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A civilização urbana medieval contribuíra para a divisão do trabalho, assim favorecendo o artesanato e as indústrias manufatureiras. Porém, no século XVI, esse desenvolvimento foi desigual de acordo com a região ou o tipo de sociedade, e diferentes tendências manifestaram -se em função dos contextos sociais.

Nas civilizações do Sudão Ocidental, da região do Níger -Chade e do Saara, por exemplo, o artesanato, bem como as atividades industriais e manufatureiras, desenvolveram -se no quadro de um sistema de castas mais ou menos fechadas e constituídas com base em linhagens. Sob a influência crescente das civilizações do Takrūr e do Saara, tal sistema tendeu a se fixar, principalmente nas regiões do sul do Senegal, nos territórios dos Mandes e dos Haussas. Graças à imigra- ção de alguns de seus membros, o do Takrūr foi implantado nos territórios de Cayor, Jolof, Siin e Salum. O nyamankala (sistema de castas) mande concedeu, durante muito tempo, um estatuto elevado à profissão de forjador – até que Takrūr ocupasse a região, consequentemente à jihad. Assim, Sumaguru Kanté, que desempenhou um importante papel tanto no acesso ao poder da dinastia dos Mansa, quanto na constituição do Estado do Mali, era forjador de origem. Os operários que trabalhavam o metal gozavam de grande estima entre os fon e os iorubás. Contudo, também nesse caso, a influência dos imigrantes vindos do Takrūr e do Saara acabaria por revirar a tendência dominante. No Songhai, os

askiya já governavam uma sociedade na qual o sistema de castas estava implan-

tado, estratificado e enraizado.

No fim do século XVIII, a revolução dos torodo reforçou o sistema de castas no Takrūr, acentuando as divisões entre as classes. Os camponeses sebbe, os pes- cadores subalbe e mesmo os pastores nômades fulbe buruure foram progressiva- mente desprezados. Eles não foram assemelhados aos benanga -toobe (sapateiros ou sakkeebe, forjadores ou wayilbe, griots ou gawlo, etc.) e tornaram -se objeto de uma segregação da parte dos nangatoobe (castas superiores). A elite dos marabu- tos torodo depreciou cada vez mais a aristocracia dos ceddo e dos denyanke por ela vencida, assim como todos aqueles que não fossem membros das dinastias de marabutos aptas a aspirar a cargos elevados. Nas sociedades negro -berberes do Saara, as divisões religiosas, étnicas e raciais cristalizaram -se pouco a pouco em castas hierarquizadas.

Um último aspecto importante da organização da indústria ou do artesa- nato da época reside no grau de controle exercido pelo Estado. Nas civilizações mediterrâneas, havia geralmente monopólio do Estado para certo número de atividades como a tecelagem, a construção naval, a fabricação de armas, o refino e o comércio exterior. Mas os Estados da África negra não exerceram, senão raramente, essa prerrogativa, mesmo quando a indústria dos armamentos se desenvolveu14. Esse período foi marcado pelo contraste entre a polivalência

das diferentes categorias da população camponesa e a nítida especialização dos citadinos. Na agricultura e na criação de animais, a divisão do trabalho e a especialização profissional eram muito pouco marcadas. Agricultores, pesca- dores, criadores e caçadores todos exerciam várias outras profissões, tais como as de forjador, empalhador, pedreiro, lenhador, carpinteiro, tecelão ou sapateiro, de acordo com as necessidades. Acontecia de as mulheres ou alguns grupos de idade serem especializados em certos tipos de profissões (como o trabalho com metais, madeira e couro) que acabaram desempenhando um papel na formação das castas.

As indústrias do Estado cresceram: manufaturas de armas e mesmo estaleiros para a construção de frotas marítimas e fluviais foram implantadas tanto no Sudão Ocidental e na costa ocidental do Atlântico quanto nos países mediter- râneos e do oceano Índico.

A multiplicação das guerras voltou a dar, às vezes, um novo impulso ao traba- lho dos metais. No século XVI, Sonni ‘Ali reorganizou os arsenais do Songhai, fixando objetivos anuais de produção às oficinas. A metalurgia aperfeiçoou -se no Egito onde começaram a fabricar o aço de Damasco, enquanto o trabalho com o ferro, o cobre, o ouro e com a prata ocupava numerosas comunidades. A indústria dos metais preciosos no Egito e na África do Norte continuava a se abastecer de ouro em Wadi Allaga na Núbia, em Sofala e no Sudão Ocidental. Os forjadores mandes, organizados em castas, exportaram suas técnicas para as novas cidades que o comércio atlântico fazia surgir na costa. Os garassa, tëg e maabo sudaneses, que fabricavam charruas, machados, sabres, zagaias, pontas de flecha e instrumentos usuais, aperfeiçoaram sua arte e, no fim do século XVIII, consertavam armas de fogo. Foi nesse setor que as novas técnicas foram mais rapidamente assimiladas. O artesanato do ouro e da prata estimulou o comércio nos souks das cidades do Magreb, do Egito e do Sudão Ocidental. Os joalheiros berberes e wolof distinguiam -se no trabalho do ouro e das joias

em filigrana. A cunhagem de moeda de ouro (praticada há muito tempo no norte e na costa suaíli, particularmente em Zanzibar e em Kilwa) progrediu rumo ao sul, até Nikki. Os suaíli fabricavam igualmente magníficas jóias e outros objetos de ouro e prata. O trabalho da cerâmica tornou -se industrial, a olaria, bem como a empalhação, continuavam sendo tarefa das mulheres. A indústria do vidro continuou sua expansão e propagou -se no conjunto do país iorubá, entre os nupes e os haussas, bem como no Egito e no Magreb. Entre os shonas do sul da bacia do Zambeze, a extração mineira era muito desenvolvida e as minas de ouro e cobre constituíram o fundamento da economia da região até o século XVIII15.

O trabalho em couro florescia principalmente na Nigéria, onde a pecuária fornecia uma abundante matéria -prima. A sapataria dos novos centros urbanos, tais como Kano, Zaria e Abéché, concorria com a marroquinaria, e a cidade de Siryu, no arquipélago de Lamu, tornou -se, em 1700, a capital do trabalho em couro e uma grande exportadora de artigos desse material. Do século XVI ao XVIII, a empalhação e a tecelagem dos tapetes tomaram um lugar igualmente importante dentre as indústrias da região do Níger -Chade. A fabricação do papel, que tinha substituído o papiro, desenvolveu -se principalmente no Egito, sob a influência de Samarkand16. O Sudão seguiu o movimento e começou

progressivamente a fabricar manuscritos: os alcorães do Kanem eram vendidos em todo o mundo muçulmano17. As indústrias alimentares que haviam se mul-

tiplicado na Idade Média, nas cidades do Norte e do Sudão Ocidental, foram também implantadas nas cidades nigerianas. A África do Norte, particularmente o Egito, especializou -se no cultivo da cana -de -açúcar e no refino do açúcar. A extração do óleo de oliva, de palma e de amendoim, assim como o trabalho com açougue, massas e especiarias conservou, de maneira geral, seu caráter artesanal. Na área têxtil, a cultura e a tecelagem do algodão estavam bem implantadas no platô do Zimbábue desde o século XVI18. Da mesma forma, as cidades -estados

suaílis eram famosas por seus tecidos: Pate, por exemplo, produzia seda de muito boa qualidade19, e o algodão era lá cultivado, desfiado e tecido. Na África Central

do século XV ao XIX, os tecidos de ráfia dos Congos foram renomados.

15 D. N. Beach, 1980a, p. 26 -30. 16 G. Nachtigal, 1879 -1881. 17 G. Nachtigal, 1876. 18 D. N. Beach, 1980a, p. 30 -32.

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Sawakin Massawa Sennar Zaylaë Kumbi Gao Djenné Ouagadougou Benim Pemba Zanzibar Kilwa Zimbabwe Sofala Nosy Mamoko Equador

Figura 2.2 Rotas e relações comerciais na África do século XVI. Fonte: segundo um mapa desenhado por P. Ndiaye, Departamento de geografia, Universidade de Dakar.