A emergência dos media em Angola é parte integrante de um amplo movimento que ditou o surgimento dos meios de comunicação modernos em outros pontos de África. Tal movimento esteve ligado ao expansionismo europeu que, em finais do século XIX, conheceu uma nova fase, a fase da colonização efectiva do continente negro. Foi na sequência do processo colonial promovido pela Grã-Bretanha, França, Portugal, Alemanha, Itália, Bélgica e Espanha que surgiram, em distintos pontos do território africano, os primeiros media impressos.
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A trajectória dos media em Angola tem início em meados do século XIX, ligada ao surgimento da imprensa no território e noutros domínios coloniais em África. Estudos referem que a publicação da primeira edição do Boletim Oficial do Governo-Geral da Província de Angola, a 13 de Setembro de 1845, em Luanda, constituiu o marco inicial da actividade de imprensa oficial na colónia.
A partir dessa altura, o Boletim Oficial tornou-se o único órgão de comunicação social da colónia. Foi através deste órgão que "o então governo colonial difundia as actividades correntes da colónia, despachos legais, assuntos do clero religioso, teatro e outras" (Vunge, 2006:24). À semelhança do que acontecia em outros pontos do continente, era uma publicação elitista voltada, sobretudo, para os estratos sociais de origem europeia. As disposições legais, notícias e anúncios difundidos eram muitas vezes exteriorizados sob forma de prosa literária, versos ou ideais sonhados, segundo Hohlfeldt e Carvalho (2012:92). Era deste modo que as populações tomavam conhecimento dos assuntos correntes da colónia, eram mobilizadas para actividades diversas e se promovia o seu entretenimento. Com o decorrer do tempo, surgiram outras publicações impressas livres da tutela governamental, num percurso que testemunhou igualmente o surgimento da rádio, do cinema, da televisão e de outros media, a partir de meados do século XX.
Imprensa escrita
Os anos que se seguiram à primeira edição do Boletim Oficial do então Governo- Geral da Província de Angola foram profícuos em relação ao surgimento de diversos periódicos na colónia. Os mesmos veiculavam essencialmente assuntos de natureza cultural, administrativa, comercial e industrial. O Aurora (1856) foi “o primeiro jornal privado editado em Angola” (Carvalho & Silva, 2007:7). Outras publicações surgiram, abrindo-se um intenso período da denominada «imprensa livre», com teor literário, impulsionada por alguns intelectuais da época. É assim que surgiram uma série de títulos tais como A Civilização da África Portuguesa (1866), O Comércio de Luanda (1867), o Mercantil (1870), o Cruzeiro do Sul (1873), Jornal de Luanda (1878), O Mukuarimi (1888), Echo de Angola (1881), O Futuro de Angola (1882), O Farol do Povo (1883), O Serão (1886), O Arauto Africano (1889), o Muen'exi (1889), O Desastre (1889) e O Polícia
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Africano (1890). Estes foram, como refere Carlos Everdosa, citado por Vunge (2006), apenas alguns periódicos entre um total de 46 títulos dessa época.
A profissionalização da imprensa escrita deu-se apenas no princípio do século XX. A publicação, em 1912, do Jornal de Benguela e, mais tarde, a 16 de Agosto de 1923, do jornal A Província de Angola, inaugurou este período mediático profissional e industrial. Encabeçaram este empreendimento Manuel de Mesquita e Adolfo Pina, respectivamente.
Apenas no segundo trimestre de 1957 se iniciou a produção de um jornal de actualidades na colónia (Carvalho & Silva, 2007). Até ao declinar do período colonial contavam-se dezenas de periódicos, alguns dos quais especializados) entre diários, semanários, bissemanários e trissemanários, em distintos pontos do território. Entre os títulos relevantes destacam-se "O Comércio de Angola, A Pátria, Comércio de Benguela, Diário de Luanda, Kuanza-Sul, O Lobito, Notícias de Luanda, O Comércio, Angolana, Desportine, Angola Desportiva, O Estudante, O Standarte, Cultura, Mensagem, O Apostolado, O Planalto, Notícias da Huíla, A Tribuna, Jornal da Criança, Notícias do Bié, A Voz do Empregado, as revistas Notícia, Arte & Cultura, Noite & Dia, Miau, Prisma, Semana Ilustrada, Revista de Angola, Trópico, Actualidade Económica, etc." (Vunge, 2006:27).
Muitos dos periódicos atrás citados tiveram curto tempo de vigência. Outros desapareceram com o fim do colonialismo. Perduraram fundamentalmente dois títulos, designadamente o Boletim Oficial e o jornal A Província de Angola que, com a conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, as novas autoridades do país transformaram, respectivamente, em Diário da República e Jornal de Angola.
Rádio
Na obra História e estórias da Informação em Angola, de Sebastião Coelho, refere- se que o radiojornalismo em Angola teve início a 28 de Fevereiro de 1931. Foi nessa altura que Álvaro Nunes de Carvalho efectuou a primeira emissão de rádio, em Benguela, no seu CR6-AA. Foi uma iniciativa local que tornou o radioamador da cidade do Lobito em pai da radiodifusão angolana. Apenas em 1933 surgiria, de facto, a Rádio Club de Benguela
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(Vunge, 2006:27), mas com emissões limitadas por falta de autorização oficial das autoridades. Apesar disso, as suas emissões inspiraram iniciativas subsequentes em outros pontos da então colónia de Angola, tendo resultado no surgimento de várias rádios clubes.
A cidade de Luanda acabou por acolher a primeira estação de rádio oficialmente autorizada pelas autoridades. Tratou-se da Rádio Clube de Angola criado em 1937 na capital da colónia. Tal obra resultou de uma série de experiências que um grupo de entusiastas, encabeçados por Albuquerque e Castro, levou a acabo para a difusão do sinal sonoro através de emissores de baixa potência e de curto raio de cobertura. Com o decorrer dos anos, as novas aquisições técnicas permitiram, progressivamente aumentar a área de irradiação do sinal sonoro à cidade-capital da colónia.
Nas décadas dos anos 30 e 40 do século XX, a cidade do Lobito representava um dos principais pólos urbanos e industriais da colónia. Nela floresciam fortes interesses económicos sobretudo impulsionados pelo Caminho-de-Ferro de Benguela e do Porto Comercial do Lobito, em fase inicial do seu funcionamento. Por essa razão, não tardou para, em 1938, conhecer também a abertura da Rádio Club do Sul de Angola, mais tarde denominada apenas por Rádio Club do Lobito. Neste mesmo ano de 1938, a Rádio Club de Benguela viu a sua actividade oficialmente autorizada.
Outras emissoras de rádio surgiram em outras cidades e localidades. De acordo com os Apontamentos para a história da Radiodifusão de Angola, publicados na Internet (http.//www.oocities.org/dpmonteiro/radioangolahistoria.htm), por Pereira Monteiro, foram ainda criados o Rádio Clube da Huíla (1939), o Rádio Clube do Huambo (1943), o Rádio Clube de Malanje (1944), Rádio Clube de Moçamedes (1945), Rádio Diamang (1946), o Rádio Clube do Bié (1947), o Rádio Clube do Cuanza Sul (1949), o Rádio Clube do Moxico (1953), a Rádio Ecclesia - Emissora Católica de Angola (1954), o Rádio Clube do Congo (1958) (mais tarde designado de Rádio Clube do Uige), o Rádio Clube de Cabinda (1958), a Rádio Comercial de Angola (1962) e a emissora A Voz de Luanda (1964).
Até 1950 não havia uma estação de radiodifusão oficial. Segundo Pereira Monteiro, os noticiários oficiais eram assegurados pelo Rádio Clube de Luanda que os introduzia na sua programação, cujo conteúdo era essencialmente "propagandístico mais do que
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educativo ou informativo"14. As emissões oficiais de rádio só em 1951 teriam lugar, mas funcionando em regime experimental nos fins-de-semana. As diligências para o efeito foram viabilizadas com a criação de um Gabinete de Radiodifusão, afecto à Direcção dos Serviços de Correios, Telégrafos e Telefones. Só dois anos depois, em 1953, as referidas emissões do Serviço Oficial de Radiodifusão se tornaram regulares, funcionando num edifício adaptado para o efeito.
Surgia desse modo a Rádio Angola, emissora oficial do então Governo Colonial. Com a inauguração, em duas fases (1964 e 1968) das instalações do Centro Emissor de Munlevos, em Luanda, os seus serviços viram-se mais acomodados e melhorados. Naquele mesmo ano de 1968, a emissora seria reforçada com surgimento de um novo serviço (A Voz de Angola) dirigido fundamentalmente à população autóctone.
Até à fase terminal do colonialismo, contavam-se 19 estações de rádio registadas em Angola. De modo geral, veiculavam as mais diversas matérias da vida política, social, económica, cultural, desportiva e religiosa da colónia. Com excepção da emissora A Voz de Luanda, essencialmente urbana e local, todas tinham uma difusão nacional e até internacional. Com a proclamação da Independência de Angola, em 1975, o quadro no sector da radiodifusão conheceu mudanças. A Rádio de Angola continuou a ser a Emissora Oficial do novo Estado, mas com a denominação de Rádio Nacional de Angola (RNA).
Cinema
Em relação ao percurso do cinema em Angola, escreveu-se igualmente pouco (Bastos Cruz, 2012). Alguns trabalhos a destacar neste domínio pertencem a José Mena Abrantes (1986), Manuel Seabra Fonseca (1987), Ruy Duarte Carvalho (1997), José de Matos-Cruz (2002) e, recentemente, Paula Faccini de Bastos Cruz (2012), Maria do Carmo Piçarra (2013), Charles Douglas Martins (2014), J. C. Ramos (2015) e Teresa Caçador Morais Sarmento de Melo (2015). São livros, capítulos de livros, artigos e dissertações ou teses académicas que, na generalidade, se debruçam sobre a evolução da produção cinematográfica no país e no espaço lusófono e das implicações identitárias que tal produção envolve.
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As questões inerentes à recepção ou usos do cinema pelos cidadãos estão pouco reflectidas nas referidas obras. Ou seja, quase não abordam os hábitos de consumo cinematográfico, particularmente a frequência às salas de exibição da sétima arte e/ou preferências por diversos conteúdos audiovisuais que, em última análise, mais se ajustam à perspectiva do presente estudo.
De qualquer modo, vamos nos apoiar um pouco no artigo de Paula Faccini de Bastos Cruz (2012) e nas dissertações de Charles Douglas Martins (2014) e Teresa C. M. Sarmento de Melo (2015), para tentarmos esboçar alguns aspectos da evolução do cinema em Angola. Em termos de produção cinematográfica, estes e outros trabalhos apontam 1913 como o ano inaugural do cinema angolano, data em que foi filmada a peça documental “O Caminho de Ferro de Benguela, de Artur Pereira” que “acompanhou a construção da estrada de ferro de Benguela pelos ingleses” (Martins, 2014:22). Segundo Martins (2014), o registo deste filme perdeu-se no tempo. Apenas em 1920 as autoridades coloniais procederiam ao financiamento de «missões cinematográficas», apoiadas pelo Ministério da Guerra e pela Empresa Internacional de Cinematografia, do qual resultaram a produção de documentários sobre a economia, geografia, recursos minerais e socioculturais das populações locais.
A década de 40 do século XX serviu de impulso para produções cinematográficas mais regulares. A instalação na então Nova Lisboa (actual Huambo), entre 1943 e 1945, do primeiro laboratório de revelação de filmes conferiu um novo fôlego ao cinema em Angola. Anos mais tarde, esta iniciativa deu lugar ao cinema industrial quando a Cimangola, em Luanda, arrancou a 6 de Novembro de 1969 com a implantação da fase inicial de um laboratório para revelação e sonorização de filmes.
Deste modo, de 1940 a 1974, produziram-se filmes e documentários diversos, tais como «O Feitiço do Império», «Terras do Planalto»; «Protecção ao Indígena»; «A voz do Sangue»; «29 irmãos», «Capitão Singrid», «Mudar de Vida», «Operação Dinamite», «O Amor Desceu em Pára-Quedas», «Um Italiano em Angola», «O Romance do Luachimo. Lunda, Terra de Diamantes», «Angola na Guerra e no Progresso», «Esplendor Selvagem», entre outros projecto que, invariavelmente, denotavam a ideologia colonial da época,
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elevando a figura do “civilizador” e diminuindo a figura do autóctone (Martins, 2014:23- 30). A respeito disto, Paula de Bastos Cruz escreveu:
Os pequenos filmes que mostravam o comportamento dos nativos em seu „habitat‟ tinham o mesmo objectivo e eram construídos da mesma forma que as fotografias do período feitas dos negros: o ângulo, a postura, a própria interferência do observador constrangendo o observado levavam „a condução de uma imagem pré-concebida‟, que buscava demonstrar a inferioridade dos negros, ou qualidades que justificavam sua dominação, sua utilização como mão-de-obra escrava ou sub-remunerada. Assim, o que vemos é mais o olhar do fotógrafo sobre o retratado, do que o retratado propriamente dito (Bastos Cruz, 2012).
Já na crise do colonialismo, em que subia de tom a contestação à presença portuguesa em Angola, foram igualmente produzidos dois destacados filmes, o Monangambeé (1971) e Sambizanga (1972), de Sarah Moldoror. Filmados na Argélia, as obras foram inspiradas pela obra literária de Luandino Vieira, um ex-preso político e combatente do MPLA. A primeira narrativa “conta com a participação de militantes do partido e explora a incompreensão da sociedade africana por parte dos portugueses” (Martins, 2014:30), enquanto a segunda “explora a questão de género, mostrando como as mulheres foram importantes na luta armada da libertação nacional” (Idem, p. 31).
Estas últimas narrativas representaram, portanto, um tipo de cinema de intervenção anti-colonial, inscritas num contexto de luta pela independência nacional alcançada a 11 de Novembro de 1975.
Televisão
A génese da televisão em Angola data da segunda metade do século XX, precisamente, em 1962, quando em Nova Lisboa (actual Huambo) o Rádio Clube local efectuou a primeira emissão de imagens. A experiência foi repetida dois anos mais tarde em Benguela, a 8 de Janeiro de 1964, pelo Rádio Clube local. A iniciativa teve lugar em circuito fechado pelos cunhos de António Freire e Franklim Barbosa.
Em 1969, "é criada em Portugal uma comissão encarregue da instalação de emissores de televisão nas então colónias portuguesas de África" (Vunge, 2006:78). A 22 de Junho de 1970, um técnico da Lusolanda emitiu a partir de um estúdio montado na boîte Tamar, na Ilha de Luanda, um programa radiofónico denominado «Café da
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Noite». Este facto inaugurou “a primeira emissão de televisão por cabo” (Carvalho & Silva, 2007:25) em Angola.
Seguiram-se outras tentativas. Em 1971, foi a vez de em Malanje se repetir o feito. Houve igualmente tentativas para a implantação da Televisão Comercial, no Huambo, e da Televisão de Angola (TVA), em Luanda (1972). Porém, a autorização oficial do governo português para exploração dos serviços de televisão em Angola ocorreu apenas a 27 de Junho de 1973. Na mesma data, procedeu-se à constituição da Radiotelevisão Portuguesa de Angola (RPA). Consolidou-se a criação da Televisão Comercial de Angola, com cobertura parcial da cidade de Luanda (Coelho, 1999:146). A emissão oficial de televisão teve lugar precisamente a 18 de Outubro de 1975. Um mês depois o país ascendeu à independência nacional e, à semelhança de outros órgãos de comunicação social, a emissora televisiva passou igualmente a ser controlada pelas novas autoridades do país.
Agências de notícias
Na década de 60 do século XX, testemunhou-se a criação de uma agência de notícias. Na primeira fase, foi estabelecido nos Correios, Telegramas e Telefones (C.T.T.) um serviço com o nome Angola Press que, segundo Joaquim Paulo da Conceição “teve funcionamento precário e distribuição irregular e gratuita de telegramas noticiosos” (Conceição, 2005:38).
No princípio da década de 1970, foi concedido um alvará a uma agência de publicidade então denominada Rádio Press. Esta serviu de base para a criação da agência angolana de notícias. No histórico disponível na sua página online15, consta que:
A empresa foi criada em Julho de 1975 sob a designação de Agência Nacional Angola Press (ANAP). Nessa altura, os seus trabalhos eram distribuídos sob a forma de boletim. Em Outubro do mesmo ano, a ANGOP adopta a sua actual e definitiva denominação, Agência Angola Press, sob proposta do então Presidente da República, António Agostinho Neto, e lança, no dia 30 daquele mês, o primeiro despacho com a nova sigla. (ANGOP, 2000-2013)
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Ao abrigo da Lei n.º 9/75 de 15 de Setembro de 1975, a agência passou a gozar de autonomia e independência editorial. Entretanto, o lançamento da sua nova sigla apenas teve lugar a 2 de Dezembro de 1975, vinte e um dias depois da proclamação da independência nacional, a 11 de Novembro do mesmo ano. A partir dessa data, passou a designar-se Agência Angola Press, com a sigla ANGOP, cujos serviços públicos iriam notabilizar-se nos anos subsequentes.