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A gente fala, e fala [...] eles melhoram um pouquinho, mas logo parece que esqueceram [...]. Isso me preocupa! O futuro desses alunos é o nosso futuro. Eles vão nos matar e jogar no lixão? Vão nos lançar pra fora do ônibus? (lágrimas) Somos nós, professores, que temos que solucionar um problema que é da sociedade? Essa é a minha angústia! (Professora Ana).

O discurso80 do sujeito é o que possibilita o laço social. Como um lugar da linguagem,

garante a transmissão simbólica, favorece o enlaçamento ao Outro e faz funcionar uma trama que se constitui em diferentes registros. São “nomeações” replicadas pela linguagem, que surgem como respostas que o professor produz, quando se diz angustiado, como na fala da professora Ana.

Os recursos subjetivos para lidar com impasses surgem na vida humana e podem se apresentar nas mais diferentes formas, o que ratifica a existência do sujeito enquanto detentor da linguagem que pertence à cultura. Em situações nas quais a inserção ocorre de maneira a trazer benefícios, tanto para o sujeito, como para a sociedade, o arranjo é considerado bem- sucedido (MIRANDA, 2010). Todavia, outras formas de respostas podem ser produzidas quando o professor se diz angustiado no trabalho docente.

A linguagem, para psicanálise, ao funcionar como um instrumento simbólico privilegia a comunicação entre humanos, gera informações, esclarecimentos ou mesmo mal-entendidos. Evoca e faz ressoar o que há de singular do sujeito e pode surgir como algo de um excesso, de um quase dizer, de uma substituição ou mesmo de um silêncio. É a tessitura de uma malha que sustenta um discurso que apresenta furos e pode surgir como predicativo de mal-estar.

Na educação, quando algo mobiliza o sujeito e o faz ligar-se a uma importante condição de desconforto, cujo efeito é a manifestação da pulsão de morte, da pulsão sem representação. Imaginamos que a angústia assumi, nesse momento, a característica de sintoma. A lógica é que a angústia está:

Sempre presente, num lugar ou outro, por trás de todo sintoma, em determinada ocasião, porém toma, ruidosamente, posse da totalidade da consciência, ao passo que em outra, se oculta tão completamente, que somos obrigados a falar de ansiedade [angústia] inconsciente, ou se, desejamos ter uma consciência psicológica mais clara – visto a ansiedade [angústia] ser, no primeiro caso, simplesmente um sentimento (FREUD, 1930[1929]/ 1974, p.159-160, grifo nosso).

80“O que está em questão no discurso como uma estrutura necessária, que ultrapassa em muito a palavra sempre

mais ou menos ocasional [...] Mediante o instrumento da linguagem instaura-se certo número de relações estáveis, no interior das quais certamente pode inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe do que as enunciações efetivas”. (LACAN, 1969-1970/1992, p.11).

A ideia freudiana de que o mal-estar é a manifestação da angústia leva o autor a indicar que o afeto se apresenta como uma variação topográfica que surge do social (FREUD, 1930[1929]/1974). Um mal-estar que se apresenta a partir da relação entre o sujeito e sua experiência como ser da linguagem. Entendendo que “a angústia funciona como sinal, é da ordem da irredutibilidade do real”, tem uma singularidade na sua apresentação. A ideia lacaniana indica que dentre todos os sinais de advertência “é aquele que não engana” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 178). O que nos faz concordar com a ideia de que é um mecanismo psíquico que funciona como o que “guia o sujeito neurótico em direção ao real” (LAURENT, 2007, p. 113).

Mas, é preciso dizer, que o tratamento em relação à fala do docente, no nosso campo de pesquisa, diz respeito a um mal-estar que surge como resposta ao trabalho docente, em que o professor atribui diferentes maneiras de manifestar suas aflições a partir do significante angústia. É um afeto que tangencia o real e que nos faz pensar sobre possibilidades quanto a presença da “angústia” como efeito da relação que o sujeito estabelece com o trabalho docente. É um mal-estar que se apresenta a partir de um repertório de queixas. O docente demonstra em sua fala, diferentes formas de percepção, de sentimentos que envolve a história do sujeito, a escolha da profissão e como o trabalho docente lhe afeta como mal-estar.

Ainda que a angústia não possa ser nomeada pelo discurso, é necessário discorrermos sobre o conceito na psicanálise para fundamentar a discussão de nosso trabalho. A intenção é propiciar ao leitor o conceito balizador que adotamos, a fim de indicar de que lugar estamos falando, considerando que o significante angústia ganhar destaque na fala do docente que atua no Pará. Nessa perspectiva, trataremos, primeiro, sobre o conceito de mal-estar e, depois, no capítulo três, o tema angústia. A perspectiva é ter a psicanálise como chave de leitura a fim de elaborar uma compreensão sobre o que pode levar, ou não, o sujeito à ‘miséria neurótica’ na civilização, a partir do enquadre do professor na relação com o trabalho docente.

2.1 Mal-estar, cultura e vicissitudes.

O sofrimento nos ameaça a partir de três fontes: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade81 como sinais de advertência; do mundo externo (Ausser Welt), que

81Ainda que seja considerado um termo polêmico e de difícil tradução para língua portuguesa, mas consagrado

na literatura psicanalítica, nosso estudo adota o termo angústia a partir do significado apresentado por Luiz Alberto Hanns, no Dicionário Comentado do Alemão de Freud (1996, p.62), cuja variação se apresenta como angústia, ansiedade, medo: angst. “Geralmente indica um sentimento de grande inquietude perante ameaça real ou imaginária de dano. Pode variar de gradação de ‘receio’ e ‘temor’ até ‘pânico’ ou ‘pavor’. Refere-se tanto a

podem voltar-se contra nós como forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens (FREUD, 1930[1929]/1974, p.95).

O trecho é o que entendemos que existe de mais pontual sobre a origem e fonte do mal-estar em Freud (1930[1929]/1974). Enquanto objeto, o mal-estar “não se refere às vicissitudes do prazer corporal ou da vocação individual ou coletiva para a felicidade”, o que Freud pontua é a relação do mal-estar enquanto conceito de mundo (West), isto é, o mal-estar não é apenas “uma sensação desagradável, ou um destino circunstancial, mas o sentimento existencial82 de perda de lugar” (DUNKER83, 2015, p. 195-196) como uma experiência de

sentir-se fora de posição.

A fim de delinear o conceito de mal-estar para identificarmos sua relação com o trabalho docente, é necessário a construção de um percurso teórico freudiano sobre como o conceito foi construído. A intenção é identificar o que do conceito contemporâneo de mal- estar pode ser percebido na realidade paraense e como a “angústia” pode ser considerada uma manifestação desse mal-estar.

A expressão mal-estar está presente desde os primeiros escritos freudianos e pode ser traduzido como algo que é desconcertante e promove a consternação humana. O termo mal- estar, em momentos remotos dos estudos de Freud (1895), surge associado à neurose de angústia, cuja fonte geradora de incômodo é justificada por problemas no campo da sexualidade como um sintoma. Para o autor, um estado de angústia se instala a partir de um “acúmulo de excitação somática” que o ser humano não é capaz de tolerar. Associado a esse estado perturbador, ocorre algo da ordem da pulsão, que se reflete na esfera psíquica em forma de sintoma, que ocorre pela via da produção de um excesso (MIRANDA, 2010).

No período anterior à psicanálise propriamente dita, a compreensão sobre sintoma para Freud (1895/1994) estava relacionada ao uso, digamos, “inadequado” sobre “excitação sexual” em que os efeitos se apresentavam através de distúrbios respiratórios, fome devoradora, irritabilidade, ataques de angústia com palpitações, expectativas angustiantes e outros. Nesse período para o autor, o mal-estar significa:

ameaças específicas (Angst vor, medo de), como inespecíficas (Angst, medo)”, salvo a exceção das citações literais ou títulos que apresentem a expressão “ansiedade”.

82Christian Ingo Lenz Dunker define: “Desconforto evoca a experiência de estar no espaço, de estar contido,

abrigado e protegido e, ainda, perceber que há algo faltando. Essa percepção é o peso existencial, a ideia de

mundo” (DUNKER, 2015, p. 196, grifo do autor).

83Dunker (2015) propõe algumas revisões conceituais a partir da tradução de termos originados do alemão.

Mesmo que nossa discussão não siga, exatamente, a ordem da construção da ideia que defende o autor de Mal-

estar, sofrimento e sintoma, vale destacar a compreensão sobre o mal-estar e sua relação com a angústia. Afirma: “o mal-estar (Unbehagen) não é a própria angústia, mas liga-se a um déficit de percepção (wahrnehmen) da angústia que possui efeitos de inibição e se qualifica como torturante” (DUNKER, 2015, p. 205).

A vertigem [...] consiste num estado específico de mal-estar (Unbehagen), acompanhado por sensações de que o solo oscila, as pernas cedem e é impossível manter-se em pé por mais tempo; enquanto isso as pernas pesam como chumbo e tremem, ou os joelhos se dobram [...]. Os acessos de vertigem não raros são acompanhados pelo pior tipo de angústia, frequentemente combinada com distúrbios cardíacos e respiratórios (FREUD, 1895/1994, p. 98).

A citação qualifica o mal-estar enquanto sintoma ligado à experiência, refletindo um estado de desconforto “localizado” no corpo. Dunker (2015), ao renomear o mal-estar (Unbehagen), indica duas séries semânticas para o termo. A primeira sobre o mal-estar cujo efeito é corporal – sintoma -; a segunda, um mal-estar moral que gera sofrimento84.

Pensando na contemporaneidade, ao escutarmos sobre o mal-estar no trabalho docente, é possível dizer que o professor tem ampliado seu repertório discursivo para falar de um mal- estar o que faz com que produza diferentes respostas, incluindo a condição de se sentir angustiado no trabalho, o que acaba coincide com a literatura freudiana. Mas, antes de seguirmos nessa discussão voltemos ao início dos estudos de Freud.

Retomando o período pré-psicanalítico, Freud (1897/1987) segue relacionando a libido à formação dos sintomas, em que os mesmos estão ligados ao sacrifício e à renúncia humana em prol de um “benefício maior”. O autor destaca:

A “santidade” é algo que se baseia no fato de que os seres humanos, em benefício da comunidade maior, sacrificam uma parte de sua liberdade sexual e de sua liberdade de se entregarem às perversões. O horror ao incesto [...] baseia-se no fato de que, em consequência da comunidade da vida sexual (mesmo na infância), os membros de uma família se mantem permanentemente unidos [...]. Assim o incesto é anti-social - a civilização consiste nessa renúncia progressiva (FREUD, 1897/1987, p. 354-355).

Na formulação do Rascunho N, Freud (1897/1987) indica que os limites necessários para viver em sociedade passam por uma relação constitutiva entre a sexualidade e a vida psíquica, o que indica a qualidade que fundamenta a subjetividade humana. Impedido e limitado pela dinâmica do recalque85, os sintomas funcionariam como uma “criação” que daria

condições para que o desejo possa ser realizado, “causando” menos prejuízos para a vida em sociedade.

84“Contudo, toda a força e originalidade da noção de mal-estar residem no fato de que ela engloba tanto o

sofrimento quanto o sintoma, mas não se reduz a nenhum dos dois” (DUNKER, 2015, p.196).

85“A ideia que representa a pulsão passa por vicissitude geral que consiste em desaparecer do consciente, caso

fosse previamente consciente, ou, em se afastada da consciência, caso estivesse prestes a se tornar consciente” (FREUD, 1915/1974, p. 176, grifo do autor).

No artigo Três ensaios sobre a sexualidade, Freud (1905/1989) ratifica uma importante exigência da cultura que precisa ser vivida pelo ser humano, a barreira do incesto86,

necessária para que a família não seja devastada. São barreiras que devem resguardar os interesses e a manutenção da família enquanto unidade social superior. Nesse momento dos estudos, o autor deixa claro sobre a importância da associação entre a integração do sujeito e um dever moral, que precisa ocorrer. É um dever que tem a ver com a exclusão, por parte do sujeito, de suas escolhas objetais de pessoas do âmbito familiar.

Mesmo admitindo a necessidade da repulsa às fantasias sexuais incestuosas, Freud (1905/1989) não se furta a afirmar que o distanciamento dessas fantasias traz sofrimento ao ser humano. Palavras do autor: “à subjugação e ao repúdio dessas fantasias claramente incestuosa consuma-se uma das realizações psíquicas mais significativas, porém, também mais dolorosa [...], importante para o progresso da cultura” (FREUD, 1905/1989, p. 213).

Viver sob as exigências da civilização gera padecimento87. É uma lógica que se ratifica

em diferentes escritos freudianos. Para tal assertiva, estaremos nos atentando a dois textos em particular, o de 1908, Moral sexual “civilizada” e doença nervosa moderna e O mal-estar na civilização, de 1930. Tal escolha ocorre em função de possibilitar a compreensão de uma lógica que esclarece quanto às mudanças que ocorrem na cultura, a partir do aumento das exigências sociais e da necessidade de moderação da vida sexual do humano, que resulta em mal-estar.

No texto de 1908, Freud baseia-se em Von Ehrenfels (1907) para falar sobre sua contribuição no sentido de ampliar o entendimento acerca da relação entre moral sexual e o convívio do homem em sociedade. Segundo Freud (1908/1976), Ehrenfels refere que é preciso compreender que a moral sexual natural está ligada a uma moral que conserva a saúde e a eficiência da humanidade, enquanto que a moral sexual civilizada deve estar submetida a regras, a fim de estabelecer uma conduta para o convívio do sujeito na cultura. O autor de Ética Sexual atribui à moral sexual vigente do início do século XX como algo que promove

86“[Nota acrescentada em 1915] É provável que a barreira do incesto figure entre as aquisições históricas da

humanidade e, como outros tabus morais, já se tenha configurado em muitos indivíduos pela herança orgânica. (Cf. meu texto Totem e Tabu, 1912-13/1995.) A investigação psicanalítica mostra, no entanto, com que intensidade o indivíduo tem que lutar [...] contra a tentação do incesto e com que frequência à barreira é transgredida nas fantasias e até mesmo na realidade” (FREUD, 1905/1989, p. 212).

87Escolhemos adotar o termo padecimento proposto por Pereira (2016) por concordar com o sentido de amplitude

que os autores propõem, diz respeito ao “[...] ‘sofrimento’ ou ‘adoecimento’, já que inclusive os abrange, e, ao mesmo tempo, aceita a noção de sintoma, de angústia e de inconsciente. Padecer significa ser atormentado, afligido, martirizado; ser aquele que suporta ou que sofre dores físicas ou morais. Também denota ser ou estar doente; ser vítima de acidente, enfermidade ou violência física; ou quem admite, consente e permite, sem ter sobre isso todo o juízo”.

“numerosos prejuízos”, ainda que reconheça a influência sobre o desenvolvimento da civilização.

Freud (1908/1976) faz um comentário interessante sobre a responsabilidade da moral sexual:

Refiro-me ao aumento, imputável a essa moral, da doença nervosa moderna, isto é, da doença nervosa que se difunde rapidamente na sociedade contemporânea. Ocasionalmente, um desses pacientes nervosos chamará, ele próprio, a atenção do médico para o papel do antagonismo existente entre a sua constituição e as exigências que a civilização desempenhou na gênese de sua enfermidade (FREUD, 1908/1976, p. 188).

A citação nos sugere um alerta, o que o autor chama de antagonismo, compreendemos como uma “dica”, como uma forma de resposta do sujeito, em que a singularidade se apresenta frente à “tentativa” de harmonizar o que existe de pulsional e o que pode ser praticado e aceito pela cultura. Em algum momento, de alguma maneira, poderá ser denunciado pelo próprio sujeito.

Seguindo o texto freudiano, o autor faz um breve exame da “vida moderna” em seu tempo como um “mobilizador” de mal-estar. Destaca alguns fatores que contribuem para o aumento das doenças nervosas, tais como: as novas descobertas da época, as invenções nos diferentes setores, a manutenção do progresso, a competição que exige grande esforço mental e o aumento das exigências impostas. Paralelo a esses fatores, Freud (1908/1976) sinaliza que, independente de classe social, as necessidades e os anseios por prazeres materiais e determinados luxos crescem cada vez mais. Observa:

Tudo é pressa e agitação. A noite é aproveitada para viajar, o dia para os negócios, e até mesmo as “viagens de recreio” colocam tensão no sistema nervoso. As crises políticas, sociais e financeiras atingem círculos muito mais amplos [...]. Os conflitos religiosos, sociais e políticos [...] inflamam os espíritos, exigindo violentos esforços da mente e roubando o tempo à recreação, ao sono e ao lazer. A vida urbana torna- se cada vez mais sofisticada e intranquila. Os nervos exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo ainda em maior exaustão (FREUD, 1908/1976, p. 189).

Ainda que tais fatores, como indica o trecho, contribua para o aparecimento das doenças nervosas, Freud (1908/1976) deixa claro que o método psicanalítico é capaz de possibilitar a percepção de determinadas manifestações, de origem psicogênica, que depende da atuação de um complexo sistema de ideias inconscientes (recalque)88. Dinâmica psíquica

88Dinâmica psíquica em que “a ideia que representa a pulsão passa por vicissitude geral que consiste em

desaparecer do consciente, caso fosse previamente consciente, ou em se afastada da consciência, caso estivesse prestes a se tornar consciente” (FREUD, 1915, p. 176, grifo do autor).

que deriva de uma necessidade insatisfeita em que a representação ocorre através de uma satisfação substituta, porém distorcida na sua finalidade. A civilização deve repousar de um modo geral, sobre a retirada de algo da pulsão, pois se trata de uma “supressão” aparente e vacilante.

O sujeito da civilização precisa renunciar “a uma parte de seus atributos”, do sentimento de onipotência, da necessidade de vingança, o que resulta em um acervo cultural. A resposta surge da soma de “sentimentos familiares derivados do erotismo que levará o homem a fazer essa renúncia, que tem progressivamente aumentado com a evolução da civilização” (FREUD, 1908/1976, p. 192).

Eis um momento importante da psicanálise, com a publicação de O mal-estar na civilização, não se trata, tão somente, de focar em como o sintoma é produzido, nem tampouco “localizar” a angústia como o seu fracasso. Mas, como um momento da história que nos permite pensar em dinâmicas mais complexas de interação que envolve a o mal-estar como a manifestação da angústia, o sintoma como uma estrutura de funcionamento, além de outras respostas que o sujeito produz para viver na civilização com menos padecimento.

É uma perspectiva em que a dinâmica é relacionada à libido. O importante deve ser em como o sujeito investe para obter satisfação e de quanto está “disposto” a modificar-se a fim de adaptar as demandas externas. Dinâmica psíquica que tem como papel fundamental sinalizar para formas de respostas que o sujeito adota frente às exigências estabelecidas pela cultura89. Aspecto importante considerado, na ideia freudiana, como fonte social de

sofrimento:

Não a admitimos de modo algum, não podemos perceber porque os regulamentos estabelecidos para nós mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós. Contudo, quando consideramos o quanto fomos mal- sucedidos exatamente nesse campo de prevenção do sofrimento, surge a suspeita de que também aqui é possível jazer, por traz desse fato, uma parcela de natureza inconquistável - dessa vez, uma parcela de nossa própria constituição psíquica (FREUD, 1930[1929]/1974, p.105).

Considerando que existe algo do inconquistável, alguma coisa acontece no nível do psiquismo quando o homem passa a viver na civilização. Para entender essa lógica, é importante que o sujeito apresente em seus recursos psíquicos a capacidade de trocar o objeto sexual original por outro, não mais da ordem sexual, e sim da ordem da sublimação90.

89A cultura, na quarta seção de O mal-estar na civilização, é entendida como uma forma de substituir ou fazer a

reparação de uma limitação primeira na tentativa de reconstruir a experiência amorosa inicial através da formação “de uma nova família”, esta, agora, focada na satisfação sexual individual (DUNKER, 2015, p. 202).

90Freud adota o termo sublimação, mais nietzschiano, originado do romantismo alemão, como definição de “um

princípio de elevação estética comum a todos os homens, mas do qual, a seu ver, só eram plenamente dotados os criadores e os artistas”. No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, é quando aparece a

Contudo, outras possibilidades podem surgir, por exemplo, quando a pulsão sexual se fixa de forma persistente e a força é inutilizada, pode provocar uma degeneração quanto à capacidade do estabelecimento de troca, cuja resposta pode se dá no nível da ação do sujeito que dificulta a vida em sociedade.

Ao que parece, a constituição inata de cada um é que “vai dizer” o “momento” em que a pulsão será sublimada e colocada em uso. Todavia, é um processo que não se amplia indefinidamente. Na maioria das organizações parece indispensável que certo quantitativo de satisfação sexual precisa manter-se. O sujeito deve funcionar numa relação com a frustração. O que varia de uma pessoa para outra, em função do caráter subjetivo de desprazer e do prejuízo funcional de cada um. Dependendo da maneira como cada sujeito reage pode, também, provocar fenômenos que indicam doença (FREUD, 1908/1978). Entretanto, é uma dinâmica essencial que contribui para que o ser humano se sustente na cultura, ainda que o