3. Background and theoretical approach
3.2 Social context
Remontando à história de Minas Gerais, a região compreendida pela Zona da Mata aparece na historiografia como expoente no desenvolvimento do estado entre o final do século XIX e início do XX.
A localização geográfica, próxima à antiga capital federal, permitiu com que a cidade de Juiz de Fora estivesse afinada com os interesses políticos e econômicos do Rio de Janeiro, facilitando seu desenvolvimento regional. As classes dirigentes juizforanas exerciam grande influência no cenário nacional e possuíam um alinhamento muito mais próximo com as elites cariocas do que com as de Belo Horizonte.
O desenvolvimento econômico da região de Juiz de Fora possui relações históricas com o advento da extração aurífera nas áreas correspondentes ao circuito da mineração e nesse aspecto, a cidade teve grande importância na conjuntura política e econômica de Minas. Oliveira (2009, p. 61-65), após analisar diversos trabalhos historiográficos sobre Juiz de Fora, dividiu em períodos as condicionantes políticas, econômicas e sociais que levaram a cidade, bem como a região, a despontar no cenário estadual e federal, propondo uma periodização que se divide em cinco momentos diferentes:
a) desbravamento e povoamento (1701 – 1840), período marcado pelo descobrimento e povoamento da região;
b) urbanização (1840 – 1861), período em que se acentua o desenvolvimento agropastoril, estimulando o crescimento urbano da vila;
c) desenvolvimento urbano e primórdios da industrialização (1861 – 1889), período marcado pela construção da primeira indústria que favoreceu o aumento da produção agrícola através da construção de estradas, indispensável para o escoamento da produção de café da região facilitando a comunicação com o Rio de Janeiro e, consequentemente, viabilizando o crescimento urbano de Juiz de Fora em decorrência do estímulo trazido pelo comércio e as atividades produtoras em geral;
d) desenvolvimento industrial (1889 – 1930), período fortemente marcado pela implantação de indústrias nacionais e privadas; e,
e) estagnação econômica (1930 – 1961), marcado pela obsoletismo industrial que deflagrou a queda do poder político da elite juizforana, desviado para Belo Horizonte, após a fundação do município de Contagem e os investimentos no ramo industrial. Foi nesse período que Juiz de Fora perdeu sua condição de maior centro industrial e comercial de Minas Gerais, segundo o autor.
As principais condicionantes históricas que traçaram os rumos do progresso em Juiz de Fora, segundo Castro (2009), estão inexoravelmente atreladas a três fatores: o primeiro diz respeito ao desenvolvimento econômico trazido pela cafeicultura e como esta produção impulsionou a ocupação dessa região; o segundo, a sua localização estratégica que viabilizou o escoamento da produção; o terceiro, a construção da Estrada União e Indústria26 considerada a primeira estrada com características modernas no Brasil e que favoreceu o desenvolvimento econômico, pari passu ao surgimento do núcleo urbano da cidade que estimulou todas as condicionantes anteriores e abriu caminhos para a imigração alemã.
O desenvolvimento de Juiz de Fora ganhou força, em meados do século XIX, com o esgotamento dos solos na região do Vale do Paraíba em favor das terras disponíveis na Zona da Mata e com a expansão da economia cafeeira. Segundo Castro (2009), constituía-se em fator de prosperidade do Império, à época com a capital no Rio de Janeiro, a proximidade com o principal polo econômico, o que viabilizou a construção de uma estrada moderna. A partir daí teve início um grande fluxo econômico na cidade, atraindo fazendeiros e seus escravos, imigrantes, bem como empreendimentos industriais e comerciais. Segundo o site da Câmara Municipal de Juiz de Fora, no ano de 1889, foi inaugurada a primeira usina hidrelétrica de grande porte da América do Sul, no município: a Usina de Marmelos, importante marco do setor elétrico do Brasil e grande impulsionadora da indústria municipal.
panhia União e Indústria, responsável pela construção da estrada, contratou, segundo Castro (2009, p. 48), aproximadamente 150 pessoas, entre engenheiros, técnicos e operários especializados, na Alemanha. Estas pessoas tiveram papel decisivo no estabelecimento futuro das pequenas indústrias na região.
O crescimento econômico da região, baseado na cafeicultura traz prestígio político, econômico e social a uma influente e ilustre aristocracia, permitindo que essas elites, de origem agrária, diversifiquem seus investimentos e implementem um projeto industrial. Nesse aspecto, a trajetória de Juiz de Fora confirma o padrão de desenvolvimento da indústria brasileira, ocorrido entre meados dos anos de 1880 e o final da década de 30, baseado na expansão do setor agrícola e, em particular, do café (YAZBECK, 1999, p. 25, grifo nosso.).
Outra questão importante a ser sinalizada refere-se à contribuição dos imigrantes alemães que se instalaram na cidade entre 1856 e 1858 e que exerceram influência no progresso industrial da região. Como aponta Castro:
A evolução de Juiz de Fora teve como fator importante a presença de imigrantes alemães, contratados pela Companhia União e Indústria para a construção da estrada que deveria ligar, eficientemente, a Província de Minas Gerais, especialmente, a chamada Zona da Mata, ao Rio de Janeiro, capital do Império. Foi estabelecido um núcleo colonizador, de onde se teria irradiado um surto industrial, ainda na segunda metade do século XIX, que transformou o pequeno povoado na mais importante cidade industrializada de Minas Gerais, posição que desfrutou até as primeiras décadas do século XX (CASTRO, 2009, p. 45, grifo nosso.).
A agitação causada pelo desenvolvimento econômico da cidade exigiu investimentos em torno da capacitação de professores e de conhecimento técnico, que suprissem as demandas de trabalho que o fluxo gerado pelo progresso das construções de estradas, instalações industriais e, consequentemente, a expansão da cidade via crescimento urbano, exigia naquele momento. Assim como ocorreu em Belo Horizonte, a necessidade de investimentos no setor da educação tornou-se muito importante entre os dirigentes locais.
Os estímulos na direção do aprimoramento intelectual eram evidentes, uma vez que as iniciativas educacionais começaram a ser difundidas na cidade ainda no século XIX, através da instalação de vários centros de ensino como: a Academia de Comércio (1891), o Curso Comercial Preparatório e Superior (1894), o Instituto Politécnico (1912), o Curso de Odontologia e Farmácia (1904) e o Curso de Direito (1912) (YAZBECK, 1999). Todos esses cursos se fundiriam mais tarde formando Institutos e Escolas Superiores de Educação, como o curso de Odontologia e Farmácia que, em 1914, recebia a denominação de Escola de Farmácia e Odontologia de Juiz de Fora para, posteriormente, em 1955, receber a denominação de Faculdade de Farmácia e Odontologia.
De maneira geral, a “ideia” e a “forma” de ensinar necessitavam se moldar aos novos propósitos de um Brasil que, em busca da consolidação do progresso para sedimentar o capitalismo e a urbanização, requeria mudanças nas políticas educacionais. Na aurora da modernização, as mudanças deveriam ocorrer em todas as esferas, fragmentando modelos e
ações que não condiziam mais com o cenário atual. Findava-se o tempo dos homens lentos (SANTOS, 1997), da qual sua relação com o período atual tornava-se contrastante.
No âmbito das transformações educacionais, sobretudo no ensino superior, a Faculdade de Filosofia e Letras - FAFILE de Juiz de Fora veio ao encontro das necessidades de promover a disseminação dos conhecimentos, dando aos homens do lugar instruções necessárias ao conhecimento do território e das particularidades específicas da cidade e da região. Os cursos de graduação criados pela Faculdade foram: Ciências Sociais, Geografia e História, Letras, Pedagogia e Jornalismo.
Criada em 28 de novembro de 1945 e em funcionamento desde 194827, a FAFILE tinha entre seus princípios a finalidade de ser um centro de pesquisa e estudos científicos, bem como de formação de professores de ensino médio.
Uma plêiade de homens ilustres, da mais alta expressão intelectual, a cuja cultura se une uma sadia formação moral e cristã, houve por bem, em 28 de novembro de 1945, fundir nesta cidade a Faculdade de Filosofia e Letras de Juiz de Fora, cujo precípuo propósito era o de preparar jovens professores para o magistério secundário e normal (COMISSÃO DE LESGISLAÇÃO, ENSINO E RECURSOS, s/p ,1962).
As bases dessa instituição podem ser encontradas na iniciativa da Igreja Católica, fortemente vinculada aos estudos das Letras e das Artes, comprovada por disciplinas comuns entre os cursos dessa instituição. Parte dos intelectuais que ajudaram a fomentar o desejo de criação da Faculdade de Filosofia eram ligados ao movimento católico (YAZBECK, 1999).
Essa relação intrínseca com a igreja revelava a ligação com as elites locais que buscavam o progresso, a ordem e a civilidade. Para Yazbeck (1999), o interesse das classes dominantes juizforanas consistia em favorecer o crescimento intelectual, suprindo a demanda por formação de professores e conhecimento técnico, além de contribuir para o refinamento cultural. Dessa forma, a criação da FAFILE foi vista como essencial para a manutenção do status quo da cidade.
Em 1960, a FAFILE28 e a Faculdade de Direito, a Faculdade de Odontologia e Farmácia, a Faculdade de Engenharia, a Faculdade de Ciências Econômicas e Finanças e a Faculdade de Medicina foram fundidas na Universidade Federal de Juiz de Fora29.
A federalização da FAFILE é inevitável, pois consiste na única garantia de continuidade do trabalho desenvolvido pela instituição ao longo de uma década. A Faculdade não resistiria a uma possível competição com uma escola congênere que viesse a ser criada com o amparo de verbas públicas. Apesar de todas as dificuldades,
27
Decreto 23.939 de 27 de Outubro de 1947.
28 A FAFILE foi extinta e incorporada a UFJF pela Lei nº 5.060/66. Os cursos pertencentes a FAFILE passaram a
fazer parte da Faculdade de Educação pelo Decreto nº 62.883/68 e o artigo 10 do Estatuto da UFJF.
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a FAFILE havia se consolidado como uma instituição superior voltada para as Ciências Humanas e Sociais, como pode ser constatado pelo número de alunos matriculados nos diversos cursos desde a sua criação até 1955. (YAZBECK, 1999, p. 37)
A unificação de Faculdades Isoladas, de caráter local, em uma Universidade Federal deve ser compreendida tendo em vista, tanto a iniciativa local como a interferência federal, o que evidencia o anseio e o senso de oportunidade das classes dominantes de Juiz de Fora pela consolidação estratégica dos setores de conhecimento na cidade.
Vale lembrar que, o período pós II Guerra foi essencialmente “[...] um período de novas opções das elites nacionais por um desenvolvimento não mais alicerçado exclusivamente sobre o capital nacional, mas agora com atuação dos investimentos estrangeiros diretos.” (ANSELMO, 2004, p. 97). Os anos de 1950 revelaram uma fase de grande crescimento econômico no país, sendo conhecido como “período desenvolvimentista” sob o governo de Juscelino Kubitschek, que inseriu o Brasil na órbita do planejamento em prol da viabilização do desenvolvimento econômico.
A instalação do curso de Geografia na UFJF e por dentro da FAFILE revela as intencionalidades por parte da elite juizforana na busca pela organização e planejamento da cidade, que crescera de forma desorganizada nos anos áureos da mineração e, posteriormente, com a intensa produção cafeeira. Ademais, os problemas de infraestrutura em geral em consonância com o enfraquecimento econômico, tanto de Juiz de Fora quanto da Zona da Mata, limitou o desenvolvimento nas esferas política, econômica e cultural, o que acarretou na perda de prestígio social e na queda por incentivos e investimentos públicos e privados. De fato, a criação da UFJF deu à sociedade uma aura otimista viabilizada pelo aumento da população estudantil, do comércio e da indústria da construção civil.
Buscou-se, assim, alicerçar em padrões científicos o planejamento econômico local e regional e, nesse sentido, a UFJF cumpriu papel crucial para o desenvolvimento tanto da cidade quanto de toda Zona da Mata.
Nesse contexto de mudança e de reestruturação da cidade na busca pela retomada do desenvolvimento, o curso de Geografia foi criado em 1948 e, assim como na UFMG, apareceu em conjunto com o curso de História que foi reconhecido por Decreto federal, em 1951. A formação inicial era de apenas três anos, na área do bacharelado, sendo possível a complementação em licenciatura com mais um ano de curso.
A separação dos dois cursos ocorreu em 1959 passando a fazer parte do currículo disciplinas que estavam dividas em Geografia Física, Geografia Humana e Econômica,
Geografia do Brasil, Geografia Regional e algumas disciplinas ligadas a conhecimentos históricos e antropológicos. Esta situação se manteve até 1962, quando o Conselho Federal de Educação fixou normas para o currículo mínimo de Geografia no Brasil. A partir daí a norma passou a desconsiderar a formação de bacharel, sob o argumento de que a profissão ainda não estaria reconhecida e regulamentada pela lei.
O curso de Geografia constou da estrutura da universidade logo da criação da UFJF, alocado no Departamento de Geociências. Em 1973, várias mudanças foram feitas no currículo a fim de incluir disciplinas de caráter teórico metodológico e de caráter prático, contudo permanecendo somente a habilitação para licenciatura.
Como é sabido, em 1979 foi reconhecida a profissão de bacharel em Geografia e, em 1983, começava a ser concebido o novo currículo levando em conta as novas determinações. Somente em 1986 foi instaurado o novo currículo no curso, desta vez levando em consideração ambas as habilitações: licenciatura e bacharelado. Entretanto, a formação de professores sempre teve sua importância, com maior destaque a partir dos anos finais da década de 1960, em detrimento do bacharelado, revelando a necessidade de provimento de educação para a sociedade trabalhadora da cidade, na busca pela difusão dos conhecimentos sobre o território, acompanhando o contexto brasileiro daquela época.
3.3. O Norte de Minas Gerais e o avanço da modernidade: a contribuição estratégica do curso