Os dois primeiros momentos miméticos, e sua possível relação com a formação da identidade phronética, despertam a atenção de quem os acompanha para a questão do papel do autor. Qual a relação entre o autor de uma narrativa que participa de um processo da formação de identidade phronética e o phrónimos? É o autor sempre
phrónimos? Se ele não o é, como é possível a transmissão da sabedoria prática mediante das obras que ele escreve?
Essas questões parecem nascer com o próprio conceito de sabedoria prática. A reflexão sobre a phrónesis é, antes de tudo, fruto da tragédia grega. Como defende Aubenque100, o conceito incorporado e sistematizado por Aristóteles está mais ligado à tradição popular capturada sob a forma das grandes tragédias, que pela tradição filosófica imediatamente anterior a Aristóteles, representada por uma noção mais idealizada e “intelectualizada” do conceito, conforme desenvolvido por Platão em seus diálogos. Como se deve, portanto, pensar o papel de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes nesse processo de transmissão da sabedoria prática?
Convém igualmente lembrar que Ricoeur101 também se apoia nessa tradição
trágica do conceito de sabedoria prática para realizar a transição da solução insuficiente, embora necessária, apresentada pelo formalismo kantiano, para a retomada da visão teleológica através da sabedoria prática crítica. É do “trágico” da ação que nasce ou renasce a sabedoria prática no edifício conceitual ricoeuriano.
Uma forma de abordar a questão sobre a relação do autor com o phrónimos seria pela identificação necessária entre os dois papéis. Ou seja, só é possível pensar que a sabedoria prática seja transmitida através das narrativas porque elas são escritas por pessoas que a possuem.
100 Cf. AUBENQUE, op. cit.
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Outra possibilidade seria pensar em um desvinculamento entre a capacidade de perceber a sabedoria prática e a capacidade de agir conforme a sabedoria prática. O fato de Sófocles conseguir capturar de forma magistral um aspecto próprio da pessoa dotada de sabedoria prática não faria dele mesmo um phrónimos. Esta opção parece privilegiar a separação entre conhecer o bem e agir bem, conforme a célebre distinção aristotélica.
Nessa linha de separação dos papéis, talvez seja possível pensar na figura do autor como um descritor tão preciso dos aspectos fundamentais da prática de ações conformes com a sabedoria prática que ela se tornaria acessível para o leitor. Pode-se pensar também que o autor seria capaz de configurar a trama de tal forma que a fizesse propícia para o trabalho a posteriori, como veremos no momento da refiguração pelo próprio leitor que está no processo de formação de sua identidade phronética.
Essa parece ser uma das sugestões que Walter Benjamin faz em seus textos “O Narrador” e “A crise do romance”. A impossibilidade da transmissão da sabedoria através do conselho é uma das características mais acentuadas por Benjamin com relação ao processo de desgaste do romance no começo do século XX. Logo no início de “A crise do romance”, essa impossibilidade é caracterizada a partir da atitude do romancista da seguinte forma:
Ele [o romancista] é o mudo, o solitário. O homem épico limita-se a repousar. No poema épico, o povo repousa, depois do dia de trabalho: escuta, sonha e colhe. O romancista se separou do povo e do que ele faz. A matriz do romance é o indivíduo em sua solidão, o homem que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações, a quem ninguém pode dar conselhos, e que não sabe dar conselhos a ninguém.102
Quando Benjamin retoma esta discussão no capítulo 4 de “O Narrador”, quatro conceitos estão em jogo: a narração, o conselho, a sabedoria e a experiência. A ligação entre eles parece apontar para o núcleo da crise. O narrador é aquele que dá conselho e o conselho, por sua vez, é uma transmissão de experiência. A sabedoria se relaciona aos demais através do conselho, pois ela é o “conselho tecido na substância viva da existência”.103 A incapacidade de transmitir a sabedoria tem sua raiz, portanto, na
102 BENJAMIN, W. A crise do romance. In: ___ . Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet.São Paulo: Brasiliense, 1996. p. 54.
103 BENJAMIN, W. O narrador. In: Textos Escolhidos. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Abril Cultural, 1980. cap. 4.
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incapacidade de transmitir experiências, uma vez que isso exige do narrador ter experiências ou tê-las recebido de seus interlocutores para com isso “alimentar” seus leitores com novas experiências através dos conselhos que se manifestam primordialmente não como respostas, mas como indicações de possibilidades para a continuação de uma história. No movimento romântico, o enclausuramento do herói em sua interioridade o fecha para a experiência e para a aquisição da experiência através da oralidade. O romance rompe com a possibilidade do conselho e deixa o leitor a sós consigo mesmo, sem herança existencial recebida da leitura do texto.
Segundo Benjamin, outra característica fundamental do relato épico que o faz apto à transmissibilidade é que a forma de suas histórias é aberta, sem conclusão, sem “moral da estória” e isto deixa espaço para a aquisição da sabedoria por parte do leitor. A possibilidade da transmissão da sabedoria está igualmente relacionada com a capacidade de lembrar-se do narrador, ligada ao povo que se reúne em torno de uma fogueira para ouvir as estórias dos antepassados. No item 13 de “O Narrador”, Benjamin aponta para a memória como a mais épica de todas as faculdades. Contar é contar tudo, contar a vida como ela é, contar todos os seus detalhes, porque a cada momento todas as possibilidades da história da vida estão em jogo e, mais do que isso, estão “disponíveis” para que a audiência possa apoderar-se delas. Alfred Döblin em Berlin AlexanderPlatz, por exemplo, se utiliza desta técnica de forma tão intensa que por vezes o leitor se sente perdido pela quantidade de lembranças e de detalhes que se interconectam e que vão, como o próprio processo de lembrança, desenvolvendo associações que levam a descrição a divergir completamente de uma pretensa linha artificial que guiaria a trama. Outra faceta da transmissibilidade está no papel que o autor/narrador assume em relação à realidade. Ele não está tentando solucionar um problema entregando pronta a organização do texto para o leitor, oferecendo sua visão sinótica e já analisada através de suas reflexões. O narrador dá um passo atrás e busca apresentar os eventos quase se calando para que eles ocupem o protagonismo e mesmo dirijam o fluxo da cena.
A seguir o comentário de Benjamin sobre este papel:
Tão densa é essa montagem que o autor, esmagado por ela, mal consegue tomar a palavra. Ele reservou para si a organização dos capítulos, estruturados no estilo das narrações populares; quanto ao resto, não tem pressa em fazer-se ouvir. Ele terá, mais
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tarde, o que dizer. É surpreendente por quanto tempo ele acompanha seus personagens, sem correr o risco de fazê-los falar.104
Este percurso pela crise do Romance apresentada por Benjamin interessa especialmente por apontar para a possibilidade de pensar em atributos do autor que permitirão a transmissão de uma sabedoria através do texto narrado, sem que este seja necessariamente tomado como, ele mesmo, o phrónimos.
Entretanto, uma pergunta que ainda persiste após essa análise da relação entre os papéis do autor e do phrónimos é que se, por um lado, parece razoável conceber o autor não-phrónimos, seria possível pensar em um phrónimos que não tivesse as características que foram elencadas para o autor capaz de transmitir a sabedoria prática? Tomando apenas os exemplos a partir da análise de Benjamin: abertura para possibilidade, experiência de vida, memória, não seriam todos eles atributos também presentes na identidade phronética?
Parece razoável atribuir consistentemente os atributos do “bom” narrador ao
phrónimos. Parece também consistente com a tradição aristotélica, pois o critério mesmo da aquisição da phrónesis implica a capacidade de transmissão da sabedoria prática a partir do phrónimos.
O limite da aproximação seria apenas a eventual exigência de o narrador gerar necessariamente textos narrados. Ao longo de toda essa exposição procuramos mostrar como o processo de formação phronética acontece com textos “falados” ou vividos. E isso parece ser o caso da intenção de Benjamin ao lembrar o tipo de narrador que contava suas histórias no final do dia para a audiência que o acompanhava ao descansar da labuta cotidiana. Esse tipo de experiência narrativa falada e vivenciada, que sugere à audiência modelos de identidade pessoal para sua própria refiguração, é um dos pontos importantes para a compreensão da identidade phronética.
A crítica de Benjamin com relação à crise da experiência de transmissão narrativa pode ser atualizada no contexto da formação da identidade phronética nas sociedades contemporâneas. O domínio de um estilo frenético de atividades e os meios tecnológicos individualizantes tornam essa experiência de transmissão da sabedoria prática através da narrativa oral quase extinta nas sociedades capitalistas ocidentais. Não avançaremos mais
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nessa direção crítica para nos mantermos no foco principal da descrição dos possíveis aspectos da formação da identidade phronética e manteremos dessa discussão a bela e, talvez, utópica visão considerando a sociedade atual, dessa possibilidade de aproximação entre o phrónimos e o narrador nos relatos narrativos orais.