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Quando nos referimos à equipe na qual Catherine Mathelin-Vanier . trabalha como uma equipe sensibilizada pela ética da psicanálise, assumimos tratarem-se de profissionais que admitem a necessidade da circulação de um outro discurso que não o discurso hermético das ciências biológicas. São profissionais que, em muitos casos, já sentiram na própria pele os

efeitos da pulsão de morte no ambiente hospitalar. Médicos, enfermeiros e auxiliares, por melhor que tenham sido suas formações, estão sempre vulneráveis aos excessos e lutos suscitados pelas situações da rotina de reanimação.

Quando essa psicanalista afirma ser necessário reanimar o discurso que anima o bebê prematuro, ela os remete também ao importante trabalho de reanimação psíquica junto à equipe multidisciplinar. Atentar para os humores da equipe e sua relação com a história de vida de cada profissional também é função do psicanalista hospitalar. A fim de que estejam amparados em seu próprio desejo de intervir pela vida do bebê, mas também que estejam cientes aos efeitos mortíferos das pulsões, as quais assumem disfarces diversos nesse ambiente de trabalho, essa psicanalista oferece-lhes sua escuta e sua ética.

Para que possam presenciar a morte e as ambivalências da maternidade, para que possam ouvir ao drama dessas mães, bem como suas frequentes acusações de negligência para com a equipe, esses profissionais também precisam contar com uma escuta analítica. A rotina de uma equipe de reanimação pode tronar-se massacrante e enlouquecedora caso não haja um espaço para um dizer sobre a morte. Sobretudo quando os membros da unidade apresentam a necessidade frequente de simbolizar lutos consecutivos, uma escuta específica é exigida, seja em encontros casuais pelos corredores, seja à beira da incubadora enquanto realizam seu trabalho diário, ou seja, em reuniões para a discussão de casos mobilizadores.

Essa psicanalista propôs em seu serviço, a formação de grupos do tipo Balint7, com a finalidade de incentivar a nomeação e simbolização do inominável da morte:

Quando um médico dispende uma noite para salvar um bebê e compreende que ele ficará com pesadas sequelas, esta é uma forte fonte de sofrimento, suscita diversas questões. Se sou reanimadora do desejo do bebê, estou também atenta à equipe, especialmente, graças aos pequenos grupos do tipo Balint, ocasião na qual os cuidadores podem falar do seu vazio e das suas interrogações do trabalho de todo dia. (VANIER, 2009/2 p. 23/ tradução livre).

7 A modalidade grupal Balint foi criada para atender a uma demanda específica dos médicos generalistas e/ou

médicos de família, nos anos 1950, na Inglaterra. Oferece uma possibilidade a generalistas cujo projeto profissional é curar, médicos que estão impedidos disso, quando “racionalmente” nada deveria obstruí-los. Oferece-lhes uma oportunidade de submeterem seus “casos problemas” a seus pares (que se veem com as mesmas responsabilidades e dificuldades), através do dispositivo do setting grupal, em colaboração com um psicanalista, sensível pela realidade profissional do médico, por seu desejo, por seu projeto. (FIGUEIREDO, 2012).

Outra questão levantada por essa psicanalista refere-se às frequentes falas maníacas e desimplicadas dirigidas aos bebês, supostamente em função de uma tentativa de reparação da angústia de quem lhes fala, evidenciada na reconstrução do caso clínico a seguir.

4.1 Caso Marie: cruzamentos entre a palavra verdadeira, a alienação e a noção de reanimação psíquica

Marie teve seu nome escolhido pela obstetra da unidade. Nasceu a termo, condição diferente das habitualmente acompanhadas por essa psicanalista. Foi da sala de parto direto para o berçário. Sua mãe biológica tinha 19 anos, era de origem árabe e não podia de forma alguma cuidar da bebê Marie. Nasceu em perfeito estado de saúde, porém, em poucos dias havia perdido 12% do seu peso e recusava todo contato com a equipe, “parecia estar se deixando morrer sem que nenhum diagnóstico pudesse explicar as causas dos seus sintomas”. (MATHELIN, 1999).

Ao ser chamada para intervir nesse caso, Catherine Mathelin-Vanier tentou investigar o que teria ocorrido em seus primeiros dias de vida e ouviu da equipe que tratou-se de um caso banal de parto sob anonimato e que todos procederam como recomendado, disseram à criança que seus pais biológicos não podiam cuidar dela, mas que alguém que desejava ter um filho viria buscá-la.

A equipe é orientada a sempre demonstrar o máximo de otimismo, lembrando o bebê de que terá uma bela vida. Essa psicanalista logo percebeu que Marie, “verdadeira bolinha de raiva berrante”, estava apresentando uma espécie de indigestão de palavras, provenientes do discurso romântico e otimista da equipe. Ocorreu-lhe a ideia de substituir o conto de fadas por uma fala verdadeira sobre sua história e seu futuro.

A cada encontro com ela, eu decidia então lhe falar da violência daquela separação, do horror e do sofrimento no qual ela tinha sido bruscamente jogada, daquela mãe que não queria saber dela, da língua que ela ouvia na barriga da mãe e que havia perdido, do ritmo do corpo da mãe que ela não encontraria jamais. (MATHELIN, 1999, p. 64).

Tal intervenção deixou claro à equipe e à própria Marie que a escolha de viver ou morrer continuava em suas mãos, mas que caso decidisse viver, ainda podia contar com o acolhimento, o consolo e os mimos que a equipe aguardava ansiosa em oferecer. Marie foi aos poucos aceitando entrar em contato, se acalmando e retomando sua alimentação. Ao ser

adotada, levou consigo um livro contanto sua passagem pelo serviço, “levou consigo o seu mistério”. (MATHELIN, 1999).

É comum que a equipe não compreenda os mecanismos de ação da palavra verdadeira, como ilustrado neste depoimento: “Nosso médico chefe às vezes brinca comigo comparando a psicanálise à feitiçaria. Como ele poderia não se questionar, já que os efeitos da linguagem escapam a qualquer medida científica quantificavelmente demonstrável!” (MATHELIN, 1999).

Acredito que os bebês possuem uma incrível capacidade de perceber o tom da pulsão emitida pela voz do outro. A ética da psicanálise, por permitir que se fale da violência e do desejo de morte, através do setting grupal proposto por Michel Balint, permite restabelecer nos membros da equipe, o tom desejante e verdadeiro necessário à constituição psíquica do bebê.