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2. Theoretical framework

2.4 Pen on paper writing versus the keyboard

O contemporâneo, neste trabalho, é visto, na esteira do de Chamarelli (2014), como campo, como espaço de relações entre forças e vetores. No campo, o que há são relações, nunca se está sozinho, mas “[...] em uma relação que funda os termos eles mesmos, que, como ressonância, os faz vibrar mutuamente” (CHAMARELLI, 2014, p.267). A medida que escuto um som, ele ressoa em mim e eu o reemito diferentemente. Segundo Chamarelli, esta é a lógica da ressonância. Com isso, a junção de categorias tão díspares, melhor dizendo, vetores aparentemente díspares, tais como os das tragédias e das ficções atuais, se justifica por serem eles vistos como intensidades de forças dentre outras que povoam o campo, e que, por ressonância, se comunicam e se fazem ouvir. As tragédias e o trágico fazem-se, assim, contemporâneos da ficção atual. Segundo Chamarelli, o contemporâneo é visto espacialmente, como lugar, mais que temporalmente, como época. O contemporâneo é visto como lugar cujas divisas se expandem para outros campos, outros lugares. “Tudo, ao mesmo tempo, assim: contemporâneo (CHAMARELLI, 2014, p.264)”. Não é mais possível extrair um sentido coeso e unívoco de época. Caberia aos críticos, portanto, não o representar, mas fazê-lo ressoar. Ainda de acordo com o autor, o que há são vetores intensivos de forças que compõem o campo que nomeamos contemporâneo, visto também como mais um dentre inúmeros outros vetores.

Se estamos em presença do contemporâneo, não é como diante de algo constituído, formado e acabado. Estamos sobre o campo, desde ele. Mas nada aí está assegurado (nada se pode segurar), uma vez que ele se forma a cada vez, na relação, como um resto dos termos que o traçam, como um zero contíguo ao número em expansão. Estamos no campo sempre e somente à escuta de um contemporâneo, somente na medida em que aparecemos a cada vez como um de seus termos, mais ou menos provisórios. Sobre o campo há, sobretudo, relações: uma política das ressonâncias, na qual estamos, queiramos ou não, imbricados. (CHAMARELLI, 2014, p.265, grifo do autor) Nossa leitura, portanto, tomará, como operador teórico, a ideia da prevalência de vetores a caracterizar a contemporaneidade, configurando nossa análise como a de um campo de forças, em aberto, sendo desenhado atualmente. Destacaremos, portanto, os vetores que se encontram em alta, em abundância, aqueles que são enfatizados pelos mecanismos contemporâneos de produção de subjetividades. Compreendemos a contemporaneidade, como, basicamente, o momento de acirramento de tendências modernas. Neste sentido, o termo hipermodernidade nos vem a calhar. Mas a questão não se encerra aí. Diante das infindáveis celeumas teóricas sobre a relação entre modernidade e contemporaneidade se dar como ruptura ou continuidade, optamos, na verdade, por um posicionamento ambíguo, entre a ruptura e a continuidade. Acreditamos que a magnitude do agravamento de tendências modernas faz com que o tempo atual seja visto como operando à beira da ruptura, a ponto de postularmos, com Sibilia (2016), que existe a proposição de uma nova episteme, distante da moderna, já que forja novas modalidades de subjetividade. No entanto, ao mesmo tempo, não há dúvida de que tais modalidades são fabricadas tendo, como base, vetores forjados na modernidade. Daí tratar-se de algo entre a ruptura, desde que enfatizemos o adjetivo novo na expressão nova episteme, e a continuidade, se o acento recair na ênfase na exacerbação dos vetores modernos.

Conforme nossos objetivos neste estudo, dentre as linhas de força do campo da literatura brasileira contemporânea, destacaríamos aquela que insiste em figurar formas residuais do trágico. Nela, os autores não são agrupados simplesmente porque escrevem no mesmo tempo histórico, mas porque, de acordo com a nossa perspectiva e a dos críticos arrolados a seguir, eles parecem compartilhar de certo fazer literário, escutando ressonâncias diversas sob a mesma clave. Essa vertente tem sido estudada por mais de um crítico (ver

RESENDE, 2008; HELENA, 2010, 2012; CURY, 2015). Cury (2015) destaca que tal vertente se constrói em torno de experiências traumáticas individuais, acentuadamente trágicas. Em sintonia com seu raciocínio, também compreendemos a literatura como espaço de resistência individual e coletiva, ao criar espaço para a reflexão sobre os dilemas de nosso tempo, refigurando e acolhendo o trágico, ainda que através de restos. Por sua vez, Resende (2008) se debruça sobre a produção contemporânea literária brasileira com o olho posto nas principais dominantes. Dentre elas, a crítica carioca afirma, em concordância com Cury, que há espaço para “[...]a investigação sobre a volta do trágico que parece marcar o século que se inicia (RESENDE, 2008, p.10)”. Alguns representantes literários de tal tendência, além de Michel Laub, seriam: Adriana Lisboa, Luiz Ruffato, Bernardo Carvalho, entre outros. Referindo-se às obras dos dois últimos, a crítica carioca afirma: “Nos dois, é o sentimento trágico da existência aquilo de que temos dificuldade de falar e como tal sentimento conforma as identidades que dominam a narrativa (RESENDE, 2008, p.30)”. Mesmo que guardadas as diferenças entre tais autores e suas obras, a justificativa para agrupá-los em torno desta linha de força vem do fato de que eles compreendem a literatura como “[...] locus de reflexão sobre as aporias de nosso tempo, sobre as memórias dolorosas que fazem eco no presente e cuja representação se torna conflituosa (CURY, 216 2015)”. Nas obras de Carvalho, por exemplo, as explicações são sempre insuficientes, a retomada insistente do passado se mostra inócua em face dos enigmas, das questões e questionamentos colocados por seus personagens e narradores. O caráter aporético e trágico é o que sustenta seus textos. Sobre eles, na opinião de Resende (2008, p.31-32), “[...] há enigmas e não há explicações senão o próprio reconhecimento da tragicidade da condição humana, ambígua, inexplicável, incontrolável”. Especificamente em relação à obra de Ruffato, “[...] o paradoxo trágico se constrói entre a busca de alguma forma de esperança e a inexorabilidade trágica da vida cotidiana que segue em convívio tão próximo com a morte (RESENDE, 2008, p.31)”.

Já Bernardo Carvalho, autor consagrado pela crítica, parece se colocar como autor-sintoma, nas palavras de Resende (2008), de nosso momento. Portanto, se ele é assim compreendido, como sintoma, é esperado que reconheçamos em sua escrita alguns traços que digam daquilo que se repete e

insiste em se fazer ouvir: ressonâncias do trágico. Scramim (2007) também dedica ensaio à obra desse autor. Em seu texto, não lemos nenhuma referência ao trágico ou à tragédia, seu referencial teórico é outro. No entanto, sua abordagem é similar à que temos exposto. E poderíamos também escutar ali ressonâncias do trágico. Scramin destaca procedimentos narrativos, na obra de Bernardo Carvalho, análogos ao do sujeito trágico, que apontam para a impossibilidade do sentido. “A lacuna de sentido que se constrói entre uma história e outra indica que a dobragem de sentido não ocorre mediante o desvendamento do mistério, ao contrário, opera com base no vazio deixado pelo sentido no espaço lacunar entre as duas histórias (SCRAMIM, 2007, p.149)”.

Na opinião de Schollhammer (2013), o presente, contemporaneamente, é fraturado. Ele não mais garante a continuidade entre o passado e o futuro. É visto como dispersão e fragmentação de forças que provocam desorientação. A despeito da intensidade de acontecimentos históricos do presente, como este não se deixa ler, já que fragmentado e fraturado, ele apenas aponta para um futuro incerto e ameaçador. Quanto ao passado, ele configura-se como temporalidade que paralisa o presente ao insistir em retornar através de memórias, imagens, simulacros e índices.

No contemporâneo, rompeu-se o elo identitário com a história, e as narrativas procuram restituir essa perspectiva perdida a partir de um suposto desastre irreparável. O tempo não se dirige mais em direção ao futuro ou a um fim a ser realizado pelo progresso ou pela emancipação subjetiva; agora o tempo volta-se em direção à catástrofe que interrompeu o passado. (SCHOLLHAMMER, 2013, p.325)

Na perspectiva de Schollhammer, essa forma de agenciamento do tempo, na literatura brasileira contemporânea, é lida mediante a chave do testemunho, com uma visada (auto)biográfica. É assim que ele lê não somente Diário da queda, mas também alguns outros livros de autores diversos. Para ele, a utilização recorrente do trauma histórico que contamina a vivência pública e a particular acarreta a patologização da esfera pública, já que os traumas históricos são vividos, nesse tipo de ficção, a partir da experiência particular de elaboração do trauma privado. Portanto, trata-se de um “[...] voyeurismo espetacular que se nutre do fascínio da exposição de atrocidades grandes e pequenas (SCHOLLHAMMER, 2013, p.328). A reflexão do crítico é importante

para nossos propósitos pois reforça a hipótese da linha de força que configura o trágico como passado que insiste em se fazer recorrente, uma vez que, neste sentido, ambas as reflexões se assemelham.

No entanto, como já exposto, não lemos Diário da queda sob a perspectiva autobiográfica, a despeito dos inúmeros indícios que apontam para tal leitura. Acreditamos que tal perspectiva é somente mais uma das possibilidades de se abordar a obra.

Com referência ao estudo de Helena, ele se destaca pela extensão, abrangência e profundidade. A crítica e professora carioca vem empreendendo esforço de compreensão de parte da ficção contemporânea, não somente brasileira, em relação ao pensamento trágico. São dois os livros já publicados pela autora sobre o tema (HELENA 2010; 2012). A lista de autores com os quais trabalha é extensa e Michel Laub é incluído nela. Sua hipótese central é o “[...] enlace entre o pensamento trágico e as ficções da crise em momentos traumáticos da construção do moderno (HELENA, 2012, p.15)”.

Assim sendo, podemos afirmar que pontos por nós desenvolvidos também foram analisados pela autora. A análise do romance de Philip Roth, A marca humana, é um exemplo de como a autora carioca compreende o enlace entre pensamento trágico e ficção. Ressalta Helena que Roth relê a tradição da tragédia em clave contemporânea porque a visão do escritor norte-americano “[...] não admite como definitivo e incontornável o mundo da sensação empírica e do racionalismo, em aparência, claro, mas na realidade confuso e ambíguo” (HELENA, 2012, p.47, grifo da autora). Em contraposição a esse mundo, se instala na ficção do autor uma visão trágica que propõe uma nova escala de valores.

A consciência trágica se manifesta inquieta, angustiada, por contrapor- se a um mundo cujos benefícios implicam não mais se aceitar a razão e a racionalidade como produtoras de um pensamento único, unidade que o sujeito trágico, que frutifica da consciência do dilema, rejeita. (HELENA, 2012, p.47)

Diríamos que nesse trecho é possível perceber um ponto central de convergência entre a abordagem da autora e a nossa, qual seja: o desenvolvimento da ideia de enfraquecimento do eu, tema moderno por excelência, que assevera que o eu não pode pensar a si próprio, sendo, portanto,

assujeitado à linguagem, ao Outro, ao social. Em nossa perspectiva, o Outro, visto sob a ótica da tragédia, compreendido de forma abrangente, pode ser lido também como a linhagem, o sangue, a ascendência etc. Na visão de Helena, ao longo da modernidade, esse paradigma crítico tem se imiscuído em meio às formas estéticas e “[...] questiona a versão ufanista do poder do sujeito burguês, rarefeito na mudança do capitalismo sólido (que aponta para a concepção do Robinson como homem empreendedor), para o capitalismo líquido” (HELENA, 2012, p.40, grifos da autora). O pensamento trágico, assim, se alia ao questionamento do sujeito burguês e reforça a ideia do sujeito enfraquecido, desorientado, em consonância com a fase do capitalismo líquido. A presença de um sujeito trágico, inquieto, angustiado e indeciso, puxado por todos os lados por diferentes vozes só reforça a crítica ao paradigma ufanista do sujeito burguês. O presente capítulo, desse modo, se encarregará de explorar as relações conflituosas entre o capitalismo líquido, com ênfase em sua faceta individualista, no enfraquecimento da força do sujeito cartesiano e na proposição de um sujeito trágico. No entanto, para chegarmos às questões colocadas pela contemporaneidade, gostaríamos de explorar como a ideia de sujeito moderno se desenvolveu. Para tanto, as ideias de Foucault sobre sujeito e subjetividade serão imprescindíveis.