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Uma equipe de 05 técnicos saiu da parte interna do CAPS e reuniu os usuários debaixo de uma bela árvore para uma conversa sobre duas doenças que compõem a primeira causa de morte da população brasileira: doenças do aparelho circulatório (DAC). O papo seria sobre hipertensão arterial e diabetes, duas doenças crônicas e silenciosas e que causam outros problemas de saúde que podem levar a óbito, tais como doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, embolia pulmonar, entre outros. A hipertensão, em linhas gerais, caracteriza-se pela força que o sangue exerce para poder circular no corpo, prejudicando o funcionamento do coração, que tem de trabalhar mais para bombear mais sangue ao coração, o que também prejudica os vasos sanguíneos (BRASIL, 2006a). A diabetes diz respeito a um conjunto de patologias metabólicas que provocam a hiperglicemia, que é o aumento da

glicose no organismo, ou melhor, alta da concentração de açúcar na corrente sanguínea em função de problemas na produção de insulina, substância química responsável pela metabolização da glicose, pelo pâncreas (BRASIL, 2006b).

Os profissionais procuraram explicitar o conceito e as formas de desenvolvimento das duas doenças de modo bem acessível; utilizaram recursos visuais através de cartazes e utilizaram uma linguagem informal do cotidiano para facilitar a compreensão. Os usuários puderam fazer perguntas e tirar todas as suas dúvidas em relação ao que poderia ser feito para se evitar ou lidar melhor com tais problemáticas. Os técnicos informaram acerca da importância da alimentação balanceada e da atividade física para se proteger de ambas. Em seguida, realizaram exames rápidos com todos os usuários para aferir a pressão arterial (PA) e medir a quantidade de glicose (glicemia). Utilizaram um estetoscópio e um esfigmomanômetro28 para a PA e um glicosímetro29 para a glicemia; dividiram-se em dois grupos e iniciaram o processo de verificação e um dos trabalhadores ficou responsável de fazer uma lista dos casos em que os resultados não fossem satisfatórios. Dois usuários apresentaram uma PA levemente alta e mais outro usuário com glicemia acima do padrão já era esperado e estava sob controle. Os técnicos orientaram os primeiros a procurarem a Equipe de Saúde da Família de cobertura, bem como incentivaram modos de vida mais saudáveis; além disso, entraram em contato com os familiares para que estes tomassem as providências necessárias; um deles, em especial, havia passado algumas décadas no manicômio, o que o comprometeu do ponto de vista cognitivo e motor e, realmente, era necessário o apoio dos familiares para lidar com a PA.

O processo me fez lembrar que minha família é composta por muitos hipertensos; havia ouvido em algum lugar que a hipertensão também é definida por questões genéticas. Resolvi então solicitar à equipe para que eu também pudesse passar pelos exames. Muito solícitos, rapidamente atenderam ao meu pedido. Primeiro passei pelo exame de glicemia e o resultado foi dentro da medida esperada. Em seguida, submeti-me a aferição da pressão arterial. O profissional pegou o seus aparelhos, envolveu meu braço e iniciou o exame. Fez a ausculta e olhou para mim e falou: “Vamos fazer de novo?” Eu disse que tudo bem e se pôs a reiniciar o procedimento e, ao término, falou: “Sua pressão está 1430.” Perguntei: “É alta?”.

28 Aparelho mecânico que comprime o braço para aferição da PA pela artéria braquial, principal vaso arterial dos membros superiores.

29 Artefato eletrônico que mede a glicemia a partir de uma amostra de sangue proveniente de um furo em um dos dedos da mão. Resultado é imediato.

30 O técnico disse esse número em referência à medida acerca da contração do coração (sístole). Ao falar “14”, o profissional se referia à unidade de medida 140 mmHG (milímetro de mercúrio). O intervalo de valoração dessa grandeza para se considerar uma PA dentro da normalidade deve estar entre 100 e 140 mmHG com o indivíduo

Respondeu-me: “É limítrofe. Vamos aguardar mais um 05 minutos e ver como estará.” Depois do período proposto: “Sua pressão continua 14, Emanoel. Um pouco alta.” Ao fim daquele turno de trabalho, um dos trabalhadores me abordou e sugeriu: “Emanoel, você não tem plano de saúde? Vá ao médico mais tarde fazer uns exames de sangue e conferir suas taxas sanguíneas. O que acha?” Aceitei a sugestão e fui a um hospital perto de casa no final da noite; mais uma vez aferi a pressão e deu 13 por 09, o que seria dentro da normalidade. Não dei muita atenção e na manhã seguinte fui para o CAPS e segui no trabalho de campo; mais tarde, solicitei mais uma vez a aferição no próprio serviço: “Sua pressão agora está 15 por 10”. Fiquei surpreso com a informação, pois havia aumentado em relação ao dia anterior; requisitei novamente depois de 10 minutos e a medida se repetiu. No turno da tarde, mais uma vez a pressão estava em 15 por 10. No dia seguinte, não fui ao CAPS, pois resolvi passar por consulta com cardiologista e realizar os exames sugeridos pelo trabalhador. Tive de me deparar com o meu sobrepeso, estava com quase 100 kg em uma altura de 1,74m. Encontrava- me com taxas de gordura elevadas no sangue bem como também havia presença de gordura no fígado. Depois, marquei consulta com nutricionista e iniciei um regime, além de intensificar a atividade física que já praticava.

A primeira aferição da pressão realizada pelo trabalhador foi dois meses após o início da cartografia. Quando terminei a minha estada no CAPS, quando se completaram quatro meses, parte da equipe, no último dia do percurso, preparou uma pequena confraternização de despedida com bolo de chocolate e refrigerantes, alimentos que diminuí drasticamente o consumo depois de descobrir a hipertensão: “Emanoel, hoje você não vai negar essa comida! É para você! Vai comer um pouquinho de guaraná e bolo! Você já está muito bem!” Já havia emagrecido mais de 10 kg e a pressão vinha sendo controlada. Comemos moderadamente e recebi abraços e felicitações de 15 profissionais. O último a me cumprimentar foi justamente o que tinha feito o primeiro exame: “Nossa, ainda bem que você está assim hoje. Emagreceu. Controlou a pressão. Vou lhe fazer uma revelação: naquele dia, sua pressão estava 18; eu só não lhe disse para não lhe assustar, pois ela pode aumentar mais ainda quando se fica nervoso.” Sua fala me deixou realmente assustado ao pensar como deveria realmente estar a minha saúde naquele momento. Apesar de ser grato pela descoberta de meu quadro de saúde e da indicação de procurar atendimento, acredito que o fato de não ter me contado a verdadeira em descanso por mais de 05 minutos. A outra referência para aferição diz respeito ao relaxamento do músculo cardíaco, que o padrão de normalidade está entre 60 mmHG e 90 mmHG. São considerados indivíduos com hipertensão arterial sistêmica aqueles com valores igual ou superior a 140 mmHG para a referência sistólica e 90 mmHG para a diastólica. Na linguagem comum do cotidiano de serviços, não se menciona o numeral composto pelo último 0 (zero); ao invés de se pronunciar 120 mmHG (sistólica) por 80 mmHG (diastólica), pronuncia-se 12 por 08 (BRASIL, 2006a).

situação pode indicar práticas comuns no CAPS, nas quais o usuário se encontra alijado das informações que lhe são necessárias, ou seja, sem acesso a elas, desrespeitando-se o que se configura como um direito, tal como definido na lei da Reforma Psiquiátrica em seu 2º artigo. No entanto, para além da dureza presente em leis e normativas, os trabalhadores do setor deram um jeitinho para cuidar de mim quando ao final do dia me sugeriram procurar atendimento.

Um ponto importante dessa prática de cuidado foi a abertura para se considerar outros âmbitos da vida dos usuários, em especial, suas questões biológicas; ainda mais quando se considera o impacto da questão de saúde que mais mata no Brasil e em muitos países (BRASIL, 2006a). Outra questão relevante residiu no fato da equipe construir aquilo que Alves e Guljor (2006) chamam de autonomia possível ao levarem em consideração as questões subjetivas na intervenção, contrabalanceando o incentivo à emancipação, materializada na procura de outros serviços e na proposta de transformação de hábitos, e a intervenção mais próxima daqueles com certa dependência devido os anos de manicômio, o que aponta para o escape das noções de incapacidade e de reparo que tanto acompanham os loucos ao longo dos últimos dois séculos.

Embora não tenha sido informado integralmente de meu estado de saúde, ter sido alertado e, de certa forma, ter sido cuidado pela equipe foi crucial para a minha vida. Evitaram que complicações maiores viessem a acontecer comigo. Depois que tomei as providências necessárias para baixar a minha pressão, todos os profissionais ficaram muito satisfeitos e me incentivavam na tarefa árdua que é emagrecer, principalmente no que tange à mudança de hábitos alimentares. A perenidade de práticas desta natureza, que consideram questões mais organicistas em âmbitos de práticas psicossociais, configura-se como fundamental para se lidar com as problemáticas de saúde mais comuns na vida de usuários, além de terem o potencial de comunicação com outros pontos da RAPS, pois podem articular os diferentes componentes necessários para a resolutividade. Nessa, é importante fomentar a circularidade dos sujeitos nas redes e, com isso, enfrentar a cultura manicomial e de, consequente, desresponsabilização para com as diversas demandas de saúde das pessoas com transtornos mentais. Cabe ressaltar que a problemática trabalhada pela equipe é de responsabilidade maior de outros pontos da RAS e da RAPS, tais como, a Estratégia Saúde da Família e hospitais gerais, mas, dado o impacto epidemiológico em termos de mortalidade das DAC e levando-se em consideração que os exames para detecção da hipertensão arterial e diabetes envolvem tecnologias baratas, ações de proteção deste porte acabam assumindo certa importância desde

que ponham em movimento as engrenagens das redes de saúde, principalmente para questões tão cotidianas que acompanham a vida de usuários dos CAPSs.