O exame visual, que se baseia nos aspectos clínicos da superfície, ainda é o método mais difundido e utilizado pelos profissionais e acadêmicos, talvez pelo fato de ser mais vantajoso em relação aos métodos modernos em termos de custo e simplicidade 117. Tem como fundamento os danos ocorridos nas estruturas dentárias, denominados de “cavidade”, ou seja, somente identifica lesões cariosas no estágio em que o procedimento invasivo restaurador torna-se necessário 13.
Há muitos anos, a prática do uso do explorador ou sonda vem sendo utilizada, alicerçada na teoria de que o sinal tátil de resistência do explorador seria considerado como sinônimo de presença de cárie. No entanto, comumente a sonda exploradora pode-se prender às fissuras dos dentes posteriores, sem cavitação macroscópica visível, devido à sua morfologia e não necessariamente, devido à lesão de cárie, provando que a morfologia da fissura interfere no diagnóstico da cárie oclusal. Logo, o uso do explorador não é considerado um método seguro para detectar a doença, além de possibilitar o rompimento da superfície de lesões incipientes e transmitir microrganismos cariogênicos para outros elementos da arcada dentária 3, 19, 80, 92, 93.
Portanto, compreende-se que o uso tradicional do explorador deve ser evitado, pois estudos demonstram que a superfície do esmalte hígida, porém descalcificada, ao ser sondada, pode ser rompida, facilitando ainda mais o acesso de microrganismos na região ou, se utilizado, o explorador deve ser de ponta romba e usado cuidadosamente, sem exercer pressão excessiva 10, 124. O diagnóstico clínico deve ser realizado, preferencialmente, com a inspeção visual das superfícies, pois a doença apresenta sinais subclínicos que não podem ser detectados com a ponta do explorador 3.
O diagnóstico clínico baseado na inspeção visual das superfícies é sugerido como método de escolha, considerando textura, mudança de coloração e configuração anatômica do dente em questão, mais especificamente da superfície oclusal examinada. Para tanto, é imprescindível que se faça uma boa visualização, com o campo bem iluminado, pois esta verifica desde cárie incipiente até cavidades, estando cada quadrante isolado com roletes de algodão, as superfícies dentais limpas, livres de placa pela profilaxia, secas e bem iluminadas
Segundo Bastos e colaboradores 10, o diagnóstico realizado somente por meio da sondagem é um método incompleto, que começa a perder seu espaço na Odontologia. Ainda assim, o método visual é imprescindível para qualquer exame, já que entre todos, é o único que apresenta a capacidade de estimar se a lesão é inativa ou ativa. Essa técnica, se utilizada isoladamente, não apresenta segurança necessária para fechar um diagnóstico, devendo sempre que possível, ser complementada com uma técnica auxiliar, seja a radiografia tradicional ou digital, de forma a dar uma maior segurança ao profissional.
Visualmente, observa-se que a lesão inicial é caracterizada pela perda de translucidez do esmalte, que adquire aparência de uma lesão branca, com superfície rugosa, sem brilho e sem cavitação. Nesta ocasião, a lesão ainda é passível de remineralização, pode tornar-se inativa, com aspecto branco – brilhante ou ainda com diferentes tonalidades que vão do castanho ao preto, em função da incorporação de pigmentos exógenos e minerais 3.
A concordância entre examinadores quanto ao diagnóstico e tratamento da cárie de superfície oclusal sem cavitação de 38 superfícies de primeiros molares permanentes totalmente erupcionados foi avaliada por Amaral e Silva 2. Participaram do estudo 14 examinadores, sendo 12 alunos e 2 professores do curso de pós – graduação da Faculdade de Odontologia de Anápolis. Cada examinador realizou os exames clínico e radiográfico dos elementos dentários e, a partir disso, tendo que optar por tratamento invasivo ou não – invasivo. A concordância entre os examinadores girou em torno de 63% para o diagnóstico e 76% para o tratamento. Os autores concluíram que há dificuldade de padronização do diagnóstico clínico desta superfície (oclusal), o que pode acarretar indicações errôneas de tratamento, muitas vezes irreversíveis.
Um estudo in vitro enfocando métodos de diagnóstico clínico de lesão de cárie oclusal foi realizado por Zanardo e Rego 121. Os autores analisaram faces oclusais de 32 dentes humanos extraídos, utilizando-se o método visual, radiografia interproximal convencional, transiluminação por fibra óptica (FOTI), laser diodo (DIAGNOdent‚) e radiografia digital direta (RDD). Os resultados obtidos entre diferentes métodos foram comparados com o exame histológico (padrão ouro). Os resultados revelaram que, para lesões com demineralização em esmalte, o método que apresentou maior sensibilidade em profundidade foi a inspeção visual, com diferença significativa para os demais métodos, com exceção para associação de inspeção visual e radiografia interproximal. Para a desmineralização em dentina, a inspeção visual apresentou maior sensibilidade, com diferença para radiografia interproximal convencional e sem diferença significativa para os demais métodos. Os autores concluíram que o método mais sensível foi a inspeção visual (0,67), seguindo-se associação da inspeção
visual com a radiografia interproximal (0,58). O método que apresentou menor sensibilidade foi a radiografia interproximal (0,41). Os métodos mais específicos foram a associação da inspeção visual com a radiografia interproximal (0,90) e a transiluminação por fibra óptica (0,90). O método com menor especificidade foi a radiografia digital direta (0,30).
Outro estudo in vitro também foi realizado por Santos e Moimaz 105, que avaliaram os métodos de inspeção visual e o uso do laser fluorescente DIAGNOdent, em sessenta e seis sítios oclusais, num total de 48 dentes. Quanto ao exame visual, este se apresentou com uma sensibilidade de 0,87, especificidade de 0,38 e 0,81 de acurácia, no que se refere à presença de lesão e ausência de lesão. Para lesões em dentina, obtiveram-se no exame visual valores de 0,76 de sensibilidade, 0,45 de especificidade e 0,61 para acurácia. Os autores constaram que o exame visual foi o melhor para diagnosticar sítios oclusais hígidos.
Diferentemente dos estudos supracitados, os autores Mialhe, Bosquiroli e Silva 81 avaliaram o conhecimento de cirurgiões – dentistas de consultórios particulares da cidade de Cascavel – PR, acerca dos métodos modernos e os tradicionais de diagnóstico de cárie bem como de que forma esses profissionais estão utilizando os métodos tradicionais. Os pesquisadores constataram que a maioria dos profissionais utilizava a sonda exploradora de ponta aguçada durante o exame visual (88,6%), predispondo superfícies dentárias previamente desmineralizadas a danos irreversíveis; menos da metade (45,7%) afirmaram realizar profilaxia prévia ao procedimento, o que leva a redução da eficácia desse exame, predispondo-os à realização de um maior número de diagnósticos falso – positivo e falso – negativo.