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4. Didactic Proposal

4.3. Restorative Circles

4.3.2. Restorative Circle 8: “Who Am I?”

Os Franceses, a partir de 1520, e os Ingleses, a partir da segunda metade do século XVI, revelaram -se perigosos rivais dos Portugueses na África. Entretanto, desde o fim do século XVI, os Holandeses eram ainda mais perigosos do que eles. No início, apenas eram encontrados mercadores franceses isolados, como o célebre Jean Ango, de Dieppe, ou companhias comerciais. Nem o rei da França, nem a Coroa da Inglaterra associaram -se diretamente ao comércio com a África. Francisco I tentou, sem sucesso, em 1531, 1537 e 1539, fazer com que seus súditos se abstivessem das expedições à África, a fim de não comprometer as relações da Coroa com Portugal, na época em que a França estava em conflito aberto com os Habsburgo da Espanha. Mercadores de Ruão, de La Rochelle e de Dieppe já haviam enviado seus navios para a África. Em 1525, o rei do Congo capturou um pequeno navio francês e o entregou, com sua tripulação, aos portugueses21

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A presença francesa foi particularmente sensível na região

de Cabo -Verde e do Senegal. Os franceses pilhavam frequentemente, nestas águas, os navios portugueses que retornavam carregados de ouro africano ou de mercadorias embarcadas na Índia. Muitos outros portos franceses (Le Havre, Honfleur) participaram, ao longo do século XVI, desta expansão francesa, e, pouco a pouco, Nantes alcançou um lugar influente nela. No último quarto do século XVI, a presença da França na Senegâmbia era muito forte, notadamente, nos centros como Gorée, Portudal, Joal e Rufisque (Rio Fresco), no país Uolófe. Os franceses traziam, da Normandia e da Bretanha, têxteis, alcoóis, objetos de metal, até mesmo armas de fogo. Parece que foi este último comércio que 21 A. Brasio, 1952, vol. I, p. 138, 153.

favoreceu a França, pois a Coroa Portuguesa havia, há tempos, interditado, obs- tinadamente, esse tipo de exportação na África, no momento em que os sobe- ranos locais se desesperavam para obter tal produto. Os franceses compravam, sobretudo, o ouro e o marfim, mas também, a pimenta -da -guiné (malagueta), peles e o azeite de dendê. Os escravos não ocupavam, nesta época, um lugar em destaque nas aquisições francesas. Na metade do século XVI, os franceses eram perigosos rivais dos portugueses na Costa da Pimenta e na Costa do Ouro22.

Parece que eles exportavam para a África muito mais mantimentos do que os portugueses, o que se revelou particularmente prejudicial aos interesses destes últimos, na região de Elmina. Foi assim que, em 1556, os franceses e os ingleses levaram tamanha quantidade de mantimentos e os venderam a preços tão irrisó- rios que, em Elmina, o agente português ficou incapacitado de comprar o ouro23.

Entretanto, trata -se, aqui, de um caso excepcional e, em seguida, os portugueses repararam a situação. A expansão francesa foi, sem dúvida, um pouco contida na época das guerras de religião, mas essa é uma hipótese que deve ser confir- mada. Parece que haviam sido vendidas armas de fogo aos soberanos locais das costas do Camarões. Entretanto, foi no Senegal que os franceses encontravam- -se mais solidamente implantados; lá, eles cooperavam frequentemente com os

tangomãos, emigrados das ilhas de Cabo -Verde e mulatos, em sua maioria. Eles

expulsaram os portugueses do estuário do Senegal e da Gâmbia, mas se viram, por sua vez, obrigados a ceder o lugar aos ingleses, no fim do século XVI24.

Na África, a penetração destes últimos, no século XVI, é análoga aquela dos franceses. Eles começaram a travar sólidas relações econômicas com o Marrocos, a partir de 1541, ano em que os portugueses foram expulsos de grande parte dos portos que possuíam no Atlântico, os quais, a partir de então, abriram -se aos navios de outros países europeus. Por volta de 1550 a 1565, as companhias comerciais inglesas promoveram várias expedições cuja narrativa foi preservada. Exploravam as costas do Atlântico do Oeste até o Golfo de Benin, onde com- pravam, sobretudo, ouro, peles e um pequeno número de escravos. As narrati- vas portuguesas mostram que, no fim do século XVI, os ingleses mantiveram contato com a população da Costa do Ouro, ainda que pouco se interessassem pelo tráfico de escravos25

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Sabe -se que, em 1623, Richard Jobson recusou -se a

comprar escravos negros na baixa Gâmbia, ao passo que, na mesma época e na 22 C. A. Julien, 1948, p. 177; G. Martin, 1948, p. 4.

23 G. Martin, 1948; J. W. Blake, 1942. 24 L. Silveira, 1946, p. 16, 17, 35 -37, 44 -46.

mesma região, os portugueses eram muito ativos nesse campo, cooperando com os traficantes africanos26. Pouco se sabe a respeito da penetração inglesa em

outras regiões da África Ocidental. Todavia, no fim do século XVI, a presença dos ingleses era muito forte nos confins da Senegâmbia, de onde eles conse- guiram expulsar não só os portugueses, mas também os franceses. Em 1588 foi criada a primeira companhia inglesa de comércio com a “Guiné”, princi- palmente, a partir da iniciativa de mercadores de Londres e de Exeter, que já participaram ativamente das expedições comerciais no estuário da Gâmbia27.

Entretanto, nada permite afirmar que esta companhia tenha se desenvolvido muito. Talvez, os ingleses pensassem, no fim do século XVI, que a pilhagem dos navios castelhanos, nas águas do Atlântico, lhes renderia mais do que o comércio com a África.

Foi precisamente nesta época que os Holandeses apareceram no litoral da África. Eles estavam, então, em guerra com a Espanha e se recusavam a respei- tar a partilha do Atlântico, decretada pelo papa. Eles tratavam Portugal, nesta ocasião governado por Felipe II, como inimigo. Os enormes capitais acumu- lados por seus negociantes e a potência de sua frota permitiram -lhes penetrar mais profundamente na Índia e na África do que os ingleses e os franceses. Um historiador holandês, H. Terpestra, considera que as primeiras expedições holandesas na África foram realizadas por companhias criadas, principalmente, por comerciantes de média envergadura, procurando a frutificação rápida dos seus capitais. As expedições nas Índias Orientais foram, ao contrário, organi- zadas por grandes capitalistas, frequentemente, emigrantes ricos de Antuérpia que podiam investir a longo prazo28.

De 1593 a 1607, cerca de duzentos navios zarparam da Holanda em direção à África; em 1610 e 1611, diz -se, teria existido uma vintena por ano. Os holande- ses vieram a Gorée em 1594 e 1595 e, alguns anos mais tarde, atingiram o cabo de Benin onde compraram tecidos de algodão e cauris, que seriam trocados, na Costa do Ouro, por ouro e prata. Em 1611, construíram o porto de Nassau, em Morée, na Costa do Ouro; será esta a primeira feitoria fortificada dos holan- deses, na Costa Ocidental da África. Eles desenvolveram também o comércio com a região de Acra29. Os portugueses não podiam rivalizar com eles, pois

que a riqueza dos holandeses e a grande eficácia de suas redes comerciais lhes 26 R. Jobson, 1623, p.112.

27 Ver nota 25.

28 H. Terpestra, 1960, p. 341, 324.

permitiam vender barato grandes quantidades de produtos. Isto os favoreceu também em relação aos ingleses e aos franceses. Eles exportavam objetos em ferro, bronze, cobre e em estanho, tecidos baratos, de origens diversas, alcoóis, armas, diferentes ornamentos, produtos de uso corrente, até mesmo lunetas que nem eram apreciadas por todos. Graças à venda destes produtos (cuja ampli- tude surpreendeu Pieter de Marees, em 1601 -160230), as quantidades de ouro

trazidas do interior para a Costa do Ouro ainda aumentavam, mas, sobretudo, beneficiavam aos holandeses. Eles importavam, também, o açúcar da ilha de São Tomé, desempenhando, por algum tempo, um papel central neste comércio e encaminhando o produto semifinal às suas refinarias em Amsterdã31.

A penetração dos holandeses na África Ocidental foi um fenômeno mais ou menos espontâneo. Em 1617, eles eram tão poderosos na Senegâmbia que ocu- param um posto preponderante na ilha de Gorée e, em Joal, Portudal e Rufisque, eles acabam superando, em larga medida, não só os portugueses, mas também os ingleses e os franceses. Conservaram esta forte posição por mais de cinquenta anos. Ao mesmo tempo, seus navios ancoravam em Loango, na costa do Congo e de Angola. A princípio, eles se mostraram como os ingleses e os franceses, pouquíssimo interessados pelo comércio de escravos. Por volta de 1600, todavia, inaugurou -se uma nova fase da penetração européia na África, ao longo da qual o comércio de escravos terá uma importância crescente, inclusive para os holandeses. Esta evolução foi anunciada com a compra de escravos em Elmina, Acra e Arda, no Benin e no delta do Nilo, tal como em Calabar, no Gabão e no Camarões. Estes escravos eram vendidos aos donos das plantações da ilha de São Tomé (que, então, pertencia aos holandeses) em troca do açúcar ou enviados ao Brasil. Notadamente, tratava -se de Uolófes, adquiridos no delta do Senegal; segundo O. Dapper, eles eram muito bem reputados, em razão do vigor físico, e eram convenientes ao trabalho nas plantações32. A conquista de Angola, em 1641, estava estreitamente

ligada às necessidades dos holandeses no Brasil, seguindo, nisto, o exemplo dos portugueses33. Os holandeses perderam o nordeste do Brasil e foram expulsos de

Angola em 1648. Não obstante, a associação estreita destes dois territórios, que se baseava no trato dos escravos, persistiu até o século XIX.

Ao longo deste período, o interesse dos europeus pela África Oriental foi inexpressivo. Os portugueses, que detinham Sofala e sujeitavam politicamente 30 P. de Marees, 1605.

31 K. Ratelband, 1953, p. XCV, CXV, p. 114, 118 e seg. 32 Ibid., p. 8, 10, 27 -35, 40 -61; O. Dapper e A. F. C. Ryder, 1965. 33 M. Malowist, 1969, p. 569.

outras cidades costeiras, não penetravam o interior. No Zambeze, eles não iam além de Tete e de Sena, onde compravam pequenas quantidades de ouro nos mercados locais34. O volume de ouro e, talvez, dos outros bens enviados do

interior para a costa entrara já em diminuição na metade do século XVI, e nada indica que ele tenha voltado a aumentar nos anos seguintes. Esta redução da chegada de ouro em Sofala trouxe consequências nefastas para cidades como Kilwa, Mombaça ou Malindi, que possuíam uma grande atividade antes da che- gada dos portugueses, na época em que elas forneciam ouro e outros produtos aos compradores vindos da Índia e da Arábia. Este declínio, talvez, se explique pelo fato de que os muçulmanos devessem colocar um fim em suas atividades comerciais na costa da África Oriental, mas parece que também ocorriam per- turbações nos arredores das rotas seguidas pelos negociantes, entre os portos e o interior35. Esta questão requer investigações mais detalhadas. As populações

costeiras tentaram, em vão, impelir os turcos da Península Arábica a intervir contra os portugueses. Iniciada no século XVII, a expansão do imāmat de Omã, pelo litoral e pelas ilhas da África do Leste, pouco antes de 1700, trouxe consigo certas mudanças, obrigando os portugueses a se confinarem unicamente em Moçambique36, porém, é apenas no final do século XVIII e no século XIX que

estas mudanças tornar -se -ão, verdadeiramente, muito marcadas.

No que concerne ao extremo sul da África, os primeiros sinais de uma penetração européia se manifestaram no século XVII, quando a Companhia Holandesa das Índias Orientais encorajou a criação de colônias de camponeses holandeses (e alemães), aos quais foi atribuído o nome de Bôeres. Todavia, o fenômeno quase permaneceu inexpressivo, no século XVII, e mesmo muito tempo depois. Entretanto, a pressão dos Bôeres, que reduziam os San a escravi- dão ou os expulsavam de suas terras, isso quando não os exterminavam, foi um perigoso presságio à população africana37.