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Os últimos resultados estatísticos de Angola demonstraram que, num universo de 25.789.024 habitantes, 48% são pessoas do sexo masculino e 52% do sexo feminino. O índice de masculinidade no país é de 93,8 (INE, 2016:8). Estes dados demonstram que as mulheres constituem uma maioria em relação aos homens. Tratando-se de uma população maioritariamente jovem, é legítimo que consideremos que a maioria dos jovens angolanos é do sexo feminino.

Apesar dos discursos e políticas de desenvolvimento, a desigualdade de género constitui uma questão por equacionar em África (Phalane, 2012:243). Desde meios tradicionais aos mais altos patamares de decisão, a igualdade de género apresenta-se controversa e periférica. Segundo Manthiba Phalane (2012), esse facto pode estar ligado a uma certa relutância de lidar com a questão, por afectar as normas societais, tradições culturais ou regionais, ou ainda devido a ignorância, real ou dissimulada, em torno na natureza das disparidades entre género ou da importância do bem-estar das mulheres nas perspectivas de desenvolvimento dos países (p. 243).

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De facto, as raízes da desigualdade de género estão geralmente ligadas à forma como as famílias tratam as crianças desde a tenra idade. "Os estudos sobre a interacção progenitor-criança revelaram, por exemplo, diferenças em relação ao tratamento dos rapazes e das raparigas, mesmo quando os pais acreditam ter a mesma reacção com uns e outros" (Giddens, 2013:678). Esta perspectiva legitima a força das influências sociais na construção das identidades do género dos indivíduos.

Essas influências sociais podem começar mesmo pela forma como uma mãe ou um pai se predispõe ao desejar ter um filho do sexo masculino ou do sexo feminino. Tal predisposição específica pode continuar durante a gravidez, em função do sexo biológico do bebé em formação, e prolongar-se na preparação dos haveres de acolhimento ao filho que vai nascer (tipo e cor do berço, de roupas, brinquedos, enfim, todos adereços necessários). E esta dinâmica estende-se ao longo do crescimento do indivíduo, em que entram em jogo outros agentes de socialização diferenciadores de género, tais como a escola e os meios de comunicação.

Nas comunidades tradicionais africanas, a educação é um dos instrumentos de promoção da diferenciação entre rapazes e raparigas. Elizabeth Gnanvo (2012) referiu que, em quase todas as comunidades africanas, a puberdade era fixada entre 14 e 16 anos, para as raparigas, e entre 16 e os 18 anos, para rapazes. Por norma as raparigas esperavam mais tempo para gozarem na plenitude os seus direitos (Gnanvo, 2012:315).

A segregação etária para a iniciação masculina e feminina estende-se também aos papéis sociais a exercer para cada sexo. Ao rapaz ensinava-se "o domínio de todos os actos que permitem o homem subsistir-se na sociedade; a conhecer e a fazer o seu trabalho de homem e de marido, isto é, de chefe de família. Ao contrário do rapaz, a mãe, num meio feminino diferente, age sobre a rapariga para fazer dela uma mulher competente" (Gnanvo, 2012:313). Nestas sociedades, o sexismo e a dominação masculina constituem a lógica de tal "prática de socialização", como refere Bourdieu (1999).

A educação tradicional bantu reforça em sentidos opostos os papéis sociais do homem e da mulher, numa espécie de posição «dominador e submissa». Silva (2011) referiu que "as representações sociais sobre a mulher rural têm-na como submissa, ao

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serviço do homem e talhada para funções de mãe e doméstica". Em Angola, sobretudo no meio rural, essa lógica de educação discriminatória entre o rapaz enquanto homem e da rapariga enquanto mulher é uma realidade em quase todos os conjuntos socioculturais. Nestes, impera uma educação tradicional "cujo princípio basilar é a diferenciação de género" (Silva, 2011).

Actualmente a maioria da população angolana vive nas zonas urbanas e peri- urbanas. Porém, essa mesma maioria provém de zonas rurais, de onde saiu principalmente devido a instabilidade político-militar que abalou o país. Assim, a maioria dos jovens angolanos de hoje é produto das influências directas da estrutura educativa baseada na desigualdade de género que "resulta do facto de os homens e as mulheres serem socializados em função de papéis diferentes" (Giddens, 2013:677). Tradicionalmente essa diferenciação de papéis tem sido reforçada pelos ritos de iniciação, constituídos em actos simbólicos de evocação à masculinidade dos rapazes e a feminilidade das raparigas. O valor simbólico destes rituais reside do facto de incutir na mente das raparigas o seu valor e estima como procriadoras, considerando que a mulher “é antes de mais um „campo vaginal‟ destinado a ser fecundado pelo homem” (Altuna, 1993:299).

Entre os jovens actuais o facto de se ser homem ou mulher tem algum peso na forma como delineiam ou encaram os seus percursos de vida. Em muitos casos alimenta-se uma ideia positiva pelo facto de se ter nascido indivíduo do sexo masculino e outra negativa pelo facto de se ser do sexo feminino. A desigualdade de oportunidades entre rapazes e raparigas verifica-se até no acesso das crianças à escola. Por exemplo, em 2014, constatou-se que “39.9% das meninas com 6 ou mais anos de idade frequenta[va]m a escola, contra 45.2% dos meninos. Esta proporção e[ra] mais baixa a nível rural, aonde apenas 37% das meninas frequenta[va]m a escola” (MED, 2015:27). Este aspecto representa um dos vários exemplos de diferenciação, com base no sexo, ainda prevalecentes na sociedade angolana, razão pela qual consta entre os desafios das autoridades educativas do país para a sua reversão.

De facto, desde tenra idade o sexo do indivíduo condiciona todo o conjunto de processos de socialização que começa no seio familiar e se estende para o resto da sociedade. À semelhança do que ocorre um pouco pela África e outros pontos do mundo

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com grandes desafios educativos, são relativamente acentuadas as assimetrias entre homens e mulheres no acesso às oportunidades sociais e económicas diversas.

No entanto, como refere Silva (2011), "a urbanização das sociedades africanas tem contribuído para a construção de uma nova visão da mulher associada à sua capacidade de participar socialmente e de gerar rendimentos". Nos centros urbanos, tende a esbater-se a convicção segregadora. Para isso, tem contribuído o convívio entre jovens ou indivíduos de diferentes sexos e estratos sociais, aliado à escolarização massiva e universal, ao enorme fluxo de informação e outras valias proporcionadas pela modernização e globalização.

Mais do que em meios rurais, onde o papel da mulher é normalmente subalterno ao homem, nas cidades tende-se a alterar a dita realidade sociocultural. Aqui, têm sido igualmente fundamentais as acções sociais e educativas de promoção da igualdade de género levadas a cabo pelas escolas, meios de comunicação social, associações cívicas, igrejas e entidades políticas, o que tem despertado as famílias e os jovens no sentido de cultivarem uma mentalidade mais horizontal nas relações entre homens e mulheres.

Em suma, as vivências e experiências juvenis revelam uma diversidade interna de uma categoria social aparentemente considerada homogénea. Temos assim várias juventudes, embora concentradas em limites etários que os inclui recorrentemente em um único grupo geracional. A realidade angolana demonstra esta segmentação dos jovens, consubstanciada na heterogeneidade dos percursos de vida dos sujeitos. Independentemente das experiências mais ou menos comuns, os indivíduos têm vivenciado ao longo de sua trajectória episódios singulares que reforçam a sua individualização no grupo de pares. Temos várias juventudes angolanas, marcadas pelo conflito armado, mas também pelas oportunidades proporcionadas pelo ambiente de paz no país. Juventudes estas que tendem a contrapor os sinais de desigualdade ainda prevalecentes na sociedade e enfrentar os desafios educativos que se impõem para um país em progresso.

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CAPÍTULO II