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Artikler og oppgaver

O conteúdo selecionado por Ariosto Espinheira para a elaboração da Viagem através do Brasil foi organizado por regiões: norte, nordeste, leste, meridional e central. Ao final de cada livro da coleção homônima, apresentava-se um extenso rol de autores dos trechos compilados, adaptados e consultados na elaboração do texto, possibilitando um olhar mais amplo sobre as opções teóricas do radioeducador. A bibliografia permanente continha os nomes de Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Roquette-Pinto e Sílvio Romero. Estes intelectuais, com os quais o autor da Rádio Jornal do Brasil travou um diálogo, partilhavam a preocupação em construir o conhecimento sobre o brasileiro. Como destaca Saliba (1998), o advento da República foi visto por uma geração de pensadores como uma oportunidade histórica de integração. Neste aspecto, travava-se um intenso debate:

Sem possuir propriamente uma nação, marcado por extremas diversidades regionais, convivendo com a chaga social do trabalho escravo como herança e com um Estado praticamente reduzido ao servilismo político, o país apresentava-se aos olhos desses intelectuais de um modo insólito e dramático: como construir uma nação se não tínhamos uma população definida ou um tipo definido? Diante daquele amálgama de passado e futuro, alimentado e realimentado pela República, quem era o brasileiro? (p.296).

Em um artigo sobre a estreia do programa, publicado no Jornal do Brasil, a perspectiva de apresentar o Brasil aos brasileiros e, assim, estimular o sentimento nacional entre nós, foi exposta com clareza:

Despertando a emulação a iniciativa e a ambição de seus pequenos ouvintes, PRF4 os obrigará ao estudo da terra natal, em seus aspectos físico, político, econômico, histórico e social, aspectos esses ignorados da maioria dos adultos que se inculcam como orientadores do pensamento, da opinião e do destino da pátria.

Muito pouca gente conhece o Brasil em todos os seus detalhes econômicos e sociais. Daí o Estado de crise permanente em que vivemos, conseqüência de erros acumulados sobre erros, uns causados pela ignorância, outros pelo despreso a nossa realidade, ou pelo espírito de imitação.

O clima que contagiou a nossa intelectualidade pode ser exemplificado com Os sertões (1902) de Euclides da Cunha, que inaugurou uma forma diferente de olhar para o brasileiro. Personagens como o jagunço, o tabaréu e o caipira saíram do desconhecido e ganharam vida no imaginário nacional. Como destaca Freitas (2001):

Impressiona o quanto repercutiu a literatura produzida por Euclides da Cunha. Mesmo que assentado em cientificismos evolucionistas e em incontáveis estereótipos da raça, o resumo do país apresentado na abertura do século tornava o sertão uma metáfora para toda a nação. Acima de tudo, o sertão tornou-se uma metáfora da ausência. Euclides reclamava da falta de unidade nacional temporal num país dividido em vários tempos históricos. Faltava o Estado, faltavam a educação e a saúde (p.14).

A obra euclideana é fonte de informação e inspiração para Ariosto Espinheira. É possível reconhecer a descrição do jagunço, do caboclo e de tantos outros tipos, mas o olhar sobre a mistura que dera origem a estas raças é outro. Neste aspecto, ao contrário de Euclides da Cunha que atribuía tais figuras do sertão a responsabilidade pelo atraso da nação, A viagem através do Brasil (1938) apresenta uma descrição quase ufanista:

Só conhecendo o solo e o clima, as dificuldades e a vida dos nossos irmãos, poderemos compreender bem os problemas da nossa Pátria. Compreender a luta dos brasileiros que vivem nesse território imenso: compreender o valor de nossa raça; compreender a capacidade de trabalho e a fortaleza de ânimo dos homens que vivem aqui.

E compreendendo tudo isso, sentimos uma revolta íntima contra todos aquêles para o trabalho que dizem sermos inativos, incapazes para o trabalho, sem iniciativa, comodistas, preguiçosos, de raça inferior; contra os que vêem o brasileiro como povo de segunda ordem, alegando sermos descendentes de três raças fracas que se misturaram (ESPINHEIRA, 1938, p.74).

Sílvio Romero foi outro intelectual cujo pensamento influenciou o criador da Viagem

através do Brasil na seleção dos conteúdos irradiados. Autor da História da literatura nacional, ele deu origem a uma nova vertente dos estudos nacionais, levando em

consideração os estudos sobre as raças na composição do folclore. Segundo Freitas (2001), a abordagem deste ensaísta inaugurou o processo de articulação entre a

integração e a mestiçagem com a construção de mitos da identidade brasileira (p.22).

Neste aspecto, vários mitos são incorporados à narrativa de Ariosto Espinheira não só como forma de compreensão da cultura nacional, mas dos nossos problemas. Na introdução de lendas como as do lobisomem e do curupira é realizada este tipo de abordagem:

O Nordeste é a terra do caboclo simples, cantador de toadas e cocos, a terra das lendas e das crenças.

O lobisomem é uma das crenças mais conhecidas dos nossos sertões. Raro o homem do interior, principalmente da região nordestina, que não acredite nas façanhas dos lobisomens. Vocês sabem que, infelizmente, há muita ignorância em nosso sertão. Nem todos os nossos patrícios têm tido escolas; falta-lhes a instrução. Sendo ignorantes, apesar de bem inteligentes, eles aceitam essas lendas, acreditam nessas superstições (ESPINHEIRA, 1938, p.36).

Ariosto Espinheira também se aproximou de intelectuais como Olavo Bilac, Manoel Bomfim, José Veríssimo e Monteiro Lobato pela sua preocupação em criar uma literatura infantil nacional, que falasse de nossa realidade às nossas crianças e, assim, contribuísse para a formação da nação. No entanto, sua geração possui uma visão diferente das anteriores em relação à associação entre a cultura a reforma da sociedade. Os intelectuais da década de 1910 estavam preocupados em civilizar o país por meio da alfabetização, do sanitarismo e em diferenciar o erudito do popular. Ao apresentar a Amazônia aos seus ouvintes, o autor da Viagem através do Brasil procurou tanto exaltar a sua beleza, Prosseguindo, vamos apreciando a floresta sem fim, na qual se

destacam gigantes palmeiras, que abrem leques de ouro e esmeralda... (ESPINHEIRA,

1938, p.50), como denunciar as mazelas que enfrentavam seus habitantes:

Aqui tem o homem vivido numa constante luta contra a natureza. Tem lutado contra mosquitos e moscas, carrapatos, potós e outros parasitos; contra as inundações tremendas dos rios; contra as chuvas copiosas e alagadiças, contra os animais selvagens, contra a falta de estradas, a falta de escolas, a falta de recursos que a civilização ainda não lhe proporcionou (ESPINHEIRA, 1938, p.51).

Na década de 1930, a geografia e a história eram campos em processo de institucionalização. As respectivas disciplinas escolares refletiam esse estágio. As disputas em torno dos referenciais eram intensas. Por um lado, os intelectuais ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro realizavam estudos que tinham uma base positivista e uma grande preocupação em relação à definição das nossas fronteiras e ao conhecimento exato do nosso território. Por outro lado, havia um enfoque interpretativo da nossa geografia, os adeptos dessa corrente, dentre os quais Capistrano de Abreu e Euclides da Cunha, passam a criticar os trabalhos baseados apenas na descrição. Seguindo tais pressupostos, a Geographia do Brasil (1913) de Delgado de Carvalho representava a inovação em termos da disciplina escolar. Esse manual, dirigido aos estudantes do ensino secundário, foi elaborado a partir de viagens do autor pelo país, quando analisou nosso território sob a perspectiva de F. Ratzel. Jean Bruhnes, Vidal La Blache e Eliseu Riclus, sendo os dois últimos discípulos do positivista francês Fréderic Le Play. A obra tinha uma clara intenção de romper com a escola clássica:

É, pois, mais que necessário abolirmos no ensino da geografia practica tudo quanto o e latu a,à tudoà ua toà à pu a e teà e o i oà pa aà soà e a a à osà fa tosà e à marcha pode-se dizer, e no seu respectivo lugar. É útil afastar-se, de vez em quando, do quadro habitual das concepções geographicas tradicionaes. Até hoje no nosso ensino, toda a idea nova, todo progresso geographico da sciencia geographica ente nos, tem sido sacrificado aos moldes antigos, tem sido apresentado num quadro archaico: os espíritos não são levados a ver a geographia tal como ela é (DELGADO DE CARVALHO, 1913, p.5).

O Brasil foi apresentado aos nossos estudantes de forma inédita: como um país dividido em cinco regiões de acordo com as características naturais destas, e não em regiões administrativas, como ocorria anteriormente. A perspectiva da antropogeographia de Ratzel como processo irreversível de humanização dos conhecimentos geográficos, defendida por Delgado de Carvalho, também foi partilhada por Ariosto Espinheira. Enquanto professor da disciplina no Colégio Pedro II, onde fora contratado por período temporário, redigiu o artigo Nos domínios da geografia, onde defendia a aplicação desses conceitos: o ensino moderno da Geografia deve ser baseado no caráter explicativo ou interpretativo que hoje tem esta disciplina. Não basta ensinar o que existe na superfície terrestre, é indispensável que se explique o porquê dos fatos, as causas e conseqüências dos fenômenos estudados

(ESPINHEIRA, 1955, p.66). Há uma preocupação em estudar a influência da natureza sobre os hábitos do homem e sua ocupação do espaço:

A carnaúba é a palmeira milagrosa do sertão, a planta da vida, como lhe chamou o sábio Humboldt, um cientista alemão que visitou nossa terra no século passado. É uma palmeira tão vigorosa que, às vezes, resiste às queimadas das roças; a queimada perde as folhas para brotar outra vez.

A palhoça do sertanejo é toda construída com a carnaúba; as travessas, as rípas e os caixilhos, o teto e as janelas e portas são feitos com o tronco da palmeira; a cobertura é de palha tirada das palmas (ESPINHEIRA, 1938, p.18).

Seguindo os preceitos da antropogeografia, os dados numéricos, como a extensão dos rios ou a altura dos picos, raramente são citados no programa de Espinheira. Esta informação era utilizada pelo autor apenas para estimular a imaginação do ouvinte, rompendo as barreiras da oralidade. Sendo assim, não ganhavam destaque.

Desta maneira, na Viagem através do Brasil, salta aos olhos a proposta de situar a geografia escolar no amplo debate presente sobre a construção da nossa nacionalidade, que permeou as décadas de 1920 e 1930: É a voz da Pátria, que chega até nós, neste momento, transmitida por uma estação de rádio. Esta Pátria que vimos na Amazônia e no Nordeste, que vimos aqui no Brasil de Leste (ESPINHEIRA, 1938, p. 42).

Autor de Arte popular e educação (1938), Espinheira se insere num contexto de politização das questões culturais, onde a reforma da sociedade viabilizada por meio de uma nova visão do cultural. Ao longo dos anos 1930, reflete-se sobre a necessidade de organização graças à intelectualidade. A educação é o caminho, a partir de uma elite capaz de divulgar novos métodos, e de formar técnicos. Na qualidade de educador, Espinheira se situava nesta perspectiva organicista, como responsável pela modernização e unificação da questão cultural, pilar do projeto da nacionalidade. Ao divulgar aspectos de nossa cultura como músicas, danças e lendas, promove uma associação com o patriotismo:

Precisamos não ter vergonha do que é nosso, como não devemos acanhar dos nossos antepassados, os heróis que lutaram para nos legar o progresso que temos e gozamos hoje.

Um país que vai perdendo suas tradições vai morrendo aos poucos; é uma nação onde não pode haver patriotismo sadio; é uma terra que ficará com tempo igual a outras terras e, portanto, sem os traços que caracterizam as diferentes pátrias (ESPINHEIRA, 1938, p. 44)

A presença deste referencial teórico é clara na Viagem através do Brasil (1938). Existe uma aproximação maior com as ideias de Olavo Bilac e Roquette-Pinto. De fato, esses pensadores compartilhavam a concepção de que a educação era fundamental ao desenvolvimento do sentimento nacional no país. Neste sentido, faltavam obras destinadas às crianças para que o tema fosse abordado de forma adequada nas escolas, sem recurso ao verbalismo, que era considerado pouco funcional. Por atender a tal demanda, a obra de Bilac e Bomfim, Através do Brasil (1910), é admirada e seu modelo de narrativa de viagem foi utilizado na obra de Espinheira.