• No results found

O conteúdo do Tapete mágico da Tia Lúcia se baseava em aspectos da geografia, da história e da cultura de diversos países. A cada programa um país era escolhido como tema: México, Uruguai, Japão entre outros. Inicialmente havia informações da geografia do país, como a localização, extensão e população. Em um segundo momento, procedia-se à descrição das principais cidades deste país, a partir da qual eram abordadas a história e os hábitos culturais daquele povo. Ao estudar a China, o programa anunciava:

Atenção! Um, dois e ... três! – Já estamos em Pequim. Esta cidade está situada perto do rio Pei-ho, em cujas margens fica o porto de Tientsin. Possue mais de um milhão de habitantes e se compõe de duas cidades bem distintas: a exterior, onde se efetuam as transações, e a interior ou cidades Mandchui-tártara, onde se encontram as embaixadas estrangeiras.

Vamos desembarcar. É esta uma cidade da China. Que é que você está dizendo, Dulce? Que as ruas se assemlham a túneis, que são muito escuras? (LABARTHE, 1937,p.20).

No livro, não há informações sobre a bibliografia consultada para elaborar o programa, mas apenas a menção ao fato de que este foi elaborado a partir de ampla pesquisa: Tia Lúcia não visitou pessoalmente todos os países que vai descrever a vocês. Mas estudou muito nos livros dos que conhecem todo o mundo: quem estudo viaja sem navios, sem trens, sem aeroplanos, viaja na instrução com pouco dinheiro, por pobre que seja (LABARTHE, 1937, p.14). É importante destacar que, neste período, as obras sobre história da civilização editadas no

Brasil eram traduções. O desenvolvimento de pesquisas sobre a história moderna e contemporânea em nosso país era inviável, como recorda Maria Yeda Linhares (1992), substituta de Delgado de Carvalho na cadeira de História Geral Moderna na Universidade do Brasil e primeira mulher catedrática do país: Nós também queríamos ser historiadores, dominar os instrumentos da pesquisa histórica, mas como fazer isso na cadeira de história Moderna e Contemporânea? Era humanamente impossível ( p.220).

O Tapete mágico da Tia Lúcia era dirigido ao público infantil, mas seu conteúdo não correspondia ao que deveria ser ensinado nas escolas primárias do país nas décadas de 1930 e 1940. Neste nível, o conhecimento sobre história deveria se restringir ao Brasil. Apenas no ensino secundário, os estudantes deveriam ter aulas sobre história geral da civilização. Como o programa era dedicado às crianças parece haver uma dissonância. No entanto, os estudos de Souza (1999) sobre o ensino primário, na década de 1930, indicam que em muitas escolas era adotado o ensino de caráter enciclopédico. A prática de leitura envolvia várias noções de cultura geral, onde podiam constar informações sobre outros países. O texto de Labarthe mostra uma grande preocupação com o vocabulário. As palavras novas são apresentadas a partir de explicações detalhadas. Esta prática indica o objetivo não só de facilitar a interpretação do texto, como também de ampliar o conhecimento de vocábulos.

Um aspecto interessante que caracteriza o conteúdo do programa é o caráter moral, com prescrições sobre normas de comportamento adequadas as crianças. A todo o momento, por exemplo, era enfatizada a importância do estudo:

Quem fecha um livro pensando que chegou ao fim da viagem, que sabe tudo, desgosta Tia Lúcia e o Tapete Mágico se encolhe recusando o passageiro. Estudem sempre; o mundo é grande e nele pode-se viajar a vida inteira sem passar pelos mesmos lugares, vendo a cada dia uma coisa nova e bonita. (LABARTHE, 1937, p.15).

O conteúdo do Tapete mágico estava inserido em um movimento maior da rádioeducação. Neste período, após a Primeira Guerra Mundial, muitos intelectuais percebiam a radiofonia como um caminho para o pacifismo. No artigo The use of radio in the development of international understanding, publicado nos anais do congresso sobre radioeducação realizado em 1930, na Universidade de Ohio, R. S. Lambert, editor de Listener, publicação da British

Broadcasting Corporation em Londres, identifica como uma das principais barreiras ao entendimento dos países a ignorância em relação ao outro; pouco se sabia sobre as formas de viver e dos hábitos do estrangeiro. Ao seu olhar, o rádio era capaz de romper tais fronteiras, pois podia chegar a todo lugar, a qualquer momento, fenômeno esse incompatível com o extremo nacionalismo. Um ouvinte da Inglaterra, por exemplo, poderia acompanhar diariamente programas franceses e, assim, ter acesso às suas alegrias e angústias. Os preconceitos tendiam a diminuir.

A ideia de que a radiofonia seria capaz de desenvolver o espírito de compreensão internacional também estava presente na Sociedade das Nações. O inquérito realizado nos anos escolares de 1931 e 1932 registra tal crença. Uma de suas questões centrais era o que estava sendo feito para ensinar política estrangeira, literatura e música de differentes paízes, e a obra das grandes organizações internacionais que trabalham contra a guerra e para a propagação de um espírito de concordância entre os povos? (ESPINHEIRA, 1934, p.80).

O estudo de história geral pelos livros ou pelo rádio era desenvolvido sob a perspectiva de que o conhecimento não deveria ser restrito à nação, mas à civilização como um todo, como meio para atingir a maior compreensão entre os povos.

É, pois a coletividade nacional que mais se recomenda; entretanto, não devem ser evitadas referências freqüentes a outras coletividades, isto é, a outras nações, principalmente quando vizinhas ou que interessam particularmente à História Nacional pelos serviços que prestaram à civilização (Grécia, Roma) ou pelos laços culturais e étnicos Portugal que criaram um patrimônio comum (DELGADO DE CARVALHO, 1957, p.102).

Neste aspecto, é importante ressaltar que o programa não abordava questões relativas às guerras ou qualquer tipo de conflito, em qualquer período da história. O conteúdo é estruturado com informações sobre vestuário, religião, festas e arquitetura. Não são citadas invasões, dominações ou diáspora entre os povos.

Não há referências a datas. O tempo é marcado por expressões como uma história que ocorreu, sem maiores detalhes como ano ou dia. No programa sobre o Egito, por exemplo, não houve citação ao calendário cristão.