8.1 Vold, respekt, frykt og ære i hjemmekulturen
8.1.2 Respekt og frykt i hjemmekulturen
O intuito desta parte do capítulo é discutir como as fontes tratam os desdobramentos do relacionamento entre Cleópatra e Marco Antônio, que resultaram na guerra civil com Otávio e por fim, na tomada do Egito. É possível perceber que as caracterizações feitas a respeito da relação privada do casal traduzem suas percepções sobre Alexandria. O objetivo é investigar como esse contexto foi interpretado na tradição de escritos da época e posteriormente, justamente por se tratar do momento que marcou a vitória de Roma sobre o Egito.
Os relatos sobre Cleópatra falam do ponto de vista romano e são extremamente condenáveis a rainha. Nesse sentido, um projeto político aparentemente ambicioso foi reduzido nas narrativas à fraqueza de um romano (Antônio) que começou a agir cegamente em virtude da paixão pela rainha egípcia (Cleópatra). Assim, o projeto político maior pretendido pelo casal não é abordado.
Se a morte de Pompeu representou para os romanos uma conscientização da necessidade de um cuidado especial com o Egito por parte de Roma, a relação entre Cleópatra e Marco Antônio, que ajudou a desencadear a guerra com Otávio (entre 39 e 31), forneceu a certeza que faltava. O peso dado à rainha e sua relação com um romano tão influente como Marco Antônio é visível no nosso objeto. A literatura sugere que nessa ocasião a supremacia romana esteve em vias de fragmentação, daí a preocupação em relatar extensivamente esse cenário único e em atribuir todo o peso do momento à ousadia de uma mulher, que “escravizou” um romano fraco e vulnerável.
A concepção de Estrabão é que Otávio, depois de destruir Cleópatra e Marco Antônio, conseguiu colocar fim ao governo de violência ( dos Ptolomeus (Geographica 17.11). O autor só faz referências passageiras à época,
pois considerava que os últimos momentos da dinastia eram episódios insignificantes da história romana (YOYOTTE, 1997, p. 35).
A caracterização de Cleópatra por Josefo é extremamente condenável, pois além de todas as atitudes inescrupulosas contra os romanos, ela destinou aos judeus um tratamento desonroso (ingrata). E ao seduzir Antônio, o tornou um inimigo de sua própria pátria (corrumpens amatoriis rebus et patriae inimicum) (Contra Apionem 2.56.5). O interesse de Josefo em depreciar a rainha estava relacionado com a intenção de vitimizar os judeus, portanto, a referência é precisa.
Já foi visto acima a extrema condenação de Lucano ao Egito e à Cleópatra no contexto do encontro da rainha com César. O autor faz também uma observação remetendo ao período posterior. Relata que Cleópatra aterrorizou (terruit) o Capitólio, ameaçando governar (teneret) todo o mundo. Além disso, não se podia condenar Antônio por ceder aos seus encantos, pois até o virtuoso César foi sua vítima (Pharsalias 10.65-75).
A narrativa mais extensa, detalhada e emotiva sobre o casal está em Plutarco. Marco Antônio é retratado como um general exemplar, que sempre tinha se deixado levar por excessos e, quando conheceu Cleópatra, se perdeu definitivamente. Sua personalidade era tão fraca, que passou a agir como um mero fantoche e completo escravo da rainha. Essa é a idéia central da biografia de Marco Antônio, e a visão mais consolidada na tradição sobre o rumo da relação entre o casal.
Plutarco enfatiza a ambição de Marco Antônio e seu interesse no Egito desde cedo. No contexto da expulsão de Aulete, quando o rei tentou persuadir Gabínio a ajudá-lo a recuperar o Egito, a maior parte dos oficiais se opôs ao plano. No entanto, Antônio, ambicioso por grandes conquistas (ajudou a convencer Gabínio do projeto (Vita Antonii 3.2). E quando chegou com Ptolomeu e sua cavalaria em Pelusium, Ptolomeu, levado pela ira ((em decorrência de sua expulsão), queria massacrar (os egípcios, mas Antônio o impediu. Além disso, provou a todos a sua capacidade de liderança em batalhas e competições. Por tudo isso, recebeu recompensas honrosas e conquistou uma grande reputação (entre os alexandrinos e os romanos da expedição (Vita Antonii 3.4). Plutarco relata em detalhes todas as façanhas de Antônio nesse meio tempo até conhecer Cleópatra na Cilícia, quando toda a sua personalidade foi alterada, ao ser tomado por
um amor maléfico (pela rainha (Vita
Antonii 25.1).
Apesar de ser alexandrino, Apiano reproduz a mesma visão de Plutarco a respeito da parceria formada por Antônio e Cleópatra. Relata que Antônio sucumbiu aos charmes (de Cleópatra a primeira vista, e que essa paixão os arruinou e destruiu ( o Egito (Bellum Civile 5.1.1). Apiano narra que na Cilícia, Antônio ficou admirado pela presença de espírito da rainha e se tornou seu escravo. O autor observa que o romano já tinha se apaixonado por ela quando ainda era uma menina, no momento em que estava servindo de cavaleiro sob Gabínio e afirma que desde o momento em que conheceu Cleópatra seu interesse em questões públicas começou a diminuir (Bellum Civile 5.1.8.21).
Plutarco relata que Délio, mensageiro de Antônio, quando viu a beleza e percebeu a esperteza (de Cleópatra, logo soube que ela exerceria influência sobre ele. A rainha foi ao seu encontro, confiante no encanto que tinha exercido em César e no filho de Pompeu (Vita Antonii 25.4). Ofereceu um jantar a Antônio, que ficou impressionado com toda a preparação. No dia seguinte ele retribuiu, mas não conseguiu superar a sofisticação (da festa oferecida por ela (Vita
Antonii 27). Em seguida, passou uma temporada em Alexandria, se divertindo (com a rainha e gastando enormes fortunas em festas e banquetes ((Vita Antonii 28.1.7). Apiano relata que ele passou o inverno na cidade sem as insígnias de seu posto, e com os hábitos e modos de vida de um cidadão comum. Até deixou de lado seus cuidados de general, e usou vestimentas gregas ao invés das romanas. Além disso, visitou templos, conversou com os eruditos do ginásio (e passou grande parte do seu tempo convivendo com gregos (Bellum Civile 5.1.11). Mais uma vez, como já visto na narrativa sobre a passagem de César por Alexandria, Apiano traz à tona o cenário erudito de Alexandria constituído no Ginásio e enfatiza a identidade grega da cidade, algo que por ser alexandrino lhe interessaria avivar. Dessa forma, chama a atenção para a tradição intelectual de cidade, algo enfraquecido nas representações externas sobre a metrópole.
Plutarco afirma que os alexandrinos adoravam Antônio pelo seu jeito cômico (, que ele disfarçava diante da seriedade romana (
(Vita Antonii 29). No entanto, enquanto se divertia, recebeu notícias de Roma e soube que a Pártia estava tomando a Ásia e a Síria. Nesse momento, como se tivesse acordado de um sonho, partiu para lá, o que foi uma ocasião para restabelecer a paz com Otávio, e então combinaram a divisão do império: Otávio ficaria com o Ocidente, Antônio com o Oriente e Lépido com a África (Vita Antonii 30). Nesse contexto também, Antônio aceitou o acordo do casamento com Otávia, irmã de Otávio, pois ainda estava agindo racionalmente e sabia que não podia fazer de Cleópatra sua esposa (Vita Antonii 31).
Antônio foi apontado por Otávio como Pontífex Maximus e ambos estavam em acordo politicamente, embora o conselheiro de Antônio o alertasse que sua sorte estava sendo ofuscada por Otávio (Vita Antonii Antônio 33). O autor ressalta que nesse momento, a paixão de Antônio por Cleópatra, ressurgiu enquanto passava pela Síria. Nas palavras de Plutarco:
Quando ela veio ao seu encontro, ele adicionou aos seus domínios outros presentes nada sutis ou insignificantes, a saber: Fenícia, Coele Síria e Chipre, e grande parte da Cilícia; e mais adiante, uma parte da Judéia produtora de bálsamos, e toda a parte da Arábia Nabatea que desembocava no mar de fora. Esses presentes em particular perturbaram os romanos. Ele ainda deu presentes a muitos cidadãos comuns, e domínios de grandes povos (, e privou muitos monarcas de seus reinos, como por exemplo, Antígono o judeu, a quem ele chamou e decapitou, apesar de nenhum outro rei ter sido punido diante dele. Mas o mais vergonhoso foram as honras conferidas a Cleópatra. E ele aumentou o escândalo divulgando que tinha tido dois filhos com ela, e chamou um de Alexandre e a outra de Cleópatra, e os sobrenomes do primeiro era Sol e da outra Lua. Mas como ele era adepto de se orgulhar de feitos vergonhosos, ele dizia que a grandeza do império romano não se manifestava no que os romanos recebiam, mas no que concediam (Vita Antonii 36).
Plutarco menciona os rumores que Antônio estava tão ansioso para ver Cleópatra logo, que começou a guerra contra a Pártia antes do tempo e começou a agir de forma confusa (, como se estivesse sob o efeito de alguma droga ou ritos mágicos (Vita Antonii 37).
Sobre o mesmo contexto da distribuição de terras, a narrativa de Dion Cássio ressalta ainda mais a gravidade e audácia dos feitos de Antônio:
Depois disso, Antônio festejou (com os alexandrinos, e em assembléia fez Cleópatra e seus filhos se sentarem ao seu lado; e
também ao se dirigir para o povo comandou que ela deveria ser chamada de rainha dos reis, e Ptolomeu, que eles chamaram de Cesario, rei dos reis. E então fez uma nova distribuição (, dando a eles o Egito e adicionando Chipre; pois ele declarava que na verdade uma era a esposa, e o outro o filho do antigo César, e proferia que estava tomando essas medidas em nome de César, apesar de que sua intenção era reprovar César Otaviano que era apenas um adotado ( e não seu filho verdadeiro. Além de lhes conceder isso, ele prometeu que daria aos seus próprios filhos com Cleópatra os seguintes distritos (: à Ptolomeu, a Síria e toda a região ocidental do Eufrates até o Helesponto; à Cleópatra a Cirenaica na Líbia; e ao seu irmão Alexandre, a Armênia e o resto das fronteiras ( a Oeste do Eufrates até a Índia; ele até concedeu as possessões recém nomeadas (como se fossem suas. Não apenas ele disse isso em Alexandria, mas mandou um comunicado a Roma, para assegurar a ratificação (do povo de lá também. Nenhum desses comunicados,
contudo, foram lidos em público
(; pois os cônsules da época, Domitio e Sósio, sendo extremamente devotos a ele, não quiserem revelar (, apesar de César os ter pressionado ( a fazer isso (Historiae Romanae 49.41)
Dion Cássio afirma que nesse momento os romanos ficaram com medo de Antônio transferir a sede de poder para Alexandria, e acredita que Cleópatra tinha a esperança de governar até os romanos (. O autor salienta ainda, que Antônio começou a usar adereços orientais ( (Historiae Romanae 50.4).
Plutarco relata que todos achavam que Antônio tinha destratado Otávia e, mesmo assim, Otávio tentou convencê-la a ficar do seu lado na disputa, mas ela não aceitou e continuou cuidando dos seus filhos, e apoiando a causa de Antônio, o que foi ainda mais ultrajante para a sua imagem, pois não se conformavam dele tratar de tal forma uma mulher tão devota como essa. Antônio também era odiado pela distribuição de territórios (que tinha feito aos seus filhos de Alexandria, atitudes que estimulavam ódio entre os romanos. Diziam ainda, que ele encheu o Ginásio com uma multidão (e colocou no tribunal dois tronos de ouro, um para si e outro para Cleópatra, e outros menores para seus filhos. Novamente Plutarco enfatiza o absurdo da concessão de terras a Cleópatra, pela qual Antônio era odiado (, pois além de tê-la declarado rainha do Egito, Chipre, Líbia, Coele-Síria, a autorizou a compartilhar o trono com Cesário. O casal vestia os filhos como reis e Cleópatra se apresentava como a nova Ísis (Vita Antonii 54).
Plutarco observa que ao reportar tudo isso ao Senado e diante do povo, Otávio tentou inflamar a multidão (contra Antônio (Vita Antonii 55). Os próprios amigos de Antônio da ordem consular passaram para o lado de Otávio e o informaram sobre o seu testamento, que foi lido no Senado. Antônio deu especial ênfase à cláusula com relação ao seu enterro, ordenando que seu corpo deveria ser enviado a Cleópatra e enterrado no Egito, mesmo se ele morresse em Roma (Vita Antonii 58). Suetônio relata que com a leitura do testamento nomeando suas crianças com Cleópatra entre seus herdeiros, Antônio foi declarado inimigo público do povo de Roma (Divus
Augustus 17). Eleanor Huzar argumenta que foi a propaganda de Otávio que revelou (ou inventou) o testamento, pois sua realidade é muito suspeita (1985, p. 110).
Além da divulgação do testamento, o fato de Antônio ter celebrado os triunfos em Alexandria e não em Roma foi a oportunidade perfeita para a propaganda de Otávio começar a agir (SPENCER, 2002, p. 24). Depois de muita preparação, este decidiu proclamar guerra contra Cleópatra e tirar dela a autoridade conferida por Antônio. Diziam ainda que muitos sinais divinos contra Antônio apareceram antes da guerra (Vita
Antonii 60).
Plutarco descreve detalhadamente as batalhas até a derrota final de Cleópatra e Antônio em Actium. Após o ocorrido, Antônio enviou uma embaixada a Otávio na Ásia, pedindo o reino do Egito aos seus filhos (. Solicitava também poder viver como um cidadão comum em Atenas. Otávio recusou as propostas de Antônio, mas respondeu a Cleópatra que ela receberia tratamento razoável dele, se condenasse Antônio à morte ou o expulsasse do Egito (Vita Antonii 72).
Imediatamente após a morte de Antônio, Otávio mandou buscar Cleópatra, pois queria que ela se submetesse com vida, considerando que sua exibição em uma procissão em Roma seria uma grande glória ao seu triunfo (. Mas ela conseguiu se suicidar, atrapalhando os planos do vencedor. Esses momentos finais de Cleópatra e Antônio são narrados detalhadamente por Plutarco de forma emotiva e dramática (Vita Antonii 78- 79). O relato do autor é nitidamente mais humano e simpático a Antônio e Cleópatra do que as outras fontes antigas.
Com relação aos filhos de Antônio, Plutarco afirma que seu filho com Fúlvia foi traído e morto pelo tutor Teodoro. Os filhos de Cleópatra foram mantidos sob custódia e depois criados por Otávia. Mas Cesário, que tinha sido mandado pela mãe para a Índia,
foi convencido pelo seu tutor a voltar ao Egito, quando foi então morto a mando de Otávio. No entanto, este permitiu que o corpo de Antônio fosse enterrado com toda a pompa por Cleópatra (Vita Antonii 81-87). Cleópatra tinha 39 anos quando morreu, tinha sido rainha por 22 e dividido o poder com Antônio por 14 anos. No desfecho do relato, Plutarco observa que as estátuas de Antônio foram derrubadas, mas as dela foram mantidas, através de suborno a Otávio (Vita Antonii 86).
Por ter conquistado César e depois Antônio, Cleópatra esperava dos egípcios e dos romanos não apenas o perdão, mas a soberania de volta. Otávio estava ansioso para tomar posse de seus tesouros e carregá-la viva como triunfo ( e símbolo de vitória (, porém não conseguiu(Dion Cássio. Historiae
Romanae 51.9-14).
Veleio Patérculo avalia que à medida que o amor de Marco Antônio por Cleópatra aumentava, seus vícios também começaram a crescer (Crescente deinde et
amoris in Cleopatram incendio et vitiorum), estimulados pela busca por poder (facultatibus licentiaque et adsentationibus aluntur), e por isso decidiu trair sua pátria (cum ante novum se Liberum Patrem appellari iussisset) (Historiae Romanae 2.82.4.8). Ou seja, aqui a união foi interpretada como uma decisão consciente de Antônio de proclamar guerra contra a sua própria terra e promover uma divisão de poderes. Dessa forma, ele não seria apenas o escravo de Cleópatra, mas tinha ambições de aumentar a sua autoridade através da parceria com a rainha. Na visão de Patérculo, o amor pela rainha apenas lhe deu coragem para executar suas ações.
Sêneca relata que no reino de Cleópatra o Nilo não encheu. O fato é interpretado pelo autor como sinal da perda de poder da rainha (potentibus defectionem), pois o império de “Cleópatra e Marco Antonio” tinha realmente caído (defecit) (Naturales
Quaestiones 4a.2.16). Percebe-se toda a simbologia associada a essa união, buscando-se inclusive sinais sobrenaturais para promover Otávio e legitimar sua vitória. Mesmo que Sêneca acreditasse nesse sinal, ou o tivesse inventado, a motivação para mencioná-lo indica o grau de preocupação provocado por tal parceria e a necessidade de criar uma reação contrária nos romanos. O fato de o autor definir a relação do casal e o que foi alcançado através dela como o “império de Cleópatra e Marco Antônio” indica que na visão romana não se tratava de algo pequeno, mas sinaliza a existência de um plano grandioso e estruturado.
Suetônio salienta que depois da vitória em Actium, Otávio seguiu para o Egito por uma rota indireta pela Ásia e Síria, armando um cerco a Alexandria (petit
obsessaque Alexandrea), onde Antônio tinha se refugiado com Cleópatra, e rapidamente tomou a cidade (brevi potitus est). O autor observa que apesar de Antônio ter tentado fazer as pazes no último encontro, Otávio o forçou a cometer suicídio. Ele desejava deixar Cleópatra viva para o seu triunfo (servatam triumpho magno), o que não ocorreu. Otávio permitiu a ambos a honra de um enterro na mesma tumba, ordenando que o mausoléu começado a construir por eles fosse terminado. Condenou Cesário a morte, mas poupou o resto dos descendentes do casal e permitiu que Otávia os criasse como se fossem seus próprios parentes (Divus Augustus 17). Percebe-se a forma elogiosa e bondosa com que Suetônio retrata Otávio, principalmente quando enfatiza o fato do vencedor ter poupado os filhos de Antônio e Cleópatra. O autor infere que era esperado dele uma postura vingativa em relação aos descendentes do casal. Suetônio já fornece elementos também para analisar o peso que a propaganda de Otávio contra Antônio tivera nesses relatos. Ou seja, a caracterização de Antônio nas fontes não é sobretudo fruto dessa propaganda? E até que ponto o fato de Otávio ter realmente vencido Antônio não foi o que ditou o tom do que seria divulgado a respeito de Antônio e Cleópatra?
Como o período de conquista não é o foco da obra de Tito Lívio, ele apenas se refere ao contexto brevemente nos seus resumos. Lívio conta que ao ser derrotado em
Actium, Antônio fugiu para Alexandria e quando estava cercado por Otávio e totalmente sem esperança, cometeu suicídio depois de ouvir a notícia falsa (falso rumore) a respeito da morte de Cleópatra. Depois de tomar Alexandria, e da rainha ter se matado, para evitar cair nas mãos do vitorioso, Otávio voltou a Roma para celebrar seus três triunfos (in urbem reuersus tres triumphos) (Periochae 133.1).
Na fase final da guerra, Dion Cássio relata que Otávio fez um discurso ao seu exército destacando que os romanos ultrapassavam todos os homens em valor e por isso, não podiam se dobrar justamente a egípcios. Através das palavras de Otávio, Dion Cássio aproveitou para realçar sua reprovação aos egípcios (aqui inclui alexandrinos entre eles). Condena-os por adorarem animais selvagens (e “bestas” ( como deuses, por embalsamarem seus próprios corpos para alcançarem a eternidade, observa que eram descuidados nos enfrentamentos, mas fracos em coragem ( (Historiae
deuses egípcios. O mais grave dos feitos de Cleópatra foi tentar colocar a mão nas possessões romanas com a ajuda de um romano (Antônio). O autor diz que Antônio abandonou todos os seus hábitos ancestrais (
e adotou costumes bárbaros e estrangeiros
(, e não adorava mais os deuses romanos, mas Ísis e Selene, e adotou para si mesmo o título de Osíris e Dionísio. Além disso, deu de presente ilhas inteiras e partes de continentes (, como se fosse mestre (de toda a terra e mar (Historiae Romanae 50.25).
Dion continua o discurso de Otávio dizendo que ele mesmo era completamente devoto a Antônio, uma prova disso foi ter lhe concedido a sua irmã para casar. Mas ele a insultou e preferiu uma egípcia, e ainda deu para os filhos dessa mulher muitas possessões romanas. Como ele se tornou seu completo escravo e declarou guerra à própria pátria (, não devia ser considerado um romano, mas um egípcio (, pois recusou os títulos da sua terra ((Historiae Romanae 50.27).
Dion Cássio coloca na boca de Otávio a posição convencional dos romanos diante de Alexandria há 250 anos (REINHOLD, 1980, p. 98). O autor junta vários elementos no trecho acima: o exotismo e aversão causados pela adoração de animais dos egípcios, a grandeza da multidão alexandrina e sua ousadia nos enfrentamentos. O relato de Dion Cássio enfatiza mais que o de Plutarco a orientalização de Antônio, e demonstra isso sendo usado por Otávio como um dos fatores para influenciar a opinião pública. A propaganda romana contra Antônio enfatizou sua adoção de um modo de vida extravagante, algo típico dos orientais e pouco apropriado para um romano. As festas organizadas por Cleópatra tinham um lado infantil, debochado e liberal, que era irritante para os romanos (GODDIO; BERNAND, 2004, p. 139). Até que ponto a orientalização de Antônio não diz mais da propaganda pró-Otávio do que das reais