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Optimism, Overoptimism, and Overoptimistic Predictions

Na primeira semana desta cartografia, uma das primeiras ações que me envolvi foi uma iniciativa de usuários e de, principalmente, dois trabalhadores que semanalmente ensaiavam uma peça de teatro. Fui convidado a acompanhar um dos ensaios que aconteciam no início da manhã, uma vez por semana, e logo questionei se poderia levar uma filmadora para registrar toda a atividade, o que prontamente foi acolhido como uma forma de avaliação do trabalho pelos referidos técnicos. Os próximos encontros eram importantes porque tinham uma apresentação agendada pela equipe na semana seguinte em um famoso teatro localizado no território. Dessa forma, passaram a ensaiar pelo menos duas vezes por semana até a exibição pública.

No dia marcado para o ensaio, cheguei cedo e me pus a filmar todo o processo. Atuaram um total de 11 usuários e 01 profissional. De acordo com uma conversa que tive com os dois trabalhadores que coordenavam a tarefa, o enredo que sustentava o roteiro e as falas eram constituídos pelos próprios usuários. A peça envolvia duas temáticas que muito interessavam a eles: o preconceito e a questão do trabalho/renda. No primeiro ato, era encenada uma situação na qual uma adolescente com transtornos mentais sofria violência verbal no contexto escolar e, consequentemente, caía em choro; sua mãe foi chamada e a levava para o trabalho do esposo em uma confecção de roupas femininas chamada Aba Modas (nome dado por um usuário estudioso de filosofia), já no segundo ato, para explicar o sofrimento pontual da filha. Lá, a jovem reconheceu uma usuária do CAPS que frequentava entre os funcionários da empresa: “Ela é do CAPS! Ela é do CAPS!” Seu Raul25, o patrão, ao descobrir que empregava uma doida que ia ao CAPS: “Mas uma pessoa como você aqui não pode! Infelizmente, vou ter de demitir você!” A empregada apelou: “Mas eu vou direitinho ao CAPS e tomo meu remédio todo dia!” Não adiantou muito para o chefe: “Não tem jeito! Pessoas que vão a uma entidade como o CAPS acabam influenciando na clientela aqui da empresa, vai prejudicar a imagem da empresa! Se a clientela ficar sabendo que tem pessoas

aqui que frequentam o CAPS, vai fazer a imagem da empresa cair! Vá ao Departamento de Pessoal para dar baixa na sua carteira!” Ao adentrar nesta seção, encontrou a solidariedade do chefe do setor, que a demitiu, mas lhe deu um presente: “Eu vou dar baixa aqui na sua carteira, mas eu vou lhe ajudar: eu vou dar uma máquina de costura para você trabalhar em casa”. Passaram-se 06 meses e o dono da Aba Modas recebeu uma notícia nada animadora de seu contador: “A empresa está funcionando no vermelho! Depois que a Amanda26 foi demitida, nós perdemos muito dinheiro, perdemos muitas vendas. Estamos no vermelho! Não daria para o senhor readmiti-la?” O líder ainda questionou: “Isso não é alguma coincidência?” Ao que recebeu: “É não! É porque ela era competente mesmo!” Tocado com a situação, o proprietário resolveu chamar o gestor do Departamento de Pessoal para tentar contratar novamente a Amanda: “O contador me disse que a empresa está no vermelho e que a razão é a demissão da Amanda, que é... (aponta o dedo indicador girando-o em direção à própria orelha, como a sinalizar que se tratava de uma louca! – o que deu um tom de humor à peça, pois as risadas invadiram o ensaio)... né!? ... que frequenta o CAPS. O que você me diz?” O empregado lhe respondeu com outra pergunta: “O que o senhor acha de mim?” O empresário lhe elogiou: “Você é um excelente funcionário!” A resposta indicou de onde veio a solidariedade que ofereceu à Amanda: “Eu também frequento o CAPS!” Mais uma vez em tom de humor, o patrão questionou: “Você também é doido? Caramba, estou rodeado de malucos e não sabia! (gargalhadas visitaram o ensaio) O jeito mesmo vai ser recontratar essa menina! Entre em contato com ela e fala para ela vir falar comigo!”

Amanda foi à empresa e soube da boa nova diretamente de Seu Raul: “O contador falou que o faturamento da empresa caiu, que estamos no vermelho, e ele e o chefe do Departamento de Pessoal me disseram que tudo isso foi por causa de sua saída. Então, eu chamei você aqui para ser readmitida! Isso é, se você aceitar, né?” Muito feliz, Amanda comemorou: “Que bom! Eu aceito!”. No entanto, o empregador lhe impôs uma condição: “Dentro de uma semana, você tem de promover um desfile novo que traga uma emoção para as pessoas, que realce o poder da nossa empresa!” Orgulhosa e empolgada, a empregada reiterou sua competência: “Deixe tudo comigo, o senhor sabe como é que eu sou!”

Uma semana depois, Amanda produziu todas as roupas e contratou a apresentadora e as modelos para o desfile da grife Aba Modas com sua coleção de verão Alegria de Viver. Nesse momento, várias usuárias formaram uma fila para desfilarem, inclusive aquelas que não participavam muito das atividades e estavam somente a assistir o ensaio. Com humor, sorrisos

e palmas, as modelos eram apresentadas uma a uma e passeavam na passarela: “Gisele Bucho! Noemi Campbell! Anna Rica! Thaís Campelo! Não é o Tom Cruise, mas é o Antônio da Cruz (único homem que desfilou)! E, agora uma volta triunfal da nossa estilista Amanda Vasquez com toda a equipe de modelos!” Entre elas estava a usuária que mais tarde tentaria suicídio dentro das próprias dependências do serviço e, ao desfilar, um sorriso se desenhou em seu rosto, tão bonito quanto as obras de biscuit que fazia, indicava a potência de uma atividade como aquela e de como a inventividade nas práticas e a perenidade das mesmas são vitais para a produção de modos de vida marcados por afetos mais alegres.

O filósofo Bento Espinosa (1632-1677) propunha que os afetos seriam afecções provenientes do corpo e que têm o poder de aumentar ou diminuir a potência de agir dos sujeitos, expandindo-a ou contendo-a, e produzindo também efeitos nas ideias acerca dessas afecções, o que desfaz a dualidade corpo-mente. Na perspectiva espinosana, a potência de agir seria desenvolvida a partir dos afetos de alegria, ao passo que seria diminuída ou estancada com os afetos de tristeza. Os primeiros potencializam o enfrentamento do mundo externo e de suas intempéries e são capazes de reduzir ou até dissipar a distância ente o ato de desejar e o objeto desejado, movendo o homem na preservação de sua existência (PEIXOTO JÚNIOR, 2009; MACEDO, 2011). O teatro parecia marcado por muito investimento de desejo por parte dos usuários; na maior parte do ensaio, eram eles mesmos que dirigiam o trabalho e coordenavam a entrada das falas na encenação. Sorrisos, gargalhadas e empenho ficaram registrados na filmagem que fiz, inclusive minhas próprias risadas fortes escaparam para o áudio nos momentos de humor.

A apresentação ocorreu em uma segunda-feira à tarde, além da peça teatral, ainda foram realizadas duas apresentações envolvendo música que sucederam a peça, do grupo Loucos por Música, criado no próprio CAPS. Onze usuários cantaram a música natalina Bate o Sino em ritmo de chorinho; tocando ao fundo, tiveram a ajuda de um CD com a faixa em forma instrumental para postarem suas vozes. Em seguida, uma exibição de dança, com o clássico da música brasileira “Eu Só Quero um Xodó”, de autoria de Dominguinhos e Anastácia, na voz do baiano Gilberto Gil; dez usuários e um trabalhador desenvolveram uma coreografia com passos de forró. Mais uma vez sorrisos invadiram aquele teatro nessas duas atividades, tanto advindos dos usuários como da plateia.

De última hora, uma usuária chegou com sua melhor roupa e bem maquiada e solicitou para que ela pudesse apresentar um número musical. A equipe acolheu rapidamente seu pedido e permitiu que ela e sua voz fechassem o evento. Cantou uma música conhecida no âmbito gospel chamada “Faz um Milagre em Mim”. À capela, conquistou a todos e pediu para

que todos a acompanhassem com palmas no momento do refrão, o que se configurou como um momento de muito afeto e de comoção grupal. A abertura da equipe para os desejos e para sustentar certa errância da loucura ao sair do script das apresentações criou um espaço existencial para vivência de novos processos subjetivos para a usuária e, numa inventividade, auxiliou na construção de afetos coletivos que lá se enunciaram.

Na peça, um familiar de um trabalhador e outro de uma usuária também participaram como atores, embora não tivessem participado do ensaio relatado acima. Os demais papeis foram representados pelos usuários. Tudo transcorreu como havia sido ensaiado, mesmo com a ausência de alguns usuários que atuariam, que logo foram substituídos. Embora não tivesse sido ensaiado no encontro anterior em que eu estive presente, o desfile da Aba Modas contou ainda com uma apresentação musical do cantor Gleidson27, que foi anunciado pela apresentadora do desfile: “E agora, para fechar com chave de ouro o nosso desfile, o artista da terra, Gleidson, lançando sua mais nova composição!” Entrou um ator num figurino de cantor romântico dos anos 1970, com um colar que sustentava um grande pingente, mais parecendo um amuleto: “Boa noite, pessoal! E pela primeira vez, estou aqui nesse palco, que era um grande desejo meu para lançar meu primeiro CD... Justamente aqui nesse palco! Então, vou cantar uma música de minha autoria e, em breve, meu CD estará pronto”.

O usuário que interpretou o cantor realmente era um músico conhecido no Piauí nos anos 1970, baterista e autor de várias composições; a canção que foi apresentada era uma delas. Em uma conversa, revelou-me que achava que ficou perambulando entre os dois manicômios da cidade depois que sua mãe faleceu e, pouco tempo depois, dois de seus irmãos morreram afogados em um rio; como era um cara da noite, em função de sua profissão e da dor dessas perdas, acreditava que tinha se perdido um pouco na bebida. Ainda me trouxe uma história fantástica, que se entrelaçou com a minha própria história de vida. Relatou-me que, em meados dos anos 1980, ele e mais alguns músicos contratados saíram do Sul do Piauí em direção à cidade do Crato, no Sul do estado vizinho do Ceará, para acompanhar Almir Bezerra, ex-vocalista da banda The Fevers, famosa no cenário nacional desde os anos 1960. Ao citar este músico, minha atenção para aquela passagem se avolumou, pois meu pai foi músico nos anos 1970 e tinha uma banda chamada Os Ovelhas Negras, conhecida na mesma região; as músicas dos Fevers recheavam o repertório dos Ovelhas. No caminho para o Ceará, apertados em uma Kombi, Gleidson e seus companheiros sofreram um acidente; o carro capotou e, por sorte, apenas o tecladista machucou sua mão, o que não impediu do rock rolar:

todos, após uma passagem rápida no hospital no mesmo dia, subiram ao palco para executarem clássicos dos anos 1960 e 1970.

Naquela tarde, sua composição atingiu a todos; a mim, em especial, pois nunca mais esqueci aquela letra, que me levava a cantores românticos dos anos 1970, tais como, Odair José, Wando, José Augusto, entre tantos outros que foram bem interpretados por Lulu Santos: “As canções mais tolas, tendo os seus defeitos, sabem diagnosticar o que vai no peito”, bem como nos afetava em relação ao espaço fundamental do cuidado: o do encontro. Vamos a ela:

Nós todos precisamos de um amor Nós todos precisamos de alguém Quem não tem amor não tem ninguém Vive de um sonho Eu preciso amar você pra ser feliz Possível acreditar no amor que eu sempre quis Pena que aqui neste espaço de escrita não tenha como expressar a melodia da canção, pois ela nos fisga instantaneamente e entramos em múltiplos encontros: com a música, com o autor, com quem compartilhamos a escuta, com os encontros que tivemos e, consequentemente, com nossa própria história. Todo o teatro se envolveu em palmas para marcar o compasso, além de cantar junto.

Talvez, a única questão adversa tenha sido a divulgação do evento. A plateia era composta apenas por trabalhadores e seus familiares, demais usuários e seus parentes. Embora, estivéssemos ocupando uma importante base de apoio no território, a comunidade em geral não participou da exibição; um trabalho maior nesse sentido, quem sabe, não pudesse levar estudantes das áreas de saúde e afins para serem contaminados pela Reforma Psiquiátrica ou levar os próprios moradores da localidade. Mas é importante sinalizar também a presença de trabalhadores de outro turno para vir prestigiar e auxiliar em todo o processo. Apesar desse certo esvaziamento, a atividade teve uma potência política ao contatar e marcar presença existencial junto a trabalhadores de outros setores; neste caso, em especial, profissionais ligados ao âmbito cultural que administram e trabalham naquele teatro público. Nesse sentido, a cidade se abriu e acolheu a diferença da loucura, excluída historicamente desde 1907 em Teresina.

Na semana seguinte, organizamos um encontro na sala de grupo do serviço no qual trabalhadores e usuários envolvidos mais diretamente com o teatro puderam assistir as filmagens que fiz, tanto do ensaio como da apresentação. Levei um projetor multimídia e os

vídeos e os assistimos acompanhados de suco e de pipoca. Tivemos uma manhã leve e de análises de todo o processo teatral. Depois da projeção, os atores comentaram que precisavam criar peças novas e também que seria necessário melhorar suas impostações de vozes porque acharam que algumas falas não ficaram bem audíveis. Para tanto, sugeriram a busca de ajuda com profissionais da área das artes cênicas e também se reunirem para pensarem novas temáticas para futuras peças.

O investimento de desejo e a possibilidade desses usuários viverem novos processos subjetivos enquanto atores nos cenários reais da cidade possibilitam o fortalecimento da dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica, perfazendo o objetivo político maior da Luta Antimanicomial Por Uma Sociedade Sem Manicômios (AMARANTE, 2008). Ao experimentarem novas formas de viver através do Teatro e da Música, os sujeitos podem questionar os anos de produção docilizante manicomial e ensaiar desenhos subjetivos insurgentes e construírem suas emancipações. A equipe foi muito perspicaz ao tramar dispositivos desta natureza e estendê-los à comunidade, sustentando um novo estatuto para a loucura, promovendo laços urbanos e desafiando a sociedade e seus modos de subjetivação tradicionais que ancoram as sociabilidades em geral. Outra potência política foi a possibilidade dos próprios usuários refletirem, debaterem e enunciarem temáticas que os afligem, tais como o preconceito e as restrições no âmbito do trabalho/renda; trazer questões como essas para a arena dos espaços públicos fortalece as esferas da política e do cuidado junto aos sujeitos envolvidos e afetados pela tarefa.