6. Findings
6.1 Development of the study tool
A instalação dos cursos de Geografia em Minas Gerais seguiu, em certa medida, as mesmas propostas e indicações das pioneiras USP e UFRJ. Existiam nessas instituições mineiras preocupações que sinalizavam a necessidade de unicidade da nação em função de sua coesão territorial, e também a necessidade da correção dos problemas decorrentes da estrutura regional do estado.
O fato de Minas apresentar uma estrutura político-econômica complexa em função dos antagonismos regionais fez com que as elites do estado buscassem estabelecer estratégias que priorizassem a reorganização dessas estruturas. Nos documentos sobre a organização dos cursos de Geografia da UFMG, UFJF, UNIMONTES e UFU, os planos de aulas elaborados pelos professores são bastante peculiares e sinalizam discussões que refletem o contexto de cada
região onde o curso está inserido. Parece-nos evidente, que embora o conteúdo desses cursos fosse o mesmo em sua maior parte – comparado entre uma universidade e outra – apresentando como núcleo comum as disciplinas referentes às subáreas de Geografia Física, Geografia Humana, Geografia Regional e Geografia do Brasil, a adequação das particularidades locais e regionais é bastante evidente. Foram organizadas, em formato de diagrama, as disciplinas que compunham o núcleo comum dos cursos de Geografia dessas universidades, como mostra a Figura 2.
Figura 2 – Disciplinas predominantes no núcleo comum dos Cursos de Geografia – Licenciatura e Bacharelado (UFMG, UFJF, UNIMONTES, UFU – 1941 a 1989)
LEGENDA
1. Conceitos Gerais de Geologia. Estudo das formação rochosas e seus compostos químicos e físicos. 2. A Geografia Urbana e a Geografia Agrária não apareciam como disciplinas autônomas nas grades curriculares analisadas no período. No final dos anos de 1970 começaram a aparecer separadas.
3. Disciplina bastante comum a partir dos anos de 1970. Todos os cursos absorvem essa disciplina como estudo fundamental da Geografia Regional.
4. Nos programas essa disciplina conta com duas partes introdutórias sendo, uma sobre Geografia física geral do Brasil e a outra, sobre Geografia Humana geral e do Brasil
5. Disciplina comum nos currículos analisados a partir doas anos de 1970 como elemento importante nos estudos de Geografia do Brasil. Análise dos aspectos físicos e humanos de Minas Gerais.
6. Segundo a Divisão Regional do Brasil proposta pelo IBGE em 1940.
7. Estudos sobre técnicas aerofotográficas do território para fins de mapeamento. Comum nos currículos analisados a partir da década de 1960 com o advento do planejamento.
8. A disciplina Sensoriamento Remoto substituiu os estudos de Aerofotogrametria nos currículos no final dos anos de 1970 utilizando em seu conteúdo técnicas mais avançadas. 9. As disciplinas auxiliares acompanharam os cursos de Geografia desde a sua fundação em 1941 na UFMG. Trata-se de disciplinas subsidiárias que auxiliam nos estudos de Geografia Humana.
10. Disciplina comum para todos os cursos de Licenciatura e Bacharelado. Introdução à pesquisa científica.
11. Presente em todos os currículos. Disciplina regulamentada pelo Decreto nº 68.065, de 1971.
Fonte: Grades Curriculares dos cursos de Geografia: UFMG, UFJF, UNIMONTES e UFU (1941-1989). Adaptado por: PETRUCI, R., 2015
Após um levantamento detalhado e sistematizado das grades curriculares, planos de curso, ementas e bibliografia, pudemos concluir que, desde o surgimento de cada um desses cursos, até a década de 1980 – período analisado –, estes eram estruturados de forma muito parecida, com disciplinas comuns divididas entre as subáreas sinalizadas. As diferenças que foram observadas dizem respeito ao conteúdo de cada disciplina, em outras palavras, isso significa dizer que eram ensinados, em um primeiro momento, os conhecimentos gerais de cada disciplina e, posteriormente, esses conhecimentos eram aplicados de forma específica de acordo com os interesses e necessidades de cada região.
Nota-se a preocupação em analisar as questões específicas do estado mineiro na Geografia dessas universidades cujo método de base refletia a orientação metodológica dos professores catedráticos pertencentes à elite intelectual francesa, adeptos das correntes de pensamento sacralizadas por Paul Vidal de La Blache e seus discípulos, conforme já sinalizado com Andrade (1999).
A abordagem teórico-metodológica da Geografia francesa está alicerçada nos pressupostos da Geografia Regional, com base nas pesquisas empíricas e descrições localizadas através de estudos monográficos, mantendo o foco na relação homem e meio.
A região (...) era a denominação dada a uma unidade de análise geográfica, que exprimiria a própria forma de os homens organizarem o espaço terrestre. Assim, a região não seria apenas um instrumento teórico de pesquisa, mas também um dado da própria realidade. (...). A região seria uma escala de análise, uma unidade espacial, dotada de uma individualidade, em relação as suas áreas limítrofes. Assim, pela observação, seria possível estabelecer a dimensão territorial de uma região, localizá- la e traçar seus limites. (...). Dessa forma, a Geografia seria prioritariamente um trabalho de identificação das regiões do Globo (MORAES, 1990, p. 75)
Com o intuito de promover análises minuciosas das regiões de Minas, a Geografia que se instalou nas universidades mineiras acabou por cumprir um papel significativo no diagnóstico das características naturais, como o relevo, a vegetação e o clima, e também das características humanas, concebidas a partir do método positivista. Nesse sentido, entendemos que os cursos de Geografia da UFMG, UFJF, UNIMONTES e UFU contribuíram em grande medida para o conhecimento e identificação das particularidades regionais do estado em consonância com as necessidades de estudos sobre o território nacional, corroborando as conclusões de Anselmo (2012).
Observou-se que o modelo regional lablachiano e suas variantes, aplicado aos estudos de Geografia dessas instituições, revelava-se bastante reduzido à descrição e à aparência dos fenômenos. Grande parte dos programas das disciplinas organizados pelos professores discorria, basicamente, sobre a geografia dos lugares: a localização das montanhas, a natureza
do solo, a classificação dos povos, o habitat rural e urbano segundo suas diferenças físicas, entre outros.
A Geografia Humana, fortemente influenciada pelos pressupostos metodológicos franceses, manteve-se ligada aos estudos regionais de Vidal de La Blache, despontando como ícones os estudos de Pierre Monbeig, Pierre Deffontaines, Emmanuel De Martonne, Albert Demangeon e Max Sorre. Defensores do viés metodológico lablacheano, e pelas questões regionais precursoras dos estudos “de uma geografia como ciência das relações do homem com o ambiente natural” (QUAINI, 1983, p. 48).
Entre os geógrafos franceses que tiveram relevância nos cursos de Geografia no Brasil e nas universidades estudadas destaca-se o brasileiro, formado na Universidade de São Paulo, Aroldo de Azevedo. Esse geógrafo se destacou não apenas por seus estudos sobre a influência das condicionantes geográficas no país, mas também pela elaboração de livros didáticos marcados pelas concepções positivistas. Dentre sua produção, cabe sinalizar: “Geografia Geral: Primeira Série Ginasial”, “Geografia Regional: de acordo com o programa da Segunda Série do Curso Colegial” e “O Brasil e suas Regiões”, todos publicados pela Companhia Editora Nacional.
A organização dos cursos de Geografia presente nos currículos das universidades mineiras revela além das orientações teórico-metodológicas predominantes à época, as inquietações recorrentes no campo de estudo dessa ciência. O Quadro 1, a seguir, mostra a influência teórica da vertente regional lablacheana e os conceitos comuns em cada subárea/disciplina. Essa vertente teórica mantém-se presente nos cursos desde a década de 1940 (acompanhando a criação do curso de Geografia em Minas Gerais, na UFMG), até o início dos anos de 1970 (que marca a instalação do quarto curso de Geografia em Minas, na UFU) e, continua presente até 1989 (período em que se encerra a análise dessa pesquisa). Entretanto, é importante salientar que outras vertentes metodológicas coexistem nesses cursos e aparecem, mesmo que de forma modesta, nas grades curriculares analisadas, na forma de disciplinas e seus respectivos conteúdos.
Quadro 1 – Relação de temas e bibliografias comuns presentes nas disciplinas que compõem as subáreas dos cursos de Geografia da UFMG, UFJF, UNIMONTES e UFU (1941
– 1989)
SUBÁREAS TEMAS COMUNS BIBLIOGRAFIA MAIS UTILIZADA