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A tentativa de pertencimento à orientação discursiva francesa12 nos leva a

iniciar a presente abordagem através de uma explanação geral sobre a constituição deste “campo disciplinar”, o qual mobiliza diferentes significações. Assumimos riscos de algumas simplificações, porém, estaremos atentos ao não apagamento da dimensão histórica, bem como de algumas disputas teóricas, heranças e filiações ocorridas na constituição conceitual deste campo. Assim, esperamos discorrer sobre alguns conceitos da constituição conceitual da orientação discursiva francesa sem, no entanto, colocar sob uma etiqueta consensualista projetos teóricos distintos, os quais perpassaram por aproximações e distanciamentos entre si. Os pormenores desta articulação serão abordados ao longo das próximas secções.

O propósito seminal da Analise de Discurso francesa constituiu-se a partir da tentativa de articular a história e uma teoria do discurso. Porém, os diálogos teóricos empreendidos por Pêcheux em relação às teorizações de Bakhtin e Foucault, principalmente, deram diferentes respostas à articulação entre teorias lingüísticas, teorias do sujeito e teorias da história e da sociedade (GREGOLIN, 2006).

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Outra tradição de análise do discurso é a tradição anglo-americana, originada da Inglaterra, porém amplamente desenvolvida nos Estados Unidos da América do Norte, a qual combina a tradição da estrut ura e ao funcionamento int erno dos textos, como tentat iva de cont ext ualização. Incorporou elementos da sociologia, da psicologia do conscient e e da et nologia.

76 Pela confrontação e articulação propiciada entre posturas teóricas distintas, Michel Pêcheux (1938-1983) é citado como um dos teóricos mais representativos na articulação dos fundamentos da Análise de Discurso da escola francesa13 (AD). Os

pressupostos fundantes desta tendência foram articulados na década de sessenta do século XX (CARDOSO, 2003).

Apesar da AD constituir-se na década de sessenta, vale salientar que, ao longo da segunda década do século XX, Mikhail Bakhtin (1895-1975) já havia empreendido reflexões sobre a discursividade, com o intento de desenvolver uma filosofia da linguagem na perspectiva marxista. Nesta vertente de entendimento, Bakhtin propunha um rompimento com a concepção inatista e individualista da linguagem, na medida em que enfatizava o papel da interação social na produção dos enunciados, bem como da língua. Das reflexões bakhtinianas sobre a discursividade resultou a sua obra Marxismo

e Filosofia da Linguagem, publicada em 1929 (BAKHTIN, 2006).

Para Bakhtin a palavra é signo ideológico, o qual, por natureza, é dialético, vivo, mutável e indissociado da situação social, a medida que incorpora sua materialidade. Inclusive Bakhtin classifica como erro grosseiro a separação da língua do conteúdo ideológico empreendida pelo objetivismo abstrato. Assim, o sentido da palavra reproduz e refrata diferentes formas de significar a realidade, a medida que veicula a ideologia. Dando a palavra ao próprio Bakhtin.

Cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento da realidade. Todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer (BAKHTIN, 2006, p. 33).

Pelas realizações de Bakhtin em relação aos estudos lingüísticos, Brandão (2002) considera que ele rompeu com a “camisa de força” da tradição de Saussure, para a qual apenas a língua era objeto lingüístico.

A partir da perspectiva da Lingüística da Enunciação, a qual teve como precursores Roman Jacobson e Emílie Benveniste é que no Ocidente se intensificaram os estudos discursivos14. No contexto da Lingüística da Enunciação, o funcionamento da

linguagem passou a ser entendido como uma atividade entre os protagonistas do

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A obra “ Análise Automática do Discurso” , publicada por Pêcheux em 1969, é considerada o marco inicial desta tendência (PINTO, 1999).

77 discurso - o locutor em sua relação com o destinatário - ao invés de um instrumento externo de comunicação e de transmissão de informações. Assim, o funcionamento da língua é posteriormente transformado em discurso. Porém, o discurso é ainda um produto subjetivo e individual, sendo tal perspectiva, muito próxima do conceito de fala adotado por Saussure. Posteriormente, esta perspectiva individual e subjetiva atribuída ao discurso, foi contraposta pela AD. Até então, a lingüística aprisionava-se à imobilidade da estrutura, a qual bloqueava não só os processos de significação, mas também o de mudança lingüística (CARDOSO, 2003).

A estruturação inicial da AD instaura-se na confluência teórica de três áreas do conhecimento: a psicanálise, o materialismo histórico e a lingüística. As influências da psicanálise na AD ocorreram a partir de uma releitura freudiana empreendida por Jacques Lacan, principalmente as discussões em relação à constituição do sujeito pelo outro e pelo inconsciente.

Do materialismo histórico, Pêcheux incorpora à AD as re-elaborações empreendidas por Louis Althusser15 no que tange à noção de ideologia, a qual havia

sido concebida por Marx como falsa consciência e ainda, o conceito de luta de classes. Em uma obra intitulada Ideologia e Aparelho Ideológico do Estado, Althusser (1997) trabalha a concepção de que em uma sociedade de classes, a classe dominante gera mecanismos que lhe assegura a reprodução e a perpetuação das condições materiais, ideológicas e políticas da exploração. Assim, a classe dominante efetiva sua dominação principalmente através de dois mecanismos ideológicos, a saber:

a) os Aparelhos Repressivos de Estado (ARE), constituídos principalmente pelo exército, a polícia, a justiça e órgãos similares;

b) pelos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), constituídos principalmente pela Igreja, pelo Estado, pela Escola, etc.

Acerca da utilização da ideologia pela classe dominante no intuito de preservar e perpetuar os seus interesses, Althusser (1997) assinala: A ideologia exprime sempre,

seja qual for a sua forma (religiosa, jurídica, política) posições de classe (p. 23).

Da lingüística, Pêcheux incorpora à AD a teoria dos mecanismos sintáticos, bem como os processos de enunciação e as formações discursivas assumidamente trazidas de Michael Foucault (1926-1984). A noção de formação discursiva foi

78 trabalhada por Foucault, principalmente na obra A Arqueologia do Saber, originalmente publicada em 1969.

Veremos posteriormente que a apropriação operada por Pêcheux acerca da concepção de ideologia, inicialmente assentada em uma matriz marxista, e da formação discursiva foucaultiana, não se deu de forma harmoniosa, como também ocorreram em momentos distintos.

Vale salientar, porém, que a AD não ficou circunscrita às fronteiras demarcadas pelas regiões do conhecimento na qual se instaura inicialmente, mas, vai além. Acerca da extrapolação da AD em relação a essas áreas do conhecimento, Orlandi (2002) assinala que a AD “interroga a Lingüística pela historicidade que ela deixa de

lado, questiona o Materialismo perguntando pelo símbolo e se demarca da Psicanálise pelo modo como considerando a historicidade, trabalha a ideologia com materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvido por ele” (p. 20).

Do exposto acima, é legítimo afirmar-se que a AD trabalha nas regiões fronteiriças de distintas áreas do conhecimento, principalmente explorando a incompletude das mesmas, constituindo-se, então, em um novo campo autônomo.