De forma a manter o estudo fiel à idéia de processo que se constitui no tempo e no espaço, foi necessário constituir a história em que se insere o projeto, como também acompanhar todo o seu desenrolar, de forma a
constituir sua história atual. Para isso, utilizou-se dos documentos administrativos disponíveis, das anotações dos componentes da equipe e da inserção nas atividades cotidianas das empresas fornecedoras, conforme descrito a seguir a partir da finalidade da ação.
Para estruturar o quadro situacional, utilizaram-se as ferramentas oferecidas pela AET – Análise Ergonômica do Trabalho (WISNER, 1997; GUÉRRIN et al., 2001): análise do contexto, observações globais da atividade, análise do processo técnico e das tarefas. Estas ferramentas possibilitaram localizar – no sentido de situar - o lugar que ocupa cada uma das empresas envolvidas no processo, acompanhar a dinâmica de funcionamento da equipe, identificar a divisão das responsabilidades e das tarefas.
Por meio da análise do processo técnico e das tarefas, foi possível identificar, em sua origem, a função de cada instituição e de seus membros na composição da equipe para este projeto, e, posteriormente, no acompanhamento do processo, observar a presença de alterações, mudanças ou transformações.
Foram feitas entrevistas abertas com os responsáveis pelo projeto nas duas empresas fornecedoras e estudados os documentos relativos à política de qualidade da empresa, ramos de negócios, número de funcionários, formação acadêmica dos sujeitos que compuseram a equipe e cargo ocupado. Esses estudos permitiram situar o funcionamento geral da empresa e de seus projetos, a escolha de uma equipe de projeto e, enfim, a natureza da intervenção na empresa.
As observações das atividades dos sujeitos se tornaram possíveis por meio da inserção no cotidiano de trabalho dos sujeitos pertencentes às empresas fornecedoras. Foram feitas visitas regulares duas vezes por semana, de no mínimo meia jornada, na empresa “fornecedorII”, para conhecer o seu funcionamento, a distribuição das atribuições e responsabilidades, acompanhamento das atividades de cada um dos componentes da equipe e participação das reuniões internas que ocorriam todas as terças-feiras. No caso do “fornecedorI”, foram feitas visitas para conhecimento da dinâmica de
trabalho e, posteriormente, acompanhamentos das atividades de concepção. Neste caso, as atividades de campo não tinham uma freqüência predefinida. Em algumas semanas não havia atividades, enquanto em outras, dependendo da dificuldade que se colocava ao projeto, poderiam durar uma semana inteira, com observações de quatro a seis horas ininterruptas.
Para as atividades de campo foi constituído um caderno de notas, onde as análises dos documentos eram anotadas, bem como todas as observações pertinentes ao cotidiano de trabalho.
No decorrer do período de observações das atividades de trabalho de cada componente, foram realizadas entrevistas semidiretivas, em que foi solicitado aos sujeitos explicar sua atividade, falar de como ele a percebia em relação ao projeto como um todo e qual seu papel no projeto. Essas entrevistas, registradas e transcritas sistematicamente, permitiram completar, precisar e validar o traçado dos fatos que pontuaram o trabalho de concepção da equipe.
A coleta de material relativo às “relações de lugares ou posições” foi feita a partir do acesso aos fatos comunicativos. No caso deste trabalho, as três instituições envolvidas se comunicavam por correio eletrônico, reuniões de equipe e reuniões de grupo de trabalho, além das reuniões corriqueiras entre os membros de uma mesma instituição.
Vale ressaltar que, entre as instituições envolvidas, as reuniões de equipe nunca contaram com a presença do “Cliente”. Dessa forma, dos dados coletados somente as correspondências via correio eletrônico denotam a presença do “Cliente”. Esta característica, própria da organização desta equipe, se apresentou a princípio como um problema devido à limitação de acesso a parte dos sujeitos envolvidos. Entretanto, como pertinente àquela situação de organização do quadro das instituições envolvidas, esse aspecto foi incluído como variável.
O distanciamento por parte do cliente fala um pouco do “lugar” que o “Cliente” deseja ocupar nesse processo. Considerou-se, portanto, a ausência física do
“Cliente” durante todo o processo de concepção e desenvolvimento como inerente à forma como esses componentes escolheram estruturar esse processo – ou seja, esta equipe constituída para a execução de uma atividade conjunta, mas não necessariamente em cooperação ou em colaboração.
Dessa forma, as entrevistas e as reuniões são relativas às atividades de trabalho observadas nas instituições “fornecedorI” e “fornecedorII”.
As reuniões que ocorreram foram de natureza distintas:
• Reuniões da equipe “fornecedorII”: às segundas-feiras – reuniões de cunho mais administrativa, com todos os funcionários do “fornecedorII”, onde eram apresentados os vários projetos, a situação de cada um deles e as dúvidas e encaminhamentos.
• Reuniões entre alguns membros da equipe “fornecedorII” - situação cotidiana, conversas informais entre os envolvidos no projeto com a finalidade de esclarecimento de dúvidas, feed back do trabalho.
• Reuniões entre alguns membros do “fornecedorII” e do “fornecedorI” – foram quatro reuniões, com o objetivo de sanar dúvidas sobre o projeto.
• Reuniões entre “fornecedorII” e “fornecedorI”- em número de duas, estas reuniões contaram com todos os membros que integravam a equipe por parte da “fornecedorI” e do “fornecedorII”. Foram destinadas à apresentação do programa por parte do “fornecedorII” para apreciação por parte do “fornecedorI”; este apresentava sugestões e autorizava o “fornecedorII” a continuar o trabalho.
Essas reuniões foram gravadas e transcritas. Os correios eletrônicos foram recolhidos e organizados por data e assunto. Dessa forma, o método para a coleta de dados se fez a partir da utilização de um conjunto de ferramentas que tornou possível aceder o mais próximo possível ao desenrolar das relações interpessoais; esses dados foram agrupados conforme visto no tópico a seguir.
5.2. Método para análise dos dados
A análise do discurso é uma área interdisciplinar e, como tal, possui várias particularidades mais ou menos adequadas ao objeto de análise. Foi preciso delimitar os pontos-chave que fizessem emergir/destacar as relações de posições dentro do discurso dos vários componentes da equipe. Optou-se por estruturar uma técnica de análise dos dados que somasse à análise do discurso nos correios eletrônicos, as entrevistas e as reuniões, as sessões de acompanhamento das atividades de trabalho de alguns dos membros envolvidos no projeto que serviram de respaldo aos resultados que emergiram da análise dos correios eletrônicos. A análise foi organizada como se segue:
I. Identificação dos papéis institucionais e normatizados, a fim de posicionar todos os sujeitos na relação.
II. Definição das prescrições e expectativas com relação a cada um destes papéis.
III. Explicações, por meio do discurso em processo, sobre quais lugares pretendidos, negados, reforçados, transformados ou reconstituídos.
IV. Apresentação de algumas possibilidades de explicação que precisam de outros investimentos teóricos e que fogem ao escopo de trabalho.
5.2.1. Procedimentos de análise
5.2.1.1. Tratamento dos dados “reuniões”
Essas reuniões foram inicialmente caracterizadas de acordo com cinco aspectos: O nome de reunião técnica, por exemplo: análise funcional, revisão do
progresso técnico etc.
O assunto central discutido durante a reunião, por exemplo: avaliação de uma proposta feita por um fornecedor; avaliação de um princípio de projeto, como, controle totalmente automatizado versus semi-automatizado, apresentar um modelo de interfaces etc.
Os objetos intermediários, ou seja, as ferramentas mediadoras e ilustrativas utilizadas: plano, texto de um fornecedor, documento, demonstração filmada etc.
O curso e o progresso da reunião, fases e assuntos levantados.
As estratégias relacionais que os participantes empregaram, como por exemplo: negociação de conflito, procura por acordo, estabelecimento de uma estrutura comum de referência etc. (DARSES, 2003)
A partir dessa codificação foi constituída uma carta do processo (DAMERON, 2003). Esta carta permitiu demarcar em termos cronológicos e situacionais o aparecimento dos fenômenos relacionais.
Essa codificação permitiu verificar a freqüência e a aparição no tempo de atributos relativos aos “jogos relacionais” – disputa de poder, conflitos de interesses, estratégias de gestão. A carta de processo permite ainda contabilizar o número de
eventos afetando cada atributo durante o decorrer do processo. Assim, foi possível verificar quais pontos tiveram maior investimento e a partir de quem se origina a proposição de alteração das posições.
O que interessa é comparar a presença e respectivas evoluções de cada relação estabelecida, a fim de deliberar sobre a dinâmica relacional nas atividades de concepção.
5.2.1.2. Tratamento dos dados “correios eletrônicos”
Num primeiro momento, com vistas a não perder de vista a temporalidade, o contexto e a situação no decorrer do processo de projeto no qual se deram as interações verbais, os correios eletrônicos foram agrupados e organizados em seqüência de emissão e recepção. A fim de torná-los inteligíveis, eles tiveram uma primeira organização, conforme apresentado a seguir.
Data No. Sujeitos Assunto (transcrição) Tipo de relação Expectativas dos envolvidos Tipo de relação de posição
Figura 3 – Organização dos dados originários de correio eletrônico (elaborado pela autora)
Para a primeira leitura dos dados, partiu-se do quadro formal encontrado nas prescrições formais: normas e regimentos e o contrato elaborado para este projeto. Dessa forma, foi definido o que se denominou quadro inicial. Foi a partir deste quadro que foram tecidas as análises no decorrer do processo.