Em uma manhã, estava marcado um encontro para discutirmos os novos passos do grupo de teatro. Em torno de 20 usuários e 02 trabalhadores estavam presentes na reunião. Algumas semanas atrás, eu havia sugerido, como resultado das avaliações feitas a partir dos vídeos do teatro, a participação de um profissional da área de artes cênicas para oferecer um suporte; um ex-aluno, com formação superior na área em questão, foi contatado por mim para tanto. Ele demostrou entusiasmo pela atividade e acabamos agendando sua participação para a referida reunião com todos envolvidos com o teatro às 08h30min da manhã. No entanto, acometido por um problema de saúde na madrugada, o sujeito não pôde participar e me enviou uma mensagem quando eu me encontrava em direção ao CAPS.
Ao chegar ao serviço e ver todos organizados numa grande roda de conversa, senti-me constrangido em dar a informação acerca da ausência daquele que poderia vir a ser o possível professor de teatro, já que aquele encontro havia sido organizado entorno de sua presença31. Todavia, a inventividade dos dois trabalhadores não fez com que aquele encontro grupal fosse disperso. Na verdade, uma surpresa de afetos foi instituída de maneira inusitada e espontânea. Quando falei e dei as explicações acerca da ausência do ex-aluno, um dos técnicos me olhou e falou para o grupo: “Não tem problema não, Emanoel. A gente compreende. Daqui a duas semanas nós teremos o carnaval do CAPS e nós precisamos eleger logo quem serão o rei e a rainha do carnaval para a gente poder desfilar! Quem quer que a gente faça um ensaio da eleição e do carnaval agora?” Um estrondoso “eu” em uníssono invadiu o serviço. O outro trabalhador lançou mais uma pergunta: “Quem aqui sabe sambar bem? O rei e a rainha precisam ter samba no pé?” Um usuário se levantou e falou: “Olha aqui como eu sambo bem!” Todos se viraram para o sujeito, que ensaiou uns passos com muita habilidade e com um sorriso contagiante nos lábios. Ao verem aquela sambada, um corte de alegria através das gargalhadas tomou conta do grupo. Uma usuária ficou de pé: “Eu quero ser a rainha! Minha tia me disse que eu danço bem demais!” Outro usuário também dançou: “No meu bairro tem
31 Um novo encontro foi marcado para duas semanas depois, que transcorreu de modo satisfatório. Nele, combinamos os dias em que ocorreriam trabalhos orientados pelo ex-aluno. No entanto, logo depois, o CAPS passou pela paralisação em função dos problemas hidráulicos e o trabalho de teatro se encontra parado.
bloco de carnaval todo ano! Sempre sou o rei de lá! E a rua fica com muita gente no dia do desfile!” Os técnicos, sentindo uma empolgação e uma espécie de enunciação grupal em forma de contágio, resolveram tomar providências fundamentais para um carnaval: “Vamos lá dentro e pedir para o pessoal ligar aqui o som com músicas de carnaval para a gente começar o ensaio!” Mais três membros da equipe se mobilizaram para rapidamente prepararem o aparelho de som com músicas muito especiais para a comemoração carnavalesca: marchinhas. Naquele movimento, até o clima quente de Teresina parecia conspirar a favor. Uma tímida chuva também se enunciou e fez com que saíssemos do pátio, que era sem cobertura, e fôssemos para uma pequena área com alpendre próximo à cozinha; o aperto do local deu proximidade e aconchego entre os participantes da atividade. O som foi realocado velozmente. Quando as marchinhas penetraram ouvidos, corpos e mentes, uma energia não permitiu ficarmos parados. Uma espécie de comando vibrou organicamente. Uma roda de dança que começou a circular infinitamente foi imantando a todos que lá estavam. A força daquela rotação produziu um efeito centrípeto, trazendo para seu eixo os sujeitos que não se envolviam comumente com as diversas atividades agenciadas, tanto usuários como aqueles trabalhadores que cotidianamente só ficavam na parte interna no serviço. Para cada um deles que chegava perto, eu era assaltado pelo seguinte pensamento: “Olha só quem apareceu!”; três usuários que não se integravam participaram daquela onda magnética; um trabalhador, que vivia enfurnado em uma sala a cumprir tarefas burocráticas, veio, mesmo que ao lado da roda, bater palmas e trazer seu sorriso; em uma passagem anterior, uma usuária, quando viu este técnico chegar ao serviço no início da manhã e se encaminhar a passos apressados para o recinto onde trabalhava, falou-me apontando: “Olha aquele bem ali! Eu tenho é certeza que ele tem medo da gente e por isso fica direto lá dentro!”.
Eu acompanhava todo o processo com o diário de campo nas mãos e procurava colocar em palavras o que estava vivendo. Com caneta e caderno em punho, sorriso no rosto, olhos rasos d’água, pelos em pé, quadril se insinuando e pé direito marcando a batida das marchas. Não aguentei aquela imantação de afetos, as letras foram ficando ilegíveis por causa da pressa de terminar a escrita das ideias que pululavam e acabei por arrumar um jeitinho de encaixar o meu material escolar nos meus bolsos e me entregar às marchinhas. A roda foi crescendo e seguiu perene, pois as músicas não tinham pausas entre elas, o que não permitia paradas e continuávamos a circular infinitamente; não havia diferenciação de marcas identitárias, forjou-se um processo de desmanchamento, os traços desenhados que diferenciam pareciam esborrados, todos pareciam fazer parte de uma mesma energia naquele encontro amalgamado de multiplicidades. Talvez, estávamos na tecelagem daquilo que
Domingues (2011), inspirada na filosofia espinosana, chama de experiência comum; comum não no sentido dos elementos de similitude que as pessoas carregam, tais como, pertencer a mesma localidade, ter a mesma origem étnica ou religiosa, mas naquilo que se constrói a partir dos encontros ancorados por uma diversidade de afetações entre os sujeitos que permitem o incremento das potências de agir dos mesmos.
O que mais me contaminou foi o envolvimento dos usuários que comumente não se vinculavam às atividades grupais cotidianas. Ficavam somente sentados nos locais mais isolados, às vezes em pequenos grupos a fumar. Como referido acima, apesar de terem sido convidados como sempre faziam os profissionais ao iniciarem as tarefas em grupo, três deles estavam distantes e se aproximaram com a vibração musical e com a roda de afetos que parecia sugar a todos. Um deles, em especial, o fã de Belchior e de Gal Costa, que carregava o semblante triste e irritadiço naquele dia, quando viu a circulação se insinuar, largou o cigarro, veio para perto e esboçou um sorriso, alguns segundos depois, e a convite de um profissional muito perspicaz que percebeu os primeiros traços da alegria, aproximou-se mais e se entregou àquela órbita comum de pessoas. Mesmo movimento feito por um de seus amigos, que certa vez me disse: “eu gosto só de participar de atividades de homem”, tais como, “bingo, vôlei, futebol”; pareceu também gostar de samba e carnaval. O último deles, embora não tenha entrado diretamente na roda, ficou bem perto a admirar a circularidade e assumiu uma espécie de posição avaliativa e coordenadora, apontando aqueles que dançavam melhor e definindo como seria a melhor maneira de marchar para não atrapalhar a roda, também trouxe sorrisos e palmas.
Nessa orbitalidade de tantas diferenças, talvez, tenha se desenhado uma comunidade momentânea, segundo Domingues (2011), a partir de subjetividades quaisquer em encontros múltiplos, formando um espaço comum, sem reificar, afirmar ou impor uma forma de identidade, mas algo que há de comum em nós que, por não guardar uma singularidade fixa ou última, torna difíceis de serem capturáveis pelos modos de dominação esses sujeitos que nascem desses encontros, que se permitem ao outro e suas tramas e percursos de vida. Nesse sentido, ainda segundo a autora, temos um espaço de multidão, uma pluralidade em encontro no qual há propalações e abandonos de modos de viver, o que abre para transformações e acolhimento das diferenças e, consequentemente, afirma a existência e a potencialidade política da coletividade.
Outro ponto a ser destacado nesse potente encontro é que ele também foi fortuito. O acaso se fez presente em função da falta daquele que viria ser o professor de teatro. A força na qual o processo foi se compondo e agregando pessoas e seus traços híbridos indica uma
energia de enunciação que se encontra ali espargida e que pode provocar sinergias políticas. De algum modo, os sujeitos envolvidos já a sentem, já conectam inquietações comuns, que articuladas ao que os profissionais já conhecem dos processos subjetivos dos usuários acerca de suas relações com as artes, em especial com o carnaval, podem se configurar como atividades para a invenção de novos modos de subjetivação e para a articulação política que tanto alimenta a Reforma Psiquiátrica (FOUCAULT,1995; DOMINGUES, 2011) .