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RESULTATER OG DISKUSJON 1 Prøveproduksjon

In document RAPPORTER 1998 (sider 83-87)

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3. RESULTATER OG DISKUSJON 1 Prøveproduksjon

A retomada do tom ricoeuriano das análises será facilitada se partirmos de suas reflexões sobre o reconhecimento da responsabilidade, desenvolvidas na segunda parte de

Parcours de la reconnaissance. Este texto é particularmente adequado, pois Ricoeur está

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realizando, ele mesmo, uma retomada da herança grega para a definição do conceito de reconhecimento e, para isso, analisa o conceito de phrónesis desenvolvido por Aristóteles.

O primeiro ponto que Ricoeur destaca sobre a relação entre phrónesis e

phrónimos parte da seguinte definição de Aristóteles: “segundo o que dissemos, a virtude é um estado habitual que dirige a decisão [hexis proairetike] que consiste em um justo meio relativo a nós, cuja norma é a regra moral, isto é, a mesma que lhe daria o sábio [phrónimos]”.55

A observação que Ricoeur faz sobre esta passagem não poderia ser mais pertinente para marcar a importância de uma reflexão sobre o phrónimos:

Dans ce texte capital, ce n’est pas seulement le rapprochement entre état habituel (hexis) et décision (prohairesis) qui est remarquable, mais la référence de la norme au sage en tant que porteur de cette sagesse de jugement auquel le livre VI sera consacré au titre de la phronèsis: le phrónimos est l’agent singulier de cette vertu intellectuelle qui surgit au point brûlant de la distinction entre les vertus dites du caractère auxquelles les livres suivants sont consacrés, et les vertus intellectuelles, qui font l’objet du Livre VI. Le

phrónimos, nommé dès le Livre II, sera la figure anticipée de ce soi réflexif impliqué par la reconnaissance de responsabilité. On ne dit certes pas qu’il se désigne lui-même: mais la définition complète de la vertu le désigne comme la mesure vivante de l’excès et du défaut, cette ligne de partage qui délimite le juste milieu caractéristique de toute vertu.56

Além do destaque explícito de Ricoeur sobre a ligação entre a virtude e o virtuoso, a definição do phrónimos como “medida viva” da virtude é especialmente significativa para sustentar uma análise da sabedoria prática centrada no phrónimos. Ele é pessoalmente a medida para o reconhecimento da própria virtude. A resposta para a pergunta sobre qual o critério para se chegar à sabedoria prática deve ser dada por uma reflexão sobre o detentor de tal virtude. Sendo assim, nada parece mais justificável para uma reflexão sobre o caminho de efetuação da sabedoria prática do que a busca de subsídios para o reconhecimento do phrónimos mediante o conceito de identidade

phronética que será desenvolvido a seguir.

Em sua pesquisa sobre a relação do agir ao agente, e na busca da “aparição” do sujeito da ação sensata, Ricoeur oferece, ainda citando Aristóteles, um comentário

55 ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, op. cit., 1106b, p. 36-38.

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complementar sobre a importância do phrónimos para a análise da sabedoria prática: “Le trait de la sagesse qui intéresse au plus haut point notre investigation concerne l’implication du phrónimos dans la phronèsis: le meilleur moyen de saisir ce qu’est la sagesse c’est de regarder quelle est la qualité que le langage attribue au

phrónimos’(1140a 24)”.57

Esta citação da Ética a Nicômaco destacada por Ricoeur inclui dois pontos fundamentais para a análise que se seguirá. Em primeiro lugar, ela indica um caminho para resolver uma inquietação que deve afligir todo leitor da ética aristotélica: mas, afinal, como chegar à sabedoria prática? Em segundo lugar, ela acrescenta uma referência à linguagem para o reconhecimento das qualidades do phrónimos, que caracterizam a sabedoria prática. Esta dupla referência à linguagem e à pessoa não parece quase conduzir o leitor de Ricoeur ao conceito de identidade narrativa? Não seria a narrativa uma forma privilegiada para o reconhecimento dos atributos próprios do phrónimos? Esta é a possibilidade que será investigada pela aplicação do modelo da identidade narrativa para a busca das qualidades que a linguagem atribui ao phrónimos.

É importante tratar por fim da polissemia do conceito phrónimos. Em vários pontos do texto o phrónimos aparecerá ligado à perspectiva mais geral da pessoa dotada da virtude dianoética da saberia prática que é capaz de deliberar bem sobre os meios e fins para que o ideal da vida boa em geral seja realizado na comunidade em que participa. Em outros pontos, a figura do phrónimos estará associada a domínios específicos das decisões em situação, como o domínio jurídico, o médico, o parental, o empresarial.

Uma forma de conciliar essa polissemia para que o estudo em torno do conceito mantenha sua coesão é analisá-lo a partir da distinção que Ricoeur faz entre ética fundamental e as éticas regionais em seu artigo “Da moral à ética e às éticas”.58 A aplicação da sabedoria prática se desenrola nesses dois níveis e eles são a chave de interpretação para a polissemia da atividade phronética e, portanto, da própria figura do

phrónimos.

No primeiro nível da ética fundamental que foi tratado de maneira mais

57 Ibidem, p. 134.

58 RICOEUR, P. Da moral à ética e às éticas. In: _____. O Justo 2. São Paulo: Martins Fontes, 2008. Um especial agradecimento ao professor Jean-Luc Amalric, que nos sugeriu essa esclarecedora abordagem.

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organizada por Aristóteles na Ética a Nicômaco, a sabedoria prática é a virtude dianoética que trata do desejo humano como um todo. Ela trata da realização de escolhas preferenciais (proaíresis) que sejam de acordo com a reta razão. O que está em jogo, portanto, é todo o campo desiderativo humano.

Quanto ao seu objeto, a sabedoria prática nesse nível da ética fundamental trata do ideal da vida boa. Não mais deste ou aquele objetivo ligado a uma dimensão particular da vida humana, mas no conjunto mesmo da vida humana e da realização de uma existência que seja considerada boa. O conceito que permite essa visibilidade do todo da vida a partir de aspectos particulares é, segundo Ricoeur, o conceito de tarefa (ergon) conforme propõe Aristóteles: “a tarefa de ser homem extravasa e envolve todas as tarefas parciais que configuram como boa cada prática”.59

A sabedoria prática no âmbito da ética fundamental é ligada ao campo total do desejo humano que é orientado pela reta razão para a realização plena da tarefa do homem que é uma vida realizada. Essa visão abrangente da ética fundamental demanda, entretanto, a tomada de decisões em contextos específicos, em dimensões particulares do agir humano. Tal demanda conduz à atuação da sabedoria prática para o âmbito das éticas regionais. Vejamos como Ricoeur propõe esse vínculo:

O exercício dessa virtude [a phrónesis, prudência na tradução latina mais comum] é inseparável da qualidade do homem de sabedoria – o phrónimos – o homem atilado. Entre a prudência e as ‘coisas singulares’ o elo é estreito. É então nas éticas aplicadas que a virtude da prudência pode ser submetida à prova prática (...). Gostaria de propor dois exemplos – um extraído da ordem médica, outro da ordem jurídica – de tal reelaboração da sabedoria prática em éticas regionais. Cada uma dessas éticas é aplicada a suas regras próprias, mas seu parentesco fronético, se me permitem a expressão, conserva notável analogia formal entre elas, no nível da formação do juízo e da tomada de decisão.60

Ricoeur prossegue então mostrando como nesses dois exemplos das ordens médica e jurídica os traços da sabedoria prática “fundamental” aparecem. Ele destaca de forma especial que a ordem jurídica lança luz a um aspecto da ética fundamental que é o querer viver bem em instituições justas. A busca da boa deliberação jurídica aponta para a intenção ética primeira da busca da vida boa.

59 RICOEUR, Da moral à ética e às éticas, op. cit., p. 54. 60 Ibidem, p. 60.

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A sabedoria prática aplicada na ordem médica destaca ainda outro aspecto da sabedoria prática “fundamental”, esse ligado ao cuidado com o outro que sofre. Ricoeur utiliza o belo nome de solicitude para essa relação com o outro que caracteriza a sabedoria prática e, portanto, a ação do phrónimos como veremos mais extensivamente na seção sobre a formação phronética.

Enfim, o que gostaríamos de destacar com essas reflexões de Ricoeur é que a polissemia do termo phrónimos está ancorada nessa intrínseca relação entre a ética fundamental e as éticas regionais. Relação que é permeada por níveis de atuação complementares da sabedoria prática e, portanto, do phrónimos.

50 CAPÍTULO 2

IDENTIDADE PHRONÉTICA: O MOMENTO DA FORMAÇÃO

Antes de passarmos à consideração da identidade narrativa como ponto de partida para a identidade phronética, parece importante comentar algo sobre o sentido da palavra formação no contexto desta seção. Em verdade, parece ainda mais importante dizer os possíveis sentidos que não devem ser considerados nesse contexto, haja vista as possibilidades contraditórias que desvirtuariam a intenção principal do texto.

Em primeiro lugar, formação se refere à relação do si mesmo com as ações realizadas e sofridas que deixam marcas reconhecíveis a posteriori no si mesmo. Nesse sentido, essa relação não implica um término. Ao contrário, ela aponta para a continuidade da formação da identidade phronética, uma vez que essa relação estará sempre presente ao longo de toda a existência do si mesmo.

Em contraposição, deve ficar claro que o conceito de formação considerado nesse contexto não implica de forma alguma um processo que, em seu término, redunde em um “produto” ou um “ser” formado. Essa seria uma visão de que ao término do processo de formação teríamos um phrónimos pronto para exercer sua função de bom deliberador. Essa visão cristalizada do phrónimos após um processo delimitado de formação não condiz com a intenção deste estudo.

Em segundo lugar, a rejeição de delimitação do processo de formação implica a continuidade do processo de formação do phrónimos. Conforme será sugerido adiante, um dos traços pelos quais o phrónimos pode ser reconhecido é, justamente, sua abertura a novas possibilidades existenciais e, portanto, sua abertura à formação ou reformação.

Em terceiro lugar, esse conceito de formação implica algo que poderia ser entendido como uma fragilidade da identidade phronética. Ela nunca está dada, nunca está pronta, nunca é plenamente conquistada definitivamente pelo si mesmo. A formação é um processo de aproximação assintótica à identidade phronética.

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