3. Background and theoretical approach
3.5 Risk behaviour
Dois aspectos precisam ser esclarecidos de antemão: estas duas tendências são as mais fortemente identificadas o que não lhes confere exclusividade, pois, como se poderá perceber pelas grades (com suas respectivas disciplinas, áreas temáticas, bibliografia e professores responsáveis) há indícios da presença de outras tendências como a crítica própria de textos como os de Pierre George em Geografia do Subdesenvolvimento ou o de Manuel Correia de Andrade em A Terra e o Homem no Nordeste, que indicam a contestação das tendências pretensiosamente neutras das outras duas escolhidas aqui para análise. De modo que entendemos necessário esclarecer que esta discussão atém-se ao que prevalece nas grades curriculares, mas não desconsidera a existência de muitos outros aspectos que estão presentes e se anunciam nas mesmas. Trata-se da contingência de um recorte que permita vislumbrar o que nos pareceu mais evidente e mais candente para uma primeira análise.
4.1. Breve conceituação sobre os fundamentos teórico-filosóficos do Positivismo na Geografia
As diferentes concepções teóricas que fomentaram a história da ciência constituíram-se na base para a análise dos múltiplos fatores condicionantes do espaço. Nesse sentido, o desenvolvimento científico buscou sempre a construção de ferramentas metodológicas imprescindíveis para a elucidação dos fatos em suas mais variadas escalas nas sociedades modernas.
Partindo desse princípio, por consequência, depreende-se que a constituição do discurso científico da Geografia está intimamente ligada ao desenvolvimento dos métodos científicos em diferentes perspectivas de análise. No embate desse enquadramento na ciência moderna, a ciência geográfica, desde sua consolidação no século XIX, esteve permanentemente marcada por constantes controvérsias em relação a seu objeto de estudo. Não pretendemos aqui discorrer
sobre as múltiplas definições atribuídas à Geografia, entendendo que todo o esforço nessa direção, por mais fundamental que nos pareça, vem sendo discutido sistematicamente, porém não sem grandes divergências, por renomados estudiosos inclinados às pesquisas sobre a epistemologia da Geografia. O que mais nos interessa é compreender em que medida o Positivismo alicerçou a construção da modernidade no caso brasileiro por intermédio da disseminação dos conhecimentos geográficos e quanto a instalação das universidades e dos cursos de Geografia, foram importantes para a viabilização de políticas territoriais.
No transcorrer desta pesquisa, verificamos a presença determinante dessa corrente epistemológica nas matrizes curriculares dos cursos de Geografia das quatro universidades mineiras, no período entre 1940 - 1970, conforme se pretende demonstrar neste capítulo. Observamos, que no período de análise escolhido – início da década de 1940 (fundação do curso de Geografia da UFMG, em 1941), até a década de 1980 (período que marca a consolidação da carreira do Geógrafo e a criação do curso de bacharelado na UFU em 1989), há semelhança entre esses quatro cursos criados em regiões e momentos distintos em termos dessa influência.
Os princípios metodológicos do Positivismo foram instruídos pelas correntes racionalistas e exerceram grande influência em todos as disciplinas científicas modernas, entre elas a Geografia. As proposições filosóficas pautadas pela razão na busca pela explicação do Real, fez dessa tendência epistemológica um dos métodos de aplicação científica, mais expressivos desde o século XVI, com René Descartes. O Racionalismo sustenta a Ciência Moderna respaldando-se no conhecimento ancorado na concretude do Real e se viabiliza pelo desenvolvimento das ciências matemáticas e físicas.
Com o estabelecimento da modernidade científica no Século das Luzes como sinalizado por Gomes (2010), o Racionalismo moderno se firma como a base metodológica da ciência moderna ao promover a separação, de fato, entre o mundo sensível e o mundo inteligível. “O saber assim concebido, com suas origens lógicas e racionais, é imediatamente reconhecido como sendo um saber rigoroso, e o único válido” (GOMES, 2010, p. 69).
Uma das proposições derivadas do Racionalismo consiste na elaboração de leis gerais como recurso para uma análise sistêmica e objetiva. Tem-se nesse movimento de consolidação da ciência moderna, a organização do Positivismo, de posse de preceitos pautados na racionalidade como determinação científica. De acordo com Gomes (2010, p. 85), “o positivismo é sem dúvida o herdeiro legítimo da ciência do Século das Luzes, propondo também um conhecimento normativo, através da enunciação de leis gerais, de procedimentos uniformes e da obediência a uma racionalidade estrita”.
O movimento positivista se consagrou no final do século XIX, destacando-se pela inserção do campo social no conhecimento científico. Auguste Comte como difusor dessa sistematização trouxe para o centro da análise o estabelecimento de novos padrões científicos.
A novidade trazida pelo pensamento de Auguste Comte é o lugar central da ciência social na definição do desenvolvimento científico. Em seu sistema, o progresso científico está vinculado ao progresso social, quer dizer, a missão das ciências sociais é guiar a organização da sociedade, dando-lhe as bases positivas em vez de antigas crenças teológicas ou metafísicas (GOMES, 2010, p. 85, grifo nosso.).
Nesse contexto em que o pensamento positivista comteano emergiu, a Geografia, representada pelas obras de Ratzel, adquire legitimidade como disciplina científica, sendo fortemente influenciada pelo Positivismo nos mais variados aspectos: a relação entre homem e natureza e as transformações do espaço material são estabelecidas por determinações racionalistas e despontam como manifestações de uma das principais mudanças de perspectivas trazida por esse movimento.
(...) o debate que se desenvolveu no coração da geografia no fim do sec. XIX é interpretado como sendo a retomada das concepções em voga no Século das Luzes. Mais importante, este debate opõe uma perspectiva escrava do racionalismo abstrato e geral, a uma posição que se apóia (sic) unicamente sobre casos concretos e segundo a qual o trabalho humano na natureza é a consequência de uma dinâmica complexa que não pode ser simplificada (GOMES, 2010, p. 134).
A Geografia produzida sob os pressupostos metodológicos do Positivismo, buscou a delimitação formal e sistemática de seu objeto de estudo através do estabelecimento de leis, respaldando-se na descrição dos fenômenos por intermédio de suas aparências, restringindo-se, apenas, aos aspectos visíveis do real, mensuráveis e palpáveis (MORAES, 1990). No contexto dessa filiação positivista prevaleceu o método empírico como base para a elucidação dos fatos. A caracterização do objeto de estudo na análise geográfica nessa perspectiva deve, então, seguir as variáveis que dão sustentação a esse método, ou seja: observação; descrição; enumeração e, classificação dos fenômenos.
Segundo Moraes (1990), os princípios e as máximas geradoras do pensamento geográfico tradicional foram responsáveis pela fundamentação da unidade e da continuidade da Geografia. Este mesmo autor afirma que estes princípios abarcavam o conhecimento do geógrafo necessário para seus estudos, definindo princípios gerais indispensáveis para uma análise objetiva.
O “princípio da unidade terrestre” – a Terra é um todo, que só pode ser compreendido numa visão de conjunto; o “princípio da individualidade” – cada lugar tem uma feição, que lhe é própria e que não se reproduz de modo igual em outro lugar; o “princípio da atividade” – tudo na natureza está em constante dinamismo; o “princípio da conexão” – todos os elementos da superfície terrestre e todos os lugares se inter-relacionam; o “princípio da comparação” – a diversidade dos lugares só pode ser apreendida pela
contraposição das individualidades; o “princípio da extensão” – todo fenômeno manifesta-se numa porção variável do planeta; o “princípio da localização” – a manifestação de todo fenômeno é passível de ser delimitado. (MORAES, 1990, p. 25- 26).
Ainda segundo Moraes (1990), os princípios e as máximas estabelecidas para a elucidação científica dos fenômenos foram responsáveis por suscitar concepções bastante generalizadas que acarretaram em contradições e dualismos para a ciência geográfica. A fragmentação estabelecida durante o período de sistematização da Geografia em relação a seu objeto de análise por intermédio do método Positivista deixou marcas no processo de construção do pensamento geográfico.
(...) os dualismos que perpassam todo o pensamento geográfico tradicional: Geografia Física – Geografia Humana, Geografia Geral – Geografia Regional, Geografia Sintética – Geografia Tópica e Geografia Unitária – Geografias Especializadas. Estas dualidades afloram, no trabalho prático de pesquisa, em vista da não resolução do problema do objeto, ao nível teórico (MORAES, 1990, p. 26).
Os antagonismos que envolvem as divisões entre os objetos e os campos de análise da Geografia desenvolveram raízes profundas no âmago dessa ciência. A própria divisão entre a Geografia Física e a Geografia Humana incorre, a nosso ver, em uma variada gama de erros de interpretação. A bem da verdade há de se levar em consideração a construção histórica dessa ciência que tem em suas bases fundantes a relação homem e meio que envolve todas as suas categorias de análise, independente da sua conceituação teórico-metodológica.
4.2. A Geografia Tradicional: a aplicação dos pressupostos teórico-metodológicos