de receitas
Nas primeiras reportagens que fiz, como, por exemplo, “Estas notas de um dólar são obras de arte”, não era eu quem legendava os vídeos. Ou seja, o editor de vídeo ouvia todas as falas e transcrevia aquilo que diziam. No entanto, senti que poderia evoluir mais se me tornasse mais autónoma. Legendar os vídeos era uma das minhas ambições pois tinha a certeza de que, se perguntasse, alguém me ensinaria. Até porque, no
V Digital
, nenhuma aprendizagem me foi negada.Aprender a lidar com ferramentas de edição de vídeo é cada vez mais uma necessidade para os jornalistas. O jornalismo faz-se valer cada vez mais da imagem e, por isso, saber filmar e editar tornam-se competências importantes, a meu ver, para o profissional. Com a evolução tecnológica, alteraram-se os meios por onde a informação é disseminada, assim como os métodos de recolha e tratamento dos factos (Lewis et al, 2008). Ao mesmo tempo, assiste-se a uma diminuição no que respeita às fontes de receita dos média que, em muito, se deveu à crise económica portuguesa
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(Bastos, 2014). Menos dinheiro a entrar nos jornais significou um número crescente de despedimentos nas redações. O volume de trabalho aumentou para os jornalista que passaram a ter que realizar múltiplas funções em simultâneo: entrevistar, filmar, editar fotografar e escrever. “A pressão, sublinha, é ao mesmo tempo laboral (despedimentos, instabilidade de emprego, precariedade, diminuição dos salários reais, desrespeito pela contratação coletiva, emagrecimento das redações, imposição da polivalência funcional), profissional, ética, empresarial, político- ideológica e de autonomia” (Bastos, 2014, p.45).
Até 2001, assistiu-se a aumento de jornalistas. Este
boom
deu-se com o aparecimento do mercado televisivo privado, tendo triplicado de 1990 a 2001 “passando de 2.347 para 6.230 profissionais (Fidalgo, 2005, p.10). Mas, se confrontarmos os dados de 2005 com as estatísticas disponibilizadas no site da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista10 (CCPJ), a 6 de março de 2019, verificamos que houve um decréscimo no número de profissionais no ativo (CCPJ, 2018). Em março de 2019 havia 5.549 jornalistas a exercerem a profissão. Mas Fidalgo (2005) afirmava que havia uma tendência para a heterogeneidade na classe profissional, com uma tendência ascendente do número de mulheres e com formação académica. Já os dados consultados, referentes a março de 2019, mostram que ainda há um longo caminho a percorrer no que concerne à igualdade de género no jornalismo: a maioria dos jornalistas é do sexo masculino (3.303 face a 2.278 mulheres) e há 1.253 a exercerem com o ensino secundário, face aos 1.115 licenciados e 150 mestres (ERC, 2018). Este contexto inicial serve para ilustrar que há muitos fatores que influenciam alterações à prática jornalística e um deles diz respeito à gestão dos recursos humanos (Lewis et al, 2008).As receitas dosmédia advêm, essencialmente, da venda de publicidade. Um dos administradores da
GMG,
em visita à redação doV Digital
, informou a equipa da importância da produção do vídeo por parte do grupo. Isto porque, frisou, tinha havido uma quebra inesperada de investimento publicitário no verão de 2018. Ao mesmo tempo, referiu que a venda dos jornais dos demais órgãos do grupo, como oJN
eDN
, continuavam a ser a segunda principal fonte de receita que alimentava o grupo. Porém, as vendas continuavam a decrescer. Nesse sentido, a pessoa salientou a importância do vídeo como forma de mostrar a qualidade da produção do grupo nesta linguagem e de captar a publicidade. “O importante é que, quando uma marca como aBMW
quiser um
10 Dados retirados das últimas estatística disponibilizadas pela Comissão da Carteira Profissional do Jornalista a 26 de março de 2019, disponíveis em: https://www.ccpj.pt/media/1227/cp.pdf
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anúncio publicitário venha até nós, porque sabe a qualidade que a nossa produtora de vídeo tem. E o
V Digital
acaba por ser também uma montra desse trabalho”, disse. No entanto, parece-me que ter esta conversa com os jornalistas denota alguma promiscuidade, tendo em conta que jornalismo e publicidade são áreas incompatíveis. É certo que, hoje em dia, se verifica a emancipação de publireportagens, algumas assinaladas como tal e outras “mascaradas” de jornalismo (Veríssimo, 2017).Com a crise emergente no jornalismo e com as fontes de receita a diminuírem, tem-se verificado uma crescente aposta em conteúdos híbridos, não em relação às linguagens, mas no que concerne à mistura entre duas áreas distintas da comunicação: o jornalismo e a publicidade (Veríssimo, 2017). As marcas pagam aos jornais para fazerem delas notícia, com o objetivo puro de divulgar e fazer crescer as vendas e as marcas. Outras são “mascaradas” em
press releases
e, como referido anteriormente, o cariz publicitário nem sempre é filtrado pelos jornalistas (Veríssimo, 2017).Mas, a verdade, é que fazer jornalismo é defender o seu princípio: informar. E, por isso, parece-me que misturar estas duas áreas que possuem objetivos nitidamente distintos é errar enquanto profissionais do jornalismo e violar os princípios éticos. Principalmente, quando se trata de conteúdos jornalísticos que escondem a publicidade que nutrem. Durante a experiência de estágio não estive envolvida em publireportagens. No entanto, observei alguns comportamentos que me fizeram pensar no “porquê” de os jornalistas aceitarem compactuar com estes conteúdos. Não me parece que seja uma questão de escolha do jornalista e isso deve-se, na minha opinião, à falta de emprego e às condições de trabalho no mercado. As redações são hierarquizadas, o que condiciona o poder de recusa em situações como a realização de publireportagens. Suponhamos que estaria a lutar por um lugar de trabalho. O meu chefe de redação atribui-me uma reportagem que pouco tem de informação e muito tem de publicidade. Dizer que não a este trabalho é legítimo, e está no código deontológico do jornalista a possibilidade de recusa quando a tarefa vai contra os seus princípios éticos. Este caso é tanto antiético como contrário à legislação de compatibilidade de profissões. Porém, dizer que “não” pode significar um despedimento. A situação laboral dos jornalistas não é, segundo o que observei da realidade dos meus colegas, estável. As redações “emagrecem” e com elas aumenta a disputa por um lugar de trabalho. Com isto, defendo efetivamente que é um dever do jornalista escusar-se a fazer trabalhos que misturem jornalismo e publicidade. Porém, há que atender ao novo paradigma que o jornalismo enfrenta e que vem sendo debatido ao longo deste relatório de estágio. Embora não se tenha de aceitar, os constrangimentos podem influenciar a decisão final do jornalista.49
Além desta questão, há outra que se foi evidenciando: o aparecimento do jornalismo
multitasking
. Esta designação diz respeito à realização, por parte de um indivíduo, de várias tarefas. Este conceito pode ser encarado de forma positiva, mas também negativa. Por um lado, o saber não ocupa lugar, já diz o ditado. Os cursos superiores são cada vez maismultitasking
. Ensinam-nos várias valências que se manifestam úteis, quando se procura trabalho. Quando procurei emprego, foi-me sempre perguntado se sabia editar, tirar fotografias, mexer em múltiplos programas, como o Première, o Audition,
entre outros. Mas, por outro lado, saber tudo pode significar não saber fazer nada bem e isso poderá resultar em erros jornalísticos. Estar a filmar ao mesmo tempo que são colocadas perguntas ao entrevistado pode resultar em maus enquadramentos, planos esteticamente maus ou a perda de oportunidade de perguntas pertinentes por falta de atenção ao que o entrevistado está a dizer. Ou seja, o jornalista deixa de estar focado numa só coisa e passa a controlar várias ao mesmo tempo.Um dos meus objetivos com o estágio no
V Digital
passava pela melhoria das competências de edição em Première. Já sabia editar (mas de uma forma muito simples), sabia filmar (mas apenas com a minha máquina fotográfica) e pouco mais. Tendo em conta os excelentes profissionais que integravam a equipa, julguei que esta seria uma oportunidade de aprender com os melhores. Comecei por observar tudo o que o editor César Sousa fazia na captação dos planos de corte. Tentei ganhar alguma sensibilidade para a filmagem e aprender, através da observação, a editar melhor. Não porque seja defensora deste conceito demultitasking
, mas porque sei as exigências que nos fazem, recém-licenciados e recém-mestrados, de dominarmos todos os setores que envolvem a produção de conteúdo. No entanto, noV Digital
, há distinção entre o trabalho de editor e câmara face ao jornalista. Este último, por vezes, edita parte da sua reportagem, mas no sentido de ser o responsável pela construção da narrativa. Os editores atuam como forma de limar arestas. Além disso, só filmei num trabalho e porque surgiu, no terreno, a necessidade de filmar em múltiplas dimensões. Ainda assim, filmei apenas, quando não me encontrava em período de entrevista, para que não perdesse o foco. Considero que esta é a melhor prática. Ainda que possa parecer contraditório, confesso que o facto de ter editado e filmado pouco me entristeceu. Não consegui enriquecer muito as minhas habilidades noutras áreas que fogem um pouco daquilo que eram as minhas tarefas habituais de jornalista. Esta oportunidade não me foi dada, mas fui em busca dela através dos pedidos que ia fazendo aos meus colegas da área da fotografia e do vídeo. Mas, essas aprendizagens deram-se, sobretudo, fora do horário e do ritmo de trabalho. Penso que o facto de não me terem permitido fazer um jornalismomultitasking
se prende com o50
profissionalismo que os membros da equipa pretendem que as peças tenham. Defendem que cada um tem a sua tarefa em específico e isso ajuda a que cada pessoa se foque na sua tarefa e a faça com eficácia e rapidez.
1.12 Em Síntese
Discutidas todas estas experiências decorrentes do estágio, é tempo de refletir sobre algumas das problemáticas que mais se evidenciaram nestes três meses.
A primeira questão que se salienta é o novo papel do jornalista, bem como o novo paradigma que a profissão enfrenta numa era cada vez mais voltada para o mundo online, numa comunicação que passou a ser de todos, para todos. Falar em jornalista num meio como o
V Digital
é falar na capacidade de adaptação às caraterísticas ao online, como a rapidez de produção e a capacidade de atualização da informação ao minuto. Tais especificidades do meio obrigam o profissional de comunicação a ser cada vez mais rápido e sucinto. Por outro lado, o jornalista passou a ser um profissional sedentário, que procura fontes que colocam ao seu dispor conteúdos praticamente prontos a serem publicados, em vez de ir à procura, no terreno ou até por via telefónica (entre outras formas), de contacto direto com a sua fonte de informação, muito derivado da falta de tempo para trabalhos morosos, assim como de recursos económicos.Esta é a questão que mais se mostrou alarmante: comprovar que toda a teoria existente sobre a prática do jornalismo de investigação, género jornalístico que exige espírito de curiosidade, “faro” jornalístico, persistência, coragem e até paciência – devido ao tempo dispensado em busca da informação completa e rigorosa que explique os fenómenos – tem vindo a decrescer. E o
V Digital
mostrou isso mesmo. O meu trabalho, enquanto estagiária, muito pouco permitiu demonstrar e fomentar as caraterísticas de um jornalista ativo. Apenas precisei de colocar em prática algumas delas, nos casos que disseram respeito a conteúdos independentes de fontes de informação como oWibbitz, Lusa e Reuters.
É de ressalvar que tais trabalhos representavam uma pequena percentagem do elaborado em três meses de estágio. Não considero justificação o facto de ser estagiária, pois a editora sempre me tratou como aos outros jornalistas, o que, de certo modo, não deveria acontecer, como anteriormente explicado. Daquilo que observei a partir dos emails diários que davam conta dos temas a abordar durante o dia, todos os jornalistas faziam a maioria do seu trabalho a partir deWibbitz,
ou seja,
conteúdos pré-elaborados. Se assim é, caminhamos para um jornalismo cada vez mais indiferenciado entre meios, porque a informação oriunda de veículos informativos que fabricam e partilham informação com os órgãos de comunicação social51
é acessível a todos. Isso foi comprovado com a reação da nova direção face ao caminho que o local onde estagiei estaria a seguir, uma vez que mudou a grelha de programação excluindo, quase na sua totalidade, conteúdos provenientes de agências noticiosas. Depender exclusivamente de notícias oriundas de agências é uma prática com riscos associados. Se, por um lado, o leitor exige cada vez mais conteúdos online, obrigando a uma grande produção de informação, por outro lado as redações estão “emagrecidas” pela debilidade económica que as organizações atravessam. Disto tem resultado a procura crescente por fontes como agências noticiosas e as atividades de relações públicas. Desta dependência exclusiva dos jornalistas das estas fontes, podem resultar notícias com pouco rigor informativo, tal como discutido anteriormente, e pode reduzir-se a diversidade de temas e ângulos de abordagem.
Além desta questão da decadência do jornalismo de investigação e autónomo nas redações online, assiste-se a um novo paradigma no que concerne à forma como os conteúdos são apresentados aos leitores. As caraterísticas do online têm feito com que os conteúdos sejam cada vez mais híbridos, com complementaridade entre as linguagens. A linguagem sonora torna-se crucial, na medida em que cria emoções e ajuda a contar a história. Ao mesmo tempo que o visual conta a maioria da narrativa, comprova o real e o proferido pelos elementos textuais.
Torna-se assim pertinente analisar o que de novo acarretou o aparecimento do
V Digital
para a informação pública. Ao mesmo tempo, importa perceber quais as rotinas de produção jornalística num canal online de vídeo informativo, como oV Digital
se autoapresenta. No que concerne a esta análise, todo este panorama suscitou a curiosidade em registar como é organizado o trabalho diário e com que linguagens as notícias são construídas, como forma verificar se o jornalismo neste local segue os princípios do online e se evoluiu diante dos mesmos. A fim de se perceber a dependência do meio face aos conteúdos pré-fabricados, tornou-se fulcral analisar as fontes de informação mais utilizadas pelos jornalistas, bem como a tipologia de ciberjornalismo exercida noV Digital.
Ao longo do relato do estágio, foi possível percecionar a pouca aproximação do meio aos leitores nos seus primeiros meses de vida, o que não era o desejado e espectável pela GMG. Os números baixos foram justificados pela falta de conteúdos originais e pela falta de investimento na área do marketing e publicidade. Foi daqui que surgiu a vontade de perceber quais os valores-notícia que foram mais valorizados pelo canal, a fim de entender se há ou não uma preocupação em filtrar as
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informações que chegam à redação. A par disso, é importante perceber se os valores-notícia são aqueles que mais atraem ou não os leitores.
Ainda referente à questão dos leitores, há a forma como o
V Digital
apresenta os conteúdos online. As linguagens utilizadas são híbridas, no entanto, produzir para o online requer que os conteúdos possuam caraterísticas da Web, como a hipertextualidade, a personalização da informação, a interatividade, entre outros, e é necessário entender se a dita falta de leitores era proveniente do não cumprimento destas características.Mas o que mais me preocupou ao longo do período de estágio foram os despedimentos dos jornalistas. De um em um, poucos foram os que ficaram e, estranhamente, nenhum dos que saiu foi reposto. Embora fosse um novo órgão, o
V Digital
inseria-se num grupo de comunicação com poder, credibilidade e mediatismo, aGMG.
É, assim, objetivo deste trabalho, responder à seguinte questão de partida: Em que medida é que as exigências que o ambiente online coloca ao jornalismo e aos jornalistas estão a mudar a rotina de produção jornalística? Para tal, procurarei: a) analisar a produção noticiosa no
V Digital;
b) compreender de que modo estão patentes as caraterísticas do webjornalismo presentes; c) analisar a predominância de conteúdos pré-fabricados; d) verificar as linguagens predominantes no canal online; e) percecionar o papel do jornalista no processo de produção das notícias. Desta forma, espera-se compreender em que medida as exigências do meio online estão a mudar o paradigma da informação, no que concerne ao trabalho do jornalista.53