169), recuperar (p. 211), fortalecer (p. 132), valorizar (p. 9), resgatar (p. 14), seguir (p. 17).

Uso do gerúndio: tem papel chave no discurso político. Ao introduzir uma

premissa falsa ou duvidosa, o gerúndio encerra rapidamente a frase, não dando chance para questionamentos ou tempo para que o receptor raciocine sobre o

assunto. Sua sonoridade se confunde com a métrica da oração, que é encerrada devido à falta de elementos para sua indagação. Exemplos: abrindo (p. 54), harmonizando (p. 17), fortalecendo (p. 170), ocupando (p. 7), equilibrando (p. 18), permitindo (p. 18).

Futuro do presente: transmite força e faz com que um discurso seja mais

credível, uma vez que o emissor utiliza de sua persuasão para convencer o público. Exemplos: dará (p. 34), deverão (p. 39), terá (p. 41), serão (p. 51), facilitará (p. 51), girarão (p. 59).

Advérbios: enfatizam uma idéia e determinam uma pequena pausa no

discurso, tempo para que as conclusões sejam digeridas pelo público a ser persuadido. Entretanto, esse tempo não é suficiente para que seja questionada a razoabilidade entre as sentenças. Exemplos: perfeitamente (p. 13), ainda (p. 23), sobretudo (p. 39), também (p. 47), extremamente (p. 45), integralmente (p. 40), assim (p. 87).

Substantivos terminados em “ão” e “ento”. Assim como nos jingles de

campanha, brinca-se com a sonoridade dessas palavras, que repetidas insistentemente ajudam a fixar uma idéia na mente do eleitor. Exemplos: prevenção (p. 192), fiscalização (p. 3), formação (p. 63), inserção (p. 94), participação (p. 3), julgamento (p. 2), crescimento (p. 13).

Adjetivos: representam as qualidades que o eleitorado espera de qualquer

candidato, baseadas no senso comum. Eles embelezam a fala do candidato. Exemplo: desenvolvido (p. 1), vitorioso (p. 2), possível (p. 19), permanente (p. 18), qualidade (p. 23), sólida (p. 39).

De modo geral, pode-se perceber a construção de um programa político com dois atos principais. No primeiro relata-se o padrão atual, ou seja, o negativo quadro social e político da atualidade, bem como as ações equivocadas que o partido que está no poder colocou em prática e as ações necessárias que deixou de fazer. Posteriormente, são introduzidas soluções para quase todos os problemas do país, o que causa a sensação de que todos eles serão resolvidos em apenas um mandato.

O mito é introduzido no segundo momento, uma vez que tende a iludir o eleitor em relação ao fato de que, com a eleição de um candidato ou outro, seu problema será sanado. O tom messiânico que o mito impõe ao segundo ato deixa

transparecer, que com a figura do messias (o candidato eleito) existirá uma era de mudanças em que todos serão felizes.

É nesse momento que a publicidade se revela, ao mostrar campanhas fantasiosas em que os candidatos aparecem abraçando crianças, jovens e portadores de deficiência física. O mito de que o candidato é o pai, ou melhor, o herói do povo está posto em evidência.

Em um de seus livros, tratando do simulacro na política, Marilena Chauí refere- se a um fato ocorrido na eleição presidencial de 1989. Naquela ocasião, o então candidato Fernando Collor de Mello apareceu em público sob efeitos especiais: a trilha sonora do filme Guerra nas Estrelas. Havia, com isso, a intenção de transmitir ao público a imagem de modernidade e destemor do candidato. A seguir, mais um exemplo de como o mito aparece:

Ele chegava aos comícios em um helicóptero, que iluminado por holofotes de mil cores descia às praças, indicando que o candidato vinha do alto, dos céus à terra – um enviado do senhor. Nos mesmos moldes, sob essa forma de propaganda marcou presença a campanha presidencial de Lula, em 2002, particularmente com a imagem produzida para as últimas transmissões: mulheres grávidas, vestidas de branco “telegênico”, dançando, correndo, andando, saltando em uma planície verdejante ao som do Bolero de Ravel, para significar que estávamos às vésperas do parto de um novo país CHAUÍ, 2006b, p. 43).

A semelhança entre os termos “mito” e “simulacro” aparece, sobretudo, uma vez que ambos detalham a construção ou uma inversão da realidade de acordo com o que se pretende impor à mente do interlocutor. Ambos podem construir verdades, que seriam apenas mais um discurso, se eles não se sobrepusessem às demais vozes constituintes formadoras de opinião. Ou seja, o modelo político de comunicação fere os princípios básicos da inteligibilidade, visto que a comunicação vem incompleta.

A intenção ao criar um projeto de governo deveria ser a de publicar aos possíveis eleitores, as metas do que se pretende fazer. Os eleitores esperam receber informações sobre como as intenções dos candidatos serão postas em prática. Todavia, a comunicação política no Brasil se expressa sobre uma teia mítica que encaminha apenas boas intenções nas propostas.

Outro fator relevante é a figura da ideologia formada por esse tipo de comunicação. Ligada ao poder, ela é o que Marilena Chauí classificou como

“Ideologia da Competência”. Nela, “não é qualquer um que pode em qualquer lugar e em qualquer ocasião dizer qualquer coisa a qualquer outro” (CHAUÍ, 2006a, p. 76). Ou seja, o discurso é admitido não para todos, por isso há uma divisão entre quem deve ouvir e quem deve falar. Além disso, existe a forma e o conteúdo do que deve ser dito e o que precisa ser ouvido. A distinção ocorre entre os que possuem um saber científico – portanto com o direito de opinar – e os que não têm essa permissão, por não possuírem tal conhecimento, ocorre de modo a restringir a forma de expressão desses últimos. Desse modo, é instituída a divisão entre os competentes, que sabem, e os incompetentes, que obedecem (Idem, Ibidem).

Essa divisão novamente retrata um outro fato, a supremacia entre os detentores do discurso – que Barthes (2006, p. 229) denuncia como sendo a burguesia – e os que não o possuem, representados pelos oprimidos e alienados. Eis aqui, claramente, a conseqüência última do mito na política, a exclusão e a dominação induzida dos subjugados.

Conclusão

A retórica política somada ao marketing e às técnicas de publicidade tem garantido a ascensão ao poder, de partidos que outrora não apareciam no jogo político. Foi assim com Fernando Collor de Mello em 1989, quando seu pequeno partido, o PRN, conseguiu desbancar gigantes da política brasileira como o PMDB e o sempre engajado PT.

Anos depois, marcada pela forte oposição entre o PT e PSDB, as eleições presidenciais de 2006 se destacaram como o pleito em que a comunicação foi decisiva, com a entrada da internet no jogo presidencial, o que não ocorria antes. Os discursos foram marcados pelas pesquisas de opinião e técnicas mercadológicas ou marketeiras - aprimoradas cada vez mais –, com objetivo de que as proposições estivessem alinhadas com o pensamento popular, manifestado através dos meios de comunicação. Porém, a meu ver não foram as proposições que decidiram o pleito.

Os programas de governo apenas reafirmaram sentimentos e impressões que o público construiu ao longo dos anos, sobre os dois principais atores políticos daquela eleição. A semelhança entre os discursos se mostra presente desde a escolha dos termos apropriados, para não despertarem desconfiança entre os eleitores, até a articulação e repetição incessante de termos. O conteúdo no que se refere às metas, pouco se difere. Feitas de forma exagerada, elas imprimem seu próprio ritmo mental comparado ao que Tchakhotine (1967) tão bem atribuiu às estratégias behavioristas de persuasão.

O espetáculo em que se transformou a política, com os holofotes das atenções voltadas às disputas e ataques entre adversários, como o que ocorreu entre PT e PSDB em 2006, evidencia a presença do principal articulador das pretensões políticas, ou estratégias de ascensão ao poder, o mito. Os discursos alinhados com as técnicas de comunicação adequadas, apenas ratificam a intenção dos partidos de sobressaírem aos demais. Aqui, o importante deixa de ser a relevância das proposições e passa a ser a rixa que se criou entre as duas maiores forças políticas da atualidade.

Quando me referi ao cerne deste trabalho no capítulo 4, eu o fiz com a intenção de mostrar o jogo eleitoral não a partir das discussões das metas, para não introduzir uma discussão que é objeto das Ciências Políticas. O objetivo foi mostrar

que a partir de uma análise comunicativa, mesmo sem conhecimento pontual sobre os problemas específicos do Brasil, como educação, saúde, segurança, etc., é possível visualizar as armadilhas do discurso, que Barthes tão bem o definiu como sendo o mito. Tais estratégias se baseiam no senso comum - bem como nas imagens que os eleitores fazem de si mesmo -, para lançar mão de um discurso que venha articular através de premissas astuciosas, verdades imputadas no senso coletivo sobre a maneira de fazer política no Brasil.

Isso é o que Barthes chama de naturalização do discurso, uma vez que a maneira retórica e a sofística nas formulações apresentadas, induzem o eleitor a pensar que a política no Brasil sempre foi feita dessa maneira. O mito faz uma articulação perfeita entre o desconhecimento da língua no país, sobretudo no que se refere à semântica, uma vez que a baixa escolaridade dos brasileiros proporciona tal oportunidade. Além disso, a força da publicidade no que se refere ao despertar de sonhos e emoções positivas, chamadas de ‘gozo’ por Bucci e Kehl (2006), faz com que a imagem de um político seja a de verdadeiro ídolo ou herói, causando a infantilização dos votantes no processo eletivo.

Esse tipo de sentimento é o mais propício para a introdução do mito, uma vez que ele causa o desinteresse por questões complexas como são as nuances do discurso, ou a lógica política e social presente nas metas que são propostas. É nesse momento que ocorre a falta de empenho ou curiosidade do povo, no que se refere à história política dos candidatos e do país. Quando Marx (1993) chama atenção sobre os ardis da ideologia, ele quer denunciar justamente os perigos de não tomar como referência os dados históricos. Sujeito aos mesmos erros, a falta de memória histórica e política impedem o país de se desenvolver.

Assim como em Baudrillard (1991), o problema nas proposições, sobretudo nas comunicações, é que o mito toma o lugar do real. A escolha de Barthes, um autor estruturalista que transcendeu as barreiras desse movimento, se deve a isso. Ele percebeu em determinado momento, que o mais importante no Estruturalismo não era limitar-se à análise da forma em detrimento ao conteúdo, e sim de ir além a isso tudo.

A comunicação é um meio de interação entre indivíduos, seja em sua forma falada, escrita, gestual, entre outras. Barthes viu no Estruturalismo, a potencialidade de um estudo que descobrisse através da comunicação - vista por mim neste momento, primeiro como meio ou forma de interação - o que o mais cético dos

cientistas tenderia a questionar, o método de análise de um conteúdo. Uma análise sobre os discursos do PT e do PSDB poderia ser feita a partir de diferentes objetos, seja sob o ponto de vista da Filosofia, das Ciências Políticas, da Sociologia, etc. Entretanto, a escolha por Barthes foi feita quando ele percebeu na comunicação uma possibilidade de diálogo, ou melhor, um olhar externo entre a forma (significante) sobre o conteúdo (significado).

Durante os estudos sobre as técnicas de discurso político presentes no capítulo 3, ficaram evidentes as potencialidades das palavras e termos que a meu ver extrapolaram os limites da semântica. O uso da sonoridade das palavras para induzirem determinadas emoções e pensamentos mostra até onde vai a lingüística e entra a psicanálise. O conjunto disso tudo é a comunicação, um estudo que possui um amplo leque de possibilidades, em que a interação entre os indivíduos supera os limites da língua falada ou escrita.

Na medida em que o real é simulado nos programas de governo e reproduzido em uma forma publicitária, ele é substituído em sua lógica por um simulacro (uma simulação deformada), que permite a instauração da hiper-realidade. Deste modo, o real é ampliado em sua forma, o que nos programas do PT e PSDB ficam evidentes quanto à imprecisão das propostas. Elas são feitas sem a devida prudência, com vistas a inflamar as multidões, que não sabem se as metas poderão ser realizadas posteriormente.

O real pode ser compreendido no caso político, ao questionarmos, por exemplo, qual é a razoabilidade de um discurso produzido sem a noção objetiva, de quanto as metas custarão aos cofres públicos. A partir daí entra a hiper-realidade, que é baseada em um mito ou simulacro, como foi exposto nos capítulos anteriores. As promessas transcendem o limite do real e passa a produzir a noção de que serão realizadas.

Ao descrever os termos utilizados nos programas, no capítulo 4, meu objetivo é mostrar no que o marketing transformou a linguagem dos discursos, não só do ponto de vista morfológico e semântico, mas também suas deformações, se comparado ao contexto tais quais os termos poderiam ser aplicados se não fossem os mitos.

O mito extrai um termo de um contexto e o insere em outro, modificando sua significação. Ele distorce o sentido, transformando-o em algo compatível com os valores dos ideólogos. Marx, Althusser, Eagleton, entre outros, mostram a polêmica em torno do termo ‘ideologia’, justamente por ele introduzir falsos conceitos que

mascaram a intenção de seus produtores, bem como possibilitam uma estratégia de opressão velada.

Ao introduzir conhecimentos das áreas de comunicação e da psicanálise, o marketing torna-se, pois, uma poderosa ferramenta de persuasão que, não contribui em nada para o desenvolvimento do país. O objetivo deste trabalho é, pois, fazer um alerta sobre a utilização dessas estratégias cada vez mais sofisticadas, que visam ludibriar os receptores (todos nós). Ao fazê-lo, minimizamos o tempo perdido rumo a um futuro próspero para toda a nação, bem como conservamos o maior bem desde a instauração do regime republicano, a democracia.

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