Dadas as tensões, conflitos e desentendimentos entre gerações e tradições distintas e um passado que se presentifica a todo o momento aos personagens, cabe perguntar como tais elementos se relacionam e formam aquilo que denominamos sujeito trágico. Em outras palavras: como podemos articular tais elementos com um pensamento trágico? A nosso ver, o narrador é a instância que nos proporciona explorar as críticas e questionamentos ao projeto moderno contra o qual o pensamento trágico se insurge já desde sua origem grega. Um sujeito trágico, como o concebemos, mais do que negar a episteme moderna, a problematizaria, colocando em questão suas premissas. Portanto, concordamos com Villaça (1996) ao situar o lugar do narrador como vetor “[...] privilegiado para o aparecimento de brechas, falhas e atomizações que, desde há muito, ameaçam o projeto da subjetividade como totalização, projeto iluminista de emancipação do indivíduo [...]” (VILLAÇA, 1996, p.8).
Nesse sentido, nosso ponto de vista se aproxima também do de Ginzburg (2012). Em sua opinião, certa faixa da literatura brasileira tem insistido na proposição de narradores que se pautam pela negatividade, destacando em seus universos ficcionais as dificuldades e entraves à plena compreensão da experiência e sua relação com o contexto histórico, em detrimento ao controle e atribuição de sentidos homogêneos e apaziguadores quanto à resolução dos conflitos. Na verdade, esses narradores procuram desafiar formas de narrar que se baseiam em padrões hegemônicos, de extração racionalista e patriarcal. Projeto similar foi proposto por Helena (2012), que já vem, desde outros livros, refletindo sobre paradigmas desconstrutores do projeto moderno, tendo o pensamento trágico no centro de sua reflexão. Ela tem investigado “[...] uma literatura na qual se promove uma reflexão e novas formas de linguagem para dizer da tônica do desastre e das relações entre literatura e a vida na época da incerteza que a modernidade tardia implica” (HELENA, 2012, p.15).
Com efeito, em nossa análise do narrador em Diário da queda, o cerne da perspectiva trágica se encontra na posição do narrador, que obedece ao falacioso impulso de emancipação absoluta do passado e de compreensão da experiência. Apostando na possibilidade de esclarecimento possibilitado pela palavra, ao mesmo tempo ele mina o próprio impulso ao trazer para o centro de sua fala posições contraditórias entre si. Desse modo, o foco narrativo caracteriza-se, principalmente, pela oscilação polarizada entre aderir à identidade judaica ou emancipar-se dela. Estabelece-se, assim, certa lógica aprisionante entre os dois posicionamentos, fazendo com que a indecibilidade e a incerteza se configurem como marcas do narrador. Como pano de fundo, duas forças de conotações nietzschianas se digladiam: ordem e caos, estabilidade e devir, abertura às múltiplas possibilidades do presente e aprisionamento em leituras fechadas do passado.
Julgamos necessário aqui, antes de passarmos, propriamente, à leitura do livro, retomar e sintetizar pontos de vista de alguns estudiosos do tema em foco. Rinesi (2009), por exemplo, compreende a tragédia (gênero literário) e o trágico como formas de lidar com o conflito, com a dimensão de contradição e antagonismos presente nas relações humanas. Deste modo, se o conflito é o núcleo irredutível da narrativa que compõe o corpus deste trabalho, conferindo- lhe sustentação, o pensamento trágico nos ajudará a lê-lo, já que, também nele,
o conflito ocupa lugar central. Como núcleo das tragédias, o conflito se organiza em torno da questão do (des)conhecimento. Nesta problemática destacaríamos duas noções que serão de suma importância nesta tese: hybris e hamartia. “A tragédia é justamente a passagem de uma situação de ignorância, agnoia, para o conhecimento, gnosis (Seligmann-Silva, 2004, p.26)”. Como já adiantamos mais acima, a pergunta sobre a origem, sobre quem é o narrador em relação à sua linhagem é central para a compreensão que estamos propondo aqui.
Em linhas gerais, revendo Steiner (2006), ele concebe o trágico como marcado, em última instância, pela incompreensão absoluta da experiência; só temos acesso a ela parcialmente e de forma lacunar. Para ele, tragédias parecem afirmar que não há pleno acesso à compreensão da ordem do universo por parte do ser humano. Ao tentar se aproximar do que seria a tragédia, ele postula que se há justiça, compreensão, apaziguamento ou fechamento, não existe o trágico. A razão lança luz sobre o mundo, mas não consegue penetrá-lo de forma satisfatória e apaziguadora. Em suas palavras: “Os poetas trágicos gregos afirmam que as forças que modelam ou destroem nossas vidas estão fora do controle da razão e da justiça” (STEINER, 2006, p.3). A sabedoria trágica, assim, se define sobretudo pela “[...] tomada de consciência radicalmente problemática do homem”, pela ideia de que ele “não pode ser definido[...] ”, “[..] não possui uma essência (PASTORE, 2015, p.83)”. Trata-se de uma compreensão em sintonia com o pensamento cético e com pensadores como Freud, Nietzsche e Schopenhauer, por exemplo.
As tragédias terminam mal. O personagem trágico é rompido por forças que não podem ser completamente compreendidas nem superadas pela prudência racional. Isso novamente é crucial. Onde as causas do desastre são sociais, podemos ter drama sério, mas não tragédia. [...] A tragédia é irreparável. Não é possível que haja nenhuma compensação justa e material pelo sofrimento passado. [...] O drama trágico nos diz que as esferas da razão, ordem, e justiça são terrivelmente limitadas e que nenhum progresso de nossa ciência ou de nossos recursos técnicos ampliará sua relevância. (STEINER, p.4, 2006)
Seguindo essa concepção, o narrador trágico, conforme o compreendemos, seria o indivíduo descentrado pela força da ação do passado que, de alguma forma, o influencia, mas que ele a desconhece e é incapaz de elaborá-la plenamente para alcançar uma explicação apaziguadora sobre aquilo
que ele é no presente. É o homem alheio à propriedade de manter-se racional e equilibrar-se perante as vicissitudes da existência. Embora se oponha a isso com vigor, o narrador trágico, para pensarmos com Freud, não é senhor de sua própria casa, para usarmos as conhecidas palavras freudianas. Em O mal-estar na civilização (1996), Freud identifica três possíveis fontes de sofrimento para o ser humano: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos corpos e nossas relações sociais e as relações com o outro, em sentido abrangente. Quanto às duas primeiras fontes, ele nos diz que nosso julgamento nos força a reconhecê-las como inevitáveis, nos fazendo adotar uma atitude de aceitação resignada. Quanto à terceira, vejamos o trecho abaixo:
Quanto à terceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa atitude é diferente. Não a admitimos de modo algum; não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós. Contudo, quando consideramos o quanto fomos malsucedidos exatamente nesse campo de prevenção do sofrimento, surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer, por trás desse fato, uma parcela de natureza inconquistável – dessa vez, uma parcela de nossa própria constituição psíquica. (FREUD, p.93, 1996)
A expressão uma parcela de natureza inconquistável, no trecho acima, sinaliza a postulação, mais à frente referida neste próprio texto, da pulsão de morte como imprescindível a nossa constituição psíquica. Freud, leitor contumaz das tragédias gregas, aproxima-se, em sua compreensão do ser humano, do pensamento trágico. Há algo irredutível a qualquer compreensão a nos constituir, algo inconquistável. A esse respeito, Eagleton (2004) salienta que a “[...] civilização está enraizada na barbárie da exploração, que a cultura precisa submeter o instinto de morte ao seu serviço, que a memória exige o oblívio, que debaixo do valor e do significado repousa a materialidade sem sentido, não significativa, da Natureza, o corpo e os impulsos inconscientes (EAGLETON, 2004, p.331)”. Ao discutir a ideia do trágico, o teórico inglês o faz jogando com a impossibilidade de se escapar de um tipo de lógica que prescinde, para sua constituição, da incorporação perene dos contrários.