Outro aspecto da representação ptolomaica de Alexandria reforçada pelo Império é a sua cultura de entretenimentos e festivais. A tradição festiva da cidade remete aos primeiros Ptolomeus, que não pouparam investimentos em promover
celebrações com a intenção de exibir o poder e a riqueza da realeza, além de comemorar as conquistas. Sob Roma a rotina de entretenimentos e espetáculos se manteve e foi intensificada em alguns setores, embora fosse extremamente mau vista por autoridades de fora, como será visto no capítulo V.
Alexandria é também responsável pela introdução e fortalecimento de um novo culto no Mediterrâneo: a adoração a Serápis. Sua veneração se tornou forte na própria cidade já no governo do primeiro Ptolomeu, difundiu-se por todo o Egito e alcançou inúmeras regiões do Império Romano, principalmente no tempo de Trajano e Adriano. Serápis tinha uma composição híbrida (um misto de elementos gregos e egípcios), e seu culto era destinado às duas culturas, apesar de ter se tornado mais popular entre os gregos. O fato de ter sido uma divindade “inventada” por um rei estimulou a busca de suas origens, para a qual Tácito e Plutarco apresentam algumas versões.
Mesmo não fazendo parte do corpos dessa pesquisa, por ser um poeta do período helenístico e contemporâneo aos reis, Teócrito tem uma passagem muito ilustrativa com relação à rotina dinâmica da cidade promovida por suas festas, que é conveniente citar aqui. No Idílio 15 o autor descreve o espanto de duas imigrantes da Sicília, Gorgo e Praxinoa, com a horda alexandrina ao chegarem para a festa de Adonis, instituída pela rainha Arsinoé: “Céus, que multidão ( ! Como vamos passar por essa terrível lotação ( e quanto tempo vai nos levar, eu não posso imaginar” (Idílio 15, 38-55).
As moças ainda observam a variedade de “sotaques” gregos que ouviam no meio da aglomeração, quando um estrangeiro chama atenção para o jeito específico que elas “murmuram” (indicando que estavam falando um idioma secundário (Idílio 15, 80-98). Assim, ao entrar na multidão, mudaram sua identidade abandonando o sotaque dórico e adotaram a koine, algo “exigido” pelo meio multi-étnico alexandrino. Essa integração simboliza a aquisição de uma nova identidade urbana sob os auspícios de Ptolomeu (HINGE, 2009, p. 74). Teócrito fala também da desordem em Alexandria com suas corridas de cavalo rivais, caos que era transformado em ordem e harmonia no palácio real. Ou seja, na sua visão eram os Ptolomeus que estabeleciam e mantinham o funcionamento das coisas, o que marcava o seu papel como continuadores dos faraós (STEPHENS, 2003, p. 167).
O mais famoso festival ptolomaico era a Ptolemaia, a festa instituída por Ptolomeu II Filadelfo por volta de 280 a.C em homenagem ao pai, Ptolomeu Soter. A
magnificência e imponência da festa foram preservadas pelo relato de Callixenius de Rodes, e transmitida por Ateneu quase cinco séculos depois da realização. Se no início do séc. III d.C. ainda havia alguma preocupação de descrever a imponência de festivais realizados vários séculos antes, pode-se inferir que a sua grandiosidade na época foi de alguma forma memorável.
O texto de Ateneu se concentra na procissão dionisíaca da festa, pois o deus era considerado o ancestral da dinastia e a festa celebrava a entrada de Ptolomeu no Olimpo, junto a Alexandre (KAHIL, 1993, p. 79). Visava também exaltar as origens divinas e heróicas da dinastia ptolomaica (associada aos macedônios) e difundir a ideologia real para a população, simbolizando o seu poder. Pretendia divulgar também o “triunfo do helenismo” através de elementos predominantemente gregos (THIERS, 2003, p. 24). As festividades refletiam a riqueza dos Ptolomeus e a vontade de transformar Alexandria numa “cidade museu” principalmente para a população greco- macedônia (GOUKOWSKY, 2000, p. 146). Era também o momento em que delegações vinham de diversas regiões para participar, portanto, Alexandria exercia ainda mais a sua função de capital da realeza (DUNAND, 1981, p. 13). No entanto, não era uma festa voltada para toda a população, o acesso restrito e seu público selecionado entre os gregos, o povo egípcio no geral era excluído da festa. Segundo Dunand (1981, p. 31- 32), a festa era direcionada principalmente aos alexandrinos e representantes das cidades e da realeza. Tinha, portanto, uma função propagandística, porém restrita ao público greco-macedônio, pois na primeira etapa da conquista, o mais importante era conquistar a adesão dos gregos. No decorrer dos séculos é que a dinastia começou a se direcionar mais para os egípcios.
Como Teócrito, o relato de Callixenius tinha a intenção de servir de propaganda da dinastia. Curiosamente, nenhum autor antes de Ateneu abordou a festa ao tratar do período helenístico. Ateneu é a narrativa mais detalhada sobre a vida cultural de Alexandria nessa época. Ele escreve em um contexto de revitalização do aticismo, e apresenta uma visão romantizada sobre a monarquia ptolomaica e Alexandria. Mas seu espírito grego está voltado para o período helenístico e especificamente para a realeza, pois na sua concepção, a história do Egito ptolomaico era essencialmente a história de seus reis. Para Ateneu a história do Egito começava com a chegada dos gregos sob Psamético, porém foi sob os Ptolomeus que o Egito ganhou vida, principalmente os primeiros, pois os reis mais tardios aparecem pouco (THOMPSON, 2000, p. 78-79).
Ateneu descreve longamente e com minúcias as comemorações instituídas na cidade pelos reis, e concede atenção especial a Ptolemaia, procissão organizada pelo “mais excelente” rei Ptolomeu Filadelfo ( (Deipnosophistae 5.196a). Salta aos olhos a grandiosidade e magnificência da festa, repleta de ouro, de animais exóticos, de estátuas homenageando vários deuses (principalmente gregos) e os reis, sem falar da enorme quantidade de pessoas envolvidas (todas numeradas no relato, para cada setor). Além da grandeza do espetáculo, o autor destaca a riqueza do material usado na procissão; abusavam do ouro, prata, ébano, mármore, e tapetes persas para a confecção das carruagens, estátuas e fantasias, deixando claro que era primordial para a realeza divulgar a imagem de sua riqueza. Segundo Dunand (1981, p. 15-19), a exibição de toda essa abastança visava demonstrar as conquistas dos reis e exibir os frutos do comércio ptolomaico com a Arábia, Índia e África. Portanto, era também uma festa da vitória destinada a exaltar a presença militar da dinastia por todas as regiões conquistadas. Nesse sentido, a procissão tinha também um valor pedagógico.
No final Ateneu cita o total de 2239 talentos gastos no espetáculo (Deipnosophistae 5.203c) e observa que nenhuma monarquia fora tão rica quanto o Egito (, algo possibilitado pela abundância do Nilo por suprir todos os homens suficientemente de grãos (Deipnosophistae 5.203c). O comentário de Ateneu sublinha a missão do Egito de alimentar a humanidade (DUNAND, 1981, p. 14). Pretendia também assinalar a generosidade do rei (DUNAND, 1981, p. 25-26).
Depois de descrever detalhadamente a Ptolemaia, cada setor da procissão, a quantidade de pessoas, animais e o luxo dos materiais usados, o autor detalha, ainda de acordo com Callixenius, os barcos sofisticados de Filadelfo. Ateneu observa que este Ptolomeu superava muitos reis em riqueza (, e se devotava com enorme zelo (a seus estabelecimentos, os ultrapassando também na quantidade de navios. Ateneu delineia a enormidade dos navios (em posse do rei, ressaltando que havia em torno de quatro mil, entre os despachados para as ilhas e outros territórios governados por ele (incluindo a Líbia). Em seguida, delineia as partes do enorme navio que Filopator mandou construir para banquetes, com salões de festa, quartos para hospedagem com elementos gregos e ainda um salão com “motivações egípcias” ( (Deipnosophistae 5.203e-206d).
Mckenzie (2008, p. 49) ressalta que esse tipo de celebração era típico do Oriente, e não de gregos e macedônios, sugerindo a presença egípcia na vida cultural da realeza.
Ateneu menciona ainda outro festival, em que destaca a presença de multidões junto à realeza. Ele relata que Plutarco, um dos participantes do banquete contou que em sua nativa Alexandria, costumava haver um festival típico (narrado por Eratóstenes no tratado sobre Arsinoé. Novamente observa que Ptolomeu Filadelfo fundou todo tipo de festival e sacrifícios ( principalmente àqueles relacionados a Dionísio. Explicaram a Arsinoé que os celebrantes comiam o que lhes era trazido, enquanto ficavam deitados em camas de junco e cada homem bebia de um jarro especial trazido de sua casa. Arsinoé respondeu que deveria se tratar de uma grande sujeira, pois a multidão era uma mistura ( (Deipnosophistae 7.276a).
Muito é debatido na historiografia com relação às intenções dos reis em investirem tanto em festas. Na visão de Ateneu, Filadelfo foi extremamente importante para a vida cultural de Alexandria, para além de seus excessos (THOMPSON, 2000, p. 78). Stephens enfatiza a importância dos espetáculos públicos para criar a imagem de uma realeza que casaria duas tradições, grega e egípcia (2002, p. 248). O texto de Ateneu assinala esse “casamento” apenas na descrição do navio do rei, por apontar a presença de aspectos dos dois cultos. Na Ptolemaia a predominância de elementos gregos é nítida, e esse apelo visual substancialmente helênico deveria ter um grande impacto para o povo. Dever-se-ia ressaltar o poder e a riqueza da realeza, e também a sua faceta divina, que se tornaria mais palpável através das procissões e da presença das divindades para o povo (CHAUVEAU, 1997, p. 43).
Ateneu menciona ainda os animais exóticos e raros mantidos no palácio real de Alexandria, a partir dos Comentários de Ptolomeu Euergetes II (Deipnosophistae 14.654c), algo que Diodoro também já ressaltara como uma espécie de fixação dos Ptolomeus, pois lutaram para trazer para a cidade todo tipo de serpentes (Bibliotheca
Historica 3.39.4.8). Por fim, Ateneu lamenta que toda a riqueza da realeza (,
depois de ser mantida por um período tão longo, foi perdida pelo último Ptolomeu, um mero jogador e tocador de flautas (Deipnosophistae 5.206d).
Apesar do provável exagero da narrativa, não resta dúvida de que os Ptolomeus eram considerados por seus contemporâneos como os reis mais ricos da época
(ROSTOVTZEFF, 1941, p. 407). Para Trapp (2004, p. 129), a ênfase na sofisticação talvez tivesse a intenção de realçar os excessos da realeza. Nesse sentido, o relato de Ateneu também tinha um ideal moralizante. No entanto, mais do que moralizar, o autor celebra as realizações dos Ptolomeus. Não parece ser o seu intuito condenar ou julgar a realeza ao expor os gastos para o festival, pelo contrário, justifica que no Egito a fecundidade do Nilo permitia maiores gastos, pois o rio compensaria. O retrato geral de Ateneu sobre o Egito era de uma terra já fértil e próspera (fruto do Nilo), e que foi ainda mais enriquecida em virtude de toda a dedicação da realeza. Assim, a abundância maior era proveniente de seus reis e estava representada em Alexandria. O escrito expõe a opulência e ostentação da dinastia e ilustra ao mesmo tempo, a generosidade de Ptolomeu Filadelfo ao compartilhar sua riqueza e conquistas com o povo.
Apesar de ser egípcio de Náucratis, a visão de Ateneu sobre o Egito é repleta de clichês, embora não fosse o elemento fabuloso que o fascinasse (o Egito “maravilhoso” de Heródoto) (MCKENZIE, 2008, p. 79). O autor sinaliza um conhecimento limitado sobre o Egito para além de sua realeza (MCKENZIE, 2008, p. 84). Além disso, não demonstra interesse, simpatia e nem conhecimento pela religião egípcia, pelo contrário, compartilha do repúdio romano pelo culto aos animais (THOMPSON, 2000, p. 80). Talvez por ser nativo de uma antiga colônia grega no Egito Ateneu exaltasse a época de maior florescimento do helenismo no território, algo que não vivenciava mais, já que no seu tempo o território era governado por Roma. É intrigante que um autor do séc. III d.C. seja o que forneça dados mais detalhados sobre os Ptolomeus, suas festividades e luxos. Seria uma tentativa de resgatar a era perdida, em que o Egito tinha autonomia? Ou ainda, era uma forma de reagir ao poder externo, retomando os valores helenísticos? Tácito não se manifesta em relação a fundação lendária de Alexandria e sobre os reis, mas faz uma longa descrição a respeito do estabelecimento do culto a Serápis, a quem o autor parece atribuir à prosperidade de Alexandria. Tratando do contexto da viagem de Vespasiano a Alexandria, Tácito narra as várias versões sobre a origem da divindade:
A origem dessa divindade ainda não foi tratada de modo geral pelos autores: os sacerdotes egípcios contam a seguinte história: quando o rei Ptolomeu, o primeiro dos macedônios que colocou o poder do Egito em uma base firme (Ptolemaeo regi, qui Macedonum primus Aegypti opes firmavit) estava concedendo à nova cidade de Alexandria muros, templos e ritos religiosos, apareceu a ele em seu sono a visão de um jovem homem de extraordinária beleza e com estatura sobre- humana, que o advertiu a mandar seus amigos mais leais a Ponto e
trazer a estátua em sua direção; a visão dizia que esse ato seria um ato feliz para o reino e que o lugar que recebesse o deus seria grande e famoso (laetum id regno magnamque et inclutam sedem fore quae excepisset): depois dessas palavras, o jovem pareceu ter sido levado aos céus em uma chama de fogo. Ptolomeu, movido por esse presságio milagroso, revelou sua visão noturna aos sacerdotes egípcios, cuja função é interpretar tais coisas. Quando eles demonstraram saber pouco de Ponto e de países estrangeiros (Atque illis Ponti et externorum parum gnaris), ele questionou Timóteo, um ateniense do clã de Eumolpidae, que ele tinha chamado de Elêusis para presidir sobre os ritos sagrados, e lhe perguntou o que era essa religião e o que a divindade significava. Timóteo descobriu, ao questionar homens que tinham viajado a Ponto, que lá havia uma cidade (urbem) chamada Sinope, e que não longe dela havia um templo a Júpiter Dis, famoso a muito entre os nativos: e que ao seu lado se sentava uma figura feminina chamada Proserpina. Mas Ptolomeu, apesar de propenso a acreditar em superstições sobre a natureza dos reis, quando se sentiu seguro novamente, estando mais apto a prazeres do que a ritos religiosos (voluptatum quam religionum adpetens), começou gradualmente a negligenciar a questão e voltar sua atenção para outras coisas, até que a mesma visão, agora mais terrível e insistente, apareceu para ele, ameaçando ruína sobre o rei e seu reino se suas ordens não fossem cumpridas. Então Ptolomeu ordenou que enviados e presentes fossem dirigidos ao rei Scydrothemis- que governava o povo de Sinope na época- e quando a embaixada estava prestes a ir ele os instruiu a visitar o Apolo de Pythias. Os enviados encontraram os mares favoráveis; e a resposta do oráculo foi certeira: Apolo os mandou seguir e trazer de volta a imagem de seu pai, mas deixar a de sua irmã. (Historiae 4.83.3) Essa passagem conta que em meio aos investimentos do primeiro Ptolomeu para estabelecer a sua realeza, o rei recebeu um chamado dos céus sugerindo que precisava de uma divindade para proteger a dinastia em Alexandria. A narrativa indica que Serápis “escolheu” Ptolomeu, desse modo, forças divinas estariam legitimando e abençoando o seu reinado e sua sede real.
Na sequência, Tácito relata que o processo para estabelecer o culto estava demorando, apesar do esforço do rei e seus enviados, até que uma visão aterrorizadora apareceu a Scydrothemis, o avisando a não demorar em atender ao pedido do deus. Mas como ele ainda hesitou, vários desastres foram enviados pela ira divina. Ele chamou uma assembleia do povo e tornou públicas as ordens do deus, as visões que tinham aparecido para ele e para Ptolomeu, e os infortúnios que o estavam castigando. O povo ficou contra o rei, pois era hostil ao Egito (vulgus aversari regem, invidere Aegypto). Tácito diz que nesse ponto, a lenda se tornara nebulosa, e cita as várias diferentes versões a que teve acesso. Segundo a tradição, o próprio deus voluntariamente embarcou na frota que estava na costa, milagrosamente cruzou uma grande extensão do
mar e alcançou Alexandria em dois dias (tertio die tantum maris emensi Alexandriam
adpelluntur). Foi construído um templo apropriado para o tamanho da cidade (Templum
pro magnitudine urbis) no quarteirão chamado Rakhotis, onde antes havia um santuário dedicado a Ísis. Tácito afirma ser essa a versão mais conhecida sobre a origem e chegada do deus, embora relate estar ciente de outras que diziam que o mesmo deus foi trazido da Síria no reino de Ptolomeu III. Outros diziam que Ptolomeu I introduziu o deus, mas que veio de Mênfis, “uma famosa cidade e o símbolo do antigo Egito” (inclutam olim et veteris Aegypti columen) (Historiae 4.84.15).
Marincola (1997, p. 125) afirma que Tácito tentava evitar o uso de fábulas. No entanto, a extensão da estória de Serápis na sua narrativa indica que a origem lendária do deus de algum modo lhe impressionara. Sugere também que na sua visão, Alexandria devia o seu desenvolvimento à força de tal divindade que se impôs na cidade de maneira abrupta. A lenda assinala o poder do deus, que não pôde ser ignorado por Ptolomeu, o obrigando a deixar de lado a dedicação aos projetos da cidade para enfocar no estabelecimento do culto. Tácito podia estar usando Serápis como uma metáfora de Alexandria. Assim, uma divindade tão poderosa e famosa justificaria a fama da cidade onde se centrava o seu culto e explicaria toda a prosperidade e imponência do centro urbano em muitos setores.
Plutarco descreve rapidamente o estabelecimento do culto a Serápis em Sobre
Ísis e Osiris. Relata que Ptolomeu I sonhou com uma estátua colossal (que
nunca havia visto. No sonho, ele foi instruído a transportá-la com toda a velocidade para Alexandria. Como ele não sabia onde estava localizada a estátua, pesquisou entre seus amigos, e descobriu um homem muito viajado chamado Sosibo, que garantiu que ele mesmo havia visto essa imagem, e que se tratava da estátua de Pluto, localizada em Sinope. Seus enviados conseguiram buscar a estátua depois de grande dificuldade. Quando ela foi exposta em Alexandria, Timóteo, Manetho e outros associados especialistas nas leis sagradas, disseram que era realmente a estátua de Pluto, e que seu nome em egípcio era Serápis. Plutarco menciona que depois a divindade mudou de natureza, e começou a ser associada a Osíris. Por esse motivo Serápis era o deus de todos (, assim como Osíris, como todos sabiam (De
Iside et Osiride 361.F – 362.A).
Através desse relato, Plutarco constrói a natureza grega e egípcia da divindade, e enfatiza a sua adoração por todos. Como Tácito, Plutarco ilustra o poder e chegada de
Serápis em Alexandria graças à sensibilidade de Ptolomeu. Além disso, ela foi logo aceita e legitimada por todos, o que ressaltava ainda mais a atitude certeira do rei. Serápis tornou-se a divindade padroeira de Alexandria, mas seu culto se popularizou por todo o Egito e difundiu-se para além do Oriente romano. A divindade pode ser entendida como uma metáfora de Alexandria: tratava-se de um deus híbrido, composto por identidades diversas, e a importância do seu culto ultrapassou as fronteiras inicialmente estipuladas, pois conquistou uma ampla aceitação por todo o Império. Além de grandeza e imponência do culto, que não puderam ser ignoradas pelos outros reinos após o aparecimento.
O objetivo desse capítulo foi construir um retrato da fase inicial da Alexandria ptolomaica divulgada por textos do período romano. Como autores da era imperial explicavam o passado de Alexandria e o caminho percorrido pela metrópole até se tornar a segunda potência do Mediterrâneo? A sua fundação, construção, o estabelecimento de seus edifícios e instituições são indiscutivelmente os aspectos predominantes das narrativas. Quanto mais vinculados a Alexandre, mais detalhados são os escritos. A ele é atribuída à prosperidade, grandeza, beleza, planejamento e racionalidade da cidade. Enquanto os autores gregos ilustram Alexandre como um visionário, os latinos enfocam na racionalidade, planejamento e perspicácia do fundador.
As narrativas sobre a cidade e a quantidade de adjetivações promovidas tornaram-se mais escassas conforme se afastaram do tempo de Alexandre. Diodoro e Estrabão são mais elogiosos e divulgam a imagem de uma fundação essencialmente helênica, enquanto os latinos (Vitrúvio, Quinto Cúrcio e Sêneca) fazem mais uso de lugares-comuns e julgamentos negativos ao caracterizá-la. Assim, as representações gregas de Alexandria são reforçadas por autores gregos (Diodoro, Estrabão e Plutarco), que em alguns casos consideram também a identidade helenística (Pausânias, Arriano e Ateneu), aludindo sutilmente à mistura de seu povo.
Entre os latinos, interessava menos fortalecer a herança grega de Alexandria. Menciona-se mais a sua faceta helenística que a aproximaria do Oriente, através da presença de egípcios e a força despótica da realeza. O foco principal é na magnificência da dinastia que abusou da ostentação para desenvolver a cidade. Assim, a representação monárquica de Alexandria na sua história inicial foi muito propagada pelos autores citados.
Com relação aos primeiros reis, o enfoque é principalmente nos investimentos em edificações, no embelezamento da cidade e nos festivais. Tantos gastos visavam tornar Alexandria a herdeira legítima de Alexandre e a representante da dinastia