• No results found

O homem neolítico percorreu um longo caminho, no tempo e no espaço, desde os primeiros momentos onde se identifica uma tendência para a sedentarização, a prática agrícola e a produção de cerâmica, até ao advento da escrita. Os dados referentes ao seu pensamento religioso encontram-se, inevitavelmente, ligados às evoluções tecnológicas que foram sendo efectivadas, pelo que a sua análise deve ter em conta as condicionantes da época da sua produção. Recusando uma avaliação em bloco, pelos limites que a mesma contém, impõe-se uma perspectiva analítica que percorra os vários milénios deste tempo prévio à invenção da escrita, tendo em vista

21

Patricia Rice, «Prehistoric Venuses: symbols of motherhood or womanhood?», Journal of

Anthropological Archaeology, vol. 37, n.º 4, 1981, pp. 402-14. A proposta de Rice acaba por seguir as

pisadas de Desmond Collins e John Onians, que no final da década de 1970, analisam a Vénus de Willendorf como uma representação da feminilidade no acto sexual: «Those areas of her body which are shown in all their rounded perfection are precisely those which would be most important in the preliminary phases of lovemaking, that is, the belly, thighs, breasts and shoulders, while the lower legs, lower arms, feet and hands are withered to nothing». D. Collins, J. Onians, «The origins of art», Art

History, vol. 1, n.º 1, March-1978, pp. 12-13.

22 J.B. Townsend, «The Goddess: fact, fallacy and revitalization movement», in LW. Hurtado (ed.),

Goddesses in Religions and Modern Debate, Atlanta, Scholars Press, 1990, p. 191.

23

Note-se que as conclusões de Mellaart, para além de terem influenciado investigadores que se dedicaram a áreas mais ocidentais, como Marija Gimbutas, marcaram, durante muito tempo, o espírito científico para o Próximo e Médio Oriente Antigo. Por outro lado, em busca de paralelos, Çatal Höyük é evocado amiúde quando se analisa o período neolítico na costa oriental mediterrânica e na região mesopotâmica, como veremos adiante.

105

identificar o contínuo e o disruptivo. Assim, as próximas páginas incidem sobre os dados onde podemos estabelecer uma ligação ao imaginário divino, em cada período do Neolítico.

Começando pelos alvores das comunidades neolíticas, onde a cerâmica ainda não se encontrava desenvolvida, devemos focar a nossa atenção no período entre 9500-7000 a.C., que Danielle Stordeur divide em quatro fases24, analisando-as em conjuntos de dois: a PPNA com a Early PPNB, e a Middle e Late PPNB. Quanto ao primeiro par (c. 9500-8200 a.C.), a autora sublinha como a maioria das representações se prende com o mundo animal, nomeadamente felinos (pantera), aves de rapina (abutre), bovídeos (touro), e ainda alguns répteis (cobra e o escorpião) [Fig. 4 ]. Stordeur é cautelosa acerca das conclusões simbólicas destas representações, alvitrando algumas hipóteses: a pantera sugere dinamismo e agressividade; os abutres e as cobras uma possível ligação com a dualidade vida/morte25.

No que toca ao touro, Jacques Cauvin observa aqui a génese do motivo «Woman and the Bull»26, no fundo, a Grande-Deusa e o seu filho/consorte identificada por Mellaart, muito frequente para os arqueossítios da Anatólia, pós 7000 a.C., assumindo a simbologia masculina dos chifres. Stordeur prefere indicar a possibilidade desta ligação, que, no entanto, deve ser melhor enquadrada, já que carneiros e gazelas também fazem parte do repertório bovídeo representado27.

24 Seguimos aqui a designação utilizada pela comunidade arqueológica, que distingue duas fases (A e B)

prévias ao desenvolvimento da cerâmica: Pre-Pottery Neolithic (PPNA e PPNB, esta última subdivindindo-se em três momentos: Early, Middle, Late). Cf. Danielle Stordeur, «Domestication of plants and animals, domestication of Symbols?», in Diane Bolger e Louise C. Maguire (eds.), op. cit., p. 123.

25 Stordeur evoca um exemplo de Göbekli Tepe (Turquia), onde uma pantera macho é representada em

postura erecta, mostrando as suas presas. Quanto aos abutres, duas figuras humanas sem cabeça aparecem ladeadas por estas aves em Jerf el Ahmar (Médio Eufrates, Síria) e mais tarde, Çatal Höyük revela um paralelo temático, onde estes animais são representados em voo, segurando o que aparenta ser corpos humanos decapitados. As cobras aparecem amiúde em Nevali Çori (Médio Eufrates, Turquia) e, de uma forma mais subtil, em Göbekli Tepe, em contextos que evocam as suas características ctónicas, de perigo e regeneração [Fig 4]. Idem, pp. 124-125.

26 Optámos por manter a designação inglesa de alguns motivos e peças, por ser a nomenclatura pela

qual os mesmos são reconhecidos em contexto museológico, assim como pela História de Arte e Arqueologia. Para além do «Woman and the Bull», temos o motivo decorativo «dancing ladies» e as peças «Uruk Vase» e «The Queen of the Night relief», por exemplo.

27 Cf. Jacques Cauvin, op. cit., pp. 28-29. Danielle Stordeur, «Domestication of plants and animals,

106

As figuras humanas são ainda escassas no norte do Levante para o PPNA, excepção feita a Mureybet (Médio Eufrates, Síria), sendo que Stordeur sublinha que é durante o Early PPNB que o antropomorfismo se faz notar com maior veemência [Fig. 5]. No seio das representações humanas desta época é possível identificar o motivo da decapitação como o predominante, embora Stordeur indique uma gravura em Göbekli Tepe, onde uma mulher foi desenhada com as pernas apartadas. Quanto à região sul, a autora denuncia um domínio claro das representações femininas. Para esta autora, em termos simbólicos, o sul e o norte detêm repertórios diferentes, sendo que o último aparenta um sistema mais coeso, desenvolvido em torno dos animais selvagens. Quanto à combinação entre animais e figuras humanas, evoca o vínculo dos abutres com os corpos decapitados e o casal «Woman and the Bull», sugerido por Cauvin. No entanto, afirma que é ainda necessário percorrer um longo caminho analítico para que seja possível estabelecer que esta ligação é viável e que forma um verdadeiro sistema de símbolos28.

ainda referência às representações do escorpião em Jerf el Ahmar e em Göbekli Tepe, onde as suas antenas surgem como evocativas dos chifres [Fig. 4].

Note-se que na prosa de Cauvin, embora o autor critique interpretações mais tradicionais no seio da Arqueologia, acaba por se pressentir o seu entusiamo relativamente à teoria da singularidade do Divino Feminino no Neolítico, fazendo vários apontamentos que indicam alguma aceitação da tese difusionista. Por outro lado, como Gary Rollefson nota, a segunda edição falha em incluir novos achados e estudos que derivam dos mesmos, acabando por apresentar conclusões datadas. Como tal, o recurso às interpretações deste autor será feito com cautela, sendo que o ponto forte do seu trabalho é a síntese em torno de diferentes espólios para o período e regiões em questão. Cf. Gary Rollefson, «Review: The Birth of the Gods and the Origins of Agriculture by Jacques Cauvin», BASOR, n.º 326, 2002, pp. 83-87.

28

Cf. Danielle Stordeur, «Domestication of plants and animals, domestication of Symbols?», in Diane Bolger e Louise C. Maguire (eds.), op. cit., p. 126.

107 Figura 4: Representações de fauna no repertório de PPNA e Early PPNB.

(1) habitação com depósito de bucrania, (2) placas com bucrania gravada - Jerf El Ahmar, Síria; (3) pilar esculpido com touro, raposa e garça - Göbekli Tepe, Turquia; (4) placas com panteras gravadas – Tell ‘Abr, Síria; (5) pantera em pose agressiva - Göbekli Tepe; (6) pedra sulcada com raposa, cobras e abutre, (7-8) figura antropomórfica decapitada e ave de rapina, provenientes das paredes de um edifício comunal, (9) esqueleto decapitado – Jerf el Ahmar; (10) desenho de uma pintura com abutres e figuras antropomórficas decapitadas - Çatal Höyük; (11) cobra esculpida na parte de trás de uma cabeça humana – Nevali Çori, Turquia; (12) placa com cobras e pantera gravadas, (13) pedra com escorpião gravado - Jerf el Ahmar29.

29 Cf. Danielle Stordeur, «Domestication of plants and animals, domestication of Symbols?», in Diane

108

Figura 5: Figurinhas femininas em barro. Mureybet, Síria, final X milénio a.C.30

Para as fases Middle e Late PPNB (c. 8200-7000 a.C.), Stordeur nota diferenças vincadas no imaginário animal, onde os bovídeos assumem relevo por todo o território, enquanto os animais selvagens são representados de forma estereotipada e com dimensões reduzidas. A excepção é Çatal Höyük, onde a associação dos abutres com a morte torna-se explícita, e os felinos continuam a ser representados em grande escala. A relação com estes animais parece, no entanto, conhecer um momento diferente, com a diminuição do tom agressivo, já que as panteras são representadas como dominadas pelas figuras humanas. A autora faz a ponte para o processo em curso da domesticação dos animais, referindo que as representações dos animais selvagens, alvo das caçadas, aparentam uma maior familiaridade, ou seja, a sua captura seria mais comum. Stordeur acentua a continuidade dos depósitos de chifres, que revelam prestígio e, acrescentamos, um forte interesse por símbolos masculinos. Na mesma linha, David Wengrow sublinha como a temática do masculino está bem patente em Göbekli Tepe, onde leões e javalis são representados com os seus órgãos sexuais vincados, em cenas que transpiram violência. O suporte para esta iconografia,

109

ao invés do tradicional barro, é a pedra, sendo as cenas gravadas na superfície de grandes monólitos31.

As figuras humanas surgem agora em maior quantidade, sendo que a maioria aparenta ser feminina. Neste grupo encontramos três tipos de figuras femininas: a) estatuetas que evocam os cânones anteriores; b) figuras simples; c) estátuas e máscaras que indicam características específicas da feminilidade, através de pinturas no corpo e da representação do cabelo32. Para Stordeur, este longo período demonstra um diálogo entre a continuidade simbólica (animais) e a ruptura socioeconómica (domesticação e desenvolvimento agrícola), sendo difícil avançar para além da descrição dos dados.

É interessante notar que, para este período mais recuado do Neolítico, a simbologia move-se em torno dos animais e que, embora pese o elevado número de estatuetas antropomórficas femininas, dispersas por uma vasta área territorial, dá-se, de igual forma, relevância ao masculino, tanto através das representações do touro e outros bovídeos, como através dos depósitos de chifres e representações de bucrania. Cauvin, embora insista na ligação com o feminino, não deixa de notar como o touro é um tópico quase obsessivo na Anatólia33, o que sugere, a nosso ver, uma relativa autonomia. O estado actual da investigação não nos permite descortinar muito mais acerca do Divino Feminino para esta época, exceptuando a identificação de indícios que apontam para um crescente interesse na representação antropomórfica feminina, mas sempre a par da insistente simbologia masculina.

31 Cf. David Wengrow, «Interpretating animal art in prehistoric Near East», in Timothy Potts et al. (eds.),

op. cit., p. 140.

32 O conjunto de artefactos provenientes de Jericho (Palestina) e ‘Ain Ghazal (Jordânia) apresentam esta

variada tipologia. Cf. Danielle Stordeur, «Domestication of plants and animals, domestication of Symbols?», in Diane Bolger e Louise C. Maguire (eds.), op. cit.p. 126-128.

33«From the simple texture of the first bucrania found at Mureybet, still quite ‘natural’ in their style,

they have become works of art in which the head is modelled in clay and attached to a Wall; but they are always real horn-cores that finish off the objects. Equally, in the sanctuaries, horn-cores project from multiple pillars and benches, while on the wall murals themselves an enormous silhouette of a bull frequently occupies the totality of a wall, modeled in relief and incised or painted». Jacques Cauvin, op.

110

O VII milénio a.C. marca a entrada num período diferenciado, pois diferentes culturas materiais passam a apresentar um repertório rico em cerâmica. No que respeita aos traços estilísticos, Cauvin indica uma novidade para as figuras humanas, identificadas como femininas, a partir dos achados de Ramad (Síria), que consiste na representação do pescoço e crânio alongado. Os olhos também conhecem uma transformação, sendo que o motivo conhecido como «snake eyes» surge vincado pela primeira vez [Fig. 6]. Para este autor, a identificação deste traço, ao longo do Médio Oriente, demonstra a insistência no olhar, que para Cauvin se assume como uma provável alusão a um dos aspectos da Grande-Deusa. Temos reservas quanto a esta conclusão, já que o próprio autor indica que as técnicas são diferentes, de região para região, além de que a insistência no motivo parece estar concentrada em certos períodos específicos, tornando-se esporádica quando analisada em longa duração. Por outro lado, relembramos o problema de assumir um período como um bloco, não tendo em conta o seu contexto específico, tentando encaixar o que se encontra na teoria pré-delineada34.

34 Cauvin, depois de admitir as possíveis diferenças entre contextos, insiste: «the importante point is not

the technique but the theme that it expresses the insistence on the ‘gaze’, a probable allusion to the fascinating aspect of the Goddess». Jacques Cauvin, op. cit., pp. 147-149.

111 Figura 6: Cabeças de figurinhas femininas em barro. Ramad, Síria, VII milénio a.C.35.

Concentrando-se nos níveis neolíticos de Biblos, Cauvin refere que as figuras antropomórficas detêm destaque, assim como o motivo do touro, existindo uma continuidade temática com os períodos anteriores, mas marcada pelo desenvolvimento técnico da produção cerâmica. Nos espólios de Bouqra (Eufrates, Síria) e Umm Dabaghiyah (Iraque), o autor observa o mesmo interesse pelas figuras antropomórficas e pelos bovídeos, destacando, no entanto, algumas representações marcadamente masculinas, cujos braços estão erguidos [Fig. 7] - motivo que, para a frente, se tornará comum e que levanta questões sobre a identidade do representado: estaríamos perante deuses, sacerdotes ou cultuantes36?

35 Idem, p. 149.

36 Estas representações masculinas estão atestadas completas para El Kowm (Síria) e incompletas para

112

Figura 7: Representação esquemática masculina, patente num vaso de gesso. El Kwom, Síria, VII milénio a.C.37.

Quanto ao território da Anatólia, Çatal Höyük apresenta-se como o expoente neolítico dos vários arqueossítios turcos para o período38. Ian Hodder, responsável pela segunda vaga de expedições neste sítio arqueológico, na década de 1990, revisitou o espólio encontrado por Mellaart, estudando-o à luz das novas descobertas e das propostas pós-processuais. Para Hodder e sua equipa, tornou-se clara a impossibilidade de distinguir que edifícios seriam cúlticos, problema que obriga a uma nova análise dos artefactos cerâmicos e iconográficos ali descobertos39. Lynn Meskell, concentrando-se nas figurinhas registadas por Mellaart e reflectindo sobre o espaço onde foram encontradas, chega à mesma conclusão. A maioria provém de contextos extra-habitacionais, o que impede a correlação directa dos depósitos das figurinhas com altares, que Mellaart postulou. Meskell prefere equacionar uma simbologia ligada

37 Idem, p. 186. 38

A maioria destes assentamentos foi fundada nos finais do milénio anterior, conhecendo ao longo do VII milénio a.C. um desenvolvimento vincado, a todos os níveis.

39 Sobre as conclusões provocadas por este segundo momento de expedições arqueológicas, veja-se os

diferentes contributos em Ian Hodder (ed.), On the Surface. Çatal Höyük 1993-5, Cambridge, McDonald Institute, 1997.

113

aos antepassados e à continuidade familiar/comunal, pois os artefactos encontrados intramuros referem-se a espaços incendiados e abandonados, mas mantidos em termos rituais. A questão da importância em compreender o contexto original é, de novo, sublinhada, assim como as diferenças entre os dados dos vários arqueossítios da Anatólia40.

Meskell acentua, de igual modo, que das 254 figurinhas estudadas por Mellaart, 120 representam animais. Para esta autora, a insistência na fauna indica a preponderância da caça para aquela sociedade, sendo que o motivo do touro pode ser entendido como representativo de prestígio, assumindo-se como troféu [Fig. 8 ]. Por outro lado, as figuras antropomórficas estão bastante danificadas, sendo que um dos motivos que encontra reflexo nas pinturas murais e nos restos humanos encontrados nas necrópoles é a decapitação. Não sendo novo, este traço apresenta pistas para a visão da morte e para os ritos funerários, embora não se possa tirar conclusões precisas no que toca à concepção em torno do post-mortem41.

Por último, consideramos interessante a análise que a autora apresenta acerca da estatueta mais emblemática deste arqueossítio, evocada ad nauseum pelos defensores da teoria da Grande-Deusa, onde uma figura feminina se encontra sentada, ladeada por felinos [Fig. 9]. As voluptuosas dimensões das suas formas conduziram uma geração de autores a observarem aqui a representação da Grande-Deusa da fertilidade, que domina os animais42. Para Meskell, a identificação não é tão linear, pois as protuberâncias assumidas como seios são bastante diferentes da representação clássica dos mesmos, noutros meios visuais, alvitrando a hipótese de serem antes cabeças de pequenos animais, e assim, representar uma figura híbrida. No fundo, a autora questiona as rápidas conclusões em termos da fertilidade que atrás referimos43.

40Lynn Meskell, «Goddesses, Gimbutas and ‘New age’ archaeology», Antiquity, vol. 69, n.º 262, 1995, p.

76.

41 Cf. Lynn Meskell, «Twin Peaks», in Lucy Goodison, Christine Morris (eds.), op. cit., pp. 56-59.

42«(…) there is the celebrated statuette of Çatalhöyük , the Goddess, obese, giving birth, seated on

panthers». Jacques Cauvin, op. cit., p. 29.

114

Figura 8: Fresco com touro e homens armados. Çatal Höyük, Turquia, VII milénio a.C.44.

Figura 9: Reconstrução da estatueta de figura feminina ladeada por felinos. Çatal Höyük, Turquia, VII milénio a.C.45.

44

Cf. Jacques Cauvin, op. cit, p. 31.

115

Tendo em conta os dados aqui resumidos podemos concluir que, ao longo do VII milénio a.C., os motivos feminino e masculino viram a sua importância acentuada no imaginário neolítico, o primeiro através de figuras antropomórficas femininas que conhecem uma maior definição em termos estilísticos e de associação com os felinos; o segundo através da insistência na representação da fauna (da qual se destaca, de novo, o touro). No entanto, é ainda prematura a correlação hierárquica entre «Woman and the Bull», como reflexo da imagem da Deusa e do seu filho/consorte. Parece-nos mais prudente falar de uma imagética divina onde os géneros detêm o seu lugar46.

Para os finais do Neolítico (VI e V milénios a.C.), o atestado desenvolvimento da cerâmica leva a discussões em torno das periodizações tradicionais nas culturas de Samarra, Halaf e ‘Ubaid, entre outras47. Stuart Campbell defende que a cerâmica

decorada deve ser encarada como uma narrativa de pleno direito, cujo entendimento pode permitir uma certa compreensão do sistema simbólico da época, assim como especificar as divisões cronológicas. Campbell contraria, assim, a posição de Schmandt- Besserat, que considera a decoração da época como um artifício que serve o propósito de preencher os espaços de acordo com a estética dominante, e não como um sistema narrativo simbólico pleno48.

Na década de 1960, Joan Oates liderou várias campanhas arqueológicas em Tell Es-Sawwan (Tigre, Iraque), onde foram encontradas varias figurinhas antropomórficas em barro e pedra, datadas da primeira metade do VI milénio a.C. As conclusões desta autora encontram-se ultrapassadas pelos novos dados que expedições posteriores trouxeram à luz do dia, mas o seu estudo continua actual, no sentido de ter resumido as características do espólio, que permitem verificar um desenvolvimento tecnológico e decorativo. Não só as técnicas são representativas de uma mudança, como a maioria das figurinhas apresenta uma maior definição: detêm incisões nos pés, que vincam os

46 É interessante notar que Mellaart nunca equacionou a hipótese de uma divindade masculina forte, a

partir destas representações. Pelo contrário, Cauvin reflecte em torno da «religião do touro», cujas origens encontra na cultura Khiamian do Médio Eufrates (primeira metade do X milénio a.C.) e que, segundo o autor, se terá difundido no tempo e no espaço. Cf. Jacques Cauvin, op. cit., pp. 123-125.

47 Cf. Gabriela Castro Gessner, «Shared painting: the practice of decorating Late Neolithic pottery in

Northern Mesopotamia», in Sharon R. Steadman, Jennifer C. Ross (eds.), op. cit., p. 104.

48 Cf. Stuart Campbell, «Understanding symbols: putting meaning into the painted pottery of Prehistoric

116

dedos; apresentam nariz, sobrancelhas, braceletes e colares. Os olhos apresentam uma forma amendoada («coffee-bean»), com a pupila desenhada a preto. Algumas estão numa postura vertical, outras sentadas, sendo interessante que estas últimas apresentam, invariavelmente, as mãos a segurar os seios. Mais tarde, a postura dos braços cruzados no peito irá assumir-se como a representação canónica de oração, pelo que a identificação de uma paralelo estilístico, neste tempo recuado, assume-se, a nosso ver, como indicativa da possibilidade destas figurinhas representarem