Para identificarmos professores que atendessem as especificações para participarem da pesquisa, o primeiro procedimento adotado foi identificarmos as escolas que oferecessem a educação básica em nível médio, localizadas nas cidades de uma região metropolitana do nordeste brasileiro. Algumas destas escolas foram identificadas pelo próprio nome, outras, através de professores e mesmo de moradores dos bairros adjacentes.
Após a identificação das escolas, estivemos pessoalmente nas mesmas, no sentido de obtermos informação sobre a formação dos professores de física atuantes, como também seus respectivos horários de trabalho, no sentido de convidá-los a colaborarem com a nossa pesquisa.
O primeiro contato deu-se com membros da administração da escola e após apresentarmos os nossos propósitos, obtínhamos as informações requeridas sobre a formação dos professores, como também dos horários em que se encontrariam nas
66 respectivas instituições. Acrescentamos que, em todas as escolas visitadas, em todos os momentos fomos bem recepcionados.
No contato inicial com os professores, expusemos que a nossa pesquisa consistia em analisarmos pontos de vistas de professores de física acerca de aspectos do contexto escolar, notadamente sobre as aulas de física. Para isso, necessitávamos entrevistá-los. Nessa fase, a maioria dos professores demonstrou um certo receio em participar da entrevista e alguns questionaram qual a importância que a opinião dos mesmos poderia ter no contexto de uma pesquisa. Assim, asseguramos a cada um deles que o teor das entrevistas seria confidencial, como também as respectivas participações. Neste momento, esclarecemos que seriam identificados de forma genérica pelo codinome professor P, seguido de um índice que identificava a ordem da entrevista realizada.
Após terem assegurado que o teor das entrevistas seria tratado de forma confidencial, como também que não seriam nominalmente identificados como participantes, constatamos que a resistência inicial à participação pelos professores foi suplantada. Inclusive, alguns deles, após participarem das entrevistas, indicaram outras escolas que atuavam professores de Física contemplando as especificações requeridas.
Após a aceitação de cada professor em participar, acordamos um segundo encontro para a realização da entrevista, as quais ocorreram na própria escola onde atuavam. Os professores definiram o horário e o dia para realização da entrevista, de acordo com as respectivas disponibilidades.
Embora o tempo de formação máxima requerida do professor fosse um critério de escolha, sempre que encontrávamos um professor com mais de dez anos de atuação, convidávamos os mesmos a colaborarem com a nossa pesquisa. A intenção era que, em um momento posterior, analisaríamos os discursos de todos esses professores, embora eles não fossem ser incluídos na pesquisa atual.
Dos cinco professores com formação de mais de dez anos que fizemos contato, nenhum deles se dispôs a participar. Embora fossem bastante receptivos, argumentaram com várias impossibilidades, como ausência de tempo, compromissos imediatos, etc. Inclusive um desses professores chegou a adiar um encontro por seis vezes. No entanto, a nossa interpretação acerca do teor dos discursos presentes nas argumentações, leva- nos a mencionar que se tratava de um receio em expor as suas convicções e atuações.
67 Dez professores de física participaram das entrevistas, as quais foram interpretadas e analisadas em consonância com as questões de pesquisa e com os referenciais teóricos mobilizados. A opção pelo quantitativo de dez professores, não se deu a priori, mas, durante o percurso da construção. Para tal opção, nos apoiamos em Gaskel (2003) para quem o aumento da quantidade de entrevistas não traz uma compreensão mais detalhada para as perguntas de pesquisa, então, um número menor já é plenamente satisfatório.
Para identificação dos professores entrevistados, foram nomeados de P1, P2, P3, ... P10, respectivamente, de acordo com a ordem da realização da entrevista.
Entre a primeira e a décima entrevista, transcorreu um intervalo de tempo de aproximadamente seis meses, haja vista que a primeira entrevista foi realizada em maio de 2007 e a última, em novembro do corrente ano. Todas as entrevistas foram realizadas nas escolas em que os respectivos professores trabalhavam, em local indicado pelos mesmos.
Os professores foram individualmente entrevistados e, utilizamos a técnica de entrevista semipadronizada – pertencente à modalidade entrevista semi-estruturada11. Na entrevista semipadronizada, inicialmente o entrevistado deverá ser submetido a perguntas abertas. Em um momento posterior, o entrevistado poderá ser submetido a perguntas de confrontação, as quais trazem pontos de vista alternativos aqueles apresentados inicialmente pelo entrevistado (FLICK, 2004).
Para proceder com a entrevista semipadronizada, o entrevistador poderá dispor de tópicos guia. O tópico guia é um conjunto de lembretes indicando que há uma agenda a ser seguida pelo entrevistador (GIL, 2003). No contexto da presente pesquisa, elaboramos o tópico guia visando focar as questões de pesquisa, anteriormente delineadas.
No entendimento de Flick (2004) uma das vantagens das entrevistas semipadronizadas é que essa modalidade de entrevista possibilita que o entrevistado apresente conhecimentos em forma de representações, as quais poderão ser reconstruídas através da interação com o entrevistador. O autor também alerta para limitações desse tipo de entrevista, como por exemplo, a interpretação dos resultados.
11 Além da entrevista semipadronizada, outras modalidades de entrevistas são semiestruturadas, a saber: a entrevista focalizada; a entrevista centrada no problema; a entrevista a experts e a entrevista etnográfica. (FLICK, 2004). Essas modalidades de entrevista diferenciam-se pelos respectivos graus de estruturação.
68 Durante a realização da entrevista, procuramos não interferir na fala dos entrevistados, no sentido de deixá-los falarem livremente sobre as questões. Intervimos apenas para que os entrevistados fossem encorajados a exemplificarem algumas das suas menções.
Bogdan e Biklen (1994) opinam que permitir o entrevistado falar livremente é condição imprescindível na pesquisa qualitativa, porque o papel do entrevistador não é modificar pontos de vista do entrevistado, mas entendê-los, bem como aclarar as razões que levam os sujeitos a assumi-los. Isso requer paciência do entrevistador. Em concordância com essa perspectiva, os autores alertam que o entrevistador deverá evitar comentários sobre as respostas dos entrevistados, no sentido de evitar que os mesmos sintam-se desconfortáveis.
As entrevistas foram gravadas em áudio-vídeo, com a prévia autorização dos respectivos professores. Apesar de termos optado por esse instrumento de gravação das entrevistas, não era propósito interpretarmos os gestos sobrepostos às falas dos