6. Discussions
6.5 Are the results sensitive to the choice of frequency?
Na AD a linguagem é analisada não apenas a partir dos mecanismos psíquicos inatos, mas, a partir da relação com o contexto em que a mesma é produzida. Ou seja,
95 analisa-se a relação da linguagem com a sua exterioridade, entendendo-se esta como as condições de produção dos discursos. As condições de produção dos discursos, segundo Orlandi (2006a) são construídas a partir da articulação de dois processos, os quais são entendidos como fundamento da linguagem: o processo parafrástico e o processo polissêmico.
Para a lingüística, a paráfrase é aceita como uma imitação de um dizer, porém, dita através de outras palavras. No âmbito da AD, o processo parafrástico possibilita que algo se mantenha naquilo que é dito com outras palavras, ou seja, são diferentes formulações para o mesmo dizer. Assim, a paráfrase atenua a detecção dos limites das diferentes formações discursivas.
Na AD, o processo polissêmico é o responsável pela possibilidade de sempre produzirem-se uma multiplicidade de sentidos. Assim, ocorrem rupturas de significações. A polissemia, no contexto da lingüística, consiste na multiplicidade de sentidos atribuídos para uma mesma palavra.
Orlandi (2002) alerta que a articulação entre a paráfrase e a polissemia, ocorre também entre o simbólico e o político.
Apoiando-se na convicção de que a posição ocupada pelo protagonista do discurso intervém na produção do discurso, Pêcheux (1983) elabora a noção de formação imaginária. Um discurso não é a mera transmissão de informações, mas um efeito de sentido entre interlocutores.
Para Pêcheux (1997), um mesmo enunciado poderá assumir diferentes sentidos, estando estes relacionados com as formações discursivas, nas quais o enunciado é produzido. O autor assinala:
Chamaremos, então, formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode e deve ser dito /.../ (p. 160). Pela exposição anterior, a formação discursiva constitui-se como o lócus onde se produzem os sentidos verdadeiros de um determinado discurso em contraposição aos sentidos não verdadeiros.
Semelhantemente ao sentido do enunciado, o sentido da palavra não existe em si mesmo, mas, a partir das condições de produção do enunciado. O sentido da palavra muda de acordo com as condições ideológicas de quem as emprega e de quem as interpreta – o sentido da palavra advém da formação discursiva em que a mesma é produzida ou reproduzida (PÊCHEUX, 1997). Logo, em um discurso não há sentido
96 acabado, mas este se encontra sempre em curso. Com isso possibilita que as várias posições do sujeito possam representar diferentes formações discursivas no mesmo texto (ORLANDI, 2006a).
Conforme discutido anteriormente, o discurso não é apenas a transmissão de informação, mas a linguagem posta em funcionamento através de relação de sujeitos e de sentidos. Os sentidos também não são constantes, nem pré-determinados.
... o sentido de uma palavra, de uma expressão de uma proposição, etc., não existe “em si mesmo”, mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas. Poderíamos resumir essa tese dizendo: As palavras, expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem (PÊCHEUX, 1997, p. 160).
Os lugares de onde os interlocutores falam podem representar as posições que são entendidas por Foucault (2006a) como sendo as coerções do discurso. Esse lugar ocupado pelo interlocutor não é um lugar objetivo, mas um lugar representado.
Foucault (2005) estabelece que todo discurso refere-se a um objeto, sendo que a própria formação deste objeto se dá a partir de um conjunto de relações discursivas complexas, ocorridas entre instâncias distintas e exteriores ao próprio objeto. Devido a essa complexidade nas relações discursivas, Foucault assegura que são numerosas e importantes as condições para que apareça um objeto do discurso, para que várias pessoas possam dele dizer coisas diferentes.
Isso significa que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época; não é fácil dizer alguma coisa nova; não basta abrir os olhos, prestar atenção, ou tomar consciência, para que novos objetos logo se iluminem e, na superfície do solo, lancem sua própria claridade (Foucault, 2005, p. 50).
De maneira semelhante à perspectiva acima, não se pode vir a dizer depois que aquilo que não foi dito em um dado lugar e em uma determinada época é aquilo que poderia ter sido dito. Ao se expressar, o sujeito tem a ilusão de controlar a origem do seu discurso, não se apercebendo que o que determina o sentido do seu discurso é a história que se manifesta através da formação discursiva que o mesmo se inscreve. Segundo Pêcheux (1997), a formação discursiva, inscrita em uma dada formação
97 ideológica, associada ao lugar ocupado pelo sujeito, é o que determina o que poderá ser dito, é o lugar da construção do sentido.
Para se articular a ideologia com o discurso, faz-se necessário considerar-se as formações imaginárias, as quais representam um conjunto de atitudes, bem como representações relacionadas com posições de classe conflituosas.
Para reproduzir as relações de produção, uma das estratégias de funcionamento da ideologia dominante é valer-se do assujeitamento do sujeito. O assujeitamento consiste em fazer com que cada indivíduo seja conduzido a ocupar seu lugar em grupos ou classes dominantes. O sujeito assujeitado acredita que é senhor dos seus atos, não possuindo assim consciência da sua dominação.
Em Maxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin (2006) rompe com a idéia de ideologia como subjetiva, ideologia como interiorização da consciência humana e que interpreta o sujeito. A ideologia é deslocada para o campo da dialética, ideologia como um processo em construção. Com isso amplia o conceito para além dos parâmetros marxistas, no qual a ideologia encontra-se pautada na idéia de “falsa consciência”.
Os sentidos das palavras, embora pareçam evidentes, são ilusórios. Eles nunca são dados ou estão acabados, mas estão sempre em movimento. Conforme comenta Orlandi (2002), na concepção pecheuxtiana as palavras adquirem sentidos a partir da posição de quem as utiliza, como também das posições ideológicas que se inscrevem – a relação da língua com a exterioridade e não com os mecanismos psíquicos inatos. Assim, a simultaneidade das posições ocupadas pelo sujeito (profissão, raça, sexo, etc) determina a multiplicidade das formações discursivas as quais o mesmo pertence.
As diferentes formações discursivas24 equivalem a representações imaginárias
dos lugares sociais ocupados pelo sujeito. São projeções de formações imaginárias, constituídas a partir das relações sociais, as quais refletem a imagem que se faz de um professor, de um médico, de uma mãe, etc.
Segundo Pêcheux, em um mesmo texto pode-se encontrar várias formações discursivas e pode-se estabelecer uma relação de dominância de uma das formações discursivas sobre as outras. Assim, a dispersão do sujeito produz uma heterogeneidade que é constitutiva do próprio discurso. No entanto, essa heterogeneidade é trabalhada
24
Em Foucault, o conceito de formação discursiva encontra-se desenvolvido na Arqueologia do Saber, obra inicialmente publicada em 1969. Em outros trabalhos, como A História da Loucura e O Nasciment o da Clínica e, publicados em 1961 e 1963, respectivament e, Focault já havia analisado a constituição do saber da loucura e da medicina.
98 pelo locutor, fazendo com que as diferentes vozes do texto polifônico sejam harmonizadas e as vozes discordantes sejam apagadas.
A relação do que está se dizendo com o dito possibilita ao analista compreender a relação dos sujeitos com a ideologia.