Os pressupostos teóricos do método Neopositivista44 na Geografia são tributários do movimento de renovação dessa ciência a partir no Pós-Guerra, que fomentaram uma série de debates no cerne do pensamento geográfico brasileiro. Em âmbito mundial, uma profusão de mudanças de toda ordem se apresentou exigindo um redimensionamento no padrão científico, sobretudo aqueles alinhados às ciências humanas.
Os anos de 1950, notadamente marcados por mudanças engendradas por ações decorrentes do pós-guerra influenciaram, sobremaneira, na produção científica, exigindo critérios mais rígidos e mais consentâneos com as necessidades atuais. Nesse contexto em que se delinearam as transformações decorrentes da Revolução Técnico-Científica, a agitação no campo geográfico aumentou proporcionalmente movida pelas ideias de rompimento com os preceitos clássicos da Geografia Tradicional.
A realidade do planejamento colocava uma nova função para as ciências humanas: a necessidade de gerar um instrumental de intervenção, enfim uma ficção mais tecnológica. A Geografia Tradicional não apontava nessa direção, daí sua defasagem e sua crise (MORAES, 1990, p. 95).
O cenário em que emerge a quantificação na Geografia, portanto, é de grandes transformações. Uma das influências reside sobre a necessidade de recuperação econômica da Europa após ampla destruição ocasionada pela Segunda Guerra Mundial. Tem-se como uma das marcas desse período, os esforços promovidos na reconstrução das cidades, projetadas sobre os princípios de planejamento regional. Esse momento se refletiu no desenvolvimento acelerado de pesquisas, marcando o advento da Revolução Técnico-Científica.
Nos Estados Unidos, o trabalho de Fred K. Shaefer “O Excepcionalismo na Geografia:
um estudo metodológico45”, publicado em 1953, teceu duras críticas ao caráter ideográfico e monográfico da Geografia, pelas quais os fenômenos geográficos seriam únicos e excepcionais.
Segundo Moraes (1990), nos anos iniciais da década de 1960, ocorreu uma disseminação global de estudos geográficos balizados por concepções e técnicas de cunho pragmático, através da adoção de conceitos matemáticos e de técnicas estatísticas, regidos pelo positivismo lógico como método de apreensão do real. De acordo com Moraes,
Os autores pragmáticos vão propor uma ótica prospectiva, um conhecimento voltado para o futuro, que instrumentalize uma Geografia aplicada. Desta forma, seu intuito geral é o de uma “renovação metodológica”, o de buscar novas técnicas e uma nova linguagem, que dê conta das novas tarefas postas pelo planejamento. A finalidade explícita é criar uma tecnologia geográfica, um móvel utilitário (MORAES, 1990, p. 100).
Os primeiros ensaios na direção de uma Geografia como ciência aplicada aparecem no Brasil em 1956, após o Congresso Internacional de Geografia no Rio de Janeiro, promovido pela União Geográfica Internacional – UGI (BOMFIM, 2007), intensificando as preocupações do Estado na busca por novos estudos sobre a organização espacial do país. Esses estudos sinalizavam alternativas para a execução do planejamento territorial brasileiro, promovendo novas pesquisas sobre o desenvolvimento da nação que caminhava a passos largos para a consolidação efetiva do projeto de modernidade. Geógrafos como Pierre George, Jean Tricart e Michel Rochefort participantes desse Encontro, trouxeram novos temas ligados às questões econômicas e sociais presentes nos processos de urbanização.
A preocupação desses autores com questões sobre o desenvolvimento, urbanismo e planejamento levaram a que suas propostas fossem (para falar no caso brasileiro) amplamente acatadas, poder-se-ia dizer, por uma dupla frente: de um lado, recepcionadas como propostas metodológicas relacionadas à regionalização do espaço, sobretudo pelo IBGE (contexto ao qual se soma o nome de Michel Rochefort), mas, também, por profissionais imbricados essencialmente em aspectos técnicos (BOMFIM, 2007, p. 98).
Na perspectiva do pensamento geográfico, existe vasta bibliografia que sinaliza os avanços da geografia quantitativa em relação a vertente Tradicional. Entretanto, concordamos com Bomfim que,
Não obstante as críticas da Nova Geografia às tradicionais matrizes positivistas da geografia, na medida em que, mesmo revestida de um tecnicismo, a geografia quantitativa manteve as acepções do positivismo (agora um neopositivismo), fundamentalmente, a antiga insistência na singularidade do objeto da geografia e, mesmo quando mais afastada dessas correntes tradicionais, persistiu a geografia quantitativa na ideia de ciência de síntese, pouco precisa e afeita a formulações tão genéricas quanto ambiciosas (BOMFIM, 2007, p. 117).
O advento dos estudos quantitativos na Geografia imprimiram as reformulações necessárias frente às novas exigências do capitalismo do pós-guerra. A necessidade cada vez maior de planejar e de organizar o espaço para dar atendimento às demandas do capital exigia da Geografia novas metodologias, novas técnicas, novas funções e, por consequência, um novo referencial teórico e metodológico.
As estratégias de planejamento iniciadas durante o governo de Juscelino Kubistchek (1956-1960) encontraram respaldo no movimento teórico quantitativo na Geografia. O novo impulso gerado pelo Plano de Metas possibilitou o avanço da modernidade capitalista, respaldado no planejamento das regiões, ainda bastante desarticuladas dos grandes centros políticos e econômicos do país. Conforme Moraes:
[A Geografia Quantitativa] é um instrumento da dominação burguesa. Um aparato do Estado capitalista. Seus fundamentos, enquanto um saber de classe, estão indissoluvelmente ligados ao desenvolvimento do capitalismo monopolista. Assim, são interesses claros os que ela defende: a maximização dos lucros, a ampliação as acumulação de capital, enfim, a manutenção da exploração do trabalho. Nesse sentido, mascara as contradições sociais, legitima a ação do capital sobre o espaço terrestre (MORAES, 1990, p. 108-109).
Nos anos de 1960, principalmente após a instalação do governo militar no poder, em 1964, as políticas de planejamento alcançaram sua máxima expressão no Brasil. Assim como ocorreu com a ciência geográfica tradicional, a Geografia Quantitativa foi um veículo estratégico para a execução de políticas progressistas, servindo como aporte prático e ideológico ao aparelho de Estado.
A adesão aos métodos quantitativos na Geografia foi muito significativa, marcando profundamente o pensamento geográfico brasileiro. Os dois centros no Brasil de maior repercussão que adotaram e difundiram os estudos da Geografia Quantitativa, a Associação de Geografia Teorética ligada ao curso de Geografia da Unesp de Rio Claro e os veículos de
divulgação científica como, o Boletim de Geografia Teorética e a Revista Brasileira de Geografia do IBGE no Rio de Janeiro (CAMPOS, 2011).
Os estudos geográficos balizados pelo pragmatismo científico do positivismo lógico fez dos procedimentos quantitativos a característica básica da análise geográfica, sobretudo aquelas voltadas para a compreensão das organizações espaciais por intermédio de uma visão sistêmica e objetiva. A teoria geral dos sistemas permitiu uma nova singularidade aos estudos da Geografia partindo do ponto de vista da integração e da organização do espaço.
A crítica de Yves Lacoste sobre a posição assumida pelas gerações de geógrafos influenciados pelas leis matemáticas e estatísticas indicava que a nova orientação metodológica da Geografia estimulou o surgimento de um “divisor de águas” entre os adeptos dessa ciência.
[...] podemos nos perguntar se os cálculos matemáticos e o manejo do computador que trata esses “dados” cifrados, reunidos em função das preocupações das grandes firmas e dos aparelhos de Estado, não são, para muitos, um modo aparentemente científico de eliminar a difícil tarefa, que é a construção dos conceitos fundamentais para a geografia (LACOSTE, 1974, p. 242).
Mas, o movimento da Nova Geografia, (ou Geografia Quantitativa, ou Neopositivista, ou Pragmática ou Teorética como ficou também conhecida), em profusão nas universidades contava com a participação de professores engajados nas possibilidades propagandeadas pelos novos estudos sobre o planejamento territorial.
Nesta pesquisa em específico, observamos um predomínio de disciplinas de cunho neopositivista nas grades curriculares dos cursos de Geografia em Minas a partir do final da década de 1960, como se pode verificar no Quadro 8. Ora, se a sistematização da Geografia científica no Brasil serviu ao Estado como aporte estratégico para a consolidação do mercado interno, parece-nos bastante significativo que manter em um segundo plano os propósitos que buscam a compreensão dos fatos sociais se torna muito mais interessante do ponto de vista da organização do capital e do planejamento estatal. A Geografia acadêmica valorizou as pesquisas sobre o planejamento territorial, uma vez que se tratava de um dos temas mais importantes da realidade nacional.
Quadro 8 – Relação de temas e bibliografias comuns presentes nas disciplinas que compõem as subáreas dos cursos de Geografia da UFMG, UFJF, UNIMONTES e UFU (1970
– 1989)
SUBÁREAS TEMAS COMUNS BIBLIOGRAFIA MAIS UTILIZADA