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egundo as tradições yorubá, o homem nasce um ser natural, bruto e incontrolável, e precisa ser educado para viver em comunidade, sendo necessário, portanto, intervir sobre ele, empregando regras e modelos que permitam a ele compreender o seu papel diante da família e sociedade. Tendo em vista tal objetivo, a comunidade submete os mais novos a ritos de passagem, estruturados em modelos específicos de iniciação, que além de justificarem a transição de uma fase da vida a outra, estabelecem os limites e funções que deverão ser empregadas pelos indivíduos para exercerem seu papel na sociedade diante daquela passagem. É uma maneira de dominar o ará dos moradores do àiyé e de estabelecer os limites sociais do grupo; ou seja, iniciar o corpo é “educar o sujeito” para uma nova etapa da vida.

É relevante assinalar que são inúmeros os ritos de passagem existentes na sociedade yorubá, e cada um deles tem uma função específica diante da comunidade em que está inserido. Fabio Leite (2008) considera a existência de dois modelos de ritos de passagem, a “iniciação típica” e a “iniciação atípica”, definindo-as da seguinte maneira:

chamamos de iniciação típica à iniciação articulada no quadro abrangente dos processos de socialização tendo por objetivo fazer emergir, num momento dado, o individuo natural-social, passível de ser plenamente integrado na sociedade. Enquanto a iniciação atípica tem por alvo, sobretudo a formação de uma figura social de certo modo essencialmente distintiva – fornecendo o individuo atípico – (é

o caso do ferreiro, dos médicos manipuladores de folha, do rei iorubá entre outros), a iniciação típica busca a figura social comunitária, igualitária e coletiva

por excelência, ou seja, a personalidade-padrão básica (p. 82. Grifo nosso).

Deste modo, o poder e controle exercidos pelo povo yorubá nos seus mais variados ritos de iniciação ligados à transformação dos seres humanos, têm como principal característica inserir os indivíduos no universo sociocultural do grupo, contribuindo para a formação de um sujeito, capaz de manter e transmitir os valores da comunidade. O caráter comunitário da existência exige que os sujeitos apreendam por meio dos ritos de iniciação as regras que mantém a ordem do coletivo e seu funcionamento, o que caracteriza a formação moral dos indivíduos nas diversas comunidades negro-africanas. Sob tal modelo de organização, estão estruturados, por exemplo, os ritos de iniciação relacionados à circuncisão, que têm como principal característica, a tomada de consciência da natureza social do iniciado, situação que permitirá ao iniciado compreender as regras sociais de interdição e família relacionados à questão de gênero e à prática sexual (SUBUHANA, 2001). Tal prática permite- nos perceber que, para tais povos, a construção da personalidade dos sujeitos está relacionada e condicionada pela consciência coletiva da realidade existencial de tais agentes, que controlam os atos iniciáticos, estabelecendo harmonia entre o homem e suas práticas sociais.

Para alcançar esses objetivos, as crianças são introduzidas em grupos formados por critério de idade, nos quais ingressam logo depois de ultrapassadas as fases mais incipientes da infância. Durante o período de iniciação, as crianças passam por processos educacionais comuns a todos os componentes do grupo, segundo os estágios de aprendizado em que se encontram. Em geral, os grupos de crianças que compõem o primeiro estágio de iniciação atingem juntas a maturidade, submetendo-se coletivamente aos atos iniciáticos previstos pelo costume e que marcam as etapas conquistadas. E é dessa maneira, que os integrantes desses grupos adquirem consciência real de sua condição social e dos principais valores de sua comunidade, ligando-se estreitamente em razão dos laços de solidariedade que se estabelecem entre eles.

Hampaté Bâ enfatiza que, muitas vezes, tais modelos de iniciação, ou de passagem, são comuns entre as crianças de dez e onze anos, que se organizam autonomamente para formarem suas primeiras waaldé (associações de idade), e que, espelhados nos mais velhos reproduzem em seu interior, o mesmo modelo político que as demais associações da aldeia.

Com uma estrutura estabelecida a partir do apadrinhamento de um membro mais velho que atua como um conselheiro, as crianças aprendem assim, desde cedo, a lidar com as questões de cunho sociocultural da aldeia em que estão inseridos, incorporando-se ao ambiente político (2003, p. 167-170). E é neste sentido, que as etapas de iniciação das crianças são fundamentais para a construção da identidade coletiva e para seu reconhecimento perante o grupo. Entre os yorubá existem as ègbé formadas pelos diferentes indivíduos com objetivos comuns. Trata-se de uma associação ou comunidade que atuam em diversos setores da sociedade, muitas vezes organizadas em grupos de idade, funções sociais, conselhos administrativos responsáveis pelo cumprimento da lei e da ordem na cidade, chefes militares entre outras formas.

Para se compreender a importância atribuída a tais atos de iniciação e sua função de agentes socializadores por meio de processo de transformação dos sujeitos, faz-se necessário recordar o modelo de organização político-cultural típico dos povos Ibangalas38 que, após a pilhagem das terras de seus inimigos, raptavam as crianças com idades entre treze e catorze anos, que não haviam passado pelos ritos de passagem a vida adulta, levando-as para os seus Kilombos39.

[...] o rapto de jovens não iniciados servia a este propósito de desprender-se das regras e costumes do grupo de origem e prestar obediência exclusiva ao chefe do Kilombo e não mais aos mais velhos da linhagem e aos detentores das insígnias de poder onde nasceram. Assim os Imbangalas conseguiram se libertar das linhagens, tão importantes no universo Mbundo daquele tempo, e fundar uma nova sociedade com rituais próprios de iniciação e de entronização do poder, em que a obediência ao chefe do Kilombo e a guerra eram elementos fundamentais (BRACKS, 2010, p. 398).

Aqui se pode notar o papel e função, tanto dos atos iniciáticos, como dos seus agentes no controle e formação da personalidade dos sujeitos envolvidos nos ritos de iniciação. Assim, vale ressaltar que aqueles que não passam pelas transformações decorrentes de tais processos de socialização ficam limitados à condição de criança, ou até mesmo, de natureza bruta, pois não receberam os ensinamentos e “segredos rituais” precisos para realizar

38 Os Ibangalas ou Jagas eram povos nômades que andavam pela África Central entre os séculos XV e XVII,

pilhando comunidades e aprisionando jovens ainda não iniciados nos ritos de passagem para a vida adulta. Eram divididos em diversos grupos compostos por uma linhagem étnica específica que garantia a escolha de um Chefe e de povos assimilados por meio dos atos iniciáticos e de outros grupos a ele integrado. Estruturados sob um modelo militar próprio os Jagas se movimentavam e agiam separadamente em diversas rotas, sob o poder exclusivo do chefe de cada Kilombo (BRACKS, 2010, p. 397-398).

39 Kilombo, em África, é destacado nas fontes históricas do século XV, como acampamento militar, estrutura

altamente hierarquizada e protegida por várias paliçadas, que se deslocava conforme as necessidades bélicas do bando. Para maior aprofundamento ver: (MILLER, 1995).

as tarefas necessárias na vida coletiva. De certa maneira, tais indivíduos estariam fadados ao sofrimento e a severas restrições em todos os níveis sociais, pois não podem estabelecer contratos de casamento, e consequentemente ter acesso a terra; sendo sua fala inclusive vetada nos conselhos de família e da comunidade, sendo impedido, ainda, de participar das decisões e de assumir postos de destaque e relevância na comunidade. Neste sentido, observa-se que tanto os ritos de passagem, quanto as associações por idade, ou ainda as ègbé estão relacionados à ordem social do grupo no que se refere à prática do viver em coletividade, e o sujeito que não passa pelas etapas necessárias dos ritos de iniciação tem o seu acesso aos bens comuns, negados, o que impossibilita sua realização enquanto agente social, com características particulares e personalidade própria.