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4. METODE

4.3. D ATAINNSAMLING

Com a evolução do conhecimento sobre a doença cárie dentária, especialmente da compreensão desta como uma doença e não meramente como lesões (manchas e cavidades), têm surgido inúmeras propostas para controlá-la 41. Esse modelo de atuação distancia-se, então, do modelo cirúrgico-restaurador previamente proposto, para satisfazer a um modelo de promoção de saúde, que prima por garantir ao indivíduo formas de se livrar da doença e se manter com saúde. Além disso, de tal maneira, evita-se a ocorrência do ciclo restaurador repetitivo 37, uma vez que a cada troca de restauração tende-se a incorrer na perda de estrutura dentária sadia 106.

A escolha por uma ou outra modalidade de tratamento, por sua vez, deve estar atrelada ao diagnóstico da doença (atividade e risco) associado ao conhecimento do comportamento dos agentes etiológicos específicos em cada paciente, assim como à detecção dos sinais da

doença em sua cavidade bucal. Dessa forma, o diagnóstico é essencial para a escolha da terapêutica 85.

A remoção total do tecido dentário atingido foi, durante muito tempo, a terapêutica preconizada e adotada pelos cirurgiões-dentistas para lesões de cárie. Os preparos cavitários preconizados por Black no final do século XIX deram início à era da Odontologia Restauradora baseada nos princípios de extensão preventiva, que incluía a abertura de fossas e fissuras hígidas, com posterior restauração, no intuito de prevenir o aparecimento de lesões de cárie nessas regiões 71. Essa filosofia perpetuou-se, de certa forma, até as décadas de 80 e 90, quando ainda era indicava a invasão de sulcos e fissuras escurecidos, antes da aplicação de selantes, também com cunho preventivo 64.

Com a introdução da “mínima intervenção” na Odontologia, o tratamento de lesões que eram diagnosticadas precocemente, em estágios iniciais no esmalte e/ou dentina, passou a envolver procedimentos e condutas de paralisação do processo carioso e acompanhamento clínico, enquanto em estágios mais avançados, elegiam-se os procedimentos “minimamente invasivos”, ou seja, procedimentos restauradores conservadores da estrutura dental, destacando-se o tratamento da doença cárie, através do controle de seus fatores etiológicos 68. Além de evitar o desgaste desnecessário de tecidos sadios, esse tipo de conduta também proporciona maior conforto ao paciente 82, fatores que sempre devem ser buscados no tratamento odontológico 64.

Os selantes de fossas e fissuras são materiais desenvolvidos com o intuito de serem aplicados sobre a superfície oclusal de dentes suscetíveis ao desenvolvimento de lesões de cárie. Eles agem recobrindo as fossas e fissuras e formando uma camada que impede o acúmulo de resíduos alimentares e a formação do biofilme nessas áreas anatômicas de difícil controle de higiene, prevenindo assim o desenvolvimento da lesão de cárie 67. O uso de selantes na prevenção de cárie apresenta uma forte evidência em relação à sua efetividade, comprovada por uma série de estudos clínicos e revisões sistemáticas 52, 87. No entanto, sua eficácia tem sido maior em indivíduos de alto risco, sugerindo que os selantes têm mais uma função terapêutica, na paralisação de lesões de cárie em progressão, do que uma preventiva, sobre superfícies oclusais hígidas 64.

Isso é suportado pelas novas teorias que defendem que o biofilme dentário sobre a superfície da lesão de cárie é fator etiológico fundamental para o avanço das lesões cariosas, e não as bactérias presentes no interior do tecido cariado. Assim sendo, a aplicação de um selante sobre lesões de cárie, mesmo sem a remoção de tecido cariado, reduziria o acúmulo de biofilme sobre a superfície e proporcionaria a paralisação dessas lesões. De fato, desde a

década de 70, diversos estudos têm sido realizados utilizando os selantes resinosos no tratamento de lesões de cárie 55, 57, 59. Os resultados mostraram que esse material pode ser aplicado sobre lesões que atingem esmalte e/ou dentina, proporcionando a paralisação e o controle destas, ao mesmo tempo em que promove a preservação da estrutura dentária 64.

Os selantes, avaliados sob a ótica da promoção de saúde, constituem-se em uma maneira não invasiva de controle de alguns dos fatores etiológicos da doença cárie, atuando como barreira mecânica que impede o contato entre o biofilme e a superfície dentária. Assim, conseguem minimizar a retenção do biofilme na entrada das fissuras, que é fator crucial para o desenvolvimento de lesões de cárie 110. Por ter essa atuação pontual, deve ser indicado com critério, em superfícies que realmente necessitem desse tipo de controle e, também, não deve ser separado da questão educativa, a qual estaria atuando em outros aspectos da etiologia complexa apresentada pela doença cárie 18, 64.

Revisões sistemáticas em relação à remoção do tecido cariado têm sido conduzidas em estudo recentes, como a de Thompson e colaboradores 114, que utilizando cinco base de dados, mostrou, por meio de três estudos clínicos randomizados, comparando remoção parcial e total do tecido cariado, que havia evidência suficiente para a manutenção de dentina afetada na cavidade, cuja remoção poderia aumentar o risco de exposição pulpar.

Avaliando revisões sistemáticas existentes na literatura com o objetivo de esboçar alternativas para a terapêutica de lesões de cárie incipientes e também aquelas que eram suspeitas de atingir a dentina, observou-se que as evidências existentes sugerem que o selamento de lesões cariosas, tanto restritas ao esmalte quanto passíveis de atingir dentina é a abordagem mais efetiva, sendo fundamental para tanto, que a manutenção da face selada seja assegurada de forma adequada 9.

Em 2008, a Academia Americana de Odontopediatria 1 publicou um manual acerca do tratamento restaurador em Odontopediatria. Nesse manual, o selamento de lesões cariosas incipientes foi recomendado, mediante diagnóstico e acompanhamento adequados. De acordo com essa publicação, o selamento de lesões promoveria a diminuição da microbiota cariogênica sob o selante, o que consiste na chave do tratamento com esse material. No entanto, no manual não é específico com relação à profundidade exata dessas lesões iniciais, não discriminando se esse tipo de conduta pode ser adotada tanto para dentes decíduos como para permanentes.

A tendência em se praticar mínima intervenção nas lesões de cárie tem sido observada, sempre que possível. Alguns estudos preliminares têm descrito técnicas recentemente propostas, como o uso de um cimento antibacteriano associado à não remoção de tecido

cariado em cavidades profundas 94. No entanto, as diversas técnicas existentes ainda são muito recentes e poucas evidências estão disponíveis na literatura, necessitando de mais pesquisas futuras nesse sentido. Por outro lado, confirmam a tendência de diminuir o desgaste desnecessário da estrutura dentária e priorizar o conforto para o paciente 64.

Seguindo essa filosofia, grande parte dos estudos tem apontado para a adoção do uso de selantes não apenas como um método minimamente invasivo com abordagem preventiva, mas também como terapêutico para lesões de cárie oclusal ao nível dentinário. Isso está embasado, principalmente, nos resultados positivos apontados de que o selamento dessas lesões é um procedimento seguro e efetivo, sendo, deste modo, capaz de promover o controle da progressão das lesões de cárie em dentina 59, 67, 60.

Assim sendo, faz-se necessário que mais estudos clínicos controlados e realizados de buscando esclarecer questões pertinentes em relação à efetividade do uso dos selantes, em especial, quando abrange crianças, população esta bastante beneficiada com esse tipo de conduta, principalmente devido à intervenção mínima, que almeja não apenas a preservar a maior quantidade de estruturas dentárias, como também a garantia de mais conforto para o paciente 64.